Purificados
Boyd K. Packer
Minha mensagem é para nossos jovens. Temos grande preocupação com os jovens que crescem sem ter valores em que possam basear sua conduta. Há muito tempo acredito que o estudo das doutrinas do evangelho trará uma melhora de comportamento mais rápido do que ficar falando sobre comportamento. ¶
O estudo do comportamento progride muito quando é relacionado a padrões e valores. Encontramos valores práticos, úteis na vida diária, nas escrituras e nas doutrinas que elas revelam. Vou dar-lhes um exemplo: “Cremos que, por meio do Sacrifício Expiatório de Cristo, toda a humanidade pode ser salva pela obediência às leis e ordenanças do Evangelho”.1 ¶
Vocês devem aprender na juventude que o Sacrifício Expiatório de Cristo se aplica a toda a humanidade, mas sua influência é individual, muito pessoal e muito eficaz. Mesmo para aqueles, que ainda estão principiando na vida, a compreensão do Sacrifício Expiatório é de utilidade prática e imediata na vida diária. ¶
Há mais de 50 anos, na 2ª Guerra Mundial, tive uma experiência. A tripulação de nosso bombardeiro tinha sido treinada em Langley Field, na Virginia, para usar a mais moderna invenção: o radar. Fomos mandados para a costa oeste dos EUA e de lá para as ilhas do Pacífico. ¶
Viajamos em um trem de carga provido de beliches fixos à parede, que eram armados à noite. Não havia carro-restaurante. Havia cozinhas de campanha em vagões de carga, cujo chão era sujo. ¶
Estávamos usando os uniformes claros de verão. O vagão que levava nossa bagagem tomou um desvio e por isso não pudemos trocar de roupa nos seis dias de viagem. Fazia muito calor enquanto cruzávamos o Texas e o Arizona. A fumaça e as cinzas que vinham da locomotiva tornavam a viagem muito desconfortável. Não tínhamos como tomar banho nem lavar o uniforme. Certa manhã, nosso grupo, um bando de soldados muito sujos, desceu em Los Angeles com ordens de voltar para o trem à noite. ¶
A primeira coisa em que pensamos foi comida. Juntamos o dinheiro dos 10 integrantes de nossa tripulação e fomos para o melhor restaurante que encontramos. ¶
Estava lotado e, portanto, tivemos de entrar em uma longa fila de espera para conseguir uma mesa. Eu era o primeiro da turma e estava logo atrás de um grupo de mulheres bem vestidas. Sem sequer ter olhado para trás, a mulher elegante a minha frente notou nossa presença. ¶
Ela virou-se e olhou para nós. Depois, virou-se e examinou-me de alto a baixo. Lá estava eu em um uniforme suado, sujo, coberto de cinzas e todo amarrotado. Ela disse em tom de repulsa: “Puxa! Que homens mais sujos!” Todos olharam para nós. ¶
É claro que ela preferia que não estivéssemos ali, e eu também. Senti o quanto estava sujo, sem jeito e envergonhado. ¶
Tempos depois, quando comecei a estudar as escrituras seriamente, percebi que havia várias referências a ser espiritualmente limpo. Certo versículo diz: ¶
“( … ) seríeis mais miseráveis habitando com um Deus santo e justo, conscientes de vossa imundície perante Ele, do que se habitásseis com as almas condenadas, no inferno.”2 ¶
Eu entendi isso muito bem. Lembrei-me do que sentira naquele dia em Los Angeles e cheguei à conclusão de que a impureza espiritual me faria sentir vergonha e humilhação infinitamente maiores do que havia sentido naquela ocasião. Encontrei referências — existem no mínimo oito — que dizem que nada impuro pode habitar na presença de Deus.3 Eu sabia que essas referências não diziam respeito a roupas e mãos sujas e decidi que desejava manter-me espiritualmente limpo. ¶
A propósito, naquele mesmo dia, fomos passear de barco no Griffith Park. Estávamos brincando de balançar o barco e é claro que ele virou. Chegamos sãos e salvos à margem e acabamos secando-nos ao Sol. Quando voltamos para o trem, estávamos limpos. ¶
Aprendi que se eu deixasse de viver como deveria, voltar a ficar limpo espiritualmente não seria algo tão fácil quanto tomar um banho, vestir roupas limpas ou cair de uma barco. ¶
Se há uma coisa que aprendi a respeito do grande plano de felicidade é que estamos na Terra para ser provados. Todos cometeremos erros. O Apóstolo João ensinou: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós”. Felizmente, ele acrescentou: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça”.4 Chamou-me a atenção a palavra purificar. ¶
Concluí que o arrependimento, assim como o sabão, deve ser usado com freqüência. Descobri que quando pedia perdão pelos erros que havia cometido as coisas ficavam melhores. Para erros graves, entretanto, pedir perdão não é o suficiente e, às vezes, nem mesmo possível. Apesar de a maioria de meus erros não terem sido sérios, sempre foram acompanhados do sofrimento espiritual chamado culpa. Cedo ou tarde eles precisariam ser consertados, mas eu não sabia o que fazer. Isso é o que acontece quando estragamos algo que não podemos consertar sozinhos. ¶
Jovens, há entre vocês os que, como disse Pedro, estão “enfadados da vida dissoluta dos homens abomináveis”.5 Alguns de vocês fazem piada dos padrões e não vêem a necessidade de mudar de comportamento. Dizem a si mesmos que isso não tem importância já que “todo mundo faz o mesmo”. ¶
Isso não funciona, porque vocês são bons por natureza. Quantas vezes já ouviram alguém que fez algo de generoso, heróico ou que simplesmente ajudou outrem dizer o quanto se sentiu bem com o que fez? Essa reação é tão natural quanto qualquer de seus sentimentos ou emoções. Tenho certeza que já sentiram isso! A felicidade está inseparavelmente ligada ao comportamento decente e limpo. ¶
O profeta Alma disse francamente a seu filho rebelde que devido a suas transgressões ele estava “num estado contrário à natureza da felicidade” e que “iniqüidade nunca foi felicidade”.6 Quem não sabe como apagar os erros freqüentemente se sente encurralado, se rebela e se perde em uma vida dissoluta. Se vocês andarem na companhia de transgressores, seu sofrimento será bem maior do que o meu naquele dia no restaurante. ¶
Vocês podem consertar a maior parte de seus erros sozinhos, por meio da oração e do arrependimento. Para os erros mais graves, precisam de ajuda. Sem ajuda, vocês são comparáveis a uma pessoa que não pode ou não quer tomar banho nem vestir roupas limpas. O caminho que precisam seguir está indicado nas escrituras. Leiam as escrituras e sua fé em Cristo aumentará. Escutem quem conhece o evangelho. ¶
Vocês aprenderão sobre a Queda do homem, o propósito da vida, o bem e o mal, as tentações, o arrependimento e a maneira como o Espírito do Senhor trabalha. Leiam o que Alma disse sobre seu próprio arrependimento: “( … ) já não me lembrei de minhas dores; sim, já não fui atormentado pela lembrança de meus pecados”.7 ¶
Ouçam o Senhor dizer: “Eis que o que se tem arrependido de seus pecados, o mesmo é perdoado, e Eu, o Senhor, deles não mais Me lembro”.8 A doutrina do evangelho modifica o comportamento com mais rapidez do que ficar falando sobre comportamento. ¶
Foi por meio da leitura das escrituras e de um ouvido atento que consegui compreender, ainda que parcialmente, o poder do Sacrifício Expiatório. Vocês podem imaginar o que senti quando finalmente percebi que se eu obedecesse às condições estabelecidas pelo Redentor, quaisquer que fossem, eu nunca precisaria passar pela agonia de ser espiritualmente impuro? Imaginem a sensação de consolo, libertação e imensa alegria que terão quando perceberem a realidade do Sacrifício Expiatório e o valor que ele tem na vida diária de cada um de vocês. ¶
Não precisam conhecer todas as coisas para que o poder da Expiação aja em vocês. Tenham fé em Cristo e ela começará a agir no momento em que pedirem! A escritura fala de “obediência às leis e ordenanças do evangelho”.9 Todos sabemos muito bem o que é obedecer a leis. Mas como obedecemos a ordenanças? ¶
Geralmente pensamos que, desde que nos arrependamos, a ordenança do batismo purifica-nos dos pecados. Algumas pessoas questionam-se, imaginando que talvez tenham sido batizadas cedo demais. Desejam poder batizar-se hoje e começar de novo, puros. Isso não é preciso! Por meio da ordenança do sacramento vocês renovam os convênios feitos no batismo. Se cumprirem todas as condições do arrependimento, não importando o quanto isso seja difícil, serão perdoados e seus pensamentos não mais serão perturbados por suas transgressões. ¶
O Presidente Joseph F. Smith tinha seis anos quando seu pai, Hyrum, foi morto na cadeia de Carthage. Joseph atravessou as planícies com a mãe viúva. Aos dezesseis anos foi chamado para uma missão no Havaí. Sentiu-se perdido e solitário. Ele disse: “( … ) sentia-me muito oprimido. ( … ) estava quase desprotegido e inteiramente sem amigos, exceto pela amizade de um povo pobre [e] ignorante ( … ) Na minha condição de pobreza, falta de inteligência e conhecimento, sentia-me tão humilhado como se fosse um menino, que dificilmente ousaria olhar [alguém] no rosto”. ¶
Enquanto ponderava sobre sua condição, o jovem élder teve um sonho que foi “uma coisa muito positiva; foi uma realidade”. Sonhou que viajava, correndo o mais rápido que podia. Carregava uma pequena trouxa. Finalmente, chegou a uma mansão maravilhosa, que era seu destino. Quando se aproximava, viu um aviso que dizia: “Banheiro”. Desviou-se rapidamente do caminho, entrou e lavou-se até ficar limpo. Abriu sua trouxa e encontrou roupas brancas e limpas, “uma coisa”, disse ele, “que eu não via há muito tempo”. Vestiu-as e correu para a porta da mansão. ¶
“Bati”, disse, “e a porta se abriu; o homem que estava ali era o Profeta Joseph Smith. Ele olhou-me com um pouco de reprovação e suas primeiras palavras foram: ‘Joseph, você está atrasado’( … ) eu confiante disse: “Sim, mas estou limpo — estou limpo!”10 O mesmo pode acontecer com vocês. ¶
Digo-lhes outra vez que o conhecimento dos princípios e doutrinas do evangelho terão mais efeito sobre seu comportamento do que ficar falando sobre comportamento. ¶
Escolhi o Sacrifício Expiatório como um exemplo entre muitos. O evangelho de Jesus Cristo tem valores que podemos usar para construir uma vida feliz. ¶
Presto-lhes meu testemunho de que nosso Pai Celestial vive. O Sacrifício Expiatório de Cristo pode abençoar-lhes na vida. Quisera poder dizer-lhes o que a Expiação significa para mim. Tentei fazê-lo, certa vez, por escrito e encerro com estes versos: ¶
Na antigüidade o brado “imundo” ¶
contra os leprosos prevenia. ¶
“Imundo! Imundo!” ressoava, ¶
E o povo todo, então, fugia. ¶
Pois quem o leproso tocasse ¶
Da lepra não escaparia. ¶
Num tempo em que não havia cura, ¶
Somente lenta agonia. ¶
Sabões, ungüentos e remédios ¶
Não podiam o mal e a dor sanar. ¶
Não havia bálsamo nem banho ¶
Que os pudesse curar. ¶
Mas fala, a História, de um Homem ¶
Que com um toque purificador ¶
Restaurava-lhes a carne ¶
Dava fim à imensa dor. ¶
Cumprindo a antiga profecia, ¶
A uma mulher nasceu, ¶
Trazendo purificação, ¶
Ele, o Filho de Deus. ¶
O objetivo de Sua vida ¶
Bem simbolizou ¶
Quando curou os dez leprosos ¶
E os purificou ¶
Para Homem assim, era pouco ¶
Tal milagre realizar: ¶
Do opróbrio, morte e pecado ¶
Viera os homens salvar. ¶
Ainda maiores milagres, ¶
Seus servos viriam a fazer: ¶
Não viera curar uns poucos, ¶
Mas todas as almas socorrer. ¶
Da morte fomos redimidos, ¶
Mas só poderemos entrar ¶
Quando não houver mais pecados ¶
A nossa alma a manchar. ¶
Sem ajuda, porém, não podemos ¶
Da impureza nos livrar: ¶
Segundo a lei, o pecado, ¶
Só o Puro pode expiar. ¶
Disse que a misericórdia ¶
Faz a justiça absolver ¶
A todo o que for batizado ¶
E o Evangelho viver. ¶
Do que vimos e ouvimos ¶
Todo o significado ¶
É não haver dom maior ¶
que o de ser purificado.”11 9 ¶
Notes
-
Regras de Fé 1:3 ↩
-
Ver 1 Né. 10:1; 15:34; Alma 7:21; 11:37; 40:26; 3 Né. 27:19; D&C 94:9; Moisés 6:57. ↩
-
I João 1:8–9 ↩
-
II Pe. 2:7 ↩
-
Alma 41:10–11 ↩
-
Alma 36:19 ↩
-
D&C 58:42; ver também Hb. 8:12; 10:17. ↩
-
Regras de Fé 1:3 ↩
-
Joseph F. Smith, Doutrina do Evangelho, 1975, p. 482. ↩
-
Boyd K. Packer, "Washed Clean" (Purificado) ↩