Meus Irmãos E Irmãs, E Espero...
Hugh B. Brown
Meus irmãos e irmãs, e espero que nossos amigos, que estão presentes e que estão nos ouvindo, que não são membros da Igreja, permitam-me incluí-los nesta saudação, "irmãos e irmãs", porque cremos na irmandade dos homens sob a Paternidade de Deus, e naquela Paternidade que é universal. ¶
Embora eu venha a esta tarefa semestralmente, é sempre humilhante e, às vezes, quase avassalador. ¶
Mas é reconfortante saber que se tem a simpatia e as orações desta grande congregação e, esperamos, o interesse de uma audiência ainda maior de ouvintes amistosos que assistem à conferência por meio do rádio e da televisão. ¶
Estamos conscientes da audiência invisível e procuramos, em espírito de oração, ajudar todos os que buscam uma melhor compreensão de algumas facetas do que se tem chamado o "Fenômeno do Mormonismo". ¶
No passado, infelizmente, ao discutir questões religiosas básicas, era mais difícil encontrar um terreno comum de entendimento do que ao considerar, por exemplo, a ciência ou a filosofia. O preconceito do passado fechou algumas mentes à verdade e tornou a comunicação impossível. Victor Hugo prometeu que "Virá um dia em que o único campo de batalha será o mercado aberto ao comércio e a mente aberta a novas ideias." Graças ao Senhor, esse dia está despontando, ao menos em nosso mundo ocidental. Como disse A. Powell Davies: "O mundo é perigoso demais para qualquer coisa que não seja a verdade, e pequeno demais para qualquer coisa que não seja a irmandade." ¶
Gostaria de fazer um apelo em favor da amizade, da compreensão, da irmandade e da tolerância, todas tão necessárias em nosso mundo confuso e conturbado. Em um de nossos Artigos de Fé, reivindicamos para nós mesmos, e concedemos livremente a todos os homens, o direito irrestrito de adorar a Deus segundo os ditames da própria consciência. ¶
A intolerância, um dos frutos amargos da ignorância e do fanatismo, tem afligido o mundo desde o princípio e tem sido responsável por grande parte de sua tristeza e miséria. Maurice Samuel, defensor dos judeus, escreveu em The Professor and the Fossil: ¶
"Pois todos os povos, infelizmente, têm o hábito de matar seus profetas e mestres. Os ingleses martirizaram seus mestres protestantes (não tendo conseguido martirizar Wycliffe, profanaram seu cadáver), os franceses martirizaram Joana d'Arc, os príncipes boêmios traíram João Huss. Se estes não figuram entre os maiores do mundo, Sócrates, morto pelos atenienses, figura." ¶
Quando pensamos na intolerância histórica, dois nomes vêm imediatamente à mente. ¶
Em ordem cronológica, mas não em ordem de importância, são Sócrates de Atenas e Jesus de Nazaré. Eles, é claro, não podem ser comparados, mas suas experiências ilustram o assunto. ¶
Como lemos em "Great Books of the Western World", o primeiro deu a Platão e a Aristóteles sua elevada inspiração, e o nome de Sócrates chegou até nós através dos séculos como o homem mais virtuoso de seu tempo. Contudo, foi condenado por impiedade e imoralidade, e foi condenado a morrer — misericordiosamente pela cicuta. ¶
O segundo, a única pessoa perfeita que já viveu, tomou sobre si os pecados do mundo e sofreu a ignomínia da crucificação — para ele, mais angustiante do que a dor física. Ele é agora, depois de quase vinte séculos, supremo acima de todos os outros em grandeza moral e, para milhões, é reverenciado como o Filho Unigênito de Deus, o Salvador do mundo. ¶
Esses dois, e muitos outros desde a época deles, foram rejeitados por seus contemporâneos porque ousaram questionar a crença vigente, foram impacientes com o status quo, e desbravaram novas áreas de pensamento e ensino. ¶
Phillips Brooks nos lembra que há diferentes tipos de tolerância. Ele nomeou seis, como segue: ¶
"Primeiro, a tolerância da pura indiferença. Podemos ser tolerantes porque não nos importamos, porque a questão em jogo não nos diz respeito. ¶
"Segundo, a tolerância da conveniência. Podemos ser tolerantes porque pensamos que perderíamos mais do que ganharíamos ao combater o homem ou a medida. ¶
"Terceiro, a tolerância da impotência. ¶
Podemos ser tolerantes porque percebemos que o inimigo domina o campo e que a resistência seria inútil. ¶
"Quarto, a tolerância do puro respeito pelo homem. Podemos ser tolerantes porque respeitamos até mesmo o direito de um homem de pensar errado, porque concordamos com Voltaire quando escreveu a Helvétius: 'Discordo totalmente do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-lo.' "Quinto, a tolerância da simpatia espiritual. Podemos ser tolerantes porque sentimos uma camaradagem espiritual com o homem cujo propósito é nobre, mesmo que sua proposição seja falsa. ¶
"Sexto, a tolerância de uma visão ampliada da verdade. Podemos ser tolerantes porque chegamos a perceber que a verdade é maior do que a concepção de qualquer homem sobre ela, mesmo que sejamos nós esse homem em questão." ¶
As três primeiras são mesquinhas; as três últimas, magníficas. ¶
Os primeiros membros da Igreja Mórmon foram forçados a beber até as últimas gotas amargas do cálice do preconceito e da intolerância. Foram amotinados contra, despojados de seus lares e propriedades, espancados, encarcerados, banidos, e alguns deles, inclusive seus líderes, foram assassinados; a acusação principal contra eles sendo que eram heterodoxos, ousaram questionar os ensinamentos de outras igrejas, e reivindicaram nova revelação. ¶
John Stuart Mill, em seu conhecido ensaio sobre a liberdade, disse: ¶
"Não posso deixar de acrescentar a esses exemplos da pouca consideração comumente dada à liberdade humana, a linguagem de franca perseguição que irrompe da imprensa deste país sempre que ela se sente chamada a notar o notável fenômeno do mormonismo." ¶
Mill chamou ainda mais a atenção para o fato de que tal perseguição, longe de ser de alguma forma sancionada pelo princípio da liberdade, era uma infração direta desse princípio e era uma mera fixação das correntes de uma metade da comunidade e uma emancipação da outra da reciprocidade de obrigação para com eles. ¶
A história mostra que não apenas indivíduos e grupos menores, mas também governos e poderosas organizações eclesiásticas foram culpados de cruel intolerância para com aqueles que discordavam deles. A pretensa igreja universal recorreu a atos violentos de intolerância e chegou a extremos quase inacreditáveis em suas tentativas de impor a adesão à visão ortodoxa. ¶
Por meio de perseguição, tortura, expulsão e extermínio dos chamados hereges, procuraram sufocar a indagação e a investigação, como se os homens pudessem, pelo fogo e pela espada, ser compelidos a professar certas doutrinas. O notável é que aqueles que primeiro romperam o jugo daquela igreja não estavam eles próprios dispostos a permitir diferenças de opinião religiosa assim que se estabeleceram. ¶
O poder desenfreado frequentemente gera intolerância e conduz à tirania. ¶
A vida semelhante à de Cristo é sempre uma combinação de convicção pessoal sincera e generosa consideração pela opinião do outro. A dedicação e a defesa da verdade nunca exigem ou justificam infringir o segundo mandamento de amar nosso próximo. Um código divino foi dado por revelação para orientar todos os que exercem autoridade. ¶
"Nenhum poder ou influência pode ou deve ser mantido em virtude do sacerdócio, a não ser com persuasão, com longanimidade, com brandura e mansidão e com amor não fingido; "Com bondade e conhecimento puro, que grandemente expandirão a alma, sem hipocrisia e sem dolo — "Repreendendo prontamente com firmeza, quando movido pelo Espírito Santo; e depois, mostrando então um amor maior por aquele que repreendeste, para que ele não te julgue seu inimigo; "Para que ele saiba que tua fidelidade é mais forte que os laços da morte." ¶
(D&C 121:41-44.) No entanto, a Igreja não deve tolerar o mal ou o erro em nome da tolerância. Não deve aquiescer ou tornar-se cúmplice, mesmo pelo silêncio, quando o erro e o pecado se põem contra a verdade e a retidão. Devemos estar em guarda contra ideologias estranhas e conceitos sutis e subversivos, que conduzem à conduta imoral e à apostasia. Sempre que sintomas de apostasia aparecem na propaganda ou na conduta, medidas corretivas são aplicadas. Mas quando o conselho, a admoestação e a instrução falham, a Igreja tem o dever, para com seus membros, de tomar ação positiva e ou curar ou amputar os crescimentos malignos. ¶
O Salvador disse: ". . . se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado no inferno." (Mateus 5:29.) Mas a Igreja não tem jurisdição fora de seus próprios membros; nem tem qualquer igreja jurisdição sobre qualquer outra. ¶
Várias igrejas estão umas para com as outras em relação muito semelhante à que existe entre pessoas particulares. Como disse John Locke há muito tempo: ¶
"Se alguma das igrejas tem o poder de tratar mal as outras, a qual delas pertence esse poder, e por que direito? Responder-se-á sem dúvida que é a igreja ortodoxa que tem o direito de autoridade sobre a errônea e herética. Isso é, diz ele, em grandes e especiosas palavras, não dizer nada, pois toda igreja é ortodoxa para si mesma. A decisão sobre qual está certa é uma questão que pertence ao juiz supremo de todos os homens." ¶
Algumas igrejas tradicionalmente ortodoxas parecem ter se preocupado principalmente com a perpetuação de crenças, fórmulas, rituais e instituições convencionais. Exigem conformidade meticulosa aos modos tradicionais de crença e cerimônia. Seu principal objetivo parece ter sido manter o status quo. ¶
Mas a Igreja de Jesus Cristo, sempre que organizada na terra, seja durante a breve permanência do Salvador na Meridiana dos Tempos e as atividades subsequentes de seus apóstolos, seja desde a restauração na plenitude dos tempos, sempre submeteu as crenças e os rituais tradicionais a um exame minucioso à luz da revelação contínua e do conhecimento sempre crescente. Suas avaliações inspiradas dos valores humanos e espirituais vão diretamente ao cerne da vida individual e social aqui e agora, com um lembrete constante do efeito de tal vida na vida futura. Sua organização nos últimos dias foi precedida por uma condenação abrangente do sectarismo e dos credos da época e uma proclamação de uma nova revelação de Deus. ¶
A crítica às crenças e rituais tradicionais tem sido frequentemente respondida com perseguição, em vez de argumentação sólida. ¶
Quando Jesus estava na terra, era frequentemente confrontado por opositores e provocadores que, olhando para trás, apelavam para a lei de Moisés. Sua característica resposta voltada para o futuro era: "Foi dito pelos antigos... mas eu vos digo...". Em outras palavras, ele falava com autoridade divina. Ele se preocupava, como nos preocupamos, com o indivíduo, com a ordem social, e com o estabelecimento do reino de Deus na terra em preparação para a vinda do reino dos céus. Convidou seus ouvintes a submeter seus ensinamentos ao teste da experiência real, dizendo que se algum homem fizesse a sua vontade, conheceria a doutrina. Essa é uma promessa contínua a todos os homens, em toda parte. ¶
Em espírito de amizade e irmandade, pedimos a nossos ouvintes que considerem, em oração, nossa mensagem, submetam nossas doutrinas ao teste de que Jesus falou, e prometemos que sabereis se nossa doutrina é de Deus ou apenas dos homens. ¶
Resumidamente, a mensagem do mormonismo é que o Deus de Abraão, Isaque e Jacó é o Deus verdadeiro, o Messias do Novo Testamento; que a versão do Rei Jaime da Bíblia Sagrada é, de fato, a palavra de Deus, e que Jesus de Nazaré é, de fato, o Cristo; que as profecias registradas na Bíblia acerca dos últimos dias estão agora em curso de cumprimento; que uma nova dispensação do evangelho foi dada aos homens e que o reino de Deus está agora divinamente organizado na terra, em preparação para a vinda do reino dos céus. Esta mensagem, se for verdadeira, e de sua verdade humildemente testificamos, é a mensagem mais importante que chegou a este mundo desde a ressurreição e ascensão do Salvador do mundo. Isto pode parecer a alguns uma afirmação extravagante, mas se refere a uma visita do mesmo ser glorificado que ascendeu ao céu com seu corpo ressurreto na presença de seus seguidores e de anjos que prometeram que ele viria novamente. Ele apareceu a homens em nossa época, em preparação para sua prometida segunda vinda, quando ele há de governar e reinar como Rei dos reis e Senhor dos senhores. ¶
Declaramos que Deus interveio nos assuntos dos homens em antecipação à luta final contra as hostes do Hades, os anticristos, que estão organizados e mobilizados para a guerra contra a religião e Deus e todos os princípios de liberdade, justiça, amor e tolerância pelos quais o Salvador morreu. ¶
Aliada a esta declaração de fé em um Deus pessoal e em sua proximidade com este mundo está uma reafirmação da doutrina bíblica de que o homem foi criado à imagem de Deus e, portanto, tem um status potencial semelhante ao de Deus, com capacidade de viver e progredir eternamente. Cremos na dignidade essencial do homem, que ele foi destinado por seu Criador a ser livre e não escravo de nenhum homem ou nação. ¶
Jamais nos renderemos à crença de que o homem é um dispositivo sem alma feito para servir a uma máquina ou a um Estado. Cremos que sua liberdade é, depois da própria vida, seu dom mais precioso. De fato, o homem está disposto a sacrificar a própria vida para assegurar e preservar a liberdade. ¶
Cremos na imortalidade da alma; que a morte é parte integrante da vida, uma fase da vida, sua continuação, não seu fim; e que os homens que guardam os mandamentos de Deus não precisam temer a morte, pois, como disse Tennyson, veremos nosso Piloto face a face quando aquilo que veio das profundezas sem limites voltar novamente para casa, e tivermos "cruzado a barra". ¶
Concede-nos paz, ó Senhor, a paz que vem da compreensão, da tolerância e da irmandade, do amor a nosso próximo e do amor a ti, ó Senhor. Venha o teu reino e seja feita a tua vontade na terra assim como no céu, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶