Cunhas Ocultas
Thomas S. Monson
Em abril de 1966, na Conferência Geral Anual da Igreja, o Élder Spencer W. Kimball fez um discurso memorável. Ele citou uma história escrita por Samuel T. Whitman, intitulada “Cunhas Esquecidas”. Decidi citar também a história de Samuel T. Whitman, acrescentando em seguida alguns exemplos de minha própria vida. ¶
Whitman escreveu: “A tempestade de neve [daquele inverno] não tinha sido muito forte. É verdade que alguns fios de eletricidade haviam sido derrubados e que houve um súbito aumento no número de acidentes ao longo da rodovia. (…) Normalmente, a grande nogueira teria facilmente conseguido suportar o peso que se acumulou em seus longos galhos. Foi a cunha de ferro escondida dentro dela que causou o estrago. ¶
A história da cunha de ferro começou muito tempo antes, quando o fazendeiro de cabelos brancos [que hoje mora na propriedade em que a nogueira se erguia] era um menino na fazenda de seu pai. A serraria tinha acabado de mudar-se do vale, e os novos moradores ainda encontravam ferramentas e peças de equipamento espalhadas por toda parte. (…) ¶
Naquele dia, em particular, foi uma cunha de madeireiro — grande, plana e pesada, com 30 cm ou mais de comprimento, entortada pelo uso [— que o menino encontrou] (…) no pasto. [A cunha de madeireiro é utilizada para derrubar uma árvore, inserindo-se a cunha num talho e golpe ando-a com uma marreta para alargar a fenda.] (…) Como já estava atrasado para o jantar, o rapaz colocou a cunha (…) entre os galhos da jovem nogueira que seu pai havia plantado perto do portão principal. Ele pretendia levar a cunha para o galpão logo depois do jantar, ou em outra ocasião em que estivesse passando por ali. ¶
Ele realmente pretendia fazê-lo, mas nunca o fez. [A cunha] estava ali entre os galhos, um pouco espremida, quando ele chegou à idade adulta. Estava ali, firmemente presa, quando se casou e assumiu a fazenda do pai. Estava parcialmente encoberta no dia em que o pessoal da colheita jantou sob a árvore. (…) Totalmente oculta na árvore, a cunha ainda estava lá no inverno em que caiu aquela tempestade de neve. ¶
No silêncio gelado daquela noite de inverno (…) um dos três galhos maiores se partiu e caiu ruidosamente ao chão. O restante da árvore ficou com uma distribuição desequilibrada de peso e também se partiu e acabou tombando. Quando a tempestade passou, não restara sequer um broto da árvore outrora majestosa. ¶
Bem cedo pela manhã, o fazendeiro saiu de casa para lamentar sua perda. (…) ¶
Então seus olhos avistaram algo no tronco desabado. ʻA cunha’, murmurou ele, reprovadoramente. ʻA cunha que eu encontrei no pasto’. Num instante ele percebeu por que a árvore tinha caído. Presa no tronco que crescia, a cunha impediu que as fibras dos galhos se entrelaçassem como deviam”.1 ¶
Irmãos e irmãs, existem cunhas ocultas na vida de muitas pessoas que conhecemos, sim, talvez até em nossa própria família. ¶
Gostaria de contar-lhes sobre um amigo muito querido, que hoje já partiu da mortalidade. Seu nome era Leonard. Ele não era membro da Igreja, embora sua mulher e filhos fossem. Sua mulher serviu como presidente da Primária; seu filho serviu honrosamente em uma missão. Tanto sua filha quanto seu filho casaram-se em solenes cerimônias no templo e tinham suas respectivas famílias. ¶
Todos que conheciam Leonard gostavam dele, tal como eu. Ele apoiava sua esposa e seus filhos em suas designações na Igreja. Ele ia a muitas atividades patrocinadas pela Igreja com eles. Ele levava uma vida digna e pura, uma vida de serviço ao próximo e bondade. Sua família e muitas outras pessoas se perguntavam por que Leonard tinha passado toda a mortalidade sem as bênçãos que o evangelho proporciona a seus membros. ¶
Quando Leonard ficou idoso, sua saúde começou a fraquejar. Ele acabou sendo hospitalizado, às portas da morte. Na última vez que conversei com Leonard, ele me disse: “Tom, eu o conheço desde quando você era um menino. Sinto que devo explicar-lhe porque nunca me filiei à Igreja”. Então, ele contou algo que havia acontecido com seus pais, há muitos e muitos anos. Relutantemente, a família chegou a uma situação tal, que viu que precisaria vender sua fazenda, e recebeu uma proposta. Nessa ocasião, um fazendeiro vizinho pediu-lhes que vendessem a fazenda para ele, embora por um preço menor, acrescentando: “Sempre fomos bons amigos. Desse modo, se eu comprar a sua fazenda, poderei tomar conta dela”. Por fim, os pais de Leonard concordaram em vender á fazenda. O comprador, aquele vizinho, ocupava um cargo de responsabilidade na Igreja, e a confiança que isso suscitava ajudou a convencer a família a vender-lhe a fazenda, embora não tivessem percebido que teriam recebido muito mais se a tivessem vendido para o primeiro comprador interessado. Pouco tempo depois de a venda ter sido efetuada, o vizinho vendeu a sua fazenda juntamente com a fazenda comprada da família de Leonard, que combinadas ficaram muito valorizadas e alcançaram um preço de venda bem mais alto. A antiga dúvida sobre o motivo pelo qual Leonard jamais se filiara à Igreja tinha sido respondida. Ele sempre sentira que sua família tinha sido enganada pelo vizinho. ¶
Ele confidenciou-me, depois de nossa conversa, que sentia como se um grande fardo tivesse sido finalmente removido de suas costas, ao preparar-se para encontrar-se com o Criador. A trágedia foi que uma cunha oculta impedira que Leonard progredisse espiritualmente na vida. ¶
Conheço uma família que veio da Alemanha para a América. A língua inglesa era difícil para eles. Tinham poucos recursos, mas todos foram abençoados com a vontade de trabalhar e um amor a Deus. ¶
Seu terceiro filho nasceu, mas viveu apenas dois meses e depois morreu. O pai era marceneiro e construiu um belo caixão para o corpo de seu querido filho. O dia do funeral foi sombrio, expressando a tristeza que sentiam pela morte do filho. A família caminhou até a capela, com o pai carregando o pequeno caixão, e um pequeno grupo de amigos se reuniu. Mas a porta da capela estava trancada. O atarefado bispo tinha-se esquecido do funeral. Todas as tentativas de encontrá-lo foram em vão. Sem saber o que fazer, o pai colocou o caixão debaixo do braço e carregou-o de volta para casa, com a famíla a seu lado, caminhando sob uma chuva torrencial. ¶
Se a família tivesse um caráter mais fraco, eles poderiam ter culpado o bispo e guardado ressentimentos. Quando o bispo ficou sabendo da tragédia, foi visitar a família e se desculpou. Com a mágoa ainda evidente no rosto, mas com lágrimas nos olhos, o pai aceitou as desculpas, e os dois se abraçaram num espírito de compreensão. Não restou nenhuma cunha oculta para causar mais sentimentos de raiva. O amor e a aceitação prevaleceram. ¶
O espírito precisa ser libertado de tudo que impeça seu progresso e de ressentimentos não resolvidos para que a alma sinta alegria na vida. Em muitas famílias, há sentimentos feridos e uma relutância em perdoar. Não importa, realmente, qual tenha sido a questão. Não podemos nem devemos permitir que ela continue a magoar-nos. Condenar o outro faz com que as feridas permaneçam abertas. Somente o perdão cura. George Herbert, um poeta do início do século XVII, escreveu: “Aquele que não perdoa destrói a ponte que ele próprio precisará atravessar se desejar atingir o céu, porque todos precisamos de perdão”. ¶
Belas são as palavras do Salvador quando estava prestes a morrer na impiedosa cruz. Ele disse: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.2 ¶
Há pessoas que têm dificuldade em perdoar a si mesmas e se apegam a suas supostas imperfeições. Gosto muito da história de um líder religioso que se colocou ao lado de uma mulher que estava morrendo, tentando confortá-la, mas sem ter sucesso. “Estou perdida”, disse ela. “Arruinei minha vida e a de todos a meu redor. Não há esperança para mim”. ¶
O homem notou um retrato de uma linda menina sobre a cômoda. “Quem é ela?” perguntou ele. ¶
A mulher ficou radiante. “Ela é minha filha, a única coisa bela em minha vida”. ¶
“E você a ajudaria se ela estivesse com problemas ou tivesse cometido um erro? Você a perdoaria? Ainda continuaria a amá-la?” ¶
“Claro que sim!” exclamou a mulher. “Eu faria qualquer coisa por ela. Por que me pergunta isso?” ¶
“Porque quero que você saiba”, disse o homem, “que, figurativamente falando, o Pai Celestial tem um retrato seu sobre a cômoda Dele. Ele a ama e irá ajudá-la. Peça Seu auxílio”. ¶
Uma cunha oculta que impedia sua felicidade foi removida. ¶
Num momento de perigo ou de provação, esse conhecimento, essa esperança, essa compreensão proporcionarão conforto para a mente perturbada e o coração aflito. Todo o Novo Testamento transmite a mensagem de renascimento da alma humana. As sombras do desespero são dispersas pelos raios de esperança, a tristeza é substituída pela felicidade, e o sentimento de estarmos perdidos na multidão desaparece com a certeza de que o Pai Celestial Se importa com cada um de nós. ¶
O Salvador garantiu a veracidade disso ao ensinar que nenhum pássaro cai ao chão sem que o Pai Celestial saiba. Ele concluiu essa bela mensagem, dizendo: “Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos”.3 ¶
Há algum tempo, li o seguinte artigo da Associated Press publicado num jornal. “Um homem idoso revelou no funeral de seu irmão, com quem havia dividido desde a juventude uma pequena cabana de um só cômodo nos arredores de Canisteo, Nova York, que eles haviam dividido o quarto ao meio com uma linha riscada a giz no chão, após uma briga, e que nenhum deles havia cruzado a linha ou trocado uma única palavra com o outro desde aquele dia, 62 anos antes”. Que poderosa e destrutiva cunha oculta. ¶
Como Alexander Pope escreveu: “Errar é humano, perdoar é divino”.4 ¶
Às vezes nos ofendemos com muita facilidade. Em outras ocasiões somos por demais obstinados para aceitar um sincero pedido de desculpa. Vamos vencer nosso ego, orgulho e mágoa e depois dar um passo à frente e dizer: “Eu realmente sinto muito! Vamos ser o que já fomos um dia: amigos. Não passemos para as gerações futuras as desavenças e raivas de nossa época”. Removamos todas as cunhas ocultas que só servem para destruir-nos. ¶
De onde se originam as cunhas ocultas? Algumas resultam de disputas não resolvidas, que levam a maus sentimentos, seguidos de remorso e tristeza. Outras começam com desapontamentos, invejas, discussões e mágoas imaginárias. Precisamos resolvê-las, deixá-las de lado e não permitir que germinem, se espalhem e acabem destruindo. ¶
Uma amável senhora de mais de noventa anos de idade veio procurar-me certo dia e inesperadamente me contou várias mágoas que tinha. Ela mencionou que muitos anos antes, um fazendeiro vizinho, com quem ela e o marido haviam tido desentendimentos ocasionais, pediu se poderia cortar caminho por dentro de sua propriedade para chegar até as terras dele. Ela fez uma pausa, então, com a voz trêmula, disse: “Tommy, eu não deixei que ele cruzasse nossa propriedade, mas fiz com que ele desse toda a volta, a pé, para chegar até as terras dele. Eu errei e me arrependo disso. Ele já morreu, mas como eu gostaria de poder dizer-lhe que sinto muito. Como desejaria ter uma segunda chance”. ¶
Ao ouvir seu relato, as palavras escritas por John Greenleaf Whittier vieram-me à mente: “De todas as palavras tristes escritas ou faladas, a mais triste de todas é: ‘Poderia ter sido’”.5 ¶
Em 3 Néfi, no Livro de Mórmon, lemos este conselho inspirado: “Não haverá disputas entre vós (…). Pois em verdade, em verdade vos digo que aquele que tem o espírito de discórdia não é meu, mas é do diabo, que é o pai da discórdia e leva a cólera ao coração dos homens, para contenderem uns com os outros. Eis que esta não é minha doutrina, levar a cólera ao coração dos homens, uns contra os outros; esta, porém, é minha doutrina: que estas coisas devem cessar”.6 ¶
Gostaria de concluir com o relato de dois homens que são heróis para mim. Seus atos de coragem não foram realizados em escala nacional, mas, sim, num pacífico vale conhecido como Midway, Utah. ¶
Há muitos anos, Roy Kohler e Grand Remund serviram juntos em cargos na Igreja. Eles eram muito amigos. Eram fazendeiros e tinham plantações e gado leiteiro. Houve, então, um mal-entendido que se transformou numa certa rixa entre os dois. ¶
Mais tarde, quando Roy Kohler ficou gravemente enfermo com câncer e tinha pouco tempo de vida, minha esposa, Frances, e eu visitamos Roy, e eu lhe dei uma bênção. Ao conversarmos em seguida, o irmão Kohler disse: “Quero contar-lhe uma das coisas mais sublimes que já me aconteceu na vida”. Ele então contou-me sobre os mal-entendidos que tivera com Grand Remund e a discórdia que se estabelecera entre eles. Ele disse: “Estávamos brigados um com o outro”. ¶
“Então”, prosseguiu Roy, “eu tinha acabado de juntar o feno para o inverno quando, certa noite, devido a uma combustão espontânea, o feno pegou fogo, queimando todo o estábulo e tudo que estava nele. Fiquei desolado”, disse Roy. “Não sabia o que iria fazer. A noite estava escura, com exceção das brasas que se apagavam. Foi então que vi faróis de tratores e equipamento pesado chegando pela estrada, vindo da propriedade de Grand Remund. Quando o grupo de resgate entrou em nossa propriedade e me encontrou ali com lágrimas no rosto, Grant disse: ‘Roy, você tem uma grande bagunça para arrumar. Meus rapazes e eu estamos aqui. Vamos ao trabalho’.” Os homens se empenharam juntos na tarefa que tinham diante de si. A cunha oculta que os separara por algum tempo desapareceu para sempre. Eles trabalharam juntos a noite inteira e durante o dia seguinte, auxiliados por várias pessoas da comunidade. ¶
Roy Kohler faleceu, e Grant Remund está ficando idoso. Seus filhos serviram juntos no mesmo bispado da ala. Considero realmente preciosa a amizade dessas duas famílias maravilhosas. ¶
Sejamos sempre um exemplo em nosso lar e no fiel cumprimento de todos os mandamentos; que não haja cunhas ocultas, mas lembremo-nos da admoestação do Salvador: “Nisto todos conhecerão que sóis meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”.7 ¶
Essa é minha súplica e minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶