O Ano do Jubileu
L. Tom Perry
Tenho certeza de que sempre me lembrarei do fato de ser o primeiro orador na última sessão desta histórica conferência geral. Não se trata apenas da última sessão desta conferência, mas da última sessão da década de noventa e também dos anos 1900: algo que merece uma menção especial no diário. Os acontecimentos históricos têm a faculdade especial de chamar-nos a atenção, fazendo-nos recordar o passado e antever o futuro. Nas últimas duas semanas deste ano, os programas de rádio e televisão certamente estarão repletos de reportagens dedicadas aos principais eventos do século XX. Os comentaristas também farão estimativas e prognósticos para o século XXI. Como seguidores que abraçaram o evangelho de nosso Senhor e Salvador, este deve ser um momento especial para lembrarmos as bênçãos que Ele concede a Seus filhos fiéis e Suas promessas de bênçãos futuras ainda maiores. ¶
O Senhor, em todos os períodos da história, lembra Seus filhos dos deveres que eles têm para com Ele. Sempre me chamou a atenção a forma pela qual o Senhor orientava e tratava Israel durante os quarenta anos em que vagou pelo deserto. No livro de Levítico, que leva esse nome por conter as responsabilidades e ensinamentos dos levitas, há instruções para o ano do jubileu e sua observância. Creio que o modo como Israel celebrava esse ano especial tem uma mensagem de valor para nós. No capítulo 25 de Levítico, lemos: ¶
Falou mais o Senhor a Moisés no monte Sinai, dizendo: ¶
Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando tiverdes entrado na terra, que eu vos dou, então a terra descansará um sábado ao Senhor. ¶
Seis anos semearás a tua terra, e seis anos podarás a tua vinha, e colherás os seus frutos; ¶
Porém ao sétimo ano haverá sábado de descanso para a terra, um sábado ao Senhor; não semearás o teu campo nem podarás a tua vinha. ¶
Também contarás sete semanas de anos, sete vezes sete anos; de maneira que os dias das sete semanas de anos te serão quarenta e nove anos. ¶
Então no mês sétimo, aos dez do mês, farás passar a trombeta do jubileu; no dia da expiação fareis passar a trombeta por toda a vossa terra. ¶
E santificareis o ano qüinquagésimo, e apregoareis liberdade na terra a todos os seus moradores; ano de jubileu vos será, e tornareis, cada um à sua possessão, e cada um à sua família. (Levítico 25:1–4, 8–10) ¶
As leis relativas ao ano do jubileu dividiam-se em três partes. Primeiro, o povo devia deixar a terra descansar para que retomasse o vigor e se tornasse mais produtiva nos anos seguintes. Hoje, em nossa vida atarefada e complexa, o ano do jubileu constituiria uma oportunidade excelente para avaliarmos o rumo que estamos tomando e verificarmos se nossas prioridades estão na devida ordem. Estamos pondo a oportunidade de receber bênçãos eternas à frente das ambições terrenas? Poderíamos conceder repouso temporário a setores de nossa vida para assim renovar a alma e tornarmo-nos mais produtivos, principalmente nos aspectos mais importantes para o Senhor? ¶
Há um século, entramos em uma importante fase da revolução industrial. A mente criativa do homem estava projetando toda sorte de inventos para facilitar nossa vida. Pensem apenas por alguns instantes na última reforma que fizeram em sua casa e no número de tomadas elétricas a mais que instalaram em cada cômodo. Em seguida, tentem lembrar onde colocaram outras extensões com quatro a seis tomadas para fornecer energia a novos aparelhos. Apesar de todas essas medidas e dispositivos para economizar tempo e esforços, acho que concordariam que, em vez de simplificarem a vida, tornaram-na mais complicada do que nunca. ¶
Ao adentrarmos o século XXI, estamos em meio a uma revolução da informação, chamada de era da informação, repleta de desafios e oportunidades. Hoje, somos bombardeados de informações por todos os lados. Muitas vezes, a televisão rouba um tempo precioso que poderia ser dedicado à família. A Internet é uma nova fonte de informações que nos oferece oportunidades excelentes, mas também um sério risco: o de deixar-nos viciados. Infelizmente, essa fase que vivemos, além dos benefícios, traz em seu bojo problemas até então desconhecidos, pois as forças do mal dispõem agora de mais meios de transmissão e maneiras de infiltrar-se em nossa mente. As influências do mundo entram em nossa casa com novos formatos e roupagens para pôr à prova nossa resolução de utilizar o tempo com sabedoria e da forma desejada pelo Senhor. ¶
Talvez nos beneficiaríamos se, baseados na lei da antiga Israel, decretássemos um período de descanso. Que tal fazermos uma lista das principais atividades que sejam edificantes para o homem e a mulher do convênio e tomarmos a decisão de, em nosso ano do jubileu, abandonar as que sejam de pouco valor ou proveito ou que até mesmo ponham em risco nosso bem-estar eterno? Vamos dar mais prioridade à oração familiar, ao estudo das escrituras em família, à noite familiar e eliminarmos as atividades que encham nossa vida de coisas mundanas e impuras? ¶
Desde setembro de 1995, quando lançamos os Enfoques que os Líderes Devem Enfatizar ao Ensinar com o intuito de incutir nos membros a importância do lar e da família como unidades básicas da Igreja, temos incentivado todas as pessoas a reservarem, em caráter prioritário, tempo para a família. Será que o nosso ano do jubileu não seria uma boa oportunidade para examinarmos nossas ações passadas e abandonarmos as que são prejudiciais a nosso progresso espiritual? Desse modo, não estaríamos em melhores condições de redirecionar nossa atenção para as coisas que nos proporcionem felicidade eterna? ¶
A segunda lei relacionada ao ano do jubileu era a que determinava a restituição de todas as propriedades aos donos originais ou seus herdeiros. Se esse procedimento vigorasse hoje em dia, em 1º de janeiro eu poderia ir a Perry, Utah, e pedir aos atuais ocupantes da terra que outrora pertencera a meu avô que saíssem para que minha família retomasse o que lhe era de direito. Que forma interessante de preservar a terra para que cada nova geração a receba por herança. Obviamente, esse sistema não tem mais aplicação legal. (Assim, os habitantes de Perry, Utah, não precisam preocupar-se.) Contudo, devemos incentivar outras práticas sucessórias no lar, como a transmissão à família de um legado espiritual. ¶
Estamos preservando para nossos filhos as maravilhosas histórias de como o evangelho foi levado aos membros pioneiros de nossa família? O fato de terem ouvido e aceitado o evangelho proporciona-nos hoje a grandiosa oportunidade de receber bênçãos eternas. ¶
Aos 17 anos de idade, meu avô saiu de casa na Dinamarca em busca de uma nova vida nos Estados Unidos. Ele trabalhou para custear sua ida a Mendon, Utah, onde morava um tio seu. Lá, recebeu o convite para trabalhar com ele em sua fazenda. Depois de algum tempo, ele virou-se para o tio e comentou: “Vocês mórmons são gozados. Estou trabalhando com vocês há vários meses e nenhuma vez tentaram falar de sua religião para mim nem jamais me convidaram para ir à Igreja”. Seu tio perguntou se ele tinha interesse em saber algo a respeito, e ele respondeu afirmativamente. Assim, contou-lhe a história do Profeta Joseph Smith, do surgimento do Livro de Mórmon e deu-lhe um exemplar para que lesse. Depois de examinar alguns trechos, meu avô devolveu o livro e disse: “Não vejo nada de valor para mim neste livro”. No dia seguinte, enquanto trabalhava no campo, seus pensamentos voltaram-se para a história que seu tio lhe contara sobre o surgimento do Livro de Mórmon. Ocorreu-lhe que nenhum rapaz com pouca instrução poderia ter produzido uma obra como aquela. Talvez fosse o caso de estudá-la novamente. Assim, pediu ao tio o livro emprestado mais uma vez. Dessa feita, não conseguiu parar de ler. O Espírito ardeu em seu peito e confirmou-lhe que o livro era verdadeiro. Ele pediu para ser batizado e permaneceu ativo durante toda a vida. ¶
As experiências de conversão de membros de nossa família que demonstraram grande dedicação e fé no passado são responsáveis por muitos dos privilégios que hoje gozamos no evangelho. O conhecimento da convicção e diligência dessas pessoas certamente deve ser transmitido de geração em geração a fim de aumentar nosso desejo de sermos tão fiéis e determinados quanto eles. Sem dúvida alguma, o testemunho desses familiares contribuem para fortalecer o nosso. ¶
Helamã deixava uma herança toda especial a seus filhos: dava-lhes o nome de antepassados nobres a fim de ajudá-los a lembrarem-se deles e de suas obras. Vejamos as palavras do próprio Helamã: ¶
“Eis que, meus filhos, eu desejo que vos lembreis de guardar os mandamentos de Deus; e quisera que declarásseis ao povo estas palavras. Eis que vos dei os nomes de nossos primeiros pais, que vieram da terra de Jerusalém; e assim fiz para que, quando vos lembrardes de vossos nomes, vos lembreis deles; e quando vos lembrardes deles, vos lembreis de suas obras; e quando vos lembrardes de suas obras, saibais que foi dito e também escrito que elas foram boas.” (Helamã 5:6) ¶
Por fim, no ano do jubileu, todos os israelitas que se haviam tornado escravos por algum motivo recebiam a liberdade. É óbvio que, desde aquela época, a escravidão já foi abolida em quase todo o mundo. No entanto, se não formos vigilantes, qualquer um de nós pode cair em uma armadilha e acabar sob o jugo do maligno. ¶
Todos recebemos o livre-arbítrio. Foi uma bênção concedida ao homem desde o princípio. O Senhor disse a Adão: ¶
E a eles é dado distinguir o bem do mal, de modo que são seus próprios árbitros; e dei-te outra lei e mandamento. (Moisés 6:56) ¶
Como deve haver oposição em todas as coisas (ver 2 Néfi 2:11), juntamente com o arbítrio vem a necessidade de escolhermos entre o bem e o mal. Além do mais, o livre-arbítrio abre a possibilidade para o pecado que, por sua vez, torna necessária a existência do arrependimento. O Presidente Kimball ensinou: ¶
O pecado é formador de hábito e às vezes leva o homem ao ponto trágico de onde não há retorno. Sem arrependimento não há perdão e sem perdão todas as bênçãos da eternidade ficam comprometidas. À medida que o transgressor se deixa levar pelo pecado, o erro cria cada vez mais raízes e a vontade de mudar se enfraquece; assim, a situação torna-se deveras crítica e o pecador afunda-se mais e mais, até desistir de galgar os degraus que levam de volta à liberdade ou perder a capacidade de fazê-lo. (The Teachings of Spencer W. Kimball, ed. Edward L. Kimball [1982], p. 83) ¶
Um pouco mais à frente, aconselhou-nos: ¶
Substituam seus hábitos e transformem o ambiente. A mudança ocorre quando trocamos velhos comportamentos por outros novos. Moldamos nosso caráter e futuro por meio de nossos pensamentos e ações. ¶
Você pode mudar caso altere seu ambiente. Deixe de lado as coisas vis e busque as elevadas. Procure cercar-se dos melhores livros, músicas, artes e pessoas. (The Teachings of Spencer W. Kimball, p. 172) ¶
Ao aproximarmo-nos de um novo século, certamente é hora de avaliarmos nossa forma de agir. Não seria um bom momento para reforçar as práticas que nos conduzam ao bem e ao contínuo aperfeiçoamento? Não seria a ocasião de eliminarmos os hábitos e atividades que nos iludem e aprisionam nas armadilhas do adversário e retardam nosso progresso eterno? ¶
Harry Emerson Fosdick escreveu certa vez: ¶
Alguns cristãos levam sua religião nas costas, como um pacote de crenças e práticas que penosamente são forçados a carregar. Quando se torna pesado, sentem-se tentados a abandoná-lo, mas como isso implicaria romper com velhas tradições, acabam por desistir da idéia. Contudo, os verdadeiros cristãos não carregam sua religião, mas são por ela carregados. Ela não é um fardo, e sim asas que lhes permitem alçar vôo e superar dificuldades. Ela torna o universo agradável, a vida significativa, a esperança real e o sacrifício compensador. Liberta-os do medo, da futilidade, do desânimo e do pecado, que são os grandes males que escravizam a alma humana. Podemos reconhecer um cristão por sua alegria. Twelve Tests of Character, [1923], pp. 87–88) ¶
Espero que ao olhar para nós, o mundo reconheça facilmente a alegria que sentimos por vivermos e praticarmos as idéias e doutrinas cristãs e nelas crermos. Que Deus nos abençoe a fim de aguardarmos o novo século com fé, testemunho, confiança e determinação para prepararmo-nos melhor para a vida eterna que todos almejamos. Que o novo ano se inicie ao som de trombetas e brados de alegria e que tiremos o máximo proveito desse que será um ano de jubileu. É minha humilde oração. Em nome de Jesus Cristo. Amém. 9 ¶