Pulpit

O Enriquecimento do Casamento

James E. Faust

Conferência Geral de Outubro de 1977·Saturday Morning Session·1977-10-01

Há alguns anos, fui consultado por uma mulher que desejava o divórcio de seu marido, por motivos que, em minha opinião, eram justificados. Depois que o divórcio se concluiu, não voltei a vê-la por muitos anos. Um encontro casual com ela na rua foi uma grande surpresa. Os anos de solidão e desânimo eram evidentes em seu rosto, outrora belo.

Depois de trocarmos algumas gentilezas, ela logo disse que a vida não havia sido rica e recompensadora para ela, e que estava cansada de enfrentar sozinha a luta. Então veio uma revelação surpreendente, que, com sua permissão, compartilho. Ela disse: "Por pior que fosse, se eu tivesse de fazer tudo de novo, sabendo o que sei hoje, eu não teria buscado o divórcio. Isto é pior."

Estatisticamente, é difícil evitar o divórcio, pois, nos Estados Unidos, a cada cem casamentos há hoje cerca de cinquenta divórcios. (World Almanac, 1976.) A menos que a atual taxa, cada vez maior, de divórcios diminua, no início da década de 1980 haverá setenta divórcios para cada cem casamentos.

O divórcio só pode ser justificado nas circunstâncias mais raras, pois com frequência despedaça a vida das pessoas e destrói a felicidade familiar. Muitas vezes, num divórcio, as partes perdem muito mais do que ganham.

A experiência traumática pela qual alguém passa no divórcio parece pouco compreendida e não suficientemente valorizada; e certamente é preciso muito mais compaixão e compreensão para com aqueles que vivenciaram essa grande tragédia e cujas vidas não podem ser revertidas. Para os que são divorciados, ainda há muito a esperar em termos de realização e felicidade na vida, no esquecimento de si mesmo e na prestação de serviço aos outros.

Por que a felicidade no casamento é tão frágil e passageira para tantos, e ainda assim tão abundante para outros? Por que o cortejo resultante de angústia e sofrimento tem de ser tão longo, e ter tantas pessoas inocentes a bordo?

Quais são os ingredientes enriquecedores que faltam em tantos casamentos, todos iniciados com tanta felicidade e tantas esperanças elevadas?

Há muito tempo pondero estas difíceis perguntas. Tendo passado quase uma vida inteira lidando com experiências humanas, estou de certa forma familiarizado com os problemas de casamentos infelizes, de divórcio e de famílias com o coração partido. Também posso falar de grande felicidade, pois, graças à minha amada Ruth, encontrei no casamento a mais rica realização da existência humana.

Não há respostas simples e fáceis para as perguntas desafiadoras e complexas sobre a felicidade no casamento. Há também muitos motivos supostos para o divórcio. Entre eles estão os sérios problemas do egoísmo, da imaturidade, da falta de compromisso, da comunicação inadequada, da infidelidade; e todos os demais, que são óbvios e bem conhecidos.

Em minha experiência, há outro motivo que parece não tão óbvio, mas que precede e permeia todos os outros. É a falta de um enriquecimento constante no casamento. É a ausência daquele algo a mais que o torna precioso, especial e maravilhoso, quando ele também é trabalho árduo, difícil e monótono.

Vocês talvez perguntem: "Como pode um casamento ser constantemente enriquecido?" Adão, falando de Eva, disse: "Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne." (Gênesis 2:23.)

Construímos nossos casamentos com amizade infindável, confiança, integridade, e ministrando e sustentando um ao outro em nossas dificuldades.

Há algumas perguntas simples e relevantes que cada pessoa, casada ou pensando em se casar, deveria fazer honestamente, num esforço para se tornar "uma só carne". São elas:

Primeira: sou capaz de pensar primeiro no interesse de meu casamento e de meu cônjuge, antes de pensar em meus próprios desejos?

Segunda: quão profundo é meu compromisso com meu cônjuge, à parte de quaisquer outros interesses?

Terceira: ele ou ela é meu melhor amigo?

Quarta: tenho respeito pela dignidade de meu cônjuge como pessoa de mérito e valor?

Quinta: brigamos por causa de dinheiro? O próprio dinheiro parece não tornar um casal feliz, nem sua falta, necessariamente, torná-lo infeliz, mas o dinheiro é muitas vezes um símbolo de egoísmo.

Sexta: existe entre nós um vínculo espiritualmente santificador?

Recomendo a todos o excelente estudo do Presidente Kimball, "Marriage and Divorce" ("Casamento e Divórcio"), no qual ele nos lembra: "[Não há] combinação de poder [que] possa destruir um casamento, exceto o poder existente em um ou em ambos os cônjuges." (Marriage and Divorce, Deseret Book, p. 17.)

Os relacionamentos matrimoniais podem ser enriquecidos por uma comunicação melhor. Uma forma importante é orar juntos. Isso resolverá muitas das diferenças, se houver alguma, entre o casal, antes que o sono chegue. Não pretendo dar ênfase exagerada às diferenças, mas elas são reais, e tornam as coisas interessantes. Nossas diferenças são os pequenos grãos de sal que podem fazer o casamento parecer mais doce. Comunicamo-nos de mil maneiras, como um sorriso, um toque nos cabelos, um carinho suave, e o lembrar-se, todos os dias, de dizer "eu te amo", e o marido de dizer "você está linda". Outras palavras importantes a dizer, quando apropriado, são "eu sinto muito". Ouvir é uma excelente forma de comunicação.

A confiança completa um no outro é um dos maiores fatores de enriquecimento no casamento. Nada devasta o núcleo da confiança mútua necessária para manter um relacionamento pleno como a infidelidade. Jamais há justificativa para o adultério. Apesar dessa experiência destrutiva, ocasionalmente casamentos são salvos e famílias são preservadas. Para que isso ocorra, é preciso que a parte ofendida seja capaz de dar um amor irrestrito, grande o bastante para perdoar e esquecer. É preciso que a parte que errou deseje desesperadamente arrepender-se e realmente abandonar o mal.

Nossa lealdade a nosso cônjuge eterno não deve ser meramente física, mas também mental e espiritual. Uma vez que não existem flertes inofensivos, nem lugar para ciúme depois do casamento, é melhor evitar até mesmo a aparência do mal, evitando qualquer contato questionável com outra pessoa com quem não somos casados.

A virtude é a cola forte que mantém tudo unido. Disse o Senhor: "Amarás tua esposa de todo o teu coração e a ela te apegarás e a nenhuma outra." (D&C 42:22.)

De tudo o que pode abençoar os casamentos, há um ingrediente enriquecedor especial que, acima de tudo, ajudará a unir um homem e uma mulher num sentido muito real, sagrado e espiritual. É a presença do divino no casamento. Shakespeare, na peça Henrique V, disse: "Deus, o melhor artífice de todos os casamentos, uni vossos corações num só." (Henrique V, 5:2.) Deus também é o melhor guardião dos casamentos.

Há muitas coisas que contribuem para tornar um casamento enriquecedor, mas elas parecem ser apenas a casca. Ter a companhia e desfrutar os frutos de uma Presença Santa e Divina é o núcleo de uma grande felicidade no casamento. A unidade espiritual é a âncora. Vazamentos lentos na dimensão santificadora do casamento frequentemente fazem os casamentos ficarem como pneus vazios.

Os divórcios estão aumentando porque, em muitos casos, à união falta aquele enriquecimento que provém da bênção santificadora que flui da guarda dos mandamentos de Deus. É uma falta de nutrição espiritual.

Aprendi, ao servir quase vinte anos como bispo e presidente de estaca, que uma excelente proteção contra o divórcio é o pagamento do dízimo. O pagamento do dízimo parece facilitar manter a bateria espiritual carregada, para que possamos atravessar os períodos em que o gerador espiritual esteve parado ou não funcionando.

Não existe música grandiosa ou majestosa que produza constantemente a harmonia de um grande amor. A música mais perfeita é a soldadura de duas vozes num único solo espiritual. O casamento é o meio provido por Deus para a realização da maior das necessidades humanas, baseado no respeito mútuo, na maturidade, na abnegação, na decência, no compromisso e na honestidade. A felicidade no casamento e na paternidade pode superar mil vezes qualquer outra felicidade.

A alma do casamento se enriquece grandemente, e o processo de crescimento espiritual se fortalece muito, quando um casal se torna pai e mãe. A paternidade e a maternidade deveriam trazer a maior de todas as felicidades. Os homens crescem porque, como pais, precisam cuidar de suas famílias. As mulheres desabrocham porque, como mães, precisam esquecer-se de si mesmas. Compreendemos melhor o pleno significado do amor quando nos tornamos pais.

Nossos lares deveriam estar entre os mais sagrados de todos os santuários terrenos.

No enriquecimento do casamento, as grandes coisas são as pequenas coisas. É uma apreciação constante um pelo outro, e uma demonstração cuidadosa de gratidão. É o incentivar e o ajudar um ao outro a crescer. O casamento é uma busca conjunta pelo bom, pelo belo e pelo divino.

O Salvador disse: "Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele, comigo." (Apocalipse 3:20.)

Que a presença de Deus seja encontrada enriquecendo e abençoando todos os casamentos e lares, especialmente os de Seus santos, como parte de Seu plano eterno; assim oro humildemente, em nome sagrado de Jesus Cristo. Amém.

Como citar este discursoJames E. Faust, “O Enriquecimento do Casamento”, Conferência Geral de Outubro de 1977, Saturday Morning Session (1977-10-01). Pulpit Vault, 1977-10-faust-the-enriching-of-marriage. Tradução desta edição, por método de glossário, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).