“A Menos que um Homem Nasça de Novo”
Marion G. Romney
No décimo sétimo capítulo de João, registra-se que, ao orar Jesus ao Pai em favor de seus discípulos, ele disse: “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” (João 17:3.) ¶
Em sua oração, Jesus deixou perfeitamente claro que os onze discípulos o conheciam como o Filho de Deus. Ele lhes ensinara quem era e que fora enviado por seu Pai. Que eles receberam um testemunho em seu coração e em sua alma da veracidade dos seus ensinamentos fica claro na seguinte declaração de João: ¶
“Jesus disse essas coisas, e levantou seus olhos ao céu, e disse: Pai, é chegada a hora; glorifica teu Filho, para que também o teu Filho te glorifique a ti; ¶
“Assim como lhe deste poder sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos quantos lhe deste. ¶
“Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste, e guardaram a tua palavra. ¶
“Agora já reconheceram que tudo quanto me deste vem de ti, ¶
“Porque lhes dei as palavras que tu me deste; e eles as receberam, e verdadeiramente reconheceram que saí de ti, e creram que me enviaste.” (João 17:1-2, 6-8.) ¶
Ao receberem a mensagem do Salvador e aceitá-lo por aquilo que era e é, os Apóstolos obtiveram a vida eterna. ¶
Esse conhecimento “do único Deus verdadeiro, e de Jesus Cristo” (João 17:3) é o mais importante conhecimento no universo; é o conhecimento sem o qual, disse o Profeta Joseph Smith, nenhum homem poderia ser salvo. A falta dele é a ignorância a que se refere a revelação em que está escrito: “É impossível ao homem ser salvo em ignorância.” (D&C 131:6.) ¶
Devemos ter em mente que existe mais de uma fonte de conhecimento. Há o conhecimento obtido por meio dos órgãos sensoriais normais do homem. Tal conhecimento deve ser buscado. O Senhor nos ordenou obter todo esse tipo de conhecimento que pudermos, dessa maneira. ¶
Há também o conhecimento das coisas divinas, que vem por meio da revelação direta — chamado, às vezes, de conhecimento religioso. E há dois aspectos do conhecimento religioso. Um deles diz respeito ao grande tesouro de conhecimento religioso que temos nas escrituras. Desde o princípio, desde a época do Pai Adão até hoje, o Senhor concedeu, por meio de seus profetas, por revelação, conhecimento religioso. Esse conhecimento diz respeito às verdades da vida. Trata de Deus e de seu Filho Amado, do grande plano do evangelho e da missão de Jesus como Salvador e Redentor. O outro aspecto do conhecimento religioso é o testemunho pessoal disponível por meio da inspiração, uma forma de revelação que vem a cada indivíduo. ¶
O mundo inteiro tem acesso à palavra revelada de Deus, tal como registrada na Bíblia. E o mundo inteiro poderia ter acesso ao conhecimento religioso revelado, registrado no Livro de Mórmon, na Doutrina e Convênios e na Pérola de Grande Valor. ¶
Milhões de pessoas que leem e estudam a Bíblia não a entendem. Milhões não entendem o que Jesus disse na oração registrada no décimo sétimo capítulo de João, do qual foi tirado nosso tema. A razão de não a entenderem é que sua compreensão não foi iluminada pelo poder do Espírito Santo. Elas não receberam um testemunho pessoal. ¶
Para conhecer a Deus, nosso Pai Eterno, e Jesus Cristo, a quem ele enviou, é preciso, como fizeram os Apóstolos antigos, aprender sobre eles por meio do processo da revelação divina. É preciso nascer de novo. Deixem-me dar-lhes uma ilustração dos ensinamentos registrados do Salvador, para explicar o que quero dizer. ¶
No terceiro capítulo de João, está escrito que Nicodemos, um homem muito sábio, na verdade um membro do Sinédrio, foi ver Jesus à noite — ele ainda não tinha coragem suficiente para ir vê-lo durante o dia. Mas foi ver Jesus à noite, e disse: ¶
“Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus, porque ninguém pode fazer esses sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.” (João 3:2.) ¶
Nessa declaração, Nicodemos revelou, sem perceber, mas claramente, o fato de que não sabia quem Jesus era. Tudo o que ele conseguia ver no Filho de Deus era um grande mestre. Era tudo o que dele se poderia esperar, no entanto, pois ele baseava seu conhecimento de quem Jesus era naquilo que vira e ouvira dos milagres do Mestre. Percebendo isso, Jesus lhe informou que o conhecimento das coisas divinas não podia ser obtido por meio dos sentidos normais do homem. ¶
“Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus”, disse Jesus. (João 3:3.) ¶
Embora Nicodemos fosse sábio nas coisas do mundo, não conseguiu entender essa simples declaração de verdade. Na verdade, sua resposta revelou espanto: ¶
“Como pode um homem nascer, sendo velho?”, disse ele. “Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?” (João 3:4.) ¶
Jesus, ainda persistindo em seus esforços para fazê-lo compreender, continuou: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus.” (João 3:5.) Aqui temos o Salvador dizendo que o reino de Deus não pode ser visto nem alcançado, a menos que se nasça de novo. ¶
Mas Nicodemos ainda não conseguia entender. Jesus então declarou a grande lei: “O que é nascido da carne é carne.” Ou seja, aquilo que aprendemos por meio de nossos sentidos normais tem a ver com esta Terra. “E o que é nascido do Espírito”, disse ele, “é espírito.” (João 3:6.) As coisas que aprendemos por meio do processo da inspiração são de Deus, do Espírito. ¶
Todo aquele que quiser conhecer a Deus, o Pai Eterno, e Jesus Cristo, a quem ele enviou, deve receber esse conhecimento pelo Espírito. Os membros da Igreja, é claro, já passaram por esse processo. Foram batizados e confirmados membros da Igreja e tiveram as mãos impostas sobre sua cabeça para receber o dom do Espírito Santo. Por meio dessas ordenanças, a porta é destrancada. A submissão a isso é absolutamente essencial para o novo nascimento. Mas, para obter a vida eterna, é preciso humilhar-se e purificar-se de tal maneira que, de fato, se receba, pelo poder do Espírito Santo, um testemunho pessoal de que Deus é seu Pai Eterno e de que Jesus Cristo é o Filho de Deus e nosso Salvador pessoal, bem como o Redentor do mundo. ¶
Deixem-me dar-lhes uma ilustração. É algo pessoal para minha família, mas ilustra bem o ponto, então espero que me perdoem por usá-la. Minha esposa foi criada num lar onde havia oração à noite e de manhã; onde, quase diariamente, discutiam princípios do evangelho ao redor da lareira familiar. Ela adorava os estudos e queria ir para a faculdade. Seu pai, porém, achava que a faculdade era para os rapazes. Em sua luta por uma educação, ela desenvolveu uma atitude de admiração reverente por pessoas que haviam passado pela faculdade. Como membro de um conselho de Escola Dominical de estaca em Idaho Falls, ela lecionava numa classe. Chegou à classe uma não membro da Igreja, esposa de um dos irmãos do conselho. Essa mulher tinha um diploma universitário da Universidade de Idaho. Minha esposa, ainda sem ter recebido seu diploma, sentiu-se um pouco intimidada na presença dessa mulher. ¶
Uma das lições do curso tratava da Primeira Visão do Profeta Joseph Smith. Ao se preparar para a lição, veio-lhe à mente a constatação de que essa não membro estaria presente na classe. Essa constatação foi seguida pela pergunta: “O que ela vai pensar de mim, uma menina ignorante, dizendo que o Pai e o Filho realmente desceram do céu e apareceram diante de um menino de quatorze anos?” O pensamento a aterrorizou, e ela concluiu que não conseguiria fazê-lo. Foi até sua mãe, chorando, e disse: “Mãe, não consigo dar esta lição. Não sei se Joseph Smith viu o Pai e o Filho. Sei que fui ensinada a acreditar nisso a vida toda, por você e pelo Pai. Acreditei em vocês, mas pessoalmente eu não sei. Essa mulher vai zombar de mim. Simplesmente não consigo ficar diante da classe, com essa mulher presente, e dar esta lição.” ¶
Ora, sua mãe não frequentara muito a escola. Não era uma pessoa instruída pelos padrões do mundo, mas tinha fé em Deus, o Pai Eterno, e em Jesus Cristo, seu Filho, e disse à filha: “O que Joseph Smith fez para receber aquela visão?” ¶
“Bem”, ela respondeu, “ele orou.” ¶
“Por que você não faz isso?”, disse ela à filha. ¶
Essa jovem voltou para seu quarto e ali, pela primeira vez em sua vida, na verdade, foi ao Todo-Poderoso com o sincero desejo de saber se ele vivia e se ele e o Salvador realmente haviam aparecido ao Profeta Joseph. Ao sair daquele quarto, foi para sua classe de Escola Dominical e deu aquela lição com alegria, com conhecimento, com convicção. Ela tinha nascido do Espírito. Ela sabia. ¶
Agora, meus amados irmãos e irmãs, todos precisam ter uma experiência espiritual para obter a vida eterna, para conhecer a Deus, o Pai Eterno, e Jesus Cristo, a quem ele enviou. Suplico-lhes que busquem esse conhecimento, se ainda não o tiverem. Vocês já conhecem o caminho. Não é uma experiência coletiva. Precisa vir individualmente a cada um de vocês. Precisa vir a vocês. Precisa vir àqueles a quem vocês ensinam. Devemos ensinar pelo Espírito, “e se não receberdes o Espírito não ensinareis”, disse o Salvador. “E o Espírito ser-vos-á dado pela oração da fé.” (D&C 42:14.) ¶
Vocês que foram batizados têm direito a isso. Desejem-no. Orem por isso. Trabalhem por isso, e Deus lhes concederá. ¶
Que cada um de vocês receba esse conhecimento de Deus, o Pai Eterno, e de Jesus Cristo, a quem ele enviou, o conhecer o qual é a vida eterna, é o que humildemente peço em oração, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶