Confiar no Senhor
Marion D. Hanks
A motivação para minha preparação nesta manhã veio de uma breve incursão recente pelas páginas dos jornais do dia. Ali, misturados aos relatos habituais de aflição, havia vários relatos comovedores de interesse humano e abnegação: um grupo de estudantes do ensino médio doando o dinheiro de férias, ganho com esforço, para um colega doente; dois operários sofrendo ferimentos graves para salvar a vida de um colega; doações de sangue além do necessário para uma mãe gravemente enferma; um nobre jovem seguidor de Cristo dando a vida ao tentar resgatar um companheiro. ¶
Esses acontecimentos em particular foram noticiados porque eram excepcionais. Os meios de comunicação, como a história, costumam enfatizar aquilo que é incomum ou sensacional. Mas foi um historiador que nos lembrou que "a história tal como costuma ser escrita é bem diferente da história tal como costuma ser vivida. …" Se toda a história fosse contada, "teríamos uma visão mais monótona, porém mais justa, do passado e do homem." Por trás do que ele chamou de "a fachada vermelha da guerra e da política, do infortúnio e da pobreza, do adultério e do divórcio, do assassinato e do suicídio, havia milhões de lares ordeiros, casamentos dedicados," famílias fortes e amorosas, e exemplos inspiradores de bondade, coragem e gentileza. Em nossas próprias comunidades — em nossos próprios bairros — há muitos casos assim, não celebrados e não noticiados. ¶
Uma inválida sofre em silêncio, semana após semana, mês após mês, aniversário após aniversário, com as energias vitais limitadas, e ainda assim irradia confiança no amor e nos propósitos de Deus, anima aqueles que vêm animá-la, ajuda aqueles que vêm ajudá-la, e traz alegria e luz ao mundo ao seu redor. ¶
Um ente querido mantém vigília atenta e terna, atendendo às necessidades, renunciando a prazeres ou liberdades físicas, sacrificando sem queixa os próprios desejos para prestar ajuda onde ela é necessária. ¶
Um jovem pai permanece de pé no funeral de sua esposa e presta testemunho grato de que, em seu longo período de aflição, descobriram que Jesus Cristo e sua força bastam para qualquer necessidade. ¶
O que motiva as pessoas a ações abnegadas e corajosas? Existem fontes de força e consolo acessíveis àqueles que sofrem, ou estão sós, ou têm medo, ou estão mergulhados no pecado, ou deprimidos? De onde vem a energia moral para atos bons e elevados — para vidas melhores? ¶
As escrituras respondem: ¶
"Porque vos digo que tudo que é bom vem de Deus. … ¶
"Se um homem apresenta boas obras, ele dá ouvidos ao bom pastor e o segue." (Alma 5:40–41.) ¶
À medida que a vida nos oferece sua porção de tribulação, precisamos do consolo que vem de saber que Deus é bom, que está perto, que compreende, que nos ama e nos ajudará e nos fortalecerá para as realidades de um mundo em que existem o pecado e a aflição. E, embora esteja falando de princípios nesta manhã, não estou pensando de modo abstrato, mas em muitas almas nobres que enfrentaram dificuldades com coragem, como minha mãe e tantas outras que tinham pouco em que se apoiar — que tinham pouco além de engenho, vontade, coragem e fé. Penso também numa cena mais recente — um belo rosto jovem, mais pálido que o lençol do hospital sobre o qual ela repousava, seus pais entristecidos ao lado, enlutados, enquanto uma doença implacável consumia sua vida. O consolo lhes veio no conhecimento silencioso da proximidade de um Salvador que ele próprio não fora poupado do sofrimento mais agudo e intenso, que ele próprio bebera do cálice amargo. ¶
Dessa fonte — de Deus e de Cristo — pode-se encontrar sabedoria e força que tornarão possível a perseverança, e relacionamentos generosos e prestativos, que conduzirão à abundância de vida e à vida eterna. Deus "temperará o vento para o cordeiro tosquiado" e nos ajudará a suportar todas as coisas e a manter a integridade diante do canto de sereia que nos convida a "amaldiçoar a Deus e morrer" — morrer espiritualmente, morrer para as coisas pertencentes à retidão, morrer para a esperança, a santidade e a fé num futuro onde não há corrupção nem dor. ¶
E esse conhecimento, testifico, é o mais importante tesouro que se pode possuir ou buscar. De Oseias vem a palavra do Senhor: ¶
"O Senhor tem uma contenda com os habitantes da terra, porque não há verdade, nem benignidade, nem conhecimento de Deus na terra. … ¶
"Pois o que eu quero é a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos." (Oseias 4:1; 6:6.) ¶
Pouco depois disso, o Senhor falou por meio de Jeremias: ¶
"Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o valente na sua valentia; não se glorie o rico nas suas riquezas: ¶
"Mas o que se gloriar glorie-se nisto, em que me entende e me conhece, que eu sou o Senhor, que faço benevolência, juízo e justiça na terra; porque dessas coisas me agrado, diz o Senhor." (Jeremias 9:23–24.) ¶
Todos os profetas ensinaram essa verdade a respeito de Deus, e seu propósito primordial não era discutir ou tentar provar a existência de Deus, mas ser suas testemunhas, testificar que ele vive e dar a conhecer sua vontade entre os homens. Cristo revelou o Pai em sua vida, seus ensinamentos e suas parábolas. Por meio de seu Filho, o Pai não apenas trazia a salvação e tornava possível a vida eterna para todos os homens, mas oferecia a suprema oportunidade de os homens conhecerem o próprio Deus. ¶
Isto, declaramos e testificamos, é uma bênção suprema, pois "conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento" e assim "ser cheios de toda a plenitude de Deus" (Efésios 3:19) é a fonte do maior conforto e consolo neste mundo, e o maior poder motivador para o bem. Como obtemos esse conhecimento indispensável? "As obras do Senhor e os mistérios de seu reino" só podem "ser compreendidos pelo poder do Santo Espírito, que Deus confere àqueles que o amam e se purificam perante ele; a quem ele concede este privilégio de ver e saber por si mesmos." (D&C 76:114, 117.) ¶
Como convidado no lar de uma seleta família jovem, há poucos dias, fui convidado a oferecer a oração enquanto nos ajoelhávamos juntos no início do dia. Os pais amorosos, que conheciam minha experiência com as orações de meninas pequenas, sugeriram que sua filha de três anos gostaria de orar primeiro, como ela insiste regularmente em fazer. A ternura do momento aumentou quando um irmãozinho de seis anos se dispôs a ajudá-la quando ela hesitava. ¶
A pureza e a franqueza das crianças pequenas em seu relacionamento com o Senhor apontam o caminho para todos nós. Se quisermos buscar o Senhor, devemos despojar-nos do "homem natural" e tornar-nos "como uma criança, submisso, manso, humilde, paciente, cheio de amor, disposto a submeter-se a tudo quanto o Senhor achar que lhe deva infligir, assim como uma criança se submete a seu pai." (Mosias 3:19.) ¶
Está escrito: ¶
"Ninguém será declarado inocente diante de Deus, salvo as criancinhas, a não ser por meio de arrependimento e fé no nome do Senhor Deus Onipotente." (Mosias 3:21.) Qual é, então, o nosso rumo? ¶
"Jejuavam e oravam frequentemente e tornavam-se cada vez mais fortes em sua humildade e cada vez mais firmes na fé em Cristo, enchendo a alma de alegria e consolo, sim, purificando e santificando o coração, santificação essa resultante da entrega de seu coração a Deus." (Helamã 3:35.) ¶
Pelas revelações de sua mente e vontade, por meio do Espírito Santo, o Senhor nos dará entendimento e conhecimento. Mas precisamos nos qualificar para essa bênção. Ao aprendermos a amá-lo, a nos purificar diante dele, a entregar-lhe o coração e a andar na luz de seu Espírito, podemos tornar-nos novamente como uma criança e conhecê-lo. Ele "esperará", escreveu Isaías, "para ter misericórdia" de nós, e será "exalçado, para se compadecer" de nós. (Isaías 30:18.) O Senhor tem prazer em nos abençoar com seu amor. ¶
Sabemos que o Senhor precisa de instrumentos de seu amor. Ele precisa de um Simão Pedro para ensinar Cornélio, de um Ananias para abençoar Paulo, de um humilde bispo para aconselhar seu povo, de um mestre familiar para ir aos lares dos santos, de um pai e uma mãe para serem pais de seus filhos. ¶
Mas também é privilégio de cada filho de Deus buscar e conhecer, por si mesmo, a reconfortante certeza pessoal que vem da confiança na sabedoria e no caráter de um amado Pai Celestial. ¶
Há um exemplo que expressa bem o que quero dizer. Alguns anos atrás, uma jovem missionária compartilhou comigo algumas das circunstâncias de seu chamado. Seu humilde pai, um agricultor, havia sacrificado de bom grado muitas coisas pelo Senhor e por seu reino. Ele já sustentava dois filhos em missões quando, certo dia, conversou com a filha sobre seus desejos não expressos de ser missionária, e explicou-lhe como o Senhor o havia ajudado a se preparar para ajudá-la. Ele fora ao campo conversar com o Senhor, para dizer-lhe que não tinha mais bens materiais para vender, sacrificar, ou usar como garantia para um empréstimo. Precisava saber como poderia ajudar a filha a servir em missão. O Senhor, disse ele, mandou-lhe plantar cebolas. Ele pensou ter entendido mal. Cebolas dificilmente cresceriam naquele clima, ninguém mais plantava cebolas ali, ele não tinha experiência em cultivá-las. Depois de lutar por algum tempo com o Senhor a esse respeito, foi novamente instruído a plantar cebolas. Então tomou dinheiro emprestado, comprou sementes, plantou, cuidou e orou. O clima foi favorável, e a colheita de cebolas prosperou. Ele vendeu a colheita, pagou suas dívidas ao banco, ao governo e ao Senhor, e depositou o restante numa conta em nome da filha — o suficiente para suprir suas necessidades numa missão. ¶
Jamais esquecerei a história, nem o momento, nem as lágrimas em seus olhos, nem o som de sua voz, nem o sentimento que tive quando ela disse: "Irmão Hanks, não tenho a menor dificuldade em crer num Pai Celestial amoroso, que conhece minhas necessidades e me ajudará segundo sua sabedoria, se eu for suficientemente humilde. Tenho um pai exatamente assim." ¶
Há, é claro, muito mais a dizer. As soluções que desejamos e pelas quais oramos nem sempre se concretizam. O poder que refez Paulo, que derramou amor e lavou a hostilidade e o ódio, não o livrou das grandes provações, do cárcere de Nero ou de uma morte de mártir. Cristo vivia nele, disse ele; havia encontrado a paz de Deus que excede todo o entendimento. Nada — nem tribulação, nem angústia, nem perseguição, nem fome, nem nudez, nem perigo, nem espada, nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem potestades, nem coisas presentes, nem coisas futuras, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura — podia separá-lo do amor de Cristo, o amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. Cristo morreu numa cruz e venceu sua vitória; seus discípulos e seguidores também têm estado sujeitos às forças brutas e às fraquezas deste mundo, mas, por meio de fé perseverante, participaram e participarão dessa vitória. ¶
Como Habacuque de outrora, podemos, em nossa angústia, sentir que suportaríamos qualquer coisa se ao menos pudéssemos compreender o propósito divino no que está acontecendo. O antigo profeta aprendeu que o justo vive pela fé, e que a fé não é uma solução fácil para os problemas da vida. Fé é confiança nos propósitos e no caráter de Deus. ¶
Habacuque declarou: ¶
"Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira decepcione, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja vacas; ¶
"Todavia eu me alegrarei no Senhor; regozijar-me-ei no Deus da minha salvação. ¶
"O Senhor Deus é minha força, e fará os meus pés … andar sobre as minhas alturas." (Habacuque 3:17–19.) ¶
Nossa religião "não é peso, é asas." Ela pode nos levar através dos tempos sombrios, do cálice amargo. Estará conosco na fornalha ardente e no poço profundo. Acompanhar-nos-á até o quarto do hospital e ao lugar do luto. Pode garantir-nos a presença de um Capitão na travessia turbulenta. É, em suma, não o caminho para a solução fácil dos problemas, mas a reconfortante certeza da luz eterna, pela qual podemos ver, e do calor eterno, que podemos sentir. "O Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele confia." (Salmos 34:8.) Em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶