“No Mundo”
L. Tom Perry
“Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas … não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo” (João 15:19.) ¶
Dos ensinamentos do Salvador, adotamos o dito comum na Igreja: “estar no mundo, mas não ser do mundo”. Normalmente, quando esse dito é usado, estamos enfatizando nossa necessidade de nos mantermos livres do pecado e do materialismo, tão predominantes no mundo em que vivemos. Isso é importante, é claro — devemos lembrar-nos continuamente de manter nossa vida em harmonia com as leis do Senhor. Hoje, porém, gostaria de tratar da primeira parte da expressão: “estar no mundo”. ¶
É “no mundo” que temos o privilégio de vir e desfrutar de uma experiência mortal. É “no mundo” que somos testados e provados. É “no mundo” que temos oportunidades de participar de sagradas ordenanças de salvação que determinarão nossa vida pós-mortal. É “no mundo” que temos oportunidade de servir e dar nossa contribuição à humanidade. É a este mundo que o Salvador deve vir. ¶
Os profetas de nossos dias têm nos incentivado a estar atentos às nossas obrigações enquanto estivermos aqui “no mundo”. O Presidente David O. McKay disse: ¶
“A responsabilidade de mostrar ao mundo que o evangelho de Jesus Cristo resolverá seus problemas recai sobre os homens que fazem essa afirmação. … Creio também que todo problema mundial pode ser resolvido pela obediência aos princípios do evangelho de Jesus Cristo. … ¶
“A solução para os grandes problemas mundiais está aqui, na Igreja de Jesus Cristo. Provisão ampla é feita não apenas para as necessidades dos indivíduos, mas também para a nação e para grupos de nações. Sei que essa é uma grande afirmação. … É simplesmente a aplicação do plano de Deus aos problemas mundiais. Vocês que possuem o sacerdócio têm hoje maior responsabilidade, agora que vivem neste momento criativo da história do mundo, do que jamais teve a Igreja antes. Repito. Se afirmamos possuir a verdade, é obrigatório que todo Santo dos Últimos Dias viva de tal maneira que, quando o povo do mundo vier, em resposta ao chamado, provar o fruto da árvore, o encontre saudável e bom. ¶
“Que o Senhor nos ajude a poder provar ao mundo que possuímos exatamente aquilo que o mundo de hoje anseia, e que, ao verem isso, saibam, como vocês sabem, como eu sei, que o evangelho eterno é uma luz para o mundo” (Gospel Ideals, Salt Lake City: Improvement Era, 1953, p. 5). ¶
Encontrei, no Antigo Testamento, um exemplo clássico de alguém que viveu “no mundo” e o influenciou por meio de sua vida justa. O nascimento desse jovem ocorreu numa época da história em que era improvável que alguém de Israel pudesse dar grande contribuição ao mundo. ¶
Após a morte do rei Salomão, em 975 a.C., as Dez Tribos rebelaram-se e se separaram da tribo de Judá. Um Israel dividido não conseguia resistir às outras potências da região. Egito e Assíria alternavam-se em dominar a terra de Israel. No ano 607 a.C., a Assíria propriamente dita e as províncias do norte caíram nas mãos dos medos, enquanto a Síria ficou exposta para ser tomada pelos babilônios. ¶
Enquanto essa luta ocorria, pareceu um momento oportuno para o Egito atacar a Palestina. O rei dos babilônios enviou seu filho, Nabucodonosor, para repelir os egípcios. Enquanto a batalha contra os egípcios se travava, o rei faleceu, e Nabucodonosor tornou-se o governante da Babilônia. Ele obteve êxito contra os egípcios e tornou-se governante de toda a Síria até a fronteira egípcia. Governou pelo terror, esmagando seus inimigos a ferro e fogo, e enfraquecendo-os por meio de deportações para outras partes de seu império. ¶
Foi no meio dessa era conturbada pela guerra que Daniel nasceu. Ainda jovem, ele e certos outros hebreus foram levados à corte de Nabucodonosor para servir. Foram escolhidos por causa de sua sabedoria, conhecimento e capacidade de aprender. Assim, Daniel foi levado a uma terra estranha, com costumes estranhos, um ambiente estranho e uma herança religiosa muito diferente (ver Daniel 1). ¶
O primeiro teste de Daniel em estar “no mundo” veio quando o servo de Nabucodonosor lhe ordenou que bebesse de seu vinho e comesse das “iguarias do rei”. Daniel “resolveu no seu coração não se contaminar com a porção das iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia” (Daniel 1:8.) ¶
O servo argumentou que o rei o havia tornado responsável pelo treinamento desses jovens e ordenara que comessem e bebessem o mesmo que os demais. Se não o fizessem, o rei notaria que estavam ficando fracos e magros, e certamente mandaria matar o servo. Então Daniel pediu que ele e seus amigos tivessem permissão para seguir os hábitos de saúde que lhes haviam sido dados. Seu pedido foi que fossem postos à prova por dez dias — durante dez dias se alimentariam de grãos e beberiam água, para ver se não estariam mais saudáveis do que todos os demais. ¶
A estratégia de Daniel foi muito interessante. Ele não contestou as crenças dos babilônios. Em vez disso, propôs-se a realizar um teste para ver qual caminho era melhor. O servo concordou com o teste. Durante os dez dias seguintes, Daniel e os que estavam com ele comeram e beberam apenas daquilo que sabiam que deviam. Ao final do décimo dia, Daniel e seus amigos foram considerados mais saudáveis e mais fortes do que todos os demais. Daniel logo constatou que não precisava adotar um padrão de valores diferente ao estar “no mundo”. ¶
Lembro-me de que, como jovem executivo, há muitos anos, parte do meu trabalho envolvia participar de jantares patrocinados por diferentes grupos empresariais. Cada jantar era sempre precedido por uma hora social. Eu me sentia muito desconfortável nesses ambientes. Depois do primeiro ou segundo jantar, comecei a chegar atrasado para evitar a hora social. Meu chefe considerou isso uma prática pouco recomendável, pois eu estava perdendo um tempo valioso de convivência com líderes empresariais. Ainda assim, sentia-me incomodado ao conviver em grupos em que era o único sem uma bebida na mão. Ficava me perguntando o que fazer com as mãos. Sempre se pode colocar uma mão no bolso, mas fica-se um tanto ridículo com as duas ali. Tentei segurar um copo de 7-Up, mas ele tinha a aparência de uma bebida alcoólica. ¶
Por fim, fui até o barman e perguntei se ele tinha alguma bebida com aparência claramente diferente de uma bebida alcoólica. Ele foi à cozinha e voltou com meio galão de leite, do qual me serviu um copo. Servir um copo de leite numa hora de coquetéis foi um acontecimento único. Pareceu atrair a atenção de todos, e tornei-me alvo de muitas brincadeiras. Isso me constrangeu no início, até que descobri que estava conhecendo mais líderes empresariais do que em qualquer reunião anterior. Percebi que não precisava violar os padrões da Igreja para me tornar um membro viável e contribuinte da profissão que escolhera. Na verdade, o sucesso veio justamente porque eu mantinha meus valores. ¶
Logo se tornou costume, nas horas sociais daquela comunidade, sempre ter uma caixa de leite no bar. Fiquei surpreso, com o passar do tempo, ao ver quantos de meus colegas se juntavam a mim para um copo de leite durante a hora que passávamos juntos. Descobri, assim como Daniel, que ser diferente no mundo trazia reações interessantes, mas que a obediência à lei do Senhor está sempre associada às Suas bênçãos. Não é essa a mensagem da revelação contida em Doutrina e Convênios? ¶
“Há uma lei, irrevogavelmente decretada no céu antes da fundação deste mundo, na qual todas as bênçãos se baseiam — ¶
“E quando recebemos uma bênção de Deus, é por obediência à lei na qual ela se baseia” (D&C 130:20–21.) ¶
Além de sermos obedientes à palavra do Senhor, temos sido instruídos quanto à nossa responsabilidade de declarar o evangelho a todos os filhos de nosso Pai Celestial. Novamente em Doutrina e Convênios lemos: ¶
“O valor das almas é grande à vista de Deus; … ¶
“E quão grande é sua alegria pela alma que se arrepende! ¶
“Portanto, sois chamados para clamar arrependimento a este povo. ¶
“E, se trabalhardes todos os vossos dias clamando arrependimento a este povo e trouxerdes a mim mesmo que seja uma só alma, quão grande será vossa alegria com ela no reino de meu Pai! ¶
“E agora, se vossa alegria é grande com uma só alma que tiverdes trazido a mim no reino de meu Pai, quão grande será vossa alegria se me trouxerdes muitas almas!” (D&C 18:10, 13–16.) ¶
Não sei como podemos experimentar essa alegria se não estivermos dispostos a ir além de nosso próprio círculo de amigos da Igreja. Vivemos “no mundo” durante nossa experiência mortal. Os princípios cristãos, que o evangelho ensina, são necessários em tudo o que fazemos e entre todos os povos. ¶
As esferas de influência que podemos irradiar por meio de nossas relações podem trazer contribuições valiosas ao mundo. Um exemplo justo pode atrair outros a viver segundo um padrão estabelecido pelo Senhor para a conduta de Seus filhos aqui na mortalidade. Pode ser uma fonte que traga almas à luz do evangelho, levando alguns a se filiarem à Igreja, enquanto outros não o fazem. Abraçar o evangelho é uma decisão pessoal, e sempre respeitamos e compreendemos os direitos dos indivíduos; mas como podemos esperar que o mundo abrace os princípios justos que o Senhor declarou para governar Seus filhos aqui, se não estendermos nossa influência para além de nós mesmos? ¶
Como nossos governos precisam de padrões de integridade! Como nossas comunidades precisam de critérios para medir a decência! Como nossas vizinhanças precisam de modelos de beleza e limpeza! Como nossas escolas precisam de incentivo e assistência contínuos para manter altos padrões educacionais! Em vez de gastarmos tempo reclamando da direção que essas instituições estão tomando, precisamos exercer nossa influência para moldar a direção certa. Um pequeno esforço de poucos pode resultar em tanto bem para toda a humanidade. ¶
Às vezes penso que temos medo de participar por causa da oposição que podemos enfrentar. Encontramos, novamente no exemplo de Daniel, alguém que enfrentou de frente a oposição de estar “no mundo” e foi capaz de influenciar para o bem aqueles ao seu redor. Conforme os talentos de Daniel foram reconhecidos pelo rei, ele se tornou um conselheiro de confiança. Muitos tinham inveja da posição que esse estrangeiro havia obtido, e buscaram eliminá-lo. Criaram uma nova lei que impediria Daniel de orar a Deus, o Pai Eterno. A pena por violar a lei era ser lançado na cova dos leões. Daniel foi flagrado orando, e a pena foi executada. Mas, por causa da fé de Daniel em Deus, os leões não lhe causaram nenhum mal. ¶
Mesmo com os desafios que Daniel continuamente enfrentava para viver sua religião, ele foi capaz de superar os conflitos que se apresentavam diante dele. O Senhor o abençoou e o protegeu em seu serviço. ¶
O serviço de Daniel não beneficiou apenas o rei; devido à fé que Daniel tinha no Senhor, isso afetou toda uma terra. O rei promulgou um decreto de que todo o povo do reino deveria adorar o Deus verdadeiro e vivo, o Deus que Daniel adorava. Quão poderosa foi a força do serviço de um único homem justo, afetando tantos, ao servir “no mundo” em que vivia! Quão eficazes serão os resultados de nosso serviço se continuarmos a servir, cada um à sua maneira pessoal, “no mundo” em que nós vivemos! ¶
Que tenhamos a fé necessária para depositar nossa confiança no Senhor e não nos preocuparmos com as forças que certamente se oporão à retidão. Que tenhamos a coragem de avançar na causa da verdade. ¶
Ao vivermos “no mundo”, que possamos contribuir para torná-lo um lugar melhor, por meio de nossa vida justa, de nosso serviço em causas justas e de nossa fé de que o bem, ao final, triunfará sobre o mal. ¶
Esta é a obra do Senhor em que estamos engajados; disso vos dou testemunho, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶