Medo
Virginia H. Pearce
Assumo esta enorme responsabilidade com grande respeito e amor por vocês — especialmente vocês, moças. Sei que cada uma de vocês ouve com um coração muito individual. Cada uma de suas necessidades neste momento particular é somente sua. Independentemente da formalidade deste ambiente, tenho confiança de que muitas de nós encontraremos — seja por meio da música, da palavra falada, ou simplesmente do companheirismo dos amigos ao nosso redor — respostas e encorajamento que nos ajudarão a seguir em frente. Meu único desejo é fazer parte desse processo. ¶
Nesse desejo de, de alguma forma, conectar-me com a vida bem individual de cada uma de vocês, comecei a pensar em algo que todo ser humano experimenta — algo que geralmente vemos como negativo — que evitaríamos se pudéssemos. Às vezes dizemos a nós mesmas que ninguém mais sofre disso como nós sofremos, ou, às vezes, num esforço para controlá-lo, dizemos a nós mesmas que simplesmente não o experimentamos. Esse algo se chama medo. ¶
Perguntei a muitas moças do que elas têm medo. Estas são algumas das coisas que me contaram. ¶
"Quando mudei para uma nova escola, tive medo de não conseguir fazer amigas." ¶
"No ano passado, meu irmão ficou doente. Tive medo de que ele morresse." ¶
"Quando ouço meus pais discutindo e brigando, tenho medo de que se divorciem." ¶
"Cometi alguns erros terríveis, e vivi com medo de que fossem descobertos, trazendo vergonha e constrangimento à minha família. Tive tanto medo da humilhação que pensei em fazer um aborto." ¶
"Tenho muitas preocupações — o que vou dizer, como devo agir, o que devo vestir? Parece que não consigo me divertir nem fazer amigas, porque estou sempre com medo do que as pessoas vão pensar de mim." ¶
"Por causa de algumas coisas que aconteceram comigo quando eu era pequena, tenho dificuldade em não ter medo dos homens. Até mesmo ficar sozinha com o bispo em seu escritório às vezes pode ser assustador para mim. Também tenho medo de que, se alguém soubesse o que aconteceu comigo, deixasse de me amar." ¶
"Tenho medo de não passar na grande prova que me permitirá continuar na escola." ¶
"Tenho medo de nunca me casar." ¶
"Tenho medo de que meus pais não consigam comprar um uniforme para eu ir à escola." ¶
Coisas assustadoras, não é mesmo? ¶
Ao lermos as escrituras, constatamos que o medo tem feito parte da história dos indivíduos desde o princípio do mundo. Posso até imaginar que, no mundo pré-existente, quando os dois planos foram apresentados, algumas pessoas talvez tenham escolhido o plano de Lúcifer por causa do medo — o medo de deixar a presença do Pai sem a garantia de que voltariam. Lúcifer talvez tenha explorado esses medos, assegurando que, com seu plano, todos voltariam. ¶
Posso imaginar como deve ter sido assustador para Adão e Eva, que viviam com total segurança — animais amistosos, fartura de alimento, nenhuma oposição da natureza — serem repentinamente lançados num mundo em que a própria sobrevivência deve ter sido um medo constante. ¶
Por que o medo faz parte da vida terrena? ¶
Talvez a maior esperança de nosso Pai Celestial seja que, por meio de nossos medos, escolhamos voltar-nos para Ele. As incertezas da vida terrena podem ajudar a lembrar cada uma de nós de que dependemos dEle. Mas essa lembrança não é automática. Ela envolve nosso arbítrio. Precisamos escolher levar nossos medos a Ele, escolher confiar nEle e escolher permitir que Ele nos dirija. Precisamos fazer essas escolhas justamente quando o que mais nos sentimos inclinadas a fazer é confiar cada vez mais em nosso próprio raciocínio afobado e muitas vezes distorcido. ¶
Ao procurarmos viver Seus mandamentos e orar a Ele, há coisas que Ele nos dirigirá a fazer que ajudarão a acalmar nossos medos. Essas ações muitas vezes exigem grande coragem e a direção do Espírito Santo. O Espírito Santo pode nos ajudar a entender quando e com quem devemos compartilhar nossos medos. Ele nos apoiará ao enfrentarmos nossos medos e tentarmos fazer coisas que nunca fizemos antes. ¶
Permitam-me oferecer duas ideias que têm me ajudado quando me sinto amedrontada. A primeira veio na forma de um conselho da irmã Michaelene Grassli, presidente geral da Primária. Servi sob sua direção na Junta Geral da Primária. Estávamos juntas numa incumbência de treinamento quando uma líder local começou a descrever, com detalhes entusiasmados, as líderes auxiliares que haviam ido àquela área no ano anterior. Enquanto ela contava sobre as coisas maravilhosas que elas haviam feito e expressava sua esperança de que faríamos o mesmo, um mal-estar começou a se instalar em meu estômago. Naquela noite, depois que nossa anfitriã havia saído, expressei à irmã Grassli meus medos: temia que meu desempenho fosse muito inferior ao das que vieram antes de mim, e que certamente eu seria uma decepção para todos e provavelmente um constrangimento para ela e para a Igreja. Ela disse: "Já tive esses mesmos sentimentos, mas é reconfortante para mim saber que só preciso me preocupar em fazer e dizer o que é aceitável e agradável ao Senhor." Suas palavras trouxeram tamanha paz imediata à minha mente que as repeti para mim mesma inúmeras vezes em incontáveis situações. ¶
Como mulheres, gostamos muito de agradar aos outros — às vezes buscando aprovação de forma tão afobada que ficamos divididas e confusas pelas necessidades conflitantes daqueles ao nosso redor. Concentrar-se em agradar ao Pai Celestial traz paz, um alívio do medo e da ansiedade. Pensem nisso, moças, na próxima vez que forem convidadas a se apresentar na igreja, ou a visitar um membro inativo de sua classe, ou a planejar uma atividade: "Só preciso me preocupar em agradar ao Senhor." Creio que alguns de seus medos se dissiparão. O profeta Davi disse: "O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei?" (Salmos 27:1.) ¶
A segunda ideia que tem me ajudado teria sido expressa por Vincent van Gogh, um famoso pintor. Ele disse: "Estou sempre fazendo o que ainda não sei fazer, a fim de aprender a fazê-lo." Grande parte da conquista do medo diário é simplesmente fazer coisas que ainda não sabemos fazer. ¶
Há coisas que vocês ainda não sabem fazer, mas que estão fazendo mesmo assim? Que tal tentar conversar com um rapaz na Mutual, mesmo sentindo-se muito desajeitada? Que tal se esforçar na escola, mesmo quando isso parece desanimador? Tenho ouvido com frequência a irmã Janette Hales, nossa presidente geral das Moças, dizer aos jovens que trabalhem arduamente. Ela disse: "O trabalho aumenta nossas habilidades, e, à medida que sentimos nossas habilidades aumentarem, nos sentiremos mais seguras." ¶
Acabei de terminar de ler a biografia de Eleanor Roosevelt. Ela foi esposa de um presidente dos Estados Unidos, mas sua influência foi muito além da política e do cargo. Sua vida é um farol para todas as mulheres, como alguém que desenvolveu magnificamente seus próprios dons por meio de seu serviço aos outros. Essa foi uma mulher cujo início de vida foi dominado pelo medo e pela insegurança. Ela se descrevia como uma adolescente desajeitada, desagradavelmente alta, com dentes salientes, vestida de maneira inadequada, e tão pouco à vontade com outras pessoas de sua idade que festas e bailes eram ocasiões temidas. Como ela passou disso para o tipo de confiança que lhe permitiu contribuir tão amplamente? ¶
Ela disse: "Você ganha força, coragem e confiança em cada experiência em que realmente para para encarar o medo. Você deve fazer aquilo que pensa não poder fazer." (Karen McAuley, Eleanor Roosevelt, Nova York: Chelsea House Publishers, 1987, p. 105.) ¶
À medida que nos concentramos em agradar ao Senhor, em vez de aos outros, e continuamos a trabalhar arduamente, fazendo as coisas que ainda não sabemos fazer, experimentaremos crescimento pessoal. Aumentaremos nossa confiança no Pai Celestial e em Seu Filho, Jesus Cristo. Essa fé nos assegura que, no final, não apenas sobreviveremos, mas conheceremos grande alegria e felicidade. ¶
Depois da morte de Cristo, Paulo se converteu e tornou-se um grande missionário. Ele teve um companheiro mais jovem, a quem amava como um pai ama seu próprio filho. Quando retomamos a história deles em 2 Timóteo, eles estão separados em seu serviço. Timóteo está solitário e amedrontado — ser missionário pode ser algo assustador. Paulo está preso em Roma. Ele escreve uma carta a Timóteo: "A Timóteo, meu amado filho. … ¶
"Dou graças a Deus … de que sem cessar faço memória de ti nas minhas orações, noite e dia; ¶
"Desejando muito ver-te, lembrando-me de tuas lágrimas." (2 Timóteo 1:2–4.) ¶
Não é uma carta terna? Imaginem que ela vem a vocês de alguém que está atento às suas lágrimas. ¶
Paulo então passa a lembrar Timóteo de seus pontos fortes: "Trazendo à memória a fé não fingida que em ti há." (2 Timóteo 1:5.) Ele lembra Timóteo de que tanto sua avó quanto sua mãe eram mulheres de fé. ¶
Pensem em algumas das qualidades que suas avós e mães lhes transmitiram. ¶
Então Paulo pede a Timóteo que se lembre de usar o dom do Espírito Santo: "Por cujo motivo te lembro que despertes o dom de Deus que existe em ti pela imposição das minhas mãos." (2 Timóteo 1:6.) ¶
Vocês estão se lembrando de que tiveram mãos impostas sobre a cabeça — de que lhes foi dado um dom? Usem esse dom para vencer seus medos! ¶
E então minha parte favorita da carta: "Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação." (2 Timóteo 1:7.) ¶
Não são exatamente essas as coisas que vocês desejam quando estão com medo — fortaleza, amor, a capacidade de pensar com clareza? ¶
Paulo termina uma de suas cartas: "Saúdam-te todos os que estão comigo. Saúda tu os que nos amam na fé. A graça seja com todos vós. Amém." (Tito 3:15.) ¶
Todos os que estão comigo as saúdam. Nós as amamos e estamos cientes de seus medos e de sua fé. Presto-lhes meu testemunho de que Jesus Cristo é nosso Salvador, de que Ele me ama, de que ama cada uma de vocês, e de que Ele nos ajudará a substituir nossos medos pela fé. Digo essas coisas em Seu nome, amém. ¶