Pulpit

Antes que Eu Construa um Muro

Loren C. Dunn

Conferência Geral de Abril de 1991·Sunday Afternoon Session·1991-04-06

Há uma qualidade que pode ser vista na vida da maior parte dos cristãos e de boas pessoas em todos os lugares. Ela não só é demonstrada em suas ações, mas também parece ser parte de sua natureza. E uma mescla de caridade, perdão e respeito; e leva em consideração a percepção da realidade de que Deus é o cabeça e todos nós somos seus filhos. Como conseqüência disso, temos certas obrigações uns para com os outros.

“Portanto, o Senhor Deus ordenou que todos os homens tenham caridade, que é amor” (2 Néfi 26:30). E as escrituras também nos ensinam: “E também vos perdoareis mutuamente vossas ofensas” (Mosiah 26:31). Essa qualidade pode ser parte da vida da pessoa sem o comprometimento de princípios ou compromisso para com a verdade.

Há algum tempo, o Padre Paul Showalter, de Nauvoo, contou-nos um caso interessante relacionado com Joseph Smith, que vinha da antiga história católica daquela área.

Quando os santos começaram a estabelecer-se em Nauvoo e em seus arredores, um sacerdote católico francês chamado Padre John Alleman, que morava no vizinho Condado McDonough, necessitou de transporte para visitar um paroquiano doente. Joseph ofereceu-lhe o serviço de balsas para atravessar o rio e uma carruagem para chegar a seu destino.

Em demonstração de respeito, Joseph comentou: “Os sacerdotes cuidam fielmente de seu povo e não se intrometem em nada, enquanto que outras pessoas aborrecem continuamente os santos dos últimos dias.”

A qualidade de respeito aos outros, não importando sua crença ou filiação religiosa, parece ter sido parte da vida do Profeta Joseph Smith. Ele defendeu a verdade e o evangelho restaurado até o dia de sua morte, e não tinha paciência com os que eram deliberadamente iníquos ou que tentavam exercer injusto domínio sobre os santos dos últimos dias ou, quanto a isso, sobre qualquer outra pessoa. Ele sempre mostrava respeito e preocupação fraternal pelas outras pessoas, não importando suas crenças nem suas origens, o que, de certa forma, era extraordinário, se levarmos em conta a perseguição que ele e os primeiros santos sofreram.

Ele disse que tinha o atributo do amor, e também lemos que se pudesse fazer com que seus inimigos o ouvissem, geralmente conquistava a simpatia deles. Em seu relacionamento com membros ou com não-membros, estava comprometido com um princípio encontrado na seção 121 de Doutrina e Convênios: “Nenhum poder ou influência pode ou deve ser mantido por virtude do sacerdócio, a não ser que seja com persuasão, com longanimidade, com mansuetude e ternura, e com amor não fingido;

Com benignidade e conhecimento puro, que grandemente ampliarão a alma, sem hipocrisia e sem dolo” (versículos 41–42), e “Que as tuas entranhas também sejam cheias de caridade para com todos os homens e para com a família da fé” (versículo 45).

Joseph Smith declarava a doutrina da Restauração com grande poder e força. E nunca perdeu uma oportunidade de proclamar a verdade desta obra. Ele foi o precursor de, literalmente, legiões de missionários que têm proclamado estas mesmas verdades ao mundo. Não obstante, disse ele também: “Jamais imponho minha doutrina a qualquer pessoa; alegro-me em ver o preconceito dar lugar à verdade, e as tradições dos homens desfeitas pelos princípios puros do Evangelho de Jesus Cristo.” (History of the Church, 6:213.)

Em seus últimos dias de vida, quando Nau voo estava sitiada pelas turbas e era desafiada por todos os lados, ele e Hyrum ainda encontraram tempo para escrever a um certo sr. Tewkesbury, em Boston, que se havia desassociado da Igreja, convidando-o para voltar à atividade. Um trecho da carta diz: “Sentindo um forte desejo de salvar as almas dos homens, com a sinceridade de homens de Deus, queremos aconselhar-vos a serdes rebatizado por élder Nickerson, um servo de Deus, para que possais novamente receber a doce influência do Espírito Santo, e desfrutar a amizade dos santos.” (History of the Church, 6:427.)

Este mesmo espírito pode ser encontrado na carta da Primeira Presidência, publicada em 1986, que dizia em certa parte: “Estamos informados de alguns que são inativos, de outros que se tornaram críticos e inclinados a encontrar falhas, e de desassociados ou excomungados por transgressões graves.

A todos eles estendemos o nosso amor. Estamos ansiosos por perdoar, no espírito daquele que diz: “Eu, o Senhor, perdoo a quem quero perdoar, mas de vós se requer que perdoeis a todos os homens.’ (D&C 64:10)” (Proclamação Especial da Primeira Presidência, 23 de dezembro de 1986). Esta carta é citada como um convite para “voltar”.

Hoje vivemos em uma época de conflito, dissensões, diferenças de opinião, acusações mútuas, discórdias. E necessário, talvez mais do que nunca, que mergulhemos em nosso íntimo e reconheçamos os atributos do respeito mútuo, mesclados com caridade e perdão; que influenciemos nossas ações mútuas; que possamos discordar uns dos outros sem nos tornarmos desagradáveis; que falemos com calma e que busquemos as coisas em comum, percebendo que, passada a tempestade, ainda teremos de conviver uns com os outros.

Há alguns anos, quando morava no leste, li a respeito de uma experiência que aconteceu no Senado dos Estados Unidos. Segundo o que me lembro, havia um debate. O líder do debate num partido era o senador Hubert Humphrey, de Minnesota. O líder do outro partido era a senadora Margaret Chase Smith, do Maine. Com o decorrer do tempo, ficou claro que o partido do senador Humphrey venceria.

Na manhã da votação, o senador Humphrey foi a seu jardim e cortou algumas rosas vermelhas. Quando Margaret Chase Smith chegou à sua mesa no senado naquela manhã, havia um buquê de rosas. Isso, naturalmente, não fez a senadora Smith mudar de opinião em relação ao assunto, mas foi um gesto de respeito e consideração.

No relacionamento com as pessoas, não importa qual seja nossa posição, precisamos de mais rosas — e, depois do discurso do Élder Faust nesta manhã, suponho que de rosas sem espinhos.

Fui criado em uma comunidade nos vales do oeste de Utah. A cidade de Tooele foi estabelecida por pioneiros; quando foram descobertos depósitos de minério precioso nas montanhas próximas, vieram pessoas do sul e do leste da Europa, que tinham cultura e preferências religiosas diferentes. Elas vieram para trabalhar nas minas e na fundição.

Estabeleceram-se exatamente a leste da cidade e chamaram a comunidade de “Cidade Nova”. Quase desde o começo, houve divisão, desconfiança e desentendimento entre os novos residentes, que trouxeram consigo os velhos costumes de seu país, e as pessoas da comunidade já estabelecida, que eram basicamente descendentes de. pioneiros. Os dois grupos raramente se misturavam.

Certo ano a escola secundária contratou um treinador de futebol recém-saído da Universidade do Estado de Utah, chamado Sterling Harris. O treinador Harris, como ficou conhecido, era expansivo e apenas um pouco irreverente. Ele percorria a cidade velha e a cidade nova para certificar-se de que todos os meninos estavam na escola e mais tarde no futebol. Tinha um apelido para cada um, e, em pouco tempo, tornou-se uma espécie de símbolo de status ter um apelido dado por Sterling Harris.

Não demorou muito e os jovens das famílias européias, da cidade nova, e os das famílias descendentes dos pioneiros, da cidade velha, jogavam futebol lado a lado, na mesma equipe. Ele era duro, mas imparcial, e havia algo nele que fazia as pessoas sentirem-se importantes e quererem dar o melhor de si.

A equipe aprendeu a jogar bem, e o treinador Harris chegou a levá-los a mais de um campeonato estadual. O mais importante, porém, é que, ao unir a equipe, ele uniu toda a comunidade. Os muros divisórios foram derrubados. Pessoas de culturas diferentes aprenderam que podiam fazer amizade com base no respeito e apreciação mútuos. Sterling Harris tornara-se a ponte de união entre aqueles dois grupos.

Sterling Harris ainda mora em Tooele; tem noventa e um anos de idade. Ele fez muitas outras coisas na vida, tendo sido inclusive superintendente de escolas e líder na Igreja, mas nada foi mais importante do que ajudar uma comunidade a unir-se e restabelecer o princípio de respeito às pessoas de origens e culturas diferentes.

Nas cidades do mundo, nos municípios, nas vizinhanças, nos lares, precisamos de mais pessoas como Sterling Harris, tenham a origem que tiverem.

Robert Frost certa vez escreveu:

Antes de levantar um muro deveria perguntar

O que estou deixando dentro ou fora dele,

E a quem provavelmente vou ofender

Há alguma coisa nas pessoas que não gosta de muros.

(“Mending Wall”, The Poetry of Robert Frost, Nova York: Henry Holt and Co., 1979, p. 34. Tradução livre e aproximada.)

As pessoas sempre terão opiniões opostas, e suponho que sempre haverá conflitos e desentendimentos; mas o princípio do respeito mútuo mesclado com caridade e perdão pode estabelecer o alicerce para resolver diferenças e solucionar problemas.

Não foi o Salvador, falando do primeiro e grande mandamento, quem disse que devemos amar o Senhor nosso Deus de todo o coração, poder, mente, e força, e que o segundo é semelhante a esse: que devemos amar o próximo como a nós mesmos? (Vide Marcos 12:29–31.) O atributo do respeito mútuo é uma grande qualidade. Pode ser encontrada no coração de grandes pessoas, e por isso, todos devemos ser pessoas grandes. Não compromete a verdade ou nossos princípios, mas pode gerar fraternidade e a solução de muitos problemas.

Que o Senhor nos abençoe para que olhemos uns para os outros com esse espírito. Em nome de Jesus Cristo, amém.

Como citar este discursoLoren C. Dunn, “Antes que Eu Construa um Muro”, Conferência Geral de Abril de 1991, Sunday Afternoon Session (1991-04-06). Pulpit Vault, 1991-04-dunn-before-i-build-a-wall. Tradução oficial da Igreja, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).