Pulpit

O Mais Importante da Lei: Juízo, Misericórdia e Fé

James E. Faust

Conferência Geral de Outubro de 1997·Sunday Morning Session·1997-10-01

Meus amados irmãos e irmãs e amigos, tenho orado fervorosamente para que vocês compreendam minhas palavras nesta manhã no espírito em que são pretendidas. Portanto, peço a fé e as orações de vocês em meu favor.

Jesus de Nazaré descreveu Sua obra máxima: “Esta é minha obra e minha glória: levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem.”1 Sua obra é realizada por meio de Seu evangelho, que traz a marca do próprio Salvador. Desejo humildemente falar da essência do evangelho. O Salvador ensinou que o juízo, a misericórdia e a fé são “o mais importante da lei.”2

Desejo afirmar inequivocamente que os mandamentos de Deus devem ser guardados para que se recebam as bênçãos e promessas do Salvador. Os Dez Mandamentos continuam sendo um fio vital no tecido do evangelho de Cristo, mas com a vinda dEle vieram nova luz e vida, que trazem uma medida mais plena de alegria e felicidade. Jesus introduziu um padrão de conduta humana mais elevado e mais difícil. É mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil, porque se concentra em exigências internas, e não externas: fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem.3 Amar o próximo como a si mesmo.4 Ao ser ferido, oferecer a outra face.5 Quando pedirem a capa, dar também a túnica.6 Perdoar, não apenas uma vez, mas até setenta vezes sete.7 Essa era a essência do novo evangelho. Havia mais ênfase em fazer do que em não fazer. Mais arbítrio moral foi dado a cada um de nós.

Joseph Smith, o Profeta da dispensação da plenitude dos tempos, estabeleceu a Igreja por revelação como o receptáculo da verdade do evangelho. Ele trouxe mais luz, calor e alegria à Igreja por meio de numerosas e elevadas revelações, como a que trata de como o sacerdócio deve ser exercido: “Nenhum poder ou influência pode ou deve ser mantido em virtude do sacerdócio, a não ser com persuasão, com longanimidade, com brandura e mansidão e com amor não fingido.”8 Esse elevado padrão de conduta, se vivido, levará ao cumprimento da promessa: “Os homens existem para que tenham alegria.”9

Ao longo dos séculos, o dogmatismo, a coerção e a intolerância com muita frequência poluíram a água viva do evangelho, que sacia eternamente nossa sede espiritual.10 O Salvador observou isso em Seus dias: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e desprezais o mais importante da lei: o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas.

“Condutores cegos! que coais o mosquito e engolis o camelo.”11

Da mesma forma, Paulo disse: “A letra mata, e o Espírito vivifica.”12

Não devemos apenas evitar o mal, nem apenas fazer o bem, mas, o que é mais importante, fazer as coisas de maior valor. Devemos concentrar-nos nas coisas interiores do coração, que conhecemos e valorizamos intuitivamente, mas que muitas vezes negligenciamos em favor do que é trivial, superficial ou orgulhoso.

Os princípios e doutrinas salvadores da Igreja são estabelecidos, fixos e imutáveis. A obediência a esses absolutos é necessária para desfrutar de “paz neste mundo e vida eterna no mundo vindouro.”13 Contudo, a maneira pela qual a Igreja administra desafios complexos e variados em todo o mundo muda de tempos em tempos. Sob a orientação de profetas viventes, novas diretrizes e procedimentos são estabelecidos. Recebo com satisfação essas mudanças inspiradas. Elas são prova da veracidade do evangelho restaurado.

Tenho, porém, certo receio de que alguns membros considerem as diretrizes e procedimentos tão importantes quanto as leis eternas e imutáveis do evangelho, como “Não adulterarás.”14 Em vez de alguma definição legalista de adultério, a orientação mais esclarecida do Salvador é que o pensamento é o pai do ato: aquele que “olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.”15

Quem decide o que é certo e o que é errado em determinadas circunstâncias? Onde recai a responsabilidade de fazer julgamentos morais? Com indivíduos adultos, é claro, recai sobre cada um. No caso das crianças, a responsabilidade de dar orientação moral recai sobre os pais. Eles conhecem a disposição, a compreensão e a inteligência de cada filho. Os pais passam a vida inteira procurando estabelecer e manter uma boa comunicação com cada um de seus filhos. Eles estão na melhor posição para tomar as decisões morais definitivas quanto ao bem-estar de seus descendentes. Os princípios mais elevados do evangelho — justiça, misericórdia e fé — são muito importantes em todos os relacionamentos familiares.

Há muitos anos, quando eu era bispo, um pai consciencioso veio pedir-me conselho. Ele sentia que as numerosas e frequentes atividades da Igreja dificultavam ter tanta convivência familiar quanto ele e sua esposa julgavam necessária. Os filhos tinham a ideia de que não eram leais à Igreja se não participassem plenamente de toda atividade recreativa. Eu disse a esse pai dedicado que as atividades da Igreja deviam ajudá-lo, a ele e à sua esposa, a criar os filhos. Eles, como pais, tinham não apenas o direito, mas o dever de determinar até que ponto a família se envolveria em atividades sociais. A unidade, a solidariedade e a harmonia da família devem ser preservadas. Afinal, a família é a unidade básica e permanente da Igreja.

Há três fontes de orientação para fazer julgamentos morais. A primeira é a orientação do Espírito Santo. Essa é sempre uma bússola segura para os que foram batizados e receberam esse dom supremo. A segunda fonte é o sábio conselho dos líderes do sacerdócio que o Senhor colocou para nos guiar. Terceira, a demonstração constante de amor deve temperar todos os nossos julgamentos. Às vezes isso significa disciplina.

Certa vez perguntaram ao Profeta Joseph Smith como ele governava um povo tão diversificado. Sua resposta foi: “Ensino ao povo princípios corretos, e eles se governam a si mesmos.”16 Essa afirmação é tão verdadeira hoje quanto era na época de Joseph. É preciso haver ouvidos que escutem e obediência ao profeta vivente da Igreja. O Presidente Marion G. Romney afirmou isso muito bem:

“É fácil crer nos profetas mortos, mas é ainda maior crer nos profetas viventes. Vou dar-lhes um exemplo.

“Certo dia, quando o Presidente Grant ainda vivia, eu estava em meu escritório do outro lado da rua, após uma conferência geral. Um homem veio me visitar, um senhor de idade. Ele estava muito perturbado com o que fora dito naquela conferência por alguns dos Irmãos, inclusive por mim. Por seu modo de falar, percebi que vinha de um país estrangeiro. Depois de acalmá-lo o suficiente para que me escutasse, perguntei: ‘Por que o senhor veio para a América?’

“‘Vim porque um profeta de Deus me disse para vir.’

“‘Quem era o profeta?’ continuei.

“‘Wilford Woodruff.’

“‘O senhor crê que Wilford Woodruff era um profeta de Deus?’

“‘Sim’, disse ele.

“‘O senhor crê que seu sucessor, o Presidente Lorenzo Snow, era um profeta de Deus?’

“‘Sim, creio.’

“‘O senhor crê que o Presidente Joseph F. Smith era um profeta de Deus?’

“‘Sim, senhor.’

“Então veio a ‘pergunta de sessenta e quatro dólares’. ‘O senhor crê que Heber J. Grant é um profeta de Deus?’

“Sua resposta: ‘Acho que ele deveria ficar calado sobre a assistência aos idosos.’”17

Hoje temos um profeta vivente, o Presidente Gordon B. Hinckley, a quem apoiamos como o profeta de nossos dias. Ele nos advertiu que devemos “levantar a voz em defesa dos padrões morais num mundo em que a imundície, a sordidez, a pornografia e toda a sua prole maligna nos assolam como um dilúvio.” Seu conselho para nós, em nossos dias, é: “Defendam a integridade em seus negócios, em sua profissão, em seu lar, na sociedade da qual fazem parte.”18

De fato, os padrões morais devem ser mantidos. Em grande medida, os desobedientes castigam a si mesmos. Como o Senhor disse por meio de Jeremias: “A tua maldade te castigará, e as tuas apostasias te repreenderão.”19 Aqueles a quem é confiada a responsabilidade judicial no reino de Deus devem zelar para que a Igreja permaneça pura, a fim de que as águas vivas da vida corram sem impedimento.

Contudo, a verdadeira religião não consiste primordialmente em procurar fraquezas, faltas e erros. É o espírito de fortalecer e de relevar as faltas, assim como gostaríamos que nossas próprias faltas fossem relevadas. Quando concentramos toda a nossa atenção no que pode estar errado, em vez do que está certo, perdemos a beleza sublime e a essência do doce evangelho do Mestre.

O juízo, o mais importante da lei mencionado pelo Salvador, não pode ser separado dos outros dois: a misericórdia e a fé. Shakespeare escreveu sobre “a qualidade da misericórdia”. Falando por meio de Pórcia, ele disse: “Rogamos pela misericórdia; / E essa mesma oração nos ensina a todos a praticar / Os atos de misericórdia.”20 Admito francamente que, quando faço minhas orações, não peço justiça; peço misericórdia.

Um dos grandes exemplos de misericórdia em nossa época foi demonstrado pelo Profeta Joseph a W. W. Phelps durante as dificuldades dos santos no estado do Missouri. O Élder Phelps caiu em apostasia. Depois de sofrer provações, em 29 de junho de 1840, estando em Dayton, Ohio, W. W. Phelps escreveu ao Profeta Joseph:

“Vi a insensatez do meu caminho e tremo diante do abismo que atravessei. … Arrepender-me-ei e viverei, e pedirei a meus antigos irmãos que me perdoem, e ainda que me castiguem até a morte, morrerei com eles, pois o Deus deles é o meu Deus. O menor lugar entre eles já me basta; sim, é maior e melhor do que toda a Babilônia. …

“… Fiz o que era errado, e me arrependo disso. … Não caminhei ao lado de meus amigos de acordo com minha santa unção. Peço perdão, em nome de Jesus Cristo, a todos os santos, pois farei o que é certo, com a ajuda de Deus. Quero a comunhão de vocês; se não puderem concedê-la, concedam-me ao menos sua paz e amizade, pois somos irmãos, e nossa comunhão já foi doce.”21

A isso o Profeta Joseph respondeu:

“É verdade que sofremos muito em consequência de seu comportamento — a taça de fel, já bastante cheia … , transbordou de fato quando o senhor se voltou contra nós. Alguém com quem tantas vezes tomamos doce conselho e desfrutamos de muitos momentos de renovo vindos do Senhor — ‘se fosse um inimigo, poderíamos suportar’. …

“Contudo, a taça foi bebida, a vontade de nosso Pai foi feita, e ainda estamos vivos. … E, tendo sido libertados das mãos de homens perversos pela misericórdia de nosso Deus, dizemos que é privilégio do senhor ser libertado dos poderes do adversário, … e voltar a ocupar seu lugar entre os santos do Altíssimo, e, com diligência, humildade e amor não fingido, recomendar-se a nosso Deus, e ao Deus do senhor, e à Igreja de Jesus Cristo.

“Crendo que sua confissão é real e seu arrependimento genuíno, terei a felicidade de estender-lhe novamente a destra da comunhão, e de alegrar-me com o retorno do filho pródigo. …

“‘Venha, querido irmão, pois a guerra já passou,

“‘Pois amigos no início são amigos outra vez no final.’

“Sempre seu, Joseph Smith Jr.”22

W. W. Phelps permaneceu fiel e verdadeiro e escreveu a letra do maravilhoso hino “Louvado Seja o Profeta”, afirmando seu grande amor e admiração pelo Profeta Joseph:

"Louvemos o profeta que comungou com Jeová!

Cristo o ungiu, profeta e vidente.

Bendito a abrir a última dispensação,

Reis o exaltarão, nações o hão de reverenciar."23

A fé infantil de um seguidor do Cristo divino é um dom espiritual seleto. Pode ser desfrutada por jovens e idosos. Nos primeiros dias da Igreja, um menino chamado Will Cluff, de 10 anos, morador de Nauvoo, tinha uma fé notável e pura. Ele viveu uma experiência com a qual muitos de nós podemos nos identificar.

Sua família era pobre e tinha apenas uma vaca, da qual dependiam para se alimentar. Na primavera de 1842, a vaca fugiu. Certa noite de agosto, o pai chegou em casa muito cansado e desanimado. Ele e os irmãos de Will haviam passado grande parte do verão à procura da vaca. Will disse: “Pai, se o senhor me deixar levar Charley (um cavalo velho), irei procurar a vaca.” O pai, relutante, permitiu.

Bem cedo na manhã seguinte, Will cavalgou até o Big Mound, a cinco quilômetros a leste, em terreno de pradaria. Ali ele costumava apascentar vacas com outros meninos de Nauvoo. Desceu do cavalo e, segurando-o pelas rédeas, ajoelhou-se e orou fervorosamente ao Senhor para que o guiasse na direção certa para encontrar a vaca. Montou novamente e cavalgou para o sul, rumo que sentiu ser impressionado a seguir, embora houvesse numerosos grupos de gado em todas as direções.

Depois de percorrer alguns quilômetros na pradaria aberta e passar por centenas de cabeças de gado, Will chegou a uma cerca. Desmontou, abaixou a estaca, conduziu o cavalo para dentro, recolocou a cerca e cavalgou cerca de cinco quilômetros através do campo. Novamente se viu na pradaria aberta, com numerosos grupos de gado em todas as direções. Depois de percorrer cerca de quatrocentos metros a partir do campo, deparou-se justamente com a vaca, pastando sozinha, a certa distância de qualquer outro animal.

Will começou a conduzir a vaca em direção à cidade. Chegou tarde da noite, cheio de alegria e de gratidão a seu Pai Celestial.24

Temo que alguns de nossos maiores pecados sejam pecados de omissão. Esses são alguns dos aspectos mais importantes da lei que o Salvador disse que não devíamos deixar de cumprir.25 São os atos ponderados e afetuosos que deixamos de fazer e pelos quais nos sentimos tão culpados por tê-los negligenciado.

Quando eu era menino na fazenda, durante o calor abrasador do verão, lembro-me de minha avó, Mary Finlinson, preparando nossas deliciosas refeições num fogão a lenha quente. Quando a caixa de lenha ao lado do fogão ficava vazia, Vovó silenciosamente pegava a caixa, ia enchê-la novamente na pilha de lenha de cedro do lado de fora, e trazia a caixa pesada de volta para casa. Eu era tão insensível e estava tão interessado na conversa na cozinha que ficava sentado ali, deixando minha querida avó encher sozinha a caixa de lenha da cozinha. Sinto-me envergonhado de mim mesmo e lamentei essa omissão durante toda a minha vida. Espero, um dia, poder pedir seu perdão.

Somos conduzidos ao caminho para o reino de Deus pelas próprias palavras do Salvador. Disse Ele: “É chegado a vós o reino de Deus,”26 e “é chegado o reino dos céus.”27 Da mesma forma, mostra-se-nos o caminho para o reino de Deus na Terra.

Aqueles que demonstram juízo, misericórdia, fé e perdão exibem uma grandeza de alma e de mente compatível com o espírito dos ensinamentos e do exemplo do Senhor. Esse evangelho mais elevado exige que olhemos para dentro de nossa própria alma, pois não podemos enganar o Senhor. Somos informados de que “o guardião da porta é o Santo de Israel; e ele ali não usa servo algum.”28 Nós, que possuímos o santo apostolado, sempre desejamos cumprir nossa responsabilidade de testificar da divindade do Salvador. Sinto-me impelido a fazê-lo. Tenho um testemunho durante toda a minha vida. Recentemente, porém, veio à minha alma um testemunho avassalador da divindade desta santa obra. Esse testemunho seguro é mais certo do que jamais foi em toda a minha vida. Disso eu testifico, em nome de Jesus Cristo, amém.

Notes

  1. Moisés 1:39. ↩

  2. Mateus 23:23. ↩

  3. Ver Mateus 7:12. ↩

  4. Ver Mateus 22:37–39. ↩

  5. Ver Lucas 6:29. ↩

  6. Ver Mateus 5:40. ↩

  7. Ver Mateus 18:21–22. ↩

  8. D&C 121:41. ↩

  9. 2 Néfi 2:25. ↩

  10. Ver João 4:14. ↩

  11. Mateus 23:23–24. ↩

  12. 2 Coríntios 3:6. ↩

  13. D&C 59:23. ↩

  14. Êxodo 20:14. ↩

  15. Mateus 5:28. ↩

  16. Citado por John Taylor, em Journal of Discourses, 10:57–58. ↩

  17. Em Conference Report, abr. de 1953, 125. ↩

  18. “Stand Up for Truth,” Brigham Young University 1996–97 Speeches (1997), 24. ↩

  19. Jeremias 2:19. ↩

  20. The Merchant of Venice, ato 4, cena 1, linhas 184, 200–202. ↩

  21. History of the Church, 4:142. ↩

  22. History of the Church, 4:163–64. ↩

  23. Hymns, nº 27. ↩

  24. Adaptado de W. W. Cluff, “A Boy's Faith”, em Stan and Sharon Miller, comps., Especially for Mormons, 5 vols. (1971–87), 2:115–16. ↩

  25. Ver Mateus 23:23. ↩

  26. Lucas 10:9. ↩

  27. Mateus 4:17. ↩

  28. 2 Néfi 9:41. ↩

Como citar este discursoJames E. Faust, “O Mais Importante da Lei: Juízo, Misericórdia e Fé”, Conferência Geral de Outubro de 1997, Sunday Morning Session (1997-10-01). Pulpit Vault, 1997-10-faust-the-weightier-matters-of-the-law-judgment-mercy-and-faith. Tradução desta edição, por método de glossário, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).