Tivemos Dois Dias de Reuniões Quase...
Hugh B. Brown
Tivemos dois dias de reuniões quase constantes. Sei que estais todos bastante cansados a esta hora, por isso não vos tomarei muito tempo. Apreciei muito a reunião desta noite; e, percebendo o número de homens que estão ouvindo, pergunto-me se posso acrescentar uma palavra. Espero que tenhamos guardado no coração as mensagens muito valiosas e importantes que os irmãos deram ao longo da conferência. Especialmente esta noite, quando o Presidente McKay nos deu uma mensagem tão inspiradora, e depois ouvir esses jovens responderem ao chamado tão bem, com tanta eficiência, com tanta humildade, foi uma inspiração para todos nós. Ouvir os Élderes [Lysle R.] Cahoon, Packer e Romney discutirem suas designações especiais é um desafio para todo homem que possui o sacerdócio. ¶
Fiquei especialmente impressionado quando o Élder Packer mencionou os homens da vida militar. ¶
Tive um pouco de experiência nessa área, e penso que gostaria de vos contar uma história relacionada a ela, uma história talvez pouco conhecida aqui nos Estados Unidos, pois aconteceu no Canadá. ¶
Senso de Humor
Primeiro, gostaria de dizer aos jovens que estão ouvindo e aos que estão presentes que desejo que cultiveis o senso de humor. ¶
No exército, durante a Primeira Guerra Mundial, um de nossos rapazes, que era um lutador bastante bom, foi desafiado a uma luta na Inglaterra. Esse jovem, nosso rapaz mórmon, tinha o hábito de sorrir durante toda a luta. Um dos homens contra quem ele lutava era o campeão, e, durante a luta, disse a seus auxiliares, entre os assaltos: "Não consigo vencer esse sujeito a menos que consiga tirar esse sorriso de seu rosto." Ele não conseguiu. Aquele sorriso representava uma coragem de aço frio, e o rapaz mórmon venceu a luta. ¶
A História do Recrutamento Canadense
Agora, quanto à história: em 1906, o governo do Canadá aprovou uma lei conhecida como Militia Act, comparável à guarda nacional daqui. ¶
Enviaram a todas as províncias um chamado a homens para treinamento, em preparação para o que Lord Roberts dizia ser certo que viria — uma guerra mundial. Um jovem foi enviado a Cardston para recrutar alguns de nossos homens. Esse jovem era filho de um militar proeminente. Ele fora criado, evidentemente, com colher de prata na boca. Era um daqueles sujeitos que tinham bigode espalhafatoso e uma bengalinha, e usava monóculo. Era um sujeito extremamente antipático aos olhos de nossos jovens. ¶
Na verdade, seu monóculo me lembra outra história. ¶
Um dia, eu estava entre Piccadilly Circus e Leicester Square, conversando com um oficial americano durante a Primeira Guerra Mundial. Vimos um homem vindo pela calçada, com o chapéu de lado, balançando uma bengalinha, com bigode ao estilo Charlie Chaplin e monóculo. Eu disse ao oficial: "Fico imaginando por que esses sujeitos usam óculos de uma lente só, em vez de duas." ¶
"Bem", ele disse, "eu vou te dizer. Um sujeito desses consegue ver mais com um olho do que consegue compreender." ¶
Pois bem, esse era o tipo de homem que veio recrutar os rapazes mórmons. Passou duas semanas em Cardston. Fora enviado para organizar um esquadrão de cavalaria. Não conseguiu um único recruta durante essas duas semanas. Muitos compareceram e responderam a seu chamado, mas não se alistaram. Ele voltou a Ottawa e relatou que os mórmons eram desleais e deveriam ser expulsos do Canadá. ¶
O deputado de nosso distrito naquela época era W. A. Buchanan, que conhecia muito bem nosso povo. O assunto foi levado ao plenário do parlamento, e houve considerável agitação. O Sr. Buchanan levantou-se e disse: "Se permitirem que alguns de seus próprios homens se tornem oficiais, vocês terão todos os rapazes mórmons que quiserem." ¶
Treinamento como Oficiais da Milícia
O governo finalmente aceitou sua recomendação, e enviaram ordem ao Presidente Edward J. Wood para que designasse alguns homens a irem receber treinamento, o que ele fez. Aconteceu de eu ser um dos chamados pelo Presidente Wood, liberado de uma missão de três anos, para ir a Calgary e receber treinamento como oficial da milícia. ¶
Enquanto eu estava em treinamento, um jovem rapaz mórmon chegou ao acampamento. Era desajeitado. Não tinha muita instrução, mas era um jovem mórmon que fora ensinado a viver o evangelho. Depois de um desfile, no qual fizera tudo ao contrário, foi chamado pelo capitão a comparecer em seu escritório. O capitão disse: "Reparei em você, rapaz. Você é de Cardston, não é?" ¶
Ele disse: "Sim, senhor." ¶
"Você é mórmon, suponho." ¶
"Sim, senhor." ¶
"Bem, eu só queria fazer amizade com você. Aceita um copo de cerveja?" ¶
"Senhor, eu não bebo bebida alcoólica." O capitão disse: "Então você não bebe. Talvez aceite um charuto, então." ¶
Ele disse: "Obrigado, senhor, mas eu não fumo." ¶
O capitão pareceu bastante contrariado com isso, e dispensou o rapaz da sala. ¶
Quando o jovem voltou a seu alojamento, alguns dos oficiais de patente inferior o abordaram, zangados, e disseram: "Seu tolo, não percebe que o capitão estava tentando fazer amizade com você, e você o insultou na cara dele?" ¶
O jovem mórmon respondeu: "Cavalheiros, se eu tiver de ser infiel a meus ideais e a meu povo, e fazer coisas que fui instruído durante toda a vida a não fazer, então deixarei o exército." ¶
Um Homem de Caráter
Quando chegou o momento dos exames finais naquele acampamento, o capitão enviou esse jovem a Calgary, vindo do Acampamento Sarcee, para fazer um trabalho para ele, e realizavam-se exames enquanto ele estava fora. Quando voltou, o capitão disse: "Agora vá para aquela outra sala, e eu lhe darei a lista de perguntas, e você fará seu exame." ¶
Ele entrou e voltou, dizendo: "Senhor, todos os livros que estudamos estão ali, sobre a mesa. Certamente o senhor não quer que eu faça meu exame ali, onde posso consultar esses livros." ¶
O capitão disse: "É exatamente isso que eu quero. Sei, por conhecer você, que não abrirá nenhum desses livros. Você será honrado, será honesto, e eu confio em você." ¶
Pois bem, esse jovem, mais tarde, no exterior, durante a guerra, foi convocado por seu capitão, que já se tornara tenente-coronel, em resposta a um pedido do quartel-general por seu melhor homem no batalhão. Tinham uma missão especial para ele executar. Disseram: "Não nos importa nada sua instrução ou seu treinamento. Queremos um homem que não se quebre sob teste. Queremos um homem de caráter." O tenente-coronel, seu antigo capitão, escolheu e designou esse jovem que tivera a coragem de ficar diante dele e dizer: "Eu não fumo. Eu não bebo." ¶
Cito isso como um tipo de coisa que às vezes acontece na vida militar, e, como o Irmão Packer falou da vida militar, isso me trouxe essa lembrança. ¶
Pois bem, ao final do período de treinamento, organizamos um esquadrão e os levamos a Calgary, nos anos de 1912 a 1914, quando, como sabeis, eclodiu a Primeira Guerra Mundial, tendo o Canadá e a Inglaterra estado na guerra por alguns anos antes de os Estados Unidos entrarem. Nossos rapazes mórmons fizeram grande nome para si, tanto no Canadá quanto no exterior. ¶
Quando o Êxito É um Fracasso?
Irmãos, há muitas coisas que se poderiam dizer numa ocasião como esta, mas a maioria já foi dita, por isso não vos deterei. Gostaria, porém, de chamar vossa atenção para um ou dois parágrafos que poderiam ser úteis. Espero que sejam. Este se intitula "Quando o Êxito É um Fracasso?". ¶
"Quando estás fazendo o inferior, sendo o superior possível, Quando não te tornas um homem mais puro, mais nobre, mais grandioso por causa de teu trabalho, Quando vives apenas para comer e beber, divertir-te e acumular dinheiro, então o êxito é um fracasso. ¶
Quando não carregas uma riqueza maior em teu caráter do que em tua carteira, Quando a realização de tua ambição afligiu as aspirações e esmagou as esperanças de outros, Quando a fome de mais dinheiro, mais terra, mais casas e títulos se tornou tua paixão dominante, Quando tua profissão fez de ti um destroço físico — vítima de "nervos" e de humores instáveis, Quando tua absorção no trabalho te tornou praticamente um estranho para tua família, Quando tua avareza por dinheiro escureceu e restringiu a vida de tua esposa, e a privou de expressão própria, do descanso e do lazer necessários, de qualquer forma de diversão, Quando toda simpatia e companheirismo foram esmagados de tua vida pela devoção egoísta a tua profissão, Quando não superas tua profissão, quando não és maior como homem do que como advogado, comerciante, médico ou cientista, Quando alegas nunca ter tido tempo de cultivar tuas amizades, tua cortesia ou tuas boas maneiras, Quando perdeste, pelo caminho, teu autorrespeito, tua coragem, teu autocontrole ou qualquer outra qualidade de virilidade, então o êxito foi um fracasso." ¶
Cada Um Está Sendo Provado
Guardemos isso em nosso coração, irmãos, e lembremo-nos de que cada um de nós está sendo provado, assim como os melhores carros e aviões são testados antes de entrarem em serviço. São testados quanto a fraquezas; são testados quanto a defeitos. Podeis suportar o teste? Perante o tribunal, o Juiz não nos examinará em busca de medalhas, diplomas ou graus, mas em busca de cicatrizes. Resolvamos que não haverá manchas. ¶
Que todo jovem que possui o sacerdócio se encoste na parede, olhe-se de cima a baixo e pergunte a si mesmo, respondendo com honestidade: "Que tipo de homem és tu, na verdade? Fazes boa figura em certos momentos, mas o que há em teu coração?" Conversai convosco mesmos sobre isso, irmãos, e então colocai vossa vida em ordem. ¶
Vós, jovens que ireis prestar serviço militar, enfrentareis tentações terríveis e verdadeiras provas de coragem. Que Deus vos abençoe para que vosso sacerdócio vos capacite a corresponder a qualquer responsabilidade que vos seja atribuída. ¶
Estamos vivendo tempos muito difíceis. ¶
São tempos ameaçadores. São tempos em que os homens estão se desanimando. Muitas referências a essas coisas foram feitas ao longo desta conferência. ¶
Gostaria de deixar convosco um poema sobre o que o futuro reserva: ¶
"Vós que tendes fé para olhar com olhos destemidos Para a tragédia de um mundo em conflito, E sabeis que da morte e da noite Há de erguer-se a aurora de uma vida mais plena, Alegrai-vos, qualquer que seja a angústia que dilacere o coração, Pois Deus vos deu o dote inestimável De viver nestes grandes tempos e ter vossa parte Na hora coroada da liberdade; Para que possais dizer a vossos filhos que veem a luz, Alta nos céus, a tomar sua herança: Vi os poderes das trevas fugirem; Vi a manhã rompendo." ¶
Então, olhai para o futuro com coragem e fé, lembrando-vos de que, a menos que tenhamos sido verdadeiros, a menos que tenhamos guardado a fé, a menos que tenhamos permanecido puros, a menos que tenhamos feito as coisas que sabemos que devemos fazer, então falharemos nesta grande prova. ¶
Os Direitos do Sacerdócio
Devo encerrar chamando vossa atenção para uma seção muito conhecida de Doutrina e Convênios: ¶
". . . os direitos do sacerdócio estão inseparavelmente ligados aos poderes do céu, e . . . os poderes do céu não podem ser controlados nem exercidos senão de acordo com os princípios da retidão. ¶
"Que eles nos podem ser conferidos, é verdade; mas quando nos propomos a encobrir nossos pecados ou satisfazer nosso orgulho, nossa vã ambição ou exercer controle ou domínio ou coação sobre a alma dos filhos dos homens, em qualquer grau de iniquidade, eis que os céus se afastam; o Espírito do Senhor se magoa e, quando se afasta, amém para o sacerdócio ou a autoridade desse homem. ¶
"Eis que, antes de o perceber, é abandonado a si mesmo, para recalcitrar contra os aguilhões, perseguir os santos e lutar contra Deus. ¶
"Aprendemos, por tristes experiências, que é a natureza e índole de quase todos os homens, tão logo suponham ter adquirido um pouco de autoridade, começar a exercer imediatamente domínio injusto. . . . ¶
"Que tuas entranhas também sejam cheias de caridade para com todos os homens e para com a família da fé; e que a virtude adorne teus pensamentos incessantemente; então tua confiança se fortalecerá na presença de Deus; e a doutrina do sacerdócio destilar-se-á sobre tua alma como o orvalho do céu. ¶
"O Espírito Santo será teu companheiro constante, e teu cetro, um cetro imutável de retidão e verdade; e teu domínio será um domínio eterno e, sem medidas coercivas, fluirá para ti eternamente." (D&C 121:36-39, 45-46.) ¶
A Divindade da Obra
Que Deus vos abençoe, meus irmãos. Deixo convosco meu próprio testemunho quanto à divindade desta obra. Deus tem sido tão bom para comigo, a ponto de fazer-me saber, de modos que não posso explicar, que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus. ¶
Sei que ele é o Redentor deste mundo. Estive suficientemente próximo dele para receber, dele mesmo, um testemunho convincente desse fato, que foi selado em minha alma. Deixo-vos este testemunho, e digo, como outrora disse Pedro, em resposta à pergunta: "Quem dizeis vós que eu sou?": "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." ¶
(Ver Mateus 16:15-16.) Eu o sei. Sei disso melhor do que sei qualquer outra coisa, e por esse conhecimento sou grato a ele. Gostaria de continuar fiel até o fim, se puder. ¶
Que Deus vos abençoe agora, ao regressardes a vossos lares. Colocai vossas casas em ordem. Colocai vossa vida em ordem, pois sereis provados como os homens jamais o foram, e sereis bem-sucedidos na proporção em que construirdes o caráter, fizerdes as coisas que sabeis que deveis fazer, vos privardes das coisas que sabeis que não deveis ter, e prestardes obediência aos mandamentos de Deus. ¶
"Se um homem busca principalmente a riqueza, o mundo pode derrotá-lo. Se busca principalmente o prazer, o mundo pode vencê-lo. Mas se um homem busca principalmente cultivar o caráter, então pode capitalizar tudo o que a vida lhe trouxer. ¶
Quanto um homem possui depende da altura, da largura e da profundidade de sua mente e de sua alma, e não de sua conta bancária." ¶
Que sua paz e sua bênção estejam com todos vós, oro em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶