Pulpit

Escolhas

Russell M. Nelson

Conferência Geral de Outubro de 1990·Sunday Afternoon Session·1990-10-06

Há pouco tempo, uma jovem e bela mãe pediu-me que a aconselhasse quanto a uma decisão muito difícil que devia tomar. Dizia respeito a uma importante cirurgia a que ela estava pensando em se submeter. As conseqüências de sua escolha afetariam seu marido e também a família. Disse-me ela: “Sinto dificuldade em tomar decisões, até mesmo em escolher o que vou vestir cada manhã.”

“A irmã não é muito diferente das outras pessoas em geral”, repliquei. “Todos nós temos de fazer escolhas. Este é um dos grandes privilégios da vida.”

Contei àquela encantadora senhora que aos médicos meus colegas, regularmente são feitas perguntas sobre o corpo humano. Algumas delas são relacionadas a intervenções cirúrgicas para salvar a vida ou uma parte do corpo. Outras a procedimentos facultativos para alterar a sua estrutura ou função. Mais recentemente, muitas delas são sobre a “escolha” de abortar a vida de um novo ser humano que se está formando. Ironicamente, tais “escolhas” negariam ao ser em desenvolvimento tanto a vida como a própria escolha.

Fiz ver à minha interlocutora que perguntas relacionadas ao nosso corpo representam somente uma fração das escolhas mais desafiadoras da vida. Outras incluem “Onde viverei?”, “O que farei com minha vida?”, “Qual a causa merecedora de meus esforços e bom nome?” Estas são apenas algumas das muitas escolhas que temos de fazer diariamente.

Não vou revelar o nome da irmã, nem especificar o tipo de operação a que ela pensava submeter-se. Se eu o fizesse chamaria a vossa atenção para um tópico específico, e me distanciaria daqueles princípios fundamentais que regem a tomada de decisões geralmente importantes.

Como nós todos temos de enfrentar escolhas difíceis de tempos em tempos, estendo um convite a outros, para que se juntem a nós na continuação de minha conversa com a jovem mãe.

Sugiro que, antes de qualquer escolha, façais a vós mesmos três perguntas. Quer vossas decisões sejam diárias e rotineiras ou única na vida, uma reflexão séria sobre estas três perguntas ajudar-nos-á a esclarecer nossas idéias.

“Talvez queira analisar estas perguntas primeiro sozinha, e depois com o marido. São as seguintes:

  • “Quem sou eu?”

  • “Por que estou aqui?”

  • “Para onde vou?”

Respostas sinceras para as três perguntas farão com que nos lembremos de âncoras importantes e de princípios imutáveis.

Ao levar em consideração estas perguntas fundamentais, vereis claramente que as decisões que pensais de início serem puramente pessoais, quase sempre exercem impacto sobre a vida alheia. Ao responder a elas, portanto, deveis estar conscientes de um círculo mais amplo, de familiares e amigos, que serão afetados pelas conseqüências da escolha. Esta auto-análise será um exame íntimo. Ninguém mais ouvirá as respostas. Embora eu sugira algumas, as respostas finais devem ser exclusivamente vossas.

“Quem Sou Eu?”

“Lembra-te de que és filha de Deus, da mesma forma que o é teu marido. O Pai Celestial te ama. Ele te criou para seres bem sucedida e teres alegria.”

“Ele criou o homem, macho e fêmea, à sua própria imagem, e em sua própria semelhança os criou.” (D&C 20:18; vide também Gênesis 1:26–27; Mosiah 7:27; Alma 18:34; Alma 22:12; Eter 3:15; Moisés 2:27.)

Estes corpos, criados à imagem de Deus, devem ser preservados, protegidos e bem cuidados. Concordo com o Apóstolo Paulo, que assemelhou o corpo humano a um templo:

“Não sabeis vós que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?

Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.” (I Coríntios 3:16–17.)

“Es um dos grandes e nobres espíritos de Deus, reservados para vir à terra nesta época. (Vide D&C 86:8–11.) Na vida pré-mortal foste apontada para ajudar a preparar o mundo para o grande ajuntamento de almas que precederá a segunda vinda do Salvador. Pertences a um povo de convênio. Es herdeira da promessa de que toda a terra será abençoada pela semente de Abraão, e de que o convênio de Deus com este profeta será cumprido por meio de sua linhagem nestes últimos dias. (Vide 1 Néfi 15:18; 3 Néfi 20:25.)

Como membro da Igreja, fizeste convênios sagrados com o Senhor e tomaste sobre ti mesma o nome de Cristo. (Vide D&C 18:28; D&C 20:29, 37.) Prometeste lembrar sempre dele e guardar seus mandamentos. Ele, por sua vez, concordou em conceder-te o seu espírito.” (Vide Morôni 4:3; Morôni 5:2; D&C 20:77.)

Depois de termos pensado rapidamente em algumas respostas para a pergunta número um, voltemos a atenção para a questão número dois.

“Por Que Estou Aqui?”

Esta é uma pergunta que freqüentemente faço a mim mesmo. Lembro tê-la feito muitas vezes há anos, quando estava no serviço militar, separado da família e dos amigos, cercado pela horrível devastação da guerra. Noutra ocasião inesquecível, fiquei retido numa área remota e fria, longe de transportes, alimento ou abrigo. Sem dúvida também passastes por momentos de ansiedade semelhantes a estes, mas tais experiências foram exceções em minha vida. Eu gostaria de discutir a pergunta mais importante:

Por que estamos aqui, no planeta terra?

Receber um corpo mortal é uma das razões mais importantes. Outra é sermos testados — na mortalidade — para determinar o que faremos com as oportunidades que a vida nos oferece. Essas oportunidades exigem que façamos escolhas, que dependem do livre-arbítrio. A razão principal da existência mortal, portanto, é testar a maneira como haveremos de exercer o livre-arbítrio. (Vide 2 Néfi 2:15, 25.)

O livre-arbítrio é um dom divino. Somos livres para escolher o que seremos e o que faremos. Não estamos, porém, sozinhos. O aconselhamento com os pais é um privilégio, em qualquer idade. A oração nos permite comunicação com o Pai Celestial e abre as portas para o recebimento de revelação pessoal. E, em certas circunstâncias, pode ser altamente recomendável consultar conselheiros profissionais e líderes locais da Igreja, especialmente quando for muito difícil tomar decisões.

Foi este, precisamente, o procedimento escolhido pelo Presidente Spencer W. Kimball. Em 1972, Élder Kimball, do Conselho dos Doze, sabia que sua vida mortal estava se extingüindo, devido a uma doença do coração. Ele obteve conselho médico competente e consultou fervorosamente o Senhor e outros líderes da Igreja. Elder e irmã Kimball, com a Primeira Presidência, avaliaram cuidadosamente as alternativas, depois do que, o Presidente Harold B. Lee, falando em nome da Primeira Presidência, aconselhou-o com grande convicção, dizendo: “Spencer, você foi chamado! Você não vai morrer! Você deve fazer tudo o que for preciso para se restabelecer e continuar a viver.”

O Presidente Kimball decidiu submeter-se a uma operação muito arriscada e foi abençoado com ótimos resultados. Viveu mais treze anos, tendo sucedido ao Presidente Lee na presidência da Igreja.

O precioso privilégio de escolha — o livre-arbítrio do homem — foi decretado antes da criação do mundo. (Vide D&C 93:29–31.) É uma escolha moral. (Vide D&C 101:78.) Conseqüentemente, Satanás ofereceu-lhe oposição (vide Moisés 4:3), que foi confirmada pelo Senhor (vide Moisés 4:2) e reafirmada por meio dos profetas antigos e modernos. (Vide D&C 58:26–28; Moisés 6:56; Moisés 7:32).

O exercício apropriado da escolha moral requer fé. A fé no Senhor Jesus Cristo é o primeiro princípio do evangelho. (Vide Quarta Regra de Fé.) Graças ao Salvador, possuímos o livre-arbítrio. Ele deve ser o alicerce de nossa fé, e o teste dessa fé é a razão fundamental para a liberdade de escolha.

Somos livres para desenvolver e exercer fé em Deus e em seu divino Filho, fé em sua palavra, fé em sua Igreja, fé em seus servos, e nos seus mandamentos.

Enfrentar desafios difíceis não é algo novo nem único. Há séculos, Josué e sua família tiveram de fazer uma escolha importante. Ele nos diz:

“Escolhei hoje a quem sirvais: …porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor.” (Josué 24:15; vide também Moisés 6:33.)

Cultivando essa fé, nos habilitamos a receber a companhia do Espírito Santo, que nos ajudará a tomar decisões sábias. (Vide 2 Néfi 2:27–28; D&C 14:8.)

Muitos podem professar certo grau de fé em Deus, mas sem um arrependimento sincero, essa fé não pode ser completamente operante. Tal conceito foi ensinado aos nefitas:

“Tantos deles quantos são conduzidos ao conhecimento da verdade …e são encaminhados à crença das santas escrituras, …e passam a crer no Senhor e se arrependem, sendo que essa fé e arrependimento lhes transformam o coração.” (Helamã 15:7.)

A fé, o arrependimento e a obediência vos qualificarão para os dons sublimes da justiça e da misericórdia, concedidos aos que são dignos das bênçãos da expiação. (Vide Alma 34:16–17.)

Sim, cada teste, cada dificuldade, cada desafio e provação que suportais é uma oportunidade para um maior desenvolvimento da fé. (Vide D&C 63:11; D&C 101:4.)

A fé pode ser fortalecida pela oração. A oração é uma chave poderosa quando tomamos decisões, não só concernentes ao corpo físico, mas também a outros aspectos importantes da vida. Procurai humildemente ao Senhor em oração, com verdadeira intenção de coração, e ele vos ajudará. (Vide Alma 33:23; Morôni 7:9; Morôni 10:4; D&C 9:7–9.)

Lembrai que a fé e a oração em si raramente são o suficiente. Em geral, para alcançar o desejo de vossos corações, é necessário um esforço pessoal. “A fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.” (Tiago 2:17; vide também os versículos 18, 20, 26; Alma 26:22.)

As respostas para a pergunta número dois salientam que estamos aqui para exercer a fé, para orar e trabalhar com afinco.

Agora atentemos para a pergunta número três.

“Para Onde Vou?”

Esta pergunta nos lembra que nós todos morreremos, seremos ressuscitados, julgados e recompensados com um lugar nos reinos eternos. (Vide I Coríntios 15:22; Alma 12:24; Alma 21:9; Helamã 14:16–17; D&C 138:19.) A cada dia que passa, estamos mais próximos do inevitável dia do julgamento. Então devereis prestar conta da fé, das esperanças e das obras. Disse o Senhor:

“Para que todo homem possa agir em doutrina e princípio… de acordo com o arbítrio moral que eu lhe dei, para que todo homem seja responsável por seus próprios pecados no dia do juízo” (D&C 101:78; vide também Mosiah 3:24.)

Como seremos todos ressuscitados, nosso corpo físico será então restaurado à sua própria e perfeita forma. (Vide Alma 11:43; Alma 40:23.) O dia da ressurreição será um dia de julgamento, que determinará o tipo de vida que teremos daí em diante.

Esse julgamento levará em conta não só nossas ações, mas também os mais íntimos desejos e intentos do coração. Nossos pensamentos diários não foram esquecidos. As escrituras nos falam de uma “viva lembrança” (Alma 11:43), de “uma perfeita lembrança” (Alma 5:18) quando chegar o dia do julgamento divino.

O Senhor conhece os desejos de nossos corações. Os anseios das irmãs solteiras e dos casais sem filhos, por exemplo, no dia do julgamento, certamente serão levados em consideração com muito carinho, por aquele que disse:

“Eu, o Senhor, julgarei a todos… segundo suas obras, segundo os desejos de seus corações” (D&C 137:9; vide também Hebreus 4:12; Alma 18:32; D&C 6:16; D&C 33:1; D&C 88:109.)

Ele saberá quais foram vossas aspirações, como esposas e mães que tentaram diligentemente servir à família e à sociedade de maneira apropriada.

Quando escuto o que dizem os que defendem causas contrárias aos mandamentos de Deus e observo pessoas que se comprazem nos prazeres do mundo, com aparente desdém pelo julgamento que virá, penso nesta descrição divina de sua insensatez:

“Porque rejeitaram os meus juízos, e não andaram nos meus estatutos, …o seu coração andava após os seus ídolos.” (Ezequiel 20:16.)

As entrevistas, como as de recomendação para o templo, com o bispo e membros da presidência da estaca, são experiências preciosas. De certa forma, podem ser consideradas significativos “ensaios” para aquele grande colóquio que teremos com o Grande Juiz.

Depois da ressurreição e do julgamento, ser-nos-á designado nosso lar eterno nas alturas. As revelações assemelham a glória de tais lugares de habitação às diferentes luzes dos corpos celestiais. Disse Paulo:

“Uma é a glória do sol, e outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas.” (I Coríntios 15:41.)

O Profeta Joseph Smith recebeu revelações adicionais do Senhor, e escreveu que na glória telestial habitarão “os que não receberam o evangelho de Gristo, nem o testemunho de Jesus” enquanto viveram aqui na terra. (D&C 76:82.)

O Profeta ensinou que na glória terrestre habitarão os “honrados da terra, que foram cegados pelas artimanhas dos homens”, aqueles que rejeitaram o evangelho enquanto viveram aqui na terra. (D&C 76:75.)

Finalmente ele escreveu sobre a glória celeste, “cuja glória é do sol, a glória de Deus, a maior de todas”. (D&C 76:70.) Lá viverão os justos com suas famílias, gozando da exaltação com o Pai Celestial e seu Filho Amado. Com eles estarão todos os que foram obedientes às ordenanças e convênios feitos no santo templo, onde foram selados a seus predecessores e à sua posteridade.

A medida que continuardes a enfrentar tantas escolhas desafiadoras na vida, lembrai-vos que estais bem protegidos, quando sabeis quem sois, por que estais aqui, e para onde ireis. Deixai que toda decisão que tomardes no caminho que conduz ao destino eterno se baseie em vossa individualidade, pois a responsabilidade das escolhas atuais terá muito a ver com tudo o que vos espera pela frente.

Que possamos escolher sabiamente, com fé naquele que nos criou, eu oro em nome de Jesus Cristo, amém.

Como citar este discursoRussell M. Nelson, “Escolhas”, Conferência Geral de Outubro de 1990, Sunday Afternoon Session (1990-10-06). Pulpit Vault, 1990-10-nelson-choices. Tradução oficial da Igreja, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).