"Apascenta os Meus Cordeiros"
Henry B. Eyring
O Salvador ensinou a Pedro e a Seus outros Apóstolos e discípulos por que e como deveriam nutrir os outros. Vocês se lembram de que, no relato bíblico, Ele os alimentou antes de ensiná-los. Ele havia sido crucificado e depois ressuscitado. Seus servos haviam ido para a Galileia. Pescaram a noite toda, sem nada apanhar. Quando se aproximaram da praia, ao amanhecer, a princípio não O reconheceram. Ele os chamou, dizendo-lhes onde lançar as redes, e, quando o fizeram, as redes se encheram. Correram para recebê-lO na praia. ¶
Encontraram uma fogueira de brasas com peixe assando e pão. Muitas vezes me perguntei, como talvez vocês também tenham feito, quem acendeu o fogo, quem pescou o peixe e quem preparou a refeição, mas foi o Mestre quem preparou Seus discípulos para serem alimentados com mais do que peixe e pão. Ele os deixou comer primeiro. E então lhes ensinou sobre a alimentação espiritual. E deu-lhes um mandamento que ainda vale para cada um de nós. ¶
"E, tendo jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que estes? E ele respondeu: Sim, Senhor; tu sabes que te amo. Disse-lhe ele: Apascenta os meus cordeiros" (João 21:15; ver também vv. 1–17). ¶
Os santos de Deus sempre estiveram sob convênio de nutrir-se espiritualmente uns aos outros, especialmente aqueles ainda tenros no evangelho. Somos abençoados por viver numa época em que um grande aumento nessa capacidade de nutrir novos membros da Igreja deve, e portanto será, derramado sobre os santos fiéis. Esse poder já foi concedido antes entre o povo do Senhor. Esta é a descrição de como o povo do Senhor o fez certa vez, numa época relatada no Livro de Mórmon. Numa escritura que ouvimos hoje, vocês se lembram de que "eram contados … para que fossem lembrados e nutridos pela boa palavra de Deus, a fim de mantê-los no caminho certo e mantê-los continuamente atentos à oração, confiando somente nos méritos de Cristo, autor e aperfeiçoador de sua fé" (Morôni 6:4). ¶
Todos nós já tentamos, em algum momento, nutrir a fé de outra pessoa. A maioria de nós já sentiu a preocupação de outros por nossa própria fé, e com ela sentimos o amor deles. Muitos de nós já tivemos uma criança olhar para nós e dizer: "Você gostaria de ir à igreja comigo?" ou "Você gostaria de orar comigo?" E tivemos nossas decepções. Alguém que amamos pode não ter aceitado nossas tentativas de nutrir sua fé. Sabemos, por dolorosa experiência, que Deus respeita a escolha de Seus filhos de não serem nutridos. Contudo, este é um tempo de sentir renovado otimismo e esperança de que nosso poder de nutrir será ampliado. ¶
O Senhor, por meio de Seu profeta vivo, nos disse que preservará a fartura da colheita de novos conversos que entram nas águas do batismo em toda a Terra. E o Senhor o fará por meio de nós. Assim, podemos ter confiança de que, ao fazermos coisas simples, coisas que até uma criança pode fazer, em breve nos será concedido um poder maior para nutrir a fé tenra. ¶
O lugar para começar é no nosso próprio coração. O que desejamos com todo o coração determinará, em grande medida, se poderemos reivindicar nosso direito à companhia do Espírito Santo, sem o qual não pode haver alimentação espiritual. Podemos começar hoje a tentar ver aqueles que devemos nutrir como nosso Pai Celestial os vê, e assim sentir um pouco do que Ele sente por eles. ¶
Esses novos membros da Igreja são Seus filhos. Ele os conheceu e eles O conheceram no mundo antes deste. O propósito d'Ele e o de Seu Filho, o Senhor Jesus Cristo, é fazê-los retornar a Ele e dar-lhes a vida eterna, se eles apenas a escolherem. Ele guiou e sustentou Seus missionários pelo Espírito Santo para encontrá-los, ensiná-los e batizá-los. Ele permitiu que Seu Filho pagasse o preço de seus pecados. Nosso Pai e o Salvador veem esses conversos como cordeiros tenros, comprados a um preço que não podemos compreender. ¶
Um pai mortal pode compreender, em pequena medida, os sentimentos de um Pai Celestial amoroso. Quando nossos filhos chegam à idade em que precisam deixar nossos cuidados diretos, sentimos ansiedade por sua segurança e preocupação de que aqueles que devem ajudá-los não os decepcionem. Podemos sentir ao menos um pouco do amor do Pai e do Salvador pelos novos membros da Igreja e da confiança que depositam em nós para nutri-los. ¶
Esses sentimentos em nosso coração pelos novos membros farão muito para nos qualificar para a ajuda do Espírito e, assim, superar os temores que podem nos dissuadir de nossa sagrada responsabilidade. É sensato temer que nossas próprias habilidades sejam inadequadas para cumprir o encargo que temos de nutrir a fé de outros. Nossas próprias capacidades, por maiores que sejam, não serão suficientes. Mas essa visão realista de nossas limitações cria uma humildade que pode conduzir à dependência do Espírito e, assim, ao poder. ¶
Brigham Young nos disse para termos coragem apesar de nossas fraquezas. Ele o fez com estas palavras, que parecem tão próprias dele: ¶
"Ao dirigir-se a uma congregação, ainda que o orador não consiga dizer mais do que meia dúzia de frases, e essas mal construídas, se seu coração for puro perante Deus, essas poucas frases entrecortadas valem mais do que a maior eloquência sem o Espírito do Senhor, e têm mais valor real aos olhos de Deus, dos anjos e de todos os homens bons. Ao orar, ainda que as palavras de uma pessoa sejam poucas e mal expressas, se o coração for puro perante Deus, essa oração valerá mais do que a eloquência de um Cícero. O que importa ao Senhor, o Pai de todos nós, nosso modo de expressão? O coração simples e honesto vale mais para o Senhor do que toda a pompa, o orgulho, o esplendor e a eloquência produzidos pelos homens. Quando Ele olha para um coração cheio de sinceridade, integridade e simplicidade infantil, Ele vê um princípio que perdurará para sempre — 'Esse é o espírito de meu próprio reino — o espírito que dei a meus filhos'" (Discourses of Brigham Young, sel. John A. Widtsoe [1954], 169). ¶
Uma criança pode fazer as coisas que nos darão poder para nutrir a fé de outros. Crianças poderiam convidar um convertido recente para ir com elas a uma reunião. Crianças poderiam sorrir e cumprimentar um novo membro que chega a uma capela ou a uma classe. Nós também podemos. E, tão certamente quanto o fizermos, o Espírito Santo será nosso companheiro. O medo de não saber o que dizer e de ser rejeitado será tirado de nós. O recém-chegado não nos parecerá um estranho. E o Espírito Santo começará a nutri-lo mesmo antes de termos falado das verdades do evangelho. ¶
Não é necessário um chamado além de ser membro para nutrir alguém, estendendo a mão com bondade. E até mesmo aqueles que não têm chamado para ensinar ou pregar podem nutrir com a boa palavra de Deus, se nos prepararmos para isso. Podemos fazê-lo toda vez que falamos com um novo membro e toda vez que participamos de uma discussão em classe. Cada palavra que dizemos pode fortalecer ou enfraquecer a fé. Precisamos da ajuda do Espírito para dizer as palavras que nutrirão e que fortalecerão. ¶
Há duas grandes chaves para convidar o Espírito a guiar as palavras que dizemos ao alimentar os outros. São o estudo diário das escrituras e a oração de fé. ¶
O Espírito Santo guiará o que dizemos se estudarmos e ponderarmos as escrituras todos os dias. As palavras das escrituras convidam o Espírito Santo. O Senhor disse assim: "Não procures pregar minha palavra, mas primeiro procura obter minha palavra e então tua língua será desatada; e então, se o desejares, terás meu Espírito e minha palavra, sim, o poder de Deus para convencer os homens" (D&C 11:21). Com o estudo diário das escrituras, podemos contar com essa bênção mesmo em conversas casuais ou numa aula, quando um professor nos pedir para responder a uma pergunta. Experimentaremos o poder que o Senhor prometeu: "Nem de antemão vos preocupeis com o que haveis de dizer; mas entesourai sempre em vossa mente as palavras de vida e na hora precisa vos será dada a porção que será concedida a cada homem" (D&C 84:85). ¶
Entesouramos a palavra de Deus não apenas lendo as palavras das escrituras, mas estudando-as. Podemos ser mais nutridos ao ponderar algumas poucas palavras, permitindo que o Espírito Santo as torne tesouros para nós, do que ao passar rápida e superficialmente por capítulos inteiros das escrituras. ¶
Assim como ponderar as escrituras convida o Espírito Santo, também o faz a súplica diária em oração. Se não pedirmos em oração, Ele raramente virá, e, sem nossa súplica, é pouco provável que Ele permaneça. "E o Espírito ser-vos-á dado pela oração da fé; e se não receberdes o Espírito, não ensinareis" (D&C 42:14). A súplica sincera e constante pela companhia do Espírito Santo, com a pura intenção de nutrir os filhos de nosso Pai, certamente trará bênçãos a nós e àqueles que amamos e servimos. ¶
A boa palavra de Deus com a qual devemos nutrir é a simples doutrina do evangelho. Não precisamos temer nem a simplicidade nem a repetição. O próprio Senhor descreveu como essa doutrina entra no coração dos homens e das mulheres para nutri-los: "Eis que em verdade, em verdade vos digo que eu vos declararei minha doutrina. ¶
"E esta é minha doutrina e é a doutrina que o Pai me deu; e dou testemunho do Pai e o Pai dá testemunho de mim e o Espírito Santo dá testemunho do Pai e de mim; e eu dou testemunho de que o Pai ordena a todos os homens, em todos os lugares, que se arrependam e creiam em mim. ¶
"E os que crerem em mim e forem batizados, esses serão salvos; e eles são os que herdarão o reino de Deus. ¶
"E os que não crerem em mim e não forem batizados, serão condenados. ¶
"Em verdade, em verdade vos digo que esta é minha doutrina e dela vos dou testemunho, vindo do Pai; e todo aquele que crê em mim, crê também no Pai; e a ele o Pai dará testemunho de mim, pois visitá-lo-á com fogo e com o Espírito Santo" (3 Néfi 11:31–35). ¶
O Senhor prosseguiu, descrevendo aqueles que seriam nutridos por essa simples doutrina e assim perseverariam, aqueles que herdariam o reino celestial, como os que eram semelhantes a crianças. É preciso um coração infantil para sentir os impulsos do Espírito, render-se a esses mandamentos e obedecer. É isso que é necessário para ser nutrido pela boa palavra de Deus. ¶
E é por isso que podemos ter tanto otimismo em nosso encargo de nutrir os novos membros da Igreja. Por mais ou menos que soubessem da doutrina, eles acabaram de se submeter humildemente à ordenança do batismo e receberam o direito à companhia do Espírito Santo. E assim, a própria ternura de sua fé, que leva o Salvador a chamá-los de cordeiros, surge num momento em que já provaram estar dispostos a fazer o que o Salvador lhes pede. ¶
Se todas as exigências de sua nova condição de membro forem explicadas com clareza e amor, se a oportunidade de servir na Igreja for oferecida com sabedoria e seu desempenho nesse serviço for julgado com caridade e nutrido com paciente encorajamento, eles serão fortalecidos pela companhia do Espírito Santo e, então, serão nutridos por um poder além do nosso. À medida que perseverarem, nem mesmo as portas do inferno prevalecerão contra eles. ¶
Brigham Young fez a promessa de como sua força para permanecer firmes cresceria, nestas palavras: ¶
"Aqueles que se humilham perante o Senhor e O esperam com um coração perfeito e uma mente disposta receberão pouco a pouco, linha por linha, preceito sobre preceito, aqui um pouco e ali um pouco, 'agora e outra vez', como diz o irmão John Taylor, até receberem certa quantidade. Então precisam nutrir e apreciar o que recebem, e torná-lo seu companheiro constante, encorajando todo bom pensamento, doutrina e princípio, e fazendo toda boa obra que puderem realizar, até que, pouco a pouco, o Senhor se torne neles uma fonte de água que jorra para a vida eterna" (em Journal of Discourses, 4:286–87). ¶
É isso o que significa em Morôni quando diz: "Confiando somente nos méritos de Cristo, autor e aperfeiçoador de sua fé" (Morôni 6:4). É o Salvador quem tornou possível nossa purificação por meio de Sua Expiação e de nossa obediência a Seus mandamentos. E é o Salvador quem nutrirá aqueles que descerem em fé às águas do batismo e receberem o dom do Espírito Santo. Quando sempre se lembrarem d'Ele, e quando continuarem em obediência infantil, é Ele quem assegurará que tenham Seu Espírito sempre com eles. ¶
Vocês e eu podemos, e vamos, por meios pequenos, fazer parte de uma grande obra. Estudaremos, oraremos e serviremos para nos qualificarmos para a companhia do Espírito Santo. Então nos será permitido ver os novos membros como filhos preciosos e amados de nosso Pai Celestial, e seremos guiados a nutri-los com amor, com oportunidade de servir e com a boa palavra de Deus. E então veremos, em nosso próprio tempo, o que o grande missionário Amon descreveu a seus companheiros missionários, assim como agora somos companheiros dos missionários que trabalham em todo o mundo: ¶
"Eis que o campo estava maduro e abençoados sois por haverdes usado a foice e segado com vigor; sim, haveis trabalhado o dia todo e eis o número de vossos feixes! E serão recolhidos aos celeiros, para que não sejam desperdiçados. ¶
"Sim, não serão abatidos pela tempestade no último dia; sim, nem perturbados pelos furacões; mas quando vier a tempestade, serão reunidos em seu lugar para que a tempestade não os possa atingir; sim, nem serão impelidos pelos ventos fortes para onde o inimigo queira levá-los. ¶
"Mas eis que estão nas mãos do Senhor da colheita e pertencem-lhe; e ele levantá-los-á no último dia" (Alma 26:5–7). ¶
Podemos, por simples obediência, ajudar o Senhor a tomar os cordeiros, Seus cordeiros, em Suas mãos, e levá-los em Seus braços para casa, para o Pai deles e nosso Pai. Sei que Deus derramará os poderes do céu sobre nós à medida que nos unirmos para preservar essa sagrada colheita de almas. ¶
Sei que Jesus é o Cristo. Sei que Ele vive. E sei que Ele guia Seus missionários e que Ele nos guia nesta obra — Sua obra — para realizar a vida eterna dos filhos de Seu Pai. Em nome de Jesus Cristo, amém. ¶