Um Punhado de Farinha e um Pouco de Azeite
Jeffrey R. Holland
Damos as boas-vindas aos Irmãos recém-apoiados e suas esposas ao doce convívio das Autoridades Gerais e suas famílias. ¶
Em resposta à grande iniqüidade do Rei Acabe, o Senhor, por meio do profeta Elias, selou os céus para que nem orvalho nem chuva caíssem sobre toda a terra de Israel. A seca e a fome que se seguiram afetaram o próprio profeta Elias e inúmeras outras pessoas fiéis. ¶
Os corvos levavam pão e carne para Elias, o profeta, mas a não ser que corvos carreguem mais do que imagino, aquela não era uma refeição adequada. E logo depois o ribeiro de Querite, perto do qual o profeta Elias se escondera e do qual bebia, secou. E assim permaneceu por três anos. ¶
Quando o profeta se preparava para o confronto final com Acabe, Deus ordenou-lhe que fosse à vila de Sarepta onde, segundo Ele, uma viúva recebera ordem de alimentá-lo. ¶
Ao entrar na cidade, extenuado, o profeta Elias encontrou sua benfeitora, que estava indubitavelmente tão fraca e debilitada quanto ele. Como que se desculpando, o viajante sedento pediu: “Traze-me, peço-te, num vaso um pouco de água que beba”. Quando ela se voltou para atender ao pedido, Elias fez mais uma súplica: “Traze-me agora também um bocado de pão na tua mão”. ¶
A situação deplorável de Elias era óbvia. Além disso, a viúva fora preparada pelo Senhor para receber o pedido. Mas, estando ela própria enfraquecida e desanimada, a última solicitação do Profeta foi mais do que aquela mulher fiel podia suportar. Com fome, fadiga e angústia maternal, ela clamou ao estranho: “Vive o Senhor teu Deus, que nem um bolo tenho, senão somente um punhado de farinha numa panela, e um pouco de azeite numa botija; e vês aqui apanhei dois cavacos (o que demonstra quão pequena devia ser a fogueira), e vou prepará-lo para mim e para o meu filho, para que o comamos, e morramos”. ¶
Mas o profeta Elias encontrava-se numa missão para o Senhor. O futuro de Israel — incluindo o daquela viúva e de seu filho — estava em jogo. Seu dever profético tornou-o mais audacioso do que normalmente desejaria ser. ¶
“Não temas”, disse ele à viúva, “porém, faze dele primeiro para mim um bolo pequeno, e traze-mo aqui; depois farás para ti e para teu filho. ¶
Porque assim diz o Senhor Deus de Israel: A farinha da panela não se acabará, e o azeite da botija não faltará até ao dia em que o Senhor dê chuva sobre a terra”. ¶
E seguiu-se então uma demonstração de fé a que não se deu ênfase — mas tão grandiosa, naquelas circunstâncias, quanto qualquer outra encontrada nas escrituras. O registro diz apenas: “E ela foi e fez conforme a palavra de Elias”. Talvez incerta quanto ao que sua fé custaria, não apenas para si própria, mas também para seu filho, ela levou o pequeno bolo primeiro a Elias, obviamente confiando que, se não restasse pão suficiente, ao menos ela e seu filho morreriam praticando um ato de pura caridade. A história leva, é claro, a um final feliz para a viúva e o filho.1 ¶
Infelizmente, os nomes dessas duas mulheres não estão registrados nas escrituras, mas se eu tiver o privilégio de encontrá-las nas eternidades, gostaria de cair a seus pés e dizer: “Obrigado”. Obrigado pela beleza de suas vidas, pela maravilha de seu exemplo, pelo espírito divino que provocou “o amor de um coração puro”.3 ¶
Há um momento particularmente condenável no Livro de Mórmon, no qual um grupo de zoramitas inúteis e anticristãos, após subirem ao Rameumptom e declararem sua posição preferencial diante de Deus, passaram imediatamente a expulsar os pobres de suas sinagogas, as quais esses necessitados haviam construído com as próprias mãos. Foram expulsos, diz a revelação, simplesmente por causa de sua pobreza. Em uma pungente passagem de escritura, que descreve de modo definitivo a verdadeira dor e aflição dos depauperados, diz o Livro de Mórmon: “Eram pobres quanto às coisas do mundo; eram também humildes de coração”. Na verdade, eram “humildes de coração por causa da sua pobreza quanto às coisas do mundo”.5 ¶
Em oposição direta à arrogância e rejeição demonstradas pelos zoramitas para com essas pessoas, Amuleque profere um comovente discurso sobre a Expiação de Jesus Cristo. Ensinando que o dom de Cristo seria “infinito e eterno”, uma oferta a todo homem, mulher e criança que tenha vivido neste mundo, ele também prestou testemunho da misericórdia desse dom. Alistou todas as maneiras de orar a Deus e todos os lugares onde deveríamos fazê-lo para obter a misericórdia expiatória, “pelo vosso bem-estar”, disse ele, “bem como pelo bem-estar de todos os que vos rodeiam”.6 ¶
Mas esse magnífico discurso sobre a Expiação não acaba aí. Com grande integridade, Amuleque fala aos que orarem fervorosamente: “Não penseis que isto é tudo; porque depois de haverdes feito todas estas coisas, se negardes ajuda aos necessitados e aos nus e não visitardes os doentes e aflitos nem repartirdes o vosso sustento, se o tendes, com os que necessitam — digo-vos, se não fizerdes qualquer destas coisas, eis que vossa oração é vã e de nada vos vale e sois como os hipócritas que negam a fé”.7 Se essa é a mensagem para os que tinham tão pouco, o que deve significar para nós? ¶
Amuleque utiliza aqui a mesma lógica divina que o Rei Benjamim usou cinqüenta anos antes. Após ensinar ao povo de Zaraenla sobre a Queda de Adão e a Expiação de Jesus Cristo, Benjamim presenciou a congregação cair literalmente por terra, vendo a si mesmos em um estado de grande necessidade, vendo a si mesmos, disse ele, como menos ainda que o pó da Terra. (A diferença entre essa reação e a reação ocorrida no Rameumptom é clara.) ¶
Com esse povo tão humilde e doutrinável, e com misericórdia, a mais amável de todas as palavras em todas as línguas, o Rei Benjamim fala da expiação e da remissão dos pecados: ¶
“Se Deus, que vos criou, de quem depende vossa vida e tudo o que tendes e sois, concede-vos todas as coisas justas que pedis ( … ) oh! então, quanto mais não deveríeis repartir os vossos bens uns com os outros!” “Socorrereis os que necessitarem de vosso socorro; dareis de vossos bens aos necessitados.” “Não somos todos mendigos? Não dependemos todos do mesmo ser, sim, de Deus, para obter todos os bens que temos?” ¶
“Para conservardes a remissão de vossos pecados”, conclui o Rei Benjamim, “( … ) quisera que repartísseis vossos bens com os pobres, cada um de acordo com o que possui, alimentando os famintos, vestindo os nus, visitando os doentes e aliviando-lhes os sofrimentos, tanto espiritual como materialmente, conforme as carências deles”.9 ¶
Talvez ainda não sejamos a Sião que os profetas previram e não estejamos na direção indicada pelos poetas e sacerdotes de Israel, mas nós a desejamos e prosseguimos trabalhando nesse sentido. Não sei se a perfeita implantação de tal sociedade poderia ser realizada até a vinda de Cristo, mas sei que quando Ele esteve entre os Nefitas, Seus ensinamentos grandiosos e Seu espírito edificante levaram-nos à mais feliz das épocas, uma época durante a qual “não havia contendas nem disputas entre eles; e procediam retamente uns com os outros. E tinham todas as coisas em comum; portanto não havia ricos nem pobres nem escravos nem livres, mas eram todos livres e participantes do dom celestial”.10 Essa condição afortunada repetiu-se, suponho, somente em uma ocasião — quando, na cidade de Enoque, “(o povo) era uno de coração e vontade e vivia em justiça; e não havia pobres entre eles”.11 ¶
O Profeta Joseph Smith tinha essa visão grandiosa de nossas possibilidades, uma visão que lhe foi concedida pelas revelações de Deus. Ele sabia que o verdadeiro desafio residia em ser mais semelhante a Cristo — importar-se como o Salvador, amar como Ele, “todo homem procurando os interesses do seu próximo”, diz a escritura, “e fazendo tudo com os olhos fitos só na glória de Deus”.12 ¶
Presto homenagem a todos vocês, a todos os que trabalham, preocupam-se e esforçam-se tanto “com o fito de praticar o bem”. Há tantos que são tão generosos! Sei que alguns de vocês se esforçam para viver com o que ganham e, ainda assim, encontram o que compartilhar. Como alertou o Rei Benjamim a seu povo, não se exige que corramos mais rapidamente do que o permitam nossas forças, e todas as coisas devem ser feitas em ordem.14 Amo vocês, e o Pai Celestial também os ama, por tudo o que estão tentando fazer. ¶
Além disso, sei que um discurso de conferência geral não modificará séculos da desigualdade material que flagela a humanidade, mas sei também que o evangelho de Jesus Cristo tem a resposta para todos os problemas sociais, políticos e econômicos que este mundo já enfrentou. E sei que podemos fazer alguma coisa, não importando o quão insignificante possa parecer. Podemos pagar um dízimo honesto e contribuir com ofertas de jejum e outras, conforme nossas condições. E podemos procurar outras formas de prestar ajuda. Se não temos dinheiro, podemos dedicar tempo a causas dignas e pessoas necessitadas, ou podemos dar-lhes nosso amor quando nosso tempo acabar. Podemos partilhar os pães que tivermos, confiando que Deus não permitirá que o azeite falte. ¶
“E assim, em sua prosperidade, não deixavam de atender a quem quer que estivesse nu ou faminto ou sedento ou doente ou que não tivesse sido alimentado; e o seu coração não estava nas riquezas; portanto eram liberais com todos, tanto velhos como jovens, tanto escravos como livres, tanto homens como mulheres, pertencessem ou não à igreja, não fazendo acepção de pessoas no que se referia aos necessitados.”15 ¶
Essa passagem do primeiro capítulo de Alma se parece com a maravilha que era Nauvoo. Disse o Profeta Joseph Smith, naquela época afortunada: “Com respeito a quanto um homem deve dar ( … ) não temos nenhuma instrução específica ( … ). Ele deve alimentar os famintos, vestir os nus, prover a subsistência das viúvas, enxugar as lágrimas dos órfãos, confortar os aflitos, sejam desta igreja ou de qualquer outra, ou de igreja nenhuma, onde quer que os encontre”.16 ¶
Lembrem-se do que o Livro de Mórmon nos ensina. É suficientemente doloroso ser pobre de bens materiais, mas a dor maior é a do coração carregado, das esperanças reduzidas, dos sonhos prejudicados, da angústia dos pais, do desapontamento dos filhos, que quase sempre acompanham tais circunstâncias. ¶
Comecei esta mensagem com uma história sobre a escassez de farinha. Quero terminar com outra. Em meio às terríveis hostilidades no Missouri, que acabariam por levar o Profeta à Cadeia de Liberty e causar a expulsão de milhares de santos dos últimos dias de seus lares, a Irmã Drusilla Hendricks e seu marido, James, que se tornara inválido ao ser ferido a tiros por inimigos da Igreja na Batalha de Crooked River, chegaram com os filhos a um abrigo cavado às pressas numa rocha, em Quincy, Illinois, para ali passar a primavera daquele ano angustiante. ¶
Em duas semanas, a família Hendricks ficou à beira da inanição. Tinham apenas uma colher de açúcar e um pires de farinha de milho, com os quais Drusilla, seguindo uma tradição das mulheres SUD, preparou um mingau para James e as crianças, aproveitando ao máximo os ingredientes. Quando aquela pequena refeição foi consumida pela família esfaimada, ela lavou os utensílios, limpou o pequeno abrigo da melhor maneira que pôde e começou a esperar calmamente pela morte. ¶
Pouco tempo depois, o som de um carroção fez com que ela se levantasse. Era seu vizinho Reuben Allred. Disse ter sentido que eles estavam sem comida e, a caminho da cidade, resolvera levar-lhes um saco de farinha. ¶
Deus, que nos tem abençoado a todos com misericórdia e a alguns de nós com abundância, abençoe-nos com mais uma coisa. Abençoe-nos com a capacidade de ouvir os gritos silenciosos dos angustiados e aflitos, dos oprimidos e dos pobres. Abençoe-nos, na verdade, com a capacidade de ouvir os sussurros do Santo Espírito quando o próximo, em algum lugar, estiver sofrendo, e de parar tudo e ir depressa. Oro em nome do capitão dos pobres, o Senhor Jesus Cristo. Amém. ¶
Notes
-
Ver I Reis 17:1–24. ↩
-
Ver Marcos 12:41–44. ↩
-
I Timóteo 1:5. ↩
-
Ver D&C 58:11. ↩
-
Ver Alma 32:3–4; emphasis added. ↩
-
Ver Alma 34:17–27. ↩
-
Alma 34:28. ↩
-
Mosias 4:2. ↩
-
Mosias 4:21, 16, 19, 26. ↩
-
4 Néfi 1:2–3. ↩
-
Moisés 7:18. ↩
-
D&C 82:19. ↩
-
Jacó 2:19. ↩
-
Ver Mosias 4:27. ↩
-
Alma 1:30. ↩
-
Times and Seasons, 15 de março de 1842, p. 732. ↩
-
Drusilla Doris Hendricks, "Historical Sketch of James Hendricks and Drusilla Doris Hendricks" ("Esboço Histórico de James Hendricks e Drusilla Doris Hendricks"), Departamento Histórico, Divisão de Arquivos, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Salt Lake City, texto datilografado, pp. 14–15. ↩