Pulpit

Todos Temos um Pai em Quem Podemos Confiar

Kenneth Johnson

Conferência Geral de Abril de 1994·Saturday Afternoon Session·1994-04-02

Na época de meu nascimento, as nuvens de guerra tinham-se abatido sobre a Europa e atravessavam o Canal da Mancha em direção ao litoral da Inglaterra. Meu pai, como milhares de outros homens de sua geração, foi convocado para o serviço militar. Meu irmão mais velho e eu fomos protegidos do tumulto e do medo que nos rodeava por uma mãe que compensava a ausência do pai, envolvendo-nos em uma série de atividades. Com isso, aprendi que quando os pais estão ausentes, as mães podem vir a receber bênçãos compensatórias. Guardo cálidas lembranças desses dias e lembro-me dela falando de seu amado companheiro ao receber cartas dele, sem que eu compreendesse completamente quem era ele e o que estava fazendo.

Minha primeira lembrança de um encontro com meu pai é de quando eu tinha cinco anos. Entregaram um telegrama em nossa casa e minha mãe ficou parada com o envelope dourado nas mãos, sem fazer nenhuma tentativa de abri-lo. Naquela época eu não entendia o motivo, nem sabia que notícia um telegrama poderia trazer. Finalmente, com grande dificuldade, ela começou a abrir o envelope, o que pareceu levar um tempo enorme. Mesmo depois de aberto o telegrama e lido o seu conteúdo, minha mãe não expressava reação alguma. Afinal, levantando o telegrama nas mãos, minha mãe exclamou cheia de alegria: “Seu pai está voltando para casa! Seu pai está voltando para casa!”

Os pais de meu pai moravam na casa ao lado. Segurando o telegrama bem alto, minha mãe disparou em direção à casa de meus avós, gritando: “Papai está voltando para casa! Papai está voltando para casa!” Meu irmão seguia logo atrás e também gritava: “Papai está voltando para casa! Papai está voltando para casa!” No fim da fila, ia eu gritando também: “Papai está voltando para casa! Papai está voltando para casa! Quem é papai?”

Ao acordar na manhã seguinte, havia um homem sentado à beira de minha cama, segurando uma bola de futebol da Itália, que me perguntou se eu e meu irmão queríamos jogar futebol com ele. Meio ressabiado, concordei, e fomos até um gramado nas proximidades de nossa casa onde jogamos futebol juntos. Foi assim o início da influência contínua de meu pai em minha vida. Eu desejava passar todos os momentos possíveis em sua companhia.

Vivíamos, como muitos outros naqueles difíceis anos do pós-guerra, em circunstâncias humildes. Nossa casa era mobiliada com simplicidade. Meu pai tinha muitas habilidades e utilizava-as para embelezá-la. Ele reformou o abrigo antiaéreo que ficava no quintal e transformou-o em uma oficina, onde passava muitas horas consertando sapatos e fazendo móveis. Eu gostava de ir à oficina para vê-lo trabalhar. Ficar com ele me entusiasmava! Ele me deixava ajudar, pedindo que lhe passasse o martelo, a chave de fenda ou alguma outra ferramenta. Eu estava certo de que minha ajuda era indispensável e que, sem mim, ele não conseguiria terminar seus projetos.

Utilizando madeira de diversas origens e considerada pelos outros como inadequada para qualquer uso, meu pai criava objetos de grande beleza e utilidade a nossa família. Enquanto trabalhava, ele fazia uma brincadeira comigo, pedindo-me que adivinhasse o que estava construindo. Raras vezes eu o conseguia antes que os componentes estivessem terminados e o objeto montado. Era então que eu declarava com grande entusiasmo: “É uma estante!” ou “uma mesa!” e maravilhava-me com sua habilidade de criar tanto com tão pouco.

Ao olhar para trás e refletir sobre essas lembranças maravilhosas, percebo que minha ajuda não era necessária para que meu pai realizasse seu trabalho. Era eu quem me beneficiava, pois com aquelas experiências aprendi a conhecê-lo e amá-lo.

Quão semelhante é o relacionamento que temos com nosso Pai Celestial, acreditando, às vezes, que o serviço que realizamos é para o Seu benefício quando, na realidade, é comparável com o que eu fazia ao passar as ferramentas a meu pai. O maior significado está no relacionamento que se desenvolve e não na contribuição que fazemos. Como expressou o Rei Benjamim: “Pois como pode um homem conhecer o mestre a quem não serviu, que lhe é estranho e que está longe dos pensamentos e intenções de seu coração?” (Mosiah 5:13.)

Do mesmo modo que eu não compreendia o que meu pai terreno estava construindo até que ele tivesse terminado seu trabalho, o mesmo se passa em relação a nosso Pai Celestial. Quando Seu reino estiver estabelecido e o trabalho concluído, reconheceremos nosso lar e exultaremos.

O serviço altruísta é um ingrediente essencial para uma vida plena e feliz. As palavras inspiradas do Presidente Marion G. Romney aclaram nosso entendimento a esse respeito: “O serviço não é algo que suportamos nessa Terra, de modo que ganhemos o direito de viver no reino celestial. O serviço é a própria fibra da qual é feita uma vida exaltada no reino celestial”. (Ensign, novembro de 1982, p. 93.)

Não é necessário que saibamos a resposta de cada pergunta ou compreendamos a razão de cada desafio que enfrentamos, a fim de nos sentirmos seguros em relação ao conhecimento de nosso Criador divino. Nas palavras de Néfi: “Sei que Ele ama a Seus filhos; não conheço, no entanto, o significado de todas as coisas”. (1 Néfi 11:17.)

Vinte e seis anos após as experiências com meu pai, continuei a aprender importantes lições através do relacionamento do pai com o filho. Os acabamentos em madeira de nossa casa precisavam de reparos. Limpei e preparei as superfícies e apliquei uma camada de verniz que serviria de base. Fiquei imaginando o brilho do acabamento que resultaria de meu trabalho. Nosso filho de cinco anos, Kevin, observava enquanto me preparava para aplicar a última demão de verniz e manifestou desejo de ajudar. Vacilei antes de responder, imaginando o efeito que isso teria na realização de meu sonho, mas imaginei também como ele se sentiria se eu recusasse a oferta. Foi quase como se eu ouvisse outra pessoa dizer: “Que bom! Obrigado pela ajuda”.

Com Kevin vestindo uma de minhas camisas velhas que quase tocava o chão de tão comprida e cujas mangas tiveram que ser arregaçadas, começamos a trabalhar na porta principal da casa. Ele envernizava o painel inferior enquanto eu trabalhava no painel superior. Notei que devido a sua idade e estatura, ele não conseguia espalhar o verniz por igual e a pintura não estava ficando uniforme. Cada vez que ele se abaixava para molhar o pincel, eu rapidamente retocava seu trabalho no painel inferior e voltava a minha área de trabalho para que ele não percebesse o que eu estava fazendo. Após alguns momentos, percebi que, mais importante do que um serviço de primeira, era a oportunidade de trabalhar com meu filho. Ao refletir, percebi que ele estava se saindo bastante bem. A partir de então, a cada vez que me aproximava da porta e olhava para o nosso estilo único, lembrava-me daquilo que realmente importa na vida.

As experiências compartilhadas não se restringiram ao plano material. Ao participarmos juntos de ordenanças e ao fazermos convênios, o poder da Deidade manifestou-se.

Os princípios do evangelho restaurado foram ensinados a minha mulher, Pamela, desde a infância e ela conseguiu fazer-me apreciar os valores da oração em família, da noite familiar e dos conselhos de família.

Decidimos, logo no início do casamento, que éramos responsáveis pelo ensino do evangelho a nosso filho e que os programas da Igreja serviriam de reforço aos ensinamentos do lar. Kevin freqüentemente acompanhava a mãe quando ela visitava os doentes e os idosos em serviços de solidariedade.

Essas experiências serviram para que desenvolvêssemos um estreito relacionamento familiar, que cresceu com o passar dos anos, permitindo-nos vislumbrar o potencial que existe no plano eterno, conforme descrito em Doutrina e Convênios, seção 130, versículo 2: “E a mesma sociabilidade que existe entre nós aqui, existirá entre nós lá, só que lá será unida com a glória eterna, glória que não experimentamos agora.”

Sempre devemos lembrar-nos de que, a despeito de nossa situação, todos temos um Pai em quem podemos confiar e a quem podemos dirigir-nos para sermos confortados e aconselhados. Ele é nosso Pai Celestial.

Como é emocionante ouvir as crianças cantarem “Sou um Filho de Deus”. Somos, verdadeiramente, Seus filhos, e Ele “não está longe de cada um de nós”. (Atos 17:7.)

Aprecio cada vez mais as palavras do Salvador expressas em Sua importante oração intercessória: “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”. (João 17:3.)

Sei que Ele vive; Sei que Ele nos ama, pois somos Seus filhos. Seu filho Jesus Cristo é nosso Advogado junto ao Pai e conduz a Igreja hoje, por meio de profetas vivos. Testifico que Suas palavras nos guiarão em segurança de volta ao lar. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

Como citar este discursoKenneth Johnson, “Todos Temos um Pai em Quem Podemos Confiar”, Conferência Geral de Abril de 1994, Saturday Afternoon Session (1994-04-02). Pulpit Vault, 1994-04-johnson-we-all-have-a-father-in-whom-we-can-trust. Tradução oficial da Igreja, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).