Pulpit

Ensinar as Crianças

Thomas S. Monson

Conferência Geral de Outubro de 1997·Saturday Morning Session·1997-10-01

Em Salt Lake City, sente-se um toque de outono no ar. As horas de luz diminuem e o tempo esfria, lembrando a todos que o inverno está próximo. Em breve chegará a época do Natal.

Inevitavelmente, o espírito do Natal inspira atos bondosos, toca o coração humano e faz a mente voltar àquele humilde estábulo na distante Belém, a um tempo em que as profecias dos profetas, tanto naquela região quanto aqui no continente americano, se tornaram realidade viva. Cristo, o Senhor, nasceu.

Muito pouco se escreveu sobre a infância de Jesus. Poder-se-ia supor que Seu nascimento foi tão revolucionário em magnitude a ponto de dominar os relatos de Sua meninice. Maravilhamo-nos com a sabedoria madura do menino que, afastando-se de José e Maria, foi encontrado no templo, "assentado no meio dos mestres"1, ensinando-lhes o evangelho. Quando Maria e José expressaram sua preocupação com Sua ausência, Ele lhes fez a pergunta penetrante: "Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?"2

O registro sagrado declara a Seu respeito: "E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens."3 Uma passagem pouco conhecida descreve a transição de criança a homem: Ele "andou fazendo o bem"4.

Por causa de Jesus Cristo, o mundo mudou — a divina Expiação foi realizada, o preço do pecado foi pago, e o temível espetáculo da morte cede à luz da verdade e à certeza da ressurreição. Embora os anos passem, Seu nascimento, Seu ministério, Seu legado continuam a guiar o destino de todos os que O seguem, como Ele tão convidativamente exortou.

Crianças nascem a cada dia — até mesmo a cada hora — de mães que, com sua mão na mão de Deus, entraram no vale da sombra da morte para dar à luz um filho, uma filha, para engrandecer uma família, um lar e, de certa forma, uma parte da terra.

Aqueles dias preciosos da infância unem mãe e pai a filho ou filha. Cada sorriso é notado, cada medo é confortado, cada fome é saciada. Passo a passo, a criança cresce. O poeta escreveu que cada criança é uma doce e nova flor da Humanidade, recém-caída do próprio lar de Deus para florescer na terra5.

A criança cresce em sabedoria e também em estatura. Aprender e fazer tornam-se prioridades a serem tratadas.

Há aqueles que descartam essas responsabilidades, sentindo que podem ser adiadas até que a criança cresça. Não é assim, revela a evidência. O tempo propício para ensinar é fugaz. As oportunidades são perecíveis. O pai que procrastina o cumprimento de sua responsabilidade como instrutor pode, com o passar dos anos, obter amarga percepção da expressão de Whittier: "De todas as tristes palavras ditas ou escritas, as mais tristes são estas: 'Poderia ter sido!'"6

O Dr. Glenn Doman, autor de destaque e cientista renomado, relatou toda uma vida de pesquisa nesta afirmação: "A criança recém-nascida é quase uma réplica exata de um computador vazio, embora superior a esse computador em quase todos os sentidos. [...] Aquilo que é colocado no cérebro da criança durante os primeiros oito anos de vida provavelmente ali permanecerá."7 "Se você colocar informações erradas em seu cérebro durante [esse período], é extremamente difícil apagá-las."8

Essa evidência deveria provocar em todo pai uma renovação de compromisso: "Convém-me tratar dos negócios de meu Pai" (Lucas 2:49). As crianças aprendem por meio de orientação gentil e ensino persuasivo. Elas buscam modelos a imitar, conhecimento a adquirir, coisas a fazer e instrutores a agradar.

Pais e avós desempenham o papel de instrutores. O mesmo ocorre com os irmãos mais velhos da criança em crescimento. A esse respeito, ofereço quatro sugestões simples para sua consideração:

  • Ensinar a orar,

  • Inspirar a fé,

  • Viver a verdade, e

  • Honrar a Deus.

Primeiro, ensinar a orar. "A oração é a forma mais simples de fala que lábios infantis podem tentar; a oração, as mais sublimes melodias que alcançam a Majestade nas alturas."9

Aprendemos a orar orando. Pode-se dedicar incontáveis horas a examinar as experiências alheias, mas nada penetra o coração humano como uma oração pessoal e fervorosa e sua resposta enviada do céu.

Assim foi o exemplo do menino Samuel. Assim foi a experiência do jovem Néfi. Assim foi a oração de longo alcance do jovem Joseph Smith. Assim pode ser a bênção de quem ora. Ensinem a orar.

Em seguida, inspirar a fé. Este ano do sesquicentenário da épica jornada pioneira ao vale do Grande Lago Salgado inspirou mais música, mais teatro, mais envolvimento de jovens e adultos do que talvez qualquer outra ocasião em nossa história. Nós, como famílias, aprendemos mais sobre a história da Igreja — a glória e o sofrimento, as dificuldades e a tristeza, e depois a vitória com a chegada ao vale — do que se poderia estimar. Há alguns anos, Bryant S. Hinckley, pai de nosso Presidente, preparou um livro intitulado A Fé de Nossos Pais Pioneiros. Os relatos que o volume contém são tão bem escritos e apresentados. Neste último ano, foram recontados inúmeras vezes. Incontáveis membros recordaram sua própria herança pioneira. Centenas de jovens — até milhares em todo o mundo — puxaram e empurraram carrinhos de mão e caminharam por sua própria trilha pioneira.

Creio que não há hoje um único membro desta Igreja que não tenha sido tocado pelo ano que agora se encerra. Aqueles que tanto fizeram pelo bem de todos certamente tinham como objetivo inspirar a fé. Alcançaram esse objetivo de maneira magnífica.

Terceiro, viver a verdade. Às vezes, a lição mais eficaz sobre viver a verdade encontra-se perto do lar e cara ao coração.

No funeral de uma nobre Autoridade Geral, H. Verlan Andersen, um filho prestou uma homenagem. Ela se aplica onde quer que estejamos e façamos o que fizermos. É o exemplo de uma experiência pessoal.

O filho do Élder Andersen relatou que, anos antes, tinha um compromisso especial da escola numa noite de sábado. Pediu emprestado o carro da família ao pai. Ao pegar as chaves do carro e dirigir-se à porta, seu pai disse: "O carro vai precisar de mais gasolina antes de amanhã. Não deixe de encher o tanque antes de voltar para casa."

O filho do Élder Andersen relatou então que a atividade daquela noite foi maravilhosa. Encontraram-se amigos, serviram-se lanches, e todos se divertiram. Em sua exuberância, porém, ele não seguiu a instrução do pai e não colocou combustível no tanque do carro antes de voltar para casa.

Amanheceu o domingo. O Élder Andersen constatou que o marcador de gasolina indicava tanque vazio. O filho viu o pai colocar as chaves do carro sobre a mesa. Na família Andersen, o dia de sábado era um dia de adoração e ação de graças, e não de compras.

Enquanto a mensagem do funeral continuava, o filho do Élder Andersen declarou: "Vi meu pai vestir o casaco, despedir-se de nós e percorrer a longa distância até a capela, para poder participar de uma reunião matutina." O dever chamava. A verdade não foi mantida escrava da conveniência.

Ao concluir sua mensagem no funeral, o filho do Élder Andersen disse: "Nenhum filho jamais foi ensinado com mais eficácia por seu pai do que eu naquela ocasião. Meu pai não apenas conhecia a verdade, mas também a vivia." Vivam a verdade.

Por fim, honrar a Deus. Ninguém pode superar o Senhor Jesus Cristo em dar o exemplo de viver esse objetivo. A fervência de Sua oração no Getsêmani diz tudo: "Pai, se queres, passa de mim este cálice, porém não se faça a minha vontade, senão a tua."10 Seu exemplo na cruz cruel do Gólgota fala por si: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem."11

O Mestre ensinou de forma tão eterna a todos os que quisessem ouvir uma verdade simples, mas profunda, conforme registrada em Mateus. Aprendemos que, depois que Jesus e Seus discípulos desceram do Monte da Transfiguração, pararam na Galileia e depois foram a Cafarnaum. Os discípulos disseram a Jesus:

"Quem é o maior no reino dos céus?

"E Jesus, chamando uma criança, a pôs no meio deles,

"E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.

"Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus.

"E qualquer que receber em meu nome uma criança tal como esta, a mim me recebe."12

Considero significativo que Jesus tanto amasse essas criancinhas, que recentemente haviam deixado a pré-existência para vir à terra. As crianças de então e as crianças de hoje abençoam nossa vida, acendem nosso amor e nos impelem a boas obras.

Será surpresa que o poeta Wordsworth fale assim de nosso nascimento: nascemos envoltos em nuvens de glória, vindos de Deus, que é nosso lar; o céu nos rodeia em nossa primeira infância13?

É no lar que formamos nossas atitudes, nossas crenças mais profundas. É no lar que a esperança é fomentada ou destruída. Escreveu o Dr. Stuart E. Rosenberg em seu livro O Caminho para a Confiança: "Apesar de todas as novas invenções e projetos modernos, modismos e fixações, ninguém ainda inventou, nem jamais inventará, um substituto satisfatório para a própria família."14

Nós mesmos podemos aprender com nossos filhos e netos. Eles não têm medo. Não têm dúvida quanto ao amor de nosso Pai Celestial por eles. Amam a Jesus e desejam ser como Ele.

Nosso neto, Jeffrey Monson Dibb, de seis anos, acompanhado de sua namoradinha, também de seis anos, parou diante de uma mesinha em sua casa sobre a qual havia um retrato do Élder Jeffrey R. Holland. A menina apontou para o retrato e perguntou: "Quem é esse homem?"

Jeff respondeu: "Ah, esse é o Élder Jeffrey Holland, do Quórum dos Doze Apóstolos. Ele tem meu nome!"

Esse mesmo homônimo do Élder Holland, junto com sua namoradinha, saiu para caminhar certo dia. Subiram os degraus da frente de uma casa, sem saber quem morava ali ou que ligação essas pessoas poderiam ter com a Igreja. Bateram à porta da frente, e uma mulher atendeu. Sem a menor hesitação, Jeff Dibb lhe disse: "Somos os mestres familiares visitantes. Podemos entrar?" Foram conduzidos à sala de estar e convidados a sentar-se. Com total fé, as crianças perguntaram à mulher: "A senhora tem algum agrado para nós?" O que ela podia fazer? Trouxe um agrado, e tiveram uma agradável conversa. Os improvisados professores despediram-se, proferindo um sincero "Obrigado".

"Voltem outra vez", ouviram a mulher dizer, com um sorriso no rosto.

"Voltaremos", veio a resposta.

Os pais das duas crianças souberam do incidente. Tenho certeza de que se contiveram ao aconselhar os pequenos. Talvez se lembrassem das palavras das escrituras: "E uma criancinha os guiará."15

O som de crianças rindo, brincando alegremente juntas, pode dar a impressão de que a infância é livre de aflições e tristezas. Não é assim. O coração das crianças é sensível. Elas anseiam pela companhia de outras crianças. No famoso Museu Victoria and Albert, em Londres, há uma obra-prima em tela. Seu título é simplesmente Doença e Saúde. Retrata uma menininha em cadeira de rodas. Seu rosto está pálido; sua expressão reflete tristeza. Ela observa um tocador de realejo enquanto duas outras meninas, despreocupadas e felizes, brincam e dançam.

Tristeza e aflição, às vezes, chegam a todos, inclusive às crianças. Mas as crianças são resilientes. Suportam admiravelmente o fardo que possam ser chamadas a carregar. Talvez o belo salmo descreva essa virtude: "O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã."16

Permitam-me agora descrever uma situação assim. Na distante Bucareste, na Romênia, a Dra. Lynn Oborn, trabalhando como voluntária num orfanato, tentava ensinar o pequeno Raymond, que nunca havia andado, a usar as pernas. Raymond nascera com pés tortos graves e era completamente cego. Uma cirurgia ortopédica recente, realizada pela Dra. Oborn, corrigira os pés tortos, mas Raymond ainda não conseguia usar as pernas. A Dra. Oborn sabia que um andador infantil permitiria a Raymond ficar de pé, mas nenhum andador desse tipo estava disponível em lugar algum da Romênia. Tenho certeza de que fervorosas orações foram feitas por essa médica, que fizera tudo o que podia sem um aparelho de auxílio para o menino andar. A cegueira pode limitar uma criança, mas a incapacidade de andar, correr, brincar pode ferir seu precioso espírito.

Voltemo-nos agora para Provo, Utah. A família de Richard Headlee, ao saber do sofrimento e das condições lamentáveis na Romênia, uniu-se a outras para reunir um contêiner de 12 metros repleto de 18 toneladas de suprimentos necessários, incluindo alimentos, roupas, remédios, cobertores e brinquedos. O prazo do projeto chegou, e o contêiner precisava ser enviado naquele mesmo dia.

Ninguém envolvido no projeto sabia da necessidade específica de um andador infantil. No entanto, no último momento possível, uma família trouxe um andador de criança e o colocou no contêiner.

Quando o ansiosamente aguardado contêiner chegou ao orfanato em Bucareste, a Dra. Oborn estava presente quando foi aberto. Todo item que continha seria usado de imediato no orfanato. Quando a família Headlee se apresentou à Dra. Oborn, ela disse: "Ah, espero que tenham trazido um andador de criança para o Raymond!"

Um dos membros da família Headlee respondeu: "Lembro-me vagamente de algo parecido com um andador, mas não sei o tamanho." Outro membro da família foi enviado de volta ao contêiner, rastejando entre todos os fardos de roupas e caixas de alimentos, procurando o andador. Quando o encontrou, ergueu-o e exclamou: "É pequeno!" Explodiram vivas — que rapidamente se transformaram em lágrimas, pois todos sabiam que haviam participado de um milagre dos tempos modernos.

Pode haver quem diga: "Não temos milagres hoje em dia." Mas a médica cujas orações foram atendidas responderia: "Ah, sim, temos, e o Raymond está andando!" Aquela que se sentiu inspirada a doar o andador foi um instrumento disposto e certamente concordaria.

Quem foi o anjo de misericórdia tocado pelo Senhor para desempenhar um papel vital neste drama humano? Seu nome é Kristin. Ela é filha de Kurt e Melodie Bestor. Kristin nasceu com espinha bífida, assim como sua irmã mais nova, Erika. As duas crianças passaram longos dias e noites angustiantes no hospital. A medicina moderna, praticada com carinho, juntamente com a ajuda de nosso Pai Celestial, trouxe certa mobilidade a cada uma delas. Nenhuma das duas se deixa abater. Ambas inspiram outras pessoas a seguir em frente. No mês passado, Kristin e Erika receberam convidados na celebração do 75º aniversário do Primary Children's Medical Center. Cantaram com o pai e a mãe, e depois as meninas cantaram, comovendo a todos, um dueto. Cada pessoa na plateia estava com os olhos avermelhados; lenços apareciam por toda parte. Essas meninas, essa família, haviam superado a tristeza e trazido alegria à vida de outras pessoas.

O pai de Kristin me disse naquela noite: "Presidente Monson, conheça Kristin. Foi ela quem sentiu o impulso de enviar seu andador para a Romênia, na esperança de que alguma criança de lá se beneficiasse."

Falei com Kristin enquanto ela estava sentada em sua cadeira de rodas. "Obrigado por ouvir o Espírito do Senhor. Você foi o instrumento nas mãos do Senhor para responder à oração de uma médica, ao desejo de uma criança."

Mais tarde, ao sair daquela celebração realizada em benefício das crianças, olhei para o alto, em direção aos céus, e ofereci meu próprio "Obrigado" a Deus pelas crianças, pelas famílias, pelos milagres de nossos dias.

Sigamos com afinco Sua orientação: "Deixai vir os pequeninos a mim, e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus."17

Uma canção popular contém as palavras "Há anjos entre nós". Esses anjos são, muitas vezes, os pequeninos preciosos que Deus, nosso Pai, confiou a nossos cuidados terrenos. A eles, ensinemos a orar, inspiremos a fé, vivamos a verdade e honremos a Deus. Então teremos lares celestiais e famílias eternas. Que dádiva mais elevada poderíamos desejar? Que bênção maior poderíamos pedir em oração? Nenhuma!

Em nome de Jesus Cristo, amém.

Notes

  1. Lucas 2:46. ↩

  2. Lucas 2:49; ver também 2:46–49. ↩

  3. Lucas 2:52. ↩

  4. Atos 10:38. ↩

  5. Gerald Massey, "Wooed and Won," em Burton Stevenson, sel., The Home Book of Quotations (1934), 121. ↩

  6. John Greenleaf Whittier, "Maud Muller," The Complete Poetical Works of Whittier (1892), 48; grifo nosso. ↩

  7. Glenn Doman, How to Teach Your Baby to Read (1979), 43, 45. ↩

  8. Doman, How to Teach Your Baby, 44. ↩

  9. "Prayer Is the Soul's Sincere Desire," Hymns, no. 145. ↩

  10. Lucas 22:42. ↩

  11. Lucas 23:34. ↩

  12. Mateus 18:1–5. ↩

  13. William Wordsworth, "Ode: Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood," estrofe 5, linhas 1–9. ↩

  14. O Caminho para a Confiança (1959), 121. ↩

  15. Isaías 11:6. ↩

  16. Salmos 30:5. ↩

  17. Marcos 10:14. ↩

Como citar este discursoThomas S. Monson, “Ensinar as Crianças”, Conferência Geral de Outubro de 1997, Saturday Morning Session (1997-10-01). Pulpit Vault, 1997-10-monson-teach-the-children. Tradução desta edição, por método de glossário, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).