"Encheu de Bens os Famintos"
Jeffrey R. Holland
Há algum tempo, li um ensaio que se referia à "fome metafísica"1 no mundo. O autor sugeria que as almas de homens e mulheres estavam morrendo, por assim dizer, por falta de nutrição espiritual em nossa época. Essa frase, "fome metafísica", voltou-me à mente no mês passado, quando li as muitas homenagens, ricamente merecidas, prestadas à Madre Teresa de Calcutá. Um correspondente relembrou que ela dizia que, por mais severa e angustiante que fosse a fome física em nossos dias — algo a que ela dedicou praticamente toda a sua vida tentando aliviar —, ela acreditava, contudo, que a ausência de força espiritual, a escassez de nutrição espiritual, era uma fome ainda mais terrível no mundo moderno. ¶
À medida que o mundo se arrasta rumo ao século XXI, muitos anseiam por algo, às vezes clamam por algo, mas com demasiada frequência mal sabem por quê. A condição econômica no mundo, falando de modo geral e certamente não especificamente, é provavelmente melhor do que jamais foi na história, mas o coração humano ainda está ansioso e frequentemente cheio de grande estresse. Vivemos numa "era da informação" que tem um mundo de dados disponíveis literalmente ao alcance de nossos dedos, mas o significado dessa informação e a satisfação de usar o conhecimento em algum contexto moral parecem mais distantes do que nunca para muitos. ¶
O preço de construir sobre tais fundações arenosas é alto. Vidas demais estão se abalando quando vêm as tempestades e sopram os ventos.3 Em quase toda direção, vemos aqueles que estão insatisfeitos com os luxos presentes por causa de um temor corrosivo de que outros, em algum lugar, tenham mais deles. Num mundo desesperadamente necessitado de liderança moral, com demasiada frequência vemos o que Paulo chamou de "espíritos malignos, nos ares"4. De uma forma absolutamente aterrorizante, vemos legiões que dizem estar entediados com seus cônjuges, seus filhos e qualquer sentido de responsabilidade conjugal ou parental para com eles. Outros ainda, correndo a toda velocidade pela estrada sem saída do hedonismo, gritam que de fato viverão só de pão, e quanto mais, melhor. Sabemos por boa fonte, na verdade sabemos pela própria Palavra, que só o pão — mesmo em grande quantidade — não é suficiente.5 ¶
Durante o ministério do Salvador na Galileia, Ele repreendeu os que tinham ouvido falar de Sua alimentação dos 5.000 com apenas cinco pães de cevada e dois peixes, e agora acorriam a Ele esperando uma refeição gratuita. Aquele alimento, por mais importante que fosse, era incidental à verdadeira nutrição que Ele tentava dar-lhes. ¶
"Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram", advertiu-os Ele. "Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre." ¶
Nessa pequena história há algo do perigo em nossos dias. É que, em nosso êxito e sofisticação contemporâneos, também nós podemos afastar-nos do pão vitalmente crucial da vida eterna; podemos, de fato, escolher estar espiritualmente desnutridos, indulgindo-nos deliberadamente numa espécie de anorexia espiritual. Como aqueles galileus infantis de antigamente, podemos torcer o nariz quando o sustento divino é colocado diante de nós. Naturalmente, a tragédia então, como agora, é que um dia, como o próprio Senhor disse, "numa hora em que não pensardes, terá passado o verão, e a colheita estará terminada", e descobriremos que nossa "alma não está salva."7 ¶
Perguntei-me nesta manhã se alguém dentro do alcance de minha voz talvez sinta que ele ou ela, ou aqueles a quem ama, está demasiadamente envolvido no "emaranhado dessas coisas superficiais", tem fome de algo mais substancial e pergunta, como o jovem próspero das escrituras: "Que me falta ainda?"8 Perguntei-me se alguém nesta manhã poderia estar vagando "de um mar a outro mar", correndo "para lá e para cá"9, como disse o profeta Amós, cansado do ritmo da vida na pista rápida ou tentando acompanhar os vizinhos antes que os vizinhos refinanciem a casa. Perguntei-me se alguém se juntou a nossa conferência na esperança de encontrar a resposta a um problema profundamente pessoal, ou de ter alguma luz lançada sobre as questões mais sérias de seu coração. Tais problemas ou questões frequentemente dizem respeito a nossos casamentos, nossas famílias, nossos amigos, nossa saúde, nossa paz — ou à falta conspícua dessas cobiçadas posses. ¶
É àqueles que assim têm fome que desejo falar nesta manhã. Onde quer que vivam, e em qualquer ponto de idade ou experiência em que se encontrem, declaro que Deus, por meio de Seu Filho Unigênito, ergueu a fome de que Amós falou. Testifico que o Senhor Jesus Cristo é o Pão da Vida e uma Fonte de Água Viva que jorra para a vida eterna. Declaro àqueles que são membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e especialmente àqueles que não são, que nosso Pai Celestial e Seu Amado Filho Primogênito de fato apareceram ao menino profeta Joseph Smith e restauraram luz e vida, esperança e direção a um mundo errante, um mundo cheio daqueles que se perguntam: "Onde está a esperança? Onde está a paz? Que caminho devo seguir? Para onde devo ir?" ¶
Independentemente dos caminhos passados, tomados ou não tomados, desejamos oferecer-lhes nesta manhã "o caminho, e a verdade, e a vida."10 Convidamo-los a se juntar à aventura dos primeiros discípulos de Cristo, que também anseavam pelo pão da vida — aqueles que não voltaram atrás, mas que vieram a Ele, permaneceram com Ele e reconheceram que, para segurança e salvação, não havia outro a quem pudessem jamais recorrer.11 ¶
Vocês se lembrarão de que, quando André e outro discípulo, provavelmente João, ouviram Cristo falar pela primeira vez, ficaram tão comovidos e atraídos por Jesus que O seguiram quando Ele deixou a multidão. Percebendo que estava sendo seguido, Cristo se voltou e perguntou aos dois homens: "Que buscais?"12 Outras traduções vertem isso simplesmente como "O que vocês querem?" Eles responderam: "Onde moras?" ou "Onde você vive?" Cristo simplesmente disse: "Vinde, e vede."13 Pouco tempo depois, Ele formalmente chamou Pedro e outros novos Apóstolos com o mesmo espírito de convite. A eles Ele disse: Vinde, "segue-me."14 ¶
Parece que a essência de nossa jornada mortal e as respostas às questões mais significativas da vida se destilam nestes dois breves elementos das cenas iniciais do ministério terreno do Salvador. Um elemento é a pergunta feita a cada um de nós nesta terra: "Que buscais? O que vocês querem?" O segundo é a resposta d'Ele à nossa resposta, seja qual for essa resposta. Quem quer que sejamos, e o que quer que respondamos, a resposta d'Ele é sempre a mesma: "Vinde", diz Ele com amor. "Vinde, segue-me." Aonde quer que estejam indo, primeiro venham e vejam o que Eu faço, vejam onde e como passo Meu tempo. Aprendam de Mim, andem comigo, falem comigo, creiam. Escutem-Me orar. Por sua vez, vocês encontrarão respostas a suas próprias orações. Deus trará descanso a suas almas. Vinde, segue-me. ¶
Com uma só voz e um só acordo, testificamos que o evangelho de Jesus Cristo é o único meio de satisfazer a fome espiritual definitiva e saciar a sede espiritual final. Somente Aquele que foi tão mortalmente ferido sabe como curar nossas feridas modernas. Somente Aquele que estava com Deus, e era Deus,15 pode responder às mais profundas e urgentes perguntas de nossa alma. Somente Seus braços todo-poderosos poderiam ter escancarado os portões da prisão da morte que, de outra forma, nos teriam mantido em cativeiro para sempre. Somente sobre Seus ombros triunfantes podemos cavalgar rumo à glória celestial — se, mediante nossa fidelidade, escolhermos fazê-lo. ¶
Àqueles que talvez sintam que de algum modo perderam seu lugar à mesa do Senhor, dizemos novamente com o Profeta Joseph Smith que Deus tem "uma disposição perdoadora",16 que Cristo é "misericordioso e gracioso, tardio em irar-se, [é] longânimo e cheio de bondade."17 Sempre amei o fato de que, quando Mateus registra a grande admoestação de Jesus, "Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus"18, Lucas acrescenta o comentário adicional do Salvador: "Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso"19 — como que a sugerir que a misericórdia é, pelo menos, um sinônimo inicial da perfeição que Deus tem e pela qual todos nós devemos lutar. A misericórdia, com sua virtude irmã, o perdão, está no âmago da Expiação de Jesus Cristo e do plano eterno de salvação. Tudo no evangelho nos ensina que podemos mudar se precisarmos, que podemos ser ajudados se de fato o desejarmos, que podemos ser tornados íntegros, sejam quais forem os problemas do passado. ¶
Ora, se vocês se sentem espiritualmente demasiado mutilados para vir ao banquete, saibam que a Igreja não é um mosteiro para pessoas perfeitas, embora todos nós devêssemos estar nos esforçando no caminho para a divindade. Não; pelo menos um aspecto da Igreja é mais como um hospital ou um posto de atendimento, destinado àqueles que estão doentes e querem ficar bem, onde se pode obter uma infusão de nutrição espiritual e um suprimento de água sustentadora para continuar escalando. ¶
Apesar das tribulações da vida, e por mais temerosas que sejam algumas de nossas perspectivas, testifico que há ajuda para a jornada. Há o Pão da Vida Eterna e a Fonte de Água Viva. Cristo venceu o mundo — o nosso mundo — e Seu dom para nós é a paz agora e a exaltação no mundo vindouro.20 Nosso requisito fundamental é ter fé n'Ele e segui-Lo — sempre. Quando Ele nos ordena que andemos em Seu caminho e por Sua luz, é porque Ele andou por este caminho antes de nós, e o tornou seguro para nossa própria travessia aqui. Ele sabe onde estão ocultas as pedras afiadas e os obstáculos, e onde os espinhos e abrolhos são mais severos. Ele sabe onde o caminho é perigoso, e sabe qual direção tomar quando a estrada se bifurca e cai a noite. Ele sabe tudo isso, como diz Alma no Livro de Mórmon, porque sofreu "dores e aflições e tentações de toda espécie … , para que saiba … como socorrer seu povo, de acordo com suas enfermidades."21 Socorrer significa "correr em auxílio de". Testifico que, em meus temores e em minhas enfermidades, o Salvador certamente correu em meu auxílio. Jamais poderei agradecer-Lhe o suficiente por tamanha bondade pessoal e tão amoroso cuidado. ¶
O Presidente George Q. Cannon disse certa vez: "Não importa quão sério seja o teste, quão profunda a angústia, quão grande a aflição, [Deus] jamais nos abandonará. Ele nunca o fez, e nunca o fará. Ele não pode fazê-lo. Isso é [contrário] a Seu caráter [fazê-lo]. Ele é um ser imutável. … Ele permanecerá ao nosso lado. Podemos passar pela fornalha ardente; podemos passar por águas profundas; mas não seremos consumidos nem soçobrados. Sairemos de todas essas provações e dificuldades melhores e mais purificados por elas, se apenas confiarmos em nosso Deus e guardarmos Seus mandamentos."22 ¶
Aqueles que receberem o Senhor Jesus Cristo como a fonte de sua salvação sempre se deitarão em verdes pastos, por mais árido e sombrio que tenha sido o inverno. E as águas de seu refrigério sempre serão águas tranquilas, por mais turbulentas que sejam as tempestades da vida. Ao caminharmos por Sua senda de retidão, nossas almas serão para sempre restauradas; e embora esse caminho possa, para nós, como aconteceu com Ele, atravessar o próprio vale da sombra da morte, ainda assim não temeremos mal algum. A vara de Seu sacerdócio e o cajado de Seu Espírito sempre nos consolarão. E quando tivermos fome e sede nesse esforço, Ele preparará diante de nós um verdadeiro banquete, uma mesa posta mesmo na presença de nossos inimigos — inimigos contemporâneos —, que podem incluir o temor ou preocupações familiares, doença ou tristeza pessoal de cem tipos diferentes. Num ato supremo de compaixão em tal ceia, Ele unge nossa cabeça com óleo e administra uma bênção de força a nossa alma. Nosso cálice transborda de Sua bondade, e nossas lágrimas transbordam de alegria. Choramos ao saber que tal bondade e misericórdia nos seguirão todos os dias de nossa vida, e que habitaremos, se assim o desejarmos, na casa do Senhor para sempre.23 ¶
Oro nesta manhã para que todos os que têm fome e sede, e às vezes vagueiam, ouçam este convite d'Aquele que é o Pão da Vida, a Fonte de Água Viva, o Bom Pastor de todos nós, o Filho de Deus: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, … e encontrareis descanso para a vossa alma."24 Verdadeiramente Ele "encheu de bens os famintos", como testificou Sua própria mãe, Maria.25 Vinde, e banqueteai-vos à mesa do Senhor naquilo que testifico ser Sua Igreja verdadeira e viva, liderada por um profeta verdadeiro e vivo, o Presidente Gordon B. Hinckley, a quem agora temos o prazer de ouvir. Oro por estas bênçãos e testifico destas verdades no sagrado e santo nome do Senhor Jesus Cristo, amém. ¶
Notes
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Arthur Hertzberg, citado por Harold B. Lee em Stand Ye in Holy Places (1975), 349. ↩
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Ver Mateus 7:24–29. ↩
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Ver Mateus 4:4; João 1:1. ↩
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D&C 45:2; ver também Jeremias 8:20. ↩
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Joseph Smith, comp., Lectures on Faith (1985), 42. ↩
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Lectures on Faith, 42. ↩
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"Freedom of the Saints," em Brian H. Stuy, comp., Collected Discourses, 5 vols. (1987–92), 2:185. ↩
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Ver Lucas 1:53. ↩