Amigo ou Inimigo
Charles A. Didier
Desde o princípio da humanidade, o homem tem dividido o seu mundo em dois campos, amigos e inimigos, com o propósito de satisfazer o seu orgulho e a sua ambição e exercer poder, domínio ou compulsão sobre o outro campo. ¶
Os líderes militares consagraram a expressão "amigo ou inimigo" e conceberam diferentes maneiras de identificar rapidamente quem era quem. Antigas histórias bíblicas nos falam desse processo de seleção. Ao final de uma batalha, os efraimitas tentavam escapar pelas passagens do Jordão. Infelizmente, essas rotas de fuga já estavam ocupadas por seus inimigos, os gileaditas, que precisavam saber quem era amigo ou inimigo. Perguntavam aos fugitivos: "És tu efraimita? E dizendo ele: Não; ¶
"Então lhe diziam: Dize, pois, Chibolete; porém ele dizia: Sibolete, porque não o podia pronunciar bem." (Juízes 12:5–6.) ¶
E essa pronúncia incorreta significava a morte. Quarenta e dois mil pereceram naquele dia. Ao que parece, o processo foi muito eficaz e não deixava margem para mal-entendidos. ¶
Não há muitas alternativas para responder à pergunta "Amigo ou inimigo?" É simplesmente uma coisa ou outra. Podemos, é claro, tentar fingir ser amigo por medo de perder a vida, mas o resultado final é quase sempre o mesmo. Veremos que há uma analogia entre esse processo de seleção usado pelo homem natural e o processo de seleção para se encontrar o homem potencialmente divino. ¶
Desde o princípio da humanidade, a história tem registrado que um dos desvios do homem tem sido, e ainda é, criar divisões artificiais e travar guerras santas por causa de diferenças raciais, religiosas, culturais ou políticas, e justificar esses crimes contra a humanidade em nome do Senhor. ¶
Hoje, em nosso mundo tão complexo, bem podemos lembrar-nos da verdadeira mensagem que vem do próprio Cristo para evitar batalhas constantes e um holocausto final, quando ele declarou: "Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e perseguem." (3 Néfi 12:44.) ¶
Contudo, a questão pessoal essencial que precisamos considerar é se nosso relacionamento com a divindade será de amigo ou de inimigo. Se bem compreendido, por causa de suas implicações eternas, esse relacionamento pode trazer a vida eterna; se mal compreendido, mal usado, mal aplicado, mal concebido ou mal representado, pode trazer a morte mortal e também a espiritual. ¶
Tiago nos dá uma advertência: ¶
"De onde vêm as guerras e pelejas entre vós? Porventura não vêm disto, a saber, dos vossos deleites, que nos vossos membros guerreiam? ¶
"Cobiçais, e nada tendes; matais e sois cobiçosos, e não podeis alcançar; combateis e guerreais, e nada tendes, porque não pedis. ¶
"Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites. ¶
"Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus." (Tiago 4:1–4.) ¶
O que é ser inimigo de Deus? Uma escritura o define de maneira concisa: ¶
"Porque o homem natural é inimigo de Deus e tem-no sido desde a queda de Adão e sê-lo-á para sempre." (Mosias 3:19.) ¶
Talvez alguém se pergunte, depois de ouvir essa afirmação tão contundente, se o homem pode abandonar essa natureza carnal e essa crença de que a terra é seu recurso final, provendo alimento, abrigo, conforto, prazer, jogos e até mesmo deuses. Poderá ele descobrir, pela fé, que é o nosso Pai Celestial quem constitui o recurso eterno, quando souber cultivar essa amizade? ¶
"Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus." (Efésios 2:8.) ¶
O que é, então, um verdadeiro amigo de Deus? ¶
O Presidente David O. McKay explicou esse processo: "O homem verdadeiramente grande é aquele que é mais semelhante a Cristo. ¶
"O que sinceramente pensardes em vosso coração a respeito de Cristo determinará o que sois, determinará em grande parte quais serão os vossos atos." (In Conference Report, abr. de 1951, p. 93.) ¶
"Ao escolhermos [Jesus Cristo] como nosso ideal, criamos em nós mesmos o desejo de sermos como ele, de termos comunhão com ele." (In Conference Report, abr. de 1951, p. 98.) ¶
Tornar-se amigo de Deus é possível por causa do Mediador, o Príncipe da Paz, Jesus Cristo, o Filho de Deus. Consideremos agora ensinamentos adicionais do profeta Benjamim: ¶
"Porque o homem natural é inimigo de Deus e tem-no sido desde a queda de Adão e sê-lo-á para sempre, a não ser que ceda ao influxo do Santo Espírito e despoje-se do homem natural e torne-se santo pela expiação de Cristo, o Senhor; e torne-se como uma criança, submisso, manso, humilde, paciente, cheio de amor, disposto a submeter-se a tudo quanto o Senhor achar que lhe deva infligir, assim como uma criança se submete a seu pai." (Mosias 3:19; itálico acrescentado.) ¶
Um dos verdadeiros propósitos da vida é tornar-se amigo do Mediador, nosso Salvador e Redentor, e não apenas compreender sua missão, mas também apoiá-la e, então, qualificar-se para ser chamado seu amigo, seu discípulo, e entrar na presença de seu Pai. ¶
"E dou-vos estas palavras, para compreenderdes e saberdes como adorar e saberdes o que adorais, para que venhais ao Pai em meu nome e, no devido tempo, recebais de sua plenitude." (D&C 93:19.) ¶
Profetas e Apóstolos testificam da importância de Cristo ser nosso amigo. O testemunho do Presidente Spencer W. Kimball, no ano passado, na conferência geral, tocou meu coração quando ele concluiu seu discurso testificando: "Sei que Jesus Cristo é o Filho do Deus vivo e que Ele foi crucificado pelos pecados do mundo. Ele é meu amigo, meu Salvador, meu Senhor e meu Deus. De todo o coração, oro para que os santos guardem Seus mandamentos, tenham Seu Espírito com eles e obtenham uma herança eterna com Ele na glória celestial." (Ensign, nov. de 1982, p. 6.) ¶
Dizer "Ele é nosso amigo" significa que precisamos nos qualificar como seus amigos, ter os mesmos propósitos, ser defensores e fortes advogados de sua causa. ¶
Podemos aprender uma grande lição com a amizade entre Davi e Jônatas, que se baseava em um convênio de fidelidade ao Senhor. Permitam-me compartilhar alguns trechos das qualidades dessa amizade. ¶
"A alma de Jônatas se ligou com a alma de Davi; e Jônatas o amou, como à sua própria alma." (1 Samuel 18:1.) ¶
"Jônatas falou bem de Davi a Saul, seu pai." (1 Samuel 19:4.) ¶
"E disse Jônatas a Davi: Vai-te em paz, o que ambos juramos em nome do Senhor, dizendo: O Senhor seja entre mim e ti, e entre a minha semente e a tua semente seja perpetuamente." (1 Samuel 20:42.) ¶
Como indivíduos, e especialmente como adolescentes, que tipo de amigos escolhemos, adotamos, em quem confiamos e a quem visitamos? Somos suficientemente fortes para recusar ser amigos do mundo e de seus representantes? Somos suficientemente fortes para aceitar a amizade de Cristo? Ser amigo é ser complacente e render-se a padrões inferiores, ou é manter padrões semelhantes aos de Cristo e defendê-los? Consideramos a amizade mútua como uma forma de manter e desenvolver o alicerce de nosso testemunho de Cristo? "Banqueteai-vos com as palavras de Cristo; pois eis que as palavras de Cristo vos dirão todas as coisas que deveis fazer." (2 Néfi 32:3.) As condições estão estabelecidas; o modelo está dado. Então, por que não nos tornarmos seus discípulos, sendo suas testemunhas? Por que alimentar o dilema constante de nossa mente? Comprometamo-nos a ser seus amigos! ¶
Encontramos o mesmo desafio ao ensinar nossos filhos a construir uma associação eterna de amizade e amor. "Eu, porém, ordenei que criásseis vossos filhos em luz e verdade." (D&C 93:40.) Tratamos nossos filhos e filhas como filhos de Deus? Ensinamos pelo exemplo? Oramos com eles? Frequentamos a igreja com eles? Temos a noite familiar regularmente? Nosso progresso espiritual e nossa qualificação para nos tornarmos amigos de Cristo e de seu Pai dependem de quão fielmente vivemos o evangelho em nossos lares e de quão diligentemente transmitimos os ensinamentos a nossos filhos. ¶
"E não permitireis que vossos filhos andem famintos ou desnudos; nem permitireis que transgridam as leis de Deus e briguem e disputem entre si e sirvam ao diabo, … sendo ele inimigo de toda retidão." (Mosias 4:14.) ¶
Nosso desafio é escolher o certo, declarar que somos amigos de nosso Pai Celestial. O convênio que fizemos por meio do batismo é um contrato para nos tornarmos amigos de Deus. ¶
Abraão "foi chamado amigo de Deus." (Tiago 2:23.) Profetas e Apóstolos, ao longo das dispensações, têm sido amigos de Deus. Se ainda não o fizestes, agora é o momento de vos tornardes amigos de Deus. Temos o conhecimento das escrituras, os testemunhos dos profetas. Sei que meu Redentor vive. Quero chamá-lo meu amigo; quero ser chamado seu amigo. Que todos nós possamos qualificar-nos para sermos seus discípulos, seus amigos. Oro em nome de Jesus Cristo, amém. ¶