\"Participantes das Glórias\"
Elaine L. Jack
Nas planícies do Paraguai há uma pequena vila chamada Mistolar. Situa-se numa vasta extensão de terra às margens do Rio Pilcomayo. ¶
Lá, nessa pequena comunidade agrícola, existe um ramo da Igreja. Em junho de 1987, com o degelo da neve dos Andes, o rio que servia de fonte d’água para suas plantações foi também a causa de sua destruição. Ele transbordou, não uma, mas duas vezes, obrigando os santos a fixarem residência noutro lugar em ambas as ocasiões. Eles perderam tudo: a capela, as casas, hortas e cercas. Durante um mês, tiveram que andar com água até os joelhos, simplesmente tentando sobreviver. ¶
A Presidência de Área, quando soube dessa situação difícil, enviou suprimentos, e o Élder Ted E. Brewerton, do Quórum dos Setenta, foi quem guiou o grupo de resgate numa estafante viagem de dois dias. ¶
Quando os participantes do grupo chegaram ao local, foram recebidos calorosamente pelas mulheres e crianças, pois a maioria dos homens estava fora, caçando e pescando. As pessoas tinham poucos alimentos e roupas para enfrentar o clima frio do inverno, e os únicos animais que haviam sobrevivido resumiam-se em três ovelhas, algumas galinhas, um bode e um cachorro magricela. À noite, a casa improvisada, feita de junco, oferecia muito pouca proteção. ¶
A situação era realmente desoladora. No entanto, os habitantes da vila sorriam. A paz que deles emanava contrastava vividamente com a situação precária em que se encontravam. ¶
Como faziam para manter o espírito elevado nessa situação difícil? A resposta surgiu quando o Élder Brewerton perguntou ao jovem presidente do ramo: “Há alguma pessoa doente entre os membros?” ¶
O jovem líder do sacerdócio fez uma pausa e disse: “Acho que não; vou perguntar aos outros”. Alguns minutos mais tarde, respondeu: “Temos trinta e nove portadores do Sacerdócio de Melquisedeque. Nós zelamos pelo nosso povo e o abençoamos”. ¶
Naquela noite, na reunião do ramo, uma irmã proferiu a seguinte oração, que o Élder Brewerton jamais esquecerá: “Pai, perdemos nossa linda capela e nossas roupas. Não temos mais casa, tampouco material para construir qualquer coisa. Precisamos caminhar dez quilômetros para beber um pouco de água suja do rio e não temos sequer um balde. Mas queremos expressar nossa gratidão a Ti pela boa saúde que gozamos, pela nossa felicidade e por sermos membros da Igreja. Pai, desejamos que Tu saibas que, em qualquer situação, seremos leais, fortes e fiéis aos convênios que fizemos quando fomos batizados”. (Ver Heidi S. Swinton, Pioneer Spirit, [1996, pp. 8-11]) ¶
Quando os santos de Mistolar perderam tudo o que tinham, agarraram-se com firmeza ao poder do sacerdócio e a suas bênçãos espirituais. (Ver D&C 107:18.) Posso imaginar aquela irmã da Sociedade de Socorro levantando-se para agradecer ao Senhor por tudo que possuíam. Eles não tinham praticamente nada — nem um balde. Tinham, contudo, seus convênios, um compromisso com Cristo, e eram membros da Igreja. Sentiam-se abençoados por serem “participantes das glórias”. Em Doutrina e Convênios, lemos: “(…) Bem-aventurado és tu por teres recebido o Meu eterno convênio, a plenitude do Meu evangelho, enviado aos filhos dos homens, para que (…) se tornem participantes das glórias que estão para serem reveladas nos últimos dias, (…)”. (D&C 66:2) ¶
Tenho um firme testemunho do poder do sacerdócio na vida de todos os membros da Igreja. Em Doutrina e Convênios, lemos que o Sacerdócio de Melquisedeque “ [possui] as chaves de todas as bênçãos espirituais da igreja”. (D&C 107:18) Eu sei que o poder e autoridade de Deus na Terra abençoam nossa vida e ajudam-nos a conectar nossas experiências terrenas à eternidade. Quando recebemos as bênçãos do sacerdócio, estamos também recebendo o poder e a graça de Deus. ¶
O Presidente Joseph Fielding Smith disse: “(…) O Sacerdócio é dado com duas finalidades: primeiro, para que nós mesmos possamos receber exaltação e, segundo, para que sejamos intermediários ajudando os outros a obter tais bênçãos”. (O Caminho da Perfeição, p. 199) ¶
Há ordem no trabalho de Deus. Numa das primeiras reuniões da Sociedade de Socorro, há 154 anos, o Profeta Joseph Smith deu às irmãs o encargo de ajudar a salvar almas. (Ver Atas da Sociedade de Socorro, 9 de junho de 1842 LDS Church Archives.) Nosso propósito não mudou. Acho interessante notar que as mulheres foram organizadas sob a autoridade do sacerdócio. Apoiamos o sacerdócio e somos apoiadas por seu poder. As irmãs da Igreja, como aquela irmã de Mistolar, apreciam muito a oportunidade de serem totalmente participantes das bênçãos espirituais do sacerdócio. ¶
Cada um de nós pode ser guiado e abençoado em seu progresso eterno, recebendo essas bênçãos. As ordenanças, convênios, selamentos e o dom do Espírito Santo são essenciais para a exaltação. Há também um grande número de bênçãos específicas do sacerdócio. Elas nos orientam, elevam nossa visão, encorajam-nos, inspiram; fazem-nos lembrar de nosso compromisso. Todos nós podemos usufruir essas bênçãos espirituais. ¶
O batismo é a ordenança fundamental do sacerdócio, que abre a porta da vida eterna para cada um de nós. Serve de padrão para avaliarmos nossas bênçãos, pois nele começa nossa responsabilidade de seguir a Jesus Cristo e viver Seu evangelho. Depois, todas as semanas, quando participamos do Sacramento, somos lembrados de que devemos “recordá-Lo sempre”. Que bênção é termos essa lembrança visual! ¶
Quando somos confirmados, o céu se abre e recebemos o dom do Espírito Santo. Pelo Espírito, e por causa Dele, as bênçãos do sacerdócio fluem em nossa vida. O Espírito Santo ajuda-nos, guiando-nos, permanecendo conosco, trazendo-nos paz, testificando-nos a verdade e prestando testemunho de Jesus Cristo. Essas bênçãos espirituais dirigem o curso de nossa vida. E as pessoas que nos cercam tornam-se mais ricas nas coisas pertinentes ao Espírito, pois as bênçãos se ampliam quando compartilhadas. ¶
Quando, pela imposição das mãos, recebo uma bênção pessoal do sacerdócio, sinto o amor do Salvador envolver-me. Sei que o irmão que está ministrando a bênção está agindo em nome do Senhor. Em Mistolar, trinta e nove homens eram portadores do Sacerdócio de Melquisedeque e utilizaram-no para abençoar o povo. ¶
Quando eu era criança, recebi uma bênção de cura que atribuo ao poder do sacerdócio e à fé dos meus pais. Lembro-me nitidamente das mãos de meu avô sobre minha cabeça, há vários anos, quando, como patriarca, deu-me uma bênção que me serviu de guia, um registro das promessas que se realizariam em minha vida se eu permanecesse fiel. ¶
Depois de ser designada, percebo uma nítida diferença na minha maneira de encarar um chamado. Alguns chamados causam grande surpresa. Fico pensando por que me chamaram, o que devo fazer, quem deve me ajudar. Lembro-me da paz que minhas conselheiras e eu sentimos ao sermos designadas oficiais gerais da Sociedade de Socorro pela Primeira Presidência. A ocasião foi formal, porém calorosa. Chamaram-me pelo meu nome completo e, em seguida, num momento de calma concentração, ouvi sábios conselhos e palavras de orientação. ¶
Senti o mesmo espírito suave quando meu marido Joe foi ordenado bispo, e mais uma vez na ocasião em que ele deu uma bênção paterna a nosso filho mais velho, Dave, quando foi enviado para o Golfo Pérsico. Dave, por sua vez, abençoou a esposa e a filhinha. Isso nos trouxe muito conforto naquela época tão assustadora. ¶
Esta manhã, pedi a meu marido uma bênção especial, como fecho de minha preparação para falar a vocês. É difícil expressar minha reação às palavras do Senhor: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; (…)”. (João 14:27) ¶
Os dons espirituais são bênçãos extraordinárias do sacerdócio. Eles aumentam nossa capacidade, conforme os desenvolvemos recorrendo aos tesouros celestes. Um dos dons que valorizo muito é o do discernimento» Quando o Senhor conversou com a mulher, junto à fonte de Jacó, ofereceu-lhe “uma fonte de água que [saltava] para a vida eterna”. Ele percebeu as necessidades dela. Suas palavras surpreenderam-na: “Vai, chama o teu marido, e vem cá”. A mulher respondeu: “Não tenho marido”, e Jesus disse: “Disseste bem (…). Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta”. (Ver João 4:14-19) ¶
Muitas mulheres têm o dom do discernimento. Muitas vezes abençoadas com um poder de entendimento que vai além do que lhes permitiria sua experiência, recorrem a essa força quando visitam, mensalmente, o lar das irmãs a fim de avaliarem suas necessidades, conforme orientadas pelo bispo. Utilizamos discernimento quando educamos nossos filhos e ensinamos-lhes o evangelho. Discernimos, pelo poder de Deus que nos foi dado por intermédio de Seu Espírito, que “uma só [coisa] é necessária”. (Lucas 10:42) Nada que fizermos será mais importante do que cultivar a retidão em nosso lar. ¶
Discernimento é algo essencial hoje em dia. O Presidente Boyd K. Parker disse: “Precisamos de mulheres que possam decidir-se pelas posições que, embora não sejam as mais populares, sejam as corretas”. (A Liahona, abril 1979, p. 11) Isso é exatamente aquilo de que precisamos. ¶
O templo é um local inigualável para se receber bênçãos do sacerdócio. Nessa casa sagrada, somos investidos individualmente e, depois, selados como família para a eternidade. A autoridade do sacerdócio garante que os convênios que fazemos no templo sejam eternos. Os dons da exaltação intensificam a parceria entre o homem e a mulher quando eles fazem convênios e compartilham as bênçãos do templo. Quando vamos a essa casa santa, somos abençoados com conhecimento das “(…) coisas como realmente são e de coisas como realmente serão (…)”. (Jacó 4:13) ¶
Uma Presidente da Sociedade de Socorro de Gana entendeu as “glórias” relacionadas com o templo. Ao falar a alguns visitantes de sua ala, pegou um pequeno papel dobrado na bolsa e disse com reverência: “Possuo uma recomendação para o templo”. Podem-se passar muitos anos até que essa irmã consiga ir a Londres ou a Johannesburgo, mas ela possui algo que a faz lembrar-se de sua dignidade e desejo de ir à casa do Senhor. Deus não pede mais nada. (Ver A Liahona, outubro de 1996, p. 38) ¶
Temos sido ensinados nesta conferência por profetas, videntes e reveladores, além de Autoridades Gerais que possuem o sacerdócio de Deus. Suas mensagens são para todos os membros da Igreja. Quando temos “ouvidos para ouvir” (ver Mateus 11:5), entendemos que o Senhor está dizendo: “(…) seja pela Minha própria voz, ou pela de Meus servos, não importa”. (D&C 1:38) ¶
Presto-lhes meu testemunho de que sei que esta Igreja é guiada por um profeta de Deus, o Presidente Gordon B. Hinckley. A administração da Igreja, tanto em nível geral como local, evidencia a bênção do sacerdócio, pois esta é A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e Ele dirige esta obra. O Senhor disse: “(…) que se confortem os vossos corações no que diz respeito a Sião; pois toda a carne está em Minhas mãos; sossegai e sabei que Eu sou Deus”. (D&C 101:16) ¶
Os santos de Mistolar conheciam Deus. Tinham testemunho do evangelho. Eram participantes das várias bênçãos espirituais dadas pelo poder do sacerdócio e descritas na Seção 84 de Doutrina e Convênios, onde lemos: ¶
“E também todos os que recebem este Sacerdócio, a Mim Me recebem, diz o Senhor; ¶
Pois aquele que recebe os Meus servos, a Mim Me recebe; ¶
E aquele que Me recebe a Mim, recebe o Meu Pai; ¶
E aquele que recebe o Meu Pai, recebe o reino de Meu Pai (…).” (D&C 84:35-38) ¶
Oro para que todos nós sejamos “participantes das glórias” no reino do Pai. Em nome de Jesus Cristo, meu Salvador. Amém. ¶