Vencendo a Adversidade
Carlos H. Amado
No dia em que cheguei à Cidade do México como Autoridade Geral, com minha família, recebi um telefonema de um antigo companheiro de missão que queria conversar comigo naquela noite. Seu filho mais velho, que estava apenas começando o primeiro semestre da faculdade, havia morrido em um acidente trágico. Ele tinha apenas dezessete anos e estava cheio de entusiasmo pela vida. Era fiel na Igreja, e formado pelo seminário. Apenas duas semanas antes, havia conversado com os pais sobre seus desejos e objetivos na vida. Agora ele se fora. Eles compreendem bem o plano de salvação e são selados pela eternidade, mas a separação física os afeta. ¶
Aqueles que passaram por esse tipo de provação reconhecem que há tragédias tão difíceis que não conseguimos compreendê-las. Não temos, nesta vida, uma resposta para toda adversidade. Quando as provações vêm, é hora de voltarmos nossa alma para Deus, que é o autor da vida e a única fonte de consolo. "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vô-la dou como o mundo a dá." (João 14:27.) ¶
Há alguns meses, ouvi dizer que a esposa de um amigo corria novamente o risco de um aborto espontâneo. Apressei-me, junto com outros que estavam preocupados com o bebê, para ter certeza de que tudo ficaria bem. Enquanto ainda se faziam os preparativos, fomos informados de que já era tarde demais. Essa foi a terceira vez que ela passou por essa dolorosa experiência. Perguntei a mim mesmo: O que posso dizer para consolá-los? Como o Senhor os ajudará a superar esse novo golpe? ¶
No dia em que ela deixou o hospital, ouviu falar de outra irmã de sua estaca que passava pela mesma experiência. Cheia de confiança no Senhor, ela foi visitar a irmã e lhe dar apoio. Transformou sua própria tragédia em uma bênção de consolo para outras pessoas. ¶
Ao pensar em sua atitude, lembrei-me de uma lição que aprendi há muitos anos, quando meu pai morreu. Ele morreu repentinamente, deixando minha mãe viúva com quinze filhos, dez dos quais dependiam dela. Foi uma grande tragédia em sua vida. É claro que o evangelho, a irmandade da Igreja e nossos próprios testemunhos nos deram uma base sólida, que nos confortou e nos ajudou a aceitar essa perda com dignidade. Apesar de jamais a termos deixado sozinha, isso a afetou profundamente. Embora ela aceitasse a vontade de Deus, sua alma não encontrava paz interior. ¶
Certa manhã, quando viajávamos de ônibus para o centro da cidade, ela começou a sentir sua solidão. Percebi isso, mas também sabia que não podia lhe dar o consolo de que precisava. Ela chorou em silêncio, mas com dignidade. Uma senhora passageira se aproximou e disse: "A senhora parece estar muito triste." Minha mãe respondeu: "Acabei de perder meu marido." Então a senhora perguntou: "A senhora tem filhos?", e minha mãe respondeu: "Tenho quinze filhos, e cada um deles tem alguma característica que me lembra o pai deles. Assim, sou constantemente lembrada dele." ¶
Ao ouvir isso, a mulher disse: "A senhora é verdadeiramente abençoada, porque perdeu apenas seu marido. Eu também perdi meu marido, e minhas duas filhas, em um acidente de automóvel, e vivo sozinha. Por isso, compreendo sua dor e sua tristeza." Então acrescentou: "Somente Deus pode nos ajudar a superar provações como essa." ¶
Aqueles que sofrem grande adversidade e tristeza, e continuam a servir seus semelhantes, desenvolvem uma grande capacidade de compreender os outros. Como os profetas, adquirem um entendimento mais elevado da mente e da vontade de Cristo. Para mim, essa mulher foi como um anjo. Ela deu consolo e elevou os pensamentos de minha mãe em direção a Deus em um momento de grande provação. Daquele dia em diante, cada vez que minha mãe se sentia sozinha ou abandonada, ela me dizia: "Filho, tenha pena da mulher que perdeu tudo. Sou grata por o Senhor ter me abençoado com quinze filhos para serem meus companheiros na vida." ¶
Essa experiência pessoal tem me ajudado a compreender a importância do que Deus revelou a Joseph Smith em Doutrina e Convênios: ¶
"Sofrimento que fez com que eu, Deus, o mais grandioso de todos, tremesse de dor e sangrasse por todos os poros; e sofresse, tanto no corpo como no espírito — e desejasse não ter de beber a amarga taça e recuar — ¶
"Todavia, glória seja para o Pai; eu bebi e terminei meus preparativos para os filhos dos homens." (D&C 19:18-19.) ¶
Cristo sofreu mais do que qualquer um de nós, e Ele conhece a intensidade de nossas aflições. Não há sofrimento que tenhamos que Ele não tenha experimentado no Getsêmani e no Calvário. É por isso que Ele nos compreende e pode nos ajudar. ¶
Cristo declarou: "Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá." (João 11:25.) A maior tragédia que pode acontecer a uma pessoa não é a perda de seus bens, de seu intelecto ou de sua vida mortal, mas sim perder a vida eterna, que é o dom gratuito de Deus. ¶
As escrituras são testemunho dos diversos profetas — pessoas comuns, com chamados extraordinários — que enfrentaram grande tribulação e oposição. O pai Leí foi mandado abandonar seu ouro, sua prata e seu país. Os filhos de Mosias tiveram de renunciar ao trono. Jó perdeu suas terras, seu gado e até seus filhos, enquanto Abinádi, Estêvão e os Apóstolos de Cristo foram mortos a seu serviço. ¶
Para alguns, a verdadeira prova de nossa fé é permanecer fiéis, sem murmurar contra o Senhor, quando perdemos posição terrena, membros da família, ou até mesmo quando somos chamados a dar a própria vida. ¶
Há evidências nas escrituras de que esses grandes homens confiavam plenamente no Salvador, mesmo sem compreender totalmente Seus propósitos. O Profeta Joseph Smith aprendeu, ao estabelecer o reino de Deus nesta última dispensação, que quanto mais se esforçava para abençoar a vida de outros, maior era a oposição que enfrentava. Ele foi ao Senhor buscar justiça. Cristo compreendeu Joseph e sugeriu-lhe que talvez tivesse de sofrer ainda mais. O Senhor lhe disse: "O Filho do Homem desceu abaixo de todas elas. És tu maior do que ele?" (D&C 122:8.) ¶
Mais tarde, Joseph, com maior compreensão da vontade e dos propósitos de seu Salvador, aceitou seu glorioso destino, oferecendo a própria vida. Não é importante conhecer as provações pelas quais talvez tenhamos de passar nesta vida mortal. O que é essencial é nossa atitude ao enfrentar essas provações, e as lições e experiências que aprendemos com elas. Elas nos ajudarão a refinar nosso entendimento e a aumentar nossa espiritualidade. ¶
Basicamente, limitamos nossa visão aos acontecimentos que ocorrem nesta vida, com a maior ênfase colocada no presente. Somente quando fixamos nosso olhar nas coisas celestiais é que começamos a compreender as eternidades. Somente com a ajuda de Cristo podemos vencer plenamente a tragédia. É necessário desenvolver nossa fé nEle como o Redentor do mundo. Ele nos ensinou: "No mundo tereis aflição, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo." (João 16:33.) É minha oração que, quando tivermos aflições, sigamos o padrão que Ele nos ensinou durante sua amarga experiência no Getsêmani. Ele disse: "Se queres, passa de mim este cálice, porém não se faça a minha vontade, senão a tua." (Lucas 22:42.) Disto testifico em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶