A Necessidade de um Compromisso Total
Theodore M. Burton
Minhas designações na Igreja exigem que eu viaje bastante pelo mundo. Quando chego a uma cidade, um presidente de estaca ou um de seus conselheiros geralmente me recebe no aeroporto. Embora quase nunca o tenha conhecido antes, invariavelmente consigo encontrá-lo entre a multidão de pessoas que aguardam no portão e posso ir até ele e cumprimentá-lo. Ele também consegue me reconhecer entre a multidão de passageiros que desembarcam. Existe certa publicidade associada ao nosso trabalho como Autoridades Gerais. Nossas fotografias aparecem em várias revistas e artigos de notícias, de modo que consigo explicar como ele pode me reconhecer por ter visto minha fotografia. Mas como é que eu consigo reconhecê-lo tão facilmente? ¶
Foi justamente em janeiro passado que a Irmã Burton e eu caminhávamos por uma rua no Rio de Janeiro, quando vi um homem passar por nós que parecia ser um bom candidato a mórmon. Pensei comigo mesmo: "Se ao menos eu soubesse falar português, teria aí um belo contato missionário." Ele parou um pouco à nossa frente para olhar a vitrine de uma loja e, ao fazer isso, virou-se de frente para nós. Quando nos viu, esperou até que chegássemos perto dele e então falou conosco em inglês. Retribuímos a saudação e ele nos perguntou se éramos americanos. Respondemos que sim, e ele perguntou: "Por acaso vocês são mórmons?" Respondi: "Sim. O que você sabe sobre os mórmons?" Ele nos contou que também era mórmon e tivemos uma agradável conversa com ele. Descobrimos que ele era conselheiro de um bispo em uma das alas do Rio. Encontramo-nos novamente numa sessão de conferência, junto com outros maravilhosos Santos dos Últimos Dias que viviam naquela linda cidade. Como foi possível reconhecermo-nos um ao outro entre os milhares de pessoas que caminhavam naquela rua movimentada? ¶
Uma pergunta feita por um dos antigos profetas do Livro de Mórmon nos dá a resposta. Ele estava falando aos membros da igreja quando disse: ¶
Que pergunta desafiadora, não somente para eles, mas também para nós! Se realmente aceitamos Deus em nossa vida e vivemos de acordo com seus mandamentos, Deus operará uma poderosa mudança em nossa aparência e começaremos a nos parecer mais com nosso Pai Celestial, à cuja imagem fomos criados. Será que é essa aparência que reconhecemos quando encontramos homens e mulheres que estão tentando viver próximos do Senhor? ¶
O profeta continua então a falar sobre o dia final do juízo que cada um de nós um dia terá de enfrentar: ¶
Não ouso dizer que os mórmons são perfeitos, pois vocês sabem tão bem quanto eu que cada um de nós tem muitas falhas humanas. Chamamo-nos, porém, de santos, assim como os membros da Igreja de Jesus Cristo faziam nos dias dos apóstolos originais. Quando aqueles apóstolos escreviam cartas aos membros da Igreja, dirigiam-se a eles como santos. Um santo não é necessariamente uma pessoa perfeita, mas é alguém que luta pela perfeição — alguém que tenta superar as falhas e fraquezas que o afastam de Deus. Um verdadeiro santo procurará mudar seu modo de viver para que se ajuste mais aos caminhos do Senhor. ¶
É verdade que cada um de nós tem imperfeições a superar. A vida é uma série constante de desafios e provações. Não obstante, jamais devemos deixar de lutar por aquela perfeição de vida que pode nos trazer para mais perto de Deus, em harmonia com ele. Como disse o apóstolo Paulo ao escrever aos filipenses: ¶
"Prossigo para o alvo, ao prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Pelo que todos quantos já queiramos ser perfeitos, sintamos isso mesmo; e se sentis alguma coisa de outra maneira, também Deus vo-lo revelará." (Filipenses 3:14–15.) ¶
Devemos, portanto, buscar superar qualquer falha descoberta em nosso caráter que tenda a nos afastar de um compromisso total com Deus. ¶
Gostaria de falar sobre esse princípio de dedicação, ou compromisso total. Parece-me que, quando entramos para a Igreja de Jesus Cristo e, especialmente, quando recebemos o juramento e convênio do sacerdócio, devemos nos comprometer inteira e completamente com a causa de Deus. Com isso não quero dizer que precisamos abandonar nossas ocupações diárias ou nossos interesses nos assuntos cotidianos da humanidade, a menos que sejamos chamados por autoridade de Deus para fazê-lo. Quero dizer que uma verdadeira mudança deve ocorrer em nosso modo de pensar, tão completa e tão total que a própria vida se transforma para melhor no que diz respeito às nossas atitudes e ações. ¶
A atitude de uma pessoa é talvez o mais difícil de todos os atributos pessoais de mudar. Se sua atitude estiver certa, então sua vida ficará certa. Se seu coração for tocado, sua mente e seu modo de pensar mudarão, e sua vida mudará para melhor de acordo com isso. Creio que devemos nos tornar tão imersos no evangelho de Jesus Cristo que passemos a nos tornar, física e mentalmente, cada vez mais parecidos com o próprio Senhor. Devemos entregar nosso coração inteiro a ele. O que fazemos então não é feito porque nos pedem, nem porque somos forçados, mas porque queremos. Nenhuma pressão nem força pode ser exercida sobre nós vindas de fora, quando o que fazemos é feito por nossa própria escolha e desejo. Então não faz diferença para nós o que outros homens possam pensar, dizer ou fazer. Estando nosso coração inteiramente comprometido com Deus, o que fazemos é feito por causa de nosso amor e nossa confiança nele. Servimos então a Deus de todas as formas que podemos, porque fomos convertidos, nossa atitude foi mudada e agora desejamos nos tornar como ele, tanto espiritual como fisicamente. ¶
Se acreditamos em Jesus Cristo dessa forma tão completa, então podemos dizer, como fez o povo do rei Benjamim, que sabemos com certeza a veracidade do evangelho: ¶
"… por causa do Espírito do Senhor Onipotente que efetuou em nós, ou melhor, em nosso coração, uma vigorosa mudança, de modo que não temos mais disposição para praticar o mal, mas, sim, de fazer o bem continuamente." (Mosias 5:2.) ¶
Quando falo então em compromisso total, não me refiro a uma dedicação momentânea que vem de estarmos cheios do Espírito de Deus apenas em certas ocasiões, como esta conferência. Refiro-me a um espírito diário e contínuo de devoção e dedicação que vem de guardarmos todos os mandamentos de Deus todos os dias. Não devemos escolher quais mandamentos de Deus obedeceremos ou não. Cada um deles é importante. Por exemplo, não podemos adiar a pesquisa genealógica, o trabalho do templo ou o trabalho missionário até depois de nos aposentarmos. Quando aceitamos Jesus Cristo, aceitamos seus apóstolos e profetas e todo o seu conceito de vida cristã. Então aceitamos de bom grado a admoestação dos servos de Deus e prontamente temos oração familiar, realizamos a noite familiar, mantemos um suprimento de alimentos para um ano em caso de emergência, enviamos nossos filhos e filhas em missões, guardamos o jejum, pagamos um dízimo honesto, cuidamos dos pobres e necessitados, e somos bondosos, atenciosos e considerados com os outros. Voluntariamente nos tornamos salvadores para nossas famílias e vamos ao templo regularmente para oficiar em favor de nossos parentes falecidos, que tanto sacrificaram por nós. ¶
Quando, portanto, entendemos esse princípio do compromisso, perceberemos a importância do trabalho genealógico e do templo do sacerdócio. O Senhor disse que, a menos que o coração dos pais se volte para os filhos e o coração dos filhos se volte para os pais, esta vida terrena falharia em seu propósito. O trabalho genealógico é, portanto, importante e devemos dar prosseguimento a ele. No entanto, ele não avançará mais rápido do que os bispos, nas alas individuais, derem liderança a esse programa. Não avançará mais rápido do que os presidentes de estaca, em suas estacas individuais, se envolverem ativamente no trabalho genealógico do sacerdócio. Há aqueles que dizem estar ocupados demais para dar liderança a esse programa, mas creio que essas pessoas deixam de compreender que se trata de um programa básico do sacerdócio, dado por Deus. Será que a obra de Deus falhará em seu propósito? Existe algo demasiado difícil para Deus? Todos sabemos a resposta. Os propósitos de Deus serão cumpridos pelos servos que ele escolheu para conduzir essa obra. É esse compromisso total, essa dedicação de propósito, essa fé inabalável na obra de Deus a que me refiro, não apenas neste, mas em todos os programas do sacerdócio. ¶
Pela seguinte escritura, fica claro que a admoestação para nos tornarmos totalmente comprometidos com a causa de Jesus Cristo é importante para todos, especialmente para aqueles que se consideram membros da Igreja de Jesus Cristo em boa situação: ¶
"E também sabemos que a santificação pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é justa e verdadeira, para todos os que amam e servem a Deus com todo o seu poder, mente e força. ¶
Mas existe também a possibilidade de que um homem caia da graça e aparte-se do Deus vivo; ¶
Portanto, que a igreja esteja atenta e ore sempre para não cair em tentação; ¶
Sim, até os santificados estejam também atentos." (D&C 20:31–34.) ¶
Como entendo essa escritura, ela significa que Jesus Cristo é bondoso e misericordioso conosco quando o servimos de todo o coração, mas nenhum de nós pode se refugiar na retidão passada ou no serviço já prestado. Significa também que existe a possibilidade de qualquer um de nós cair de sua boa situação, mesmo aqueles que já alcançaram certo grau de retidão. Portanto, precisamos estar constantemente em guarda, cada um de nós, para que não nos permitamos cair em hábitos de descuido em nossa fé, em nossas orações ou em nossas várias atividades ou responsabilidades na Igreja. É por essa razão que resolvo novamente viver mais próximo de Deus a cada dia e seguir seus profetas e apóstolos escolhidos com mais diligência do que já fiz no passado. ¶
À medida que a vinda do Senhor se aproxima, a pressão de Satanás sobre nós aumentará. Teremos, assim, que viver mais próximos do Senhor do que jamais vivemos antes. Resolvo fazer isso, pois sei que Deus vive. Sei que Jesus Cristo é seu Filho Unigênito e que estes irmãos que sustentamos como nossos líderes são verdadeiros apóstolos e profetas. Eles foram chamados e ordenados por Deus para nos conduzir de volta à sua própria presença. Convido a todos vocês que ouvem minha voz ou leem esta mensagem a atentarem para o que as escrituras indicaram, e que vocês se redediquem em um compromisso total para servir ao Senhor de todo o coração, poder, mente e força. Assim oro, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶