As 'Pequenas Coisas' e a Vida Eterna
Angel Abrea
Numa tarde extremamente quente, eu atravessava as verdes terras agrícolas dos Pampas, na Argentina. O sol escaldava a rodovia a ponto de as ondas de calor se tornarem visíveis. Não obstante, eu estava confiante e confortável, porque tinha acabado de comprar um carro novo, recém-saído de fábrica, com um motor grande e muita potência para vencer os elementos e me permitir viajar rapidamente no conforto do ar-condicionado. ¶
De repente, notei que a temperatura do meu carro novo havia começado a subir e o grande motor começou a dar sinais de esforço excessivo. Quando o marcador de temperatura chegou ao ponto de perigo, encostei o carro na beira da estrada, na esperança de que, com meu conhecimento muito limitado de mecânica, eu pudesse descobrir o que havia de errado com o carro. Devo admitir que fiquei bastante contrariado ao pensar que algo pudesse deter meu grande carro novo. Não demorou muito, depois de eu levantar o capô, para que eu descobrisse, para minha surpresa, que uma miríade de coloridas borboletinhas havia se acumulado no radiador, sufocado o processo de arrefecimento e parado o carro. Fiquei então impressionado ao perceber como algumas centenas de pequenas borboletas, em sua força coletiva, puderam dominar a imensa potência do motor. Não, não fora uma águia, um falcão, ou qualquer outra coisa mais ou menos justificável, mas apenas um par de centenas de pequenas borboletas. ¶
Esse incidente me fez pensar no que muitas vezes acontece em nossa própria vida. Pensei no tremendo potencial que existe em cada um de nós, potencial que pode nos conduzir à vida eterna. ¶
O Profeta Joseph Smith disse: ¶
“Eis, pois, a vida eterna — conhecer o único Deus sábio e verdadeiro; e vós tendes de aprender a ser deuses vós mesmos, e a ser reis e sacerdotes de Deus, da mesma forma que todos os deuses fizeram antes de vós, a saber, passando de um pequeno grau a outro, e de uma pequena capacidade a uma grande; de graça em graça, de exaltação em exaltação, até alcançardes a ressurreição dos mortos e serdes capazes de habitar em fogos eternos, e de sentar-vos em glória, como os que se assentam entronizados em poder eterno. … ¶
“… [Vós] sereis herdeiros de Deus e co-herdeiros com Jesus Cristo. O que é isso? Herdar o mesmo poder, a mesma glória e a mesma exaltação, até chegardes à posição de um Deus e ascenderdes ao trono do poder eterno, da mesma forma que aqueles que vos precederam.” (Teachings of the Prophet Joseph Smith, sel. Joseph Fielding Smith, Salt Lake City: Deseret Book Co., 1938, pp. 346–47.) ¶
Quantas vezes permitimos que pequenas “borboletas” reduzam, restrinjam ou limitem nosso imenso potencial de nos guiar à exaltação? ¶
Proporcionalmente, são relativamente poucos os que são detidos em sua jornada pelos chamados pecados graves ou sérios, como aqueles que poderíamos encontrar nas manchetes dos jornais. Geralmente, não é a poderosa águia que nos derrota, mas as pequenas “borboletas”. ¶
Para melhor ilustrar esse conceito, gostaria de mencionar alguns desses “obstáculos de estrada” que se tornam empecilhos em nossa maravilhosa jornada rumo ao reino celestial. ¶
Já pensamos na tremenda deterioração espiritual que resulta de não guardarmos o dia do Senhor como dia santo? Esse mandamento envolve muito mais do que simplesmente descansar de nossos trabalhos. Guardar o dia do Senhor como dia santo constrói, por natureza, o caráter espiritual e nos prepara para o que está por vir. Ao observarmos esse mandamento, teremos poder sobre o mal; seremos mais capazes de guardar os mandamentos do Senhor e de nos manter incontaminados pelos pecados do mundo. (Ver D&C 59:9.) ¶
Mais especificamente, falando sobre o dia do Senhor, já pensamos na desnutrição espiritual que resulta de não comparecermos às nossas reuniões sacramentais, ou de comparecermos a elas com a atitude errada? O sagrado convênio feito pelos membros da Igreja no batismo deve ser o pensamento e o sentimento predominantes em nosso coração e em nossa mente enquanto participamos do sacramento. Se conseguirmos alcançar isso, teremos sempre conosco o Espírito do Senhor. ¶
Nenhum membro da Igreja pode ignorar ou simplesmente deixar de lado a renovação semanal desse convênio e pretender manter o Espírito. Se realmente compreendemos o propósito de nossas reuniões sacramentais, compareceremos a elas não apenas para ouvir alguém falar, o que, é claro, é importante, mas para renovar os sagrados convênios feitos com nosso Pai Celestial em nome de seu filho, Jesus Cristo. Aqueles que fazem do hábito não comparecer a esse serviço semanal, e não se arrependem, colocam em grande perigo sua estabilidade e seu bem-estar espiritual. ¶
Já paramos alguma vez para pensar no que significa para nossa salvação negligenciarmos a oração, ou não desenvolvermos diariamente, a partir de nossas orações, experiências repetidamente gratificantes? Estamos continuamente nos referindo ao “poder da oração”, mas estamos sempre dispostos a pagar o preço para que a promessa encontrada em 3 Néfi 18:18–20 se cumpra? ¶
“Eis que em verdade, em verdade vos digo que deveis vigiar e orar sempre para não cairdes em tentação; porque Satanás deseja ter-vos para vos peneirar como trigo. ¶
“Portanto, deveis sempre orar ao Pai em meu nome; ¶
“E tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, que seja justo, acreditando que recebereis, eis que vos será dado.” ¶
Outro exemplo: percebemos que, toda vez que apoiamos os líderes da Igreja, temos o dever de sustentá-los? A mão levantada torna-se um símbolo do convênio que fazemos de apoiá-los. Cada vez que os criticamos ou condenamos, tornamo-nos literalmente transgressores do convênio. O Presidente Joseph F. Smith fez o seguinte comentário sobre esse problema: ¶
“No momento em que um homem diz que não se submeterá à autoridade legalmente constituída da Igreja, seja ela os mestres, o bispado, o sumo conselho, seu quórum ou a Primeira Presidência, e em seu coração confirma isso e o coloca em prática, nesse momento ele se corta dos privilégios e bênçãos do Sacerdócio e da Igreja, e se separa do povo de Deus, pois ignora a autoridade que o Senhor instituiu em sua Igreja.” (Gospel Doctrine, 5th ed., Salt Lake City: Deseret Book Co., 1939, p. 45.) ¶
Tive inúmeras experiências ouvindo os motivos que as pessoas têm para não pagar seu dízimo, a maioria dos quais são apenas casos de simples falta de fé. ¶
Lembro-me de que, certa vez em 1957, enquanto exercia o chamado de novo presidente de um ramo na Argentina, decidi entrevistar os membros a respeito da importância de pagar o dízimo. Encontrei-me conversando com um bom irmão do ramo chamado José, que tinha dificuldade em pagar seu dízimo. Perguntei-lhe, sem rodeios: “Irmão José, por que o senhor não paga seu dízimo?” Tenho certeza de que José não esperava que eu fosse tão direto. ¶
Depois de um momento de silêncio, ele respondeu: “Como o senhor sabe, presidente, tenho dois filhos. O salário de um trabalhador é muito baixo. Neste mês, tenho de comprar sapatos para meus filhos irem à escola; e, matematicamente, simplesmente não tenho dinheiro suficiente.” ¶
Numa resposta imediata, eu disse: “José, prometo-lhe que, se pagar seu dízimo fielmente, seus filhos terão seus sapatos para ir à escola, e o senhor poderá pagar por todas as necessidades de seu lar. Não sei como Ele fará isso, mas o Senhor sempre cumpre Suas promessas. Além disso”, acrescentei, “se ainda assim o senhor achar que não tem dinheiro suficiente, eu lhe devolverei do meu próprio bolso o que pagou de dízimo.” ¶
No caminho para casa, perguntei-me se o que eu tinha feito era certo. Ali estava eu, recém-casado, apenas começando minha carreira, e enfrentando meus próprios problemas econômicos. Comecei a me preocupar com meus próprios sapatos, quanto mais com os da família de José! Embora, quando cheguei em casa, minha querida esposa me apoiasse de todo o coração e me garantisse que tudo ficaria bem, devo dizer que, naquela noite, ninguém orou mais fervorosamente pelo bem-estar econômico do Irmão José do que eu. ¶
Um mês depois, sentei-me novamente com José. Embora as lágrimas em seus olhos quase o impedissem de falar, ele disse: “Presidente, é incrível. Paguei meu dízimo; consegui cumprir todas as minhas obrigações e até comprei os sapatos novos para meus filhos, tudo isso sem nenhum aumento em meu salário. Sei que o Senhor cumpre Suas promessas!” ¶
José continua, até hoje, um fiel pagador de dízimo. ¶
Até agora, mencionei apenas alguns dos problemas decorrentes das pequenas “borboletas” que encontramos em nosso caminho eterno. Há, é claro, muitos outros. Poderíamos mencionar, por exemplo, a falta de autocontrole que leva muitas pessoas a infringir a Palavra de Sabedoria; as várias desculpas para não cumprir o programa de preparo pessoal e familiar; a falta de estímulo e a apatia em relação às nossas responsabilidades genealógicas; a falta de retornar com frequência aos templos do Senhor para realizar o trabalho necessário por nossos parentes falecidos; em alguns casos, a falta de interesse, em outros, o medo, que impede muitos de participar da obra missionária. Esses são apenas exemplos de uma lista que não tem fim. ¶
É altamente provável que nunca percamos nossa condição de membros da Igreja simplesmente por não obedecermos a um ou mais dos mandamentos mencionados. Não obstante, seja individual ou coletivamente, essas pequenas “borboletas” afetam nosso desenvolvimento espiritual e, fundamentalmente, a real capacidade de cada indivíduo. ¶
O Senhor não nos enviou ao mundo para fracassarmos. Fomos investidos de todos os talentos e habilidades necessários para a jornada até chegarmos, uma vez mais, à Sua presença. Nosso maior desafio é usar fiel e decididamente tudo o que Ele nos deu para alcançarmos nossa exaltação. Se conseguirmos isso — se “vivermos de toda palavra que sai da boca de Deus” (D&C 84:44) — ao final de nossa jornada, faremos novamente parte de uma experiência gloriosa como a que tivemos no início, quando “todos os filhos de Deus jubilavam”. (Jó 38:7.) ¶
Sei que o Senhor tornou isso possível e que Ele nos abençoa e continuará a nos abençoar à medida que progredimos rumo a nosso glorioso destino. Em nome de Jesus Cristo, amém. ¶