Contentes com Nosso Quinhão Divino
Henry D. Moyle
Oh! eu quisera ser um anjo e poder realizar o desejo de meu coração de ir e falar com a trombeta de Deus, com uma voz que estremecesse a terra, e proclamar arrependimento a todos os povos! (Alma 29:1) — foi a declaração do profeta antigo. ¶
Estou certo de que, hoje, em nossa vida, muitos de nós desejaríamos ser algo diferente do que somos, pensando, muitas vezes, que a sorte alheia é preferível à nossa. Mas Alma disse ainda mais: ¶
Sim, declararia a todas as almas, com voz como a do trovão, o arrependimento e o plano de redenção, para que se arrependessem e viessem ao nosso Deus, a fim de não haver mais tristeza em toda a face da Terra. ¶
Mas eis que sou um homem e peco em meu desejo; porque deveria contentar-me com as coisas que o Senhor me concedeu. (Idem, 29:2-3.) Creio que nós, como companheiros de trabalho no sacerdócio, faríamos bem em tomar a peito a admoestação de Alma e nos contentarmos com aquilo que Deus nos concedeu. Poderíamos estar bem seguros de que tivemos alguma participação em nosso "quinhão" em nosso estado pré-existente. ¶
Esta seria mais uma razão para aceitarmos nossa condição atual e tirarmos dela o melhor proveito. É o que concordamos em fazer. ¶
Somos informados, na Doutrina e Convênios, que aquele que guarda seus mandamentos recebe verdade e luz, até ser glorificado na verdade e conhecer todas as coisas. ¶
O homem também estava no princípio com Deus. A inteligência, ou seja, a luz da verdade, não foi criada nem feita, nem verdadeiramente pode sê-lo. ¶
Então o Senhor diz: ¶
Toda verdade é independente para agir por si mesma na esfera em que Deus a colocou, como também toda inteligência; caso contrário, não há existência. (D. & C. 93:28-30.) Para que isso fosse verdade, tivemos nosso próprio livre-arbítrio em nossa existência pré-mortal, e o que quer que sejamos hoje é provavelmente resultado do que quisemos ser outrora. Sem dúvida sabíamos, antes de decidirmos vir a esta terra, as condições sob as quais aqui existiríamos, viveríamos e trabalharíamos. Não é de admirar, pois, que o antigo Alma tenha dito que pecamos no pensamento, ou no desejo, ou no anseio de sermos alguém diferente de nós mesmos. Ele disse ainda: ¶
Ora, uma vez que sei estas coisas, por que desejaria executar mais do que o trabalho para o qual fui chamado? ¶
Por que desejaria eu ser um anjo, poder falar a todos os confins da Terra? ¶
Porque eis que o Senhor concede a todas as nações que ensinem a sua palavra em sua própria nação e língua, sim, em sabedoria, tudo o que ele acha que devem receber; vemos, portanto, que o Senhor aconselha com sabedoria, segundo o que é justo e verdadeiro. ¶
Sei o que o Senhor me ordenou e nisso me glorio. Não me glorio de mim mesmo, mas glorio-me naquilo que o Senhor me ordenou; sim, e esta é a minha glória, que talvez possa ser um instrumento nas mãos de Deus para trazer alguma alma ao arrependimento; e esta é a minha alegria. ¶
(Alma 29:6-9.) Tenho no íntimo do coração a convicção de que somos exatamente o que deveríamos ser, cada um de nós, exceto onde possamos ter alterado esse padrão desviando-nos das leis de Deus aqui na mortalidade. Convenci-me de que todos nós temos aqueles atributos, características e capacidades peculiares que são essenciais para que possamos cumprir plenamente o propósito de nossa criação aqui nesta terra. ¶
Mais uma vez, esse quinhão que nos veio de Deus é um quinhão sagrado. É algo de que devemos nos orgulhar, cada um por direito próprio, e não desejar o quinhão de outra pessoa. Nosso maior sucesso vem de sermos nós mesmos. ¶
Penso que podemos nos consolar melhor acreditando que, qualquer que seja o nosso quinhão na vida, qualquer que seja o nosso chamado no sacerdócio, o Senhor tem sido sábio e justo, e eu acrescentaria, misericordioso, ao nos dar aquilo de que precisamos para cumprir o propósito específico de nosso chamado. ¶
Além disso, quando exercemos plenamente nossas faculdades, e vivemos em obediência às leis e aos mandamentos de Deus, aquilo que fazemos em cumprimento de nosso chamado como portadores do sacerdócio ou oficiais na Igreja é tudo o que as pessoas assim afetadas merecem. Do contrário, Deus não poderia ser justo, e sabemos que ele o é. ¶
Se aplicarmos esse princípio à nossa vida, na prática, não significa isso que, quando o bispo, ou o presidente de estaca, ou o Presidente da Igreja nos chama para ocupar um cargo ou prestar um serviço a nossos semelhantes, devemos aceitar esse chamado com a segurança de que possuímos as qualificações essenciais que nos foram dadas por nosso Pai Celestial para bem cumprir essa missão? ¶
Penso que isso é particularmente verdadeiro para aqueles de nós que possam ser chamados para missões, para irem ao mundo pregar o evangelho de Jesus Cristo, o mais elevado chamado que pode vir ao homem, aquele chamado que o Salvador da humanidade deu a seus discípulos por último, antes de sua ascensão ao céu, para irem ao mundo e pregarem o evangelho a toda nação, tribo, língua e povo. ¶
Eu gostaria que pudéssemos tomar a peito a admoestação do Presidente Joseph Fielding Smith hoje, e utilizar essas faculdades que Deus nos deu, que nos foram religiosa e sagradamente concedidas para nosso uso no cumprimento da missão da vida, a fim de que estivéssemos plenamente qualificados, por nossos próprios esforços, bem como pela dotação que herdamos e recebemos de nosso Pai nos céus, para irmos ao mundo e pregarmos seu evangelho a seus filhos que esperam nas trevas para que lhes tragam verdade e luz homens que foram qualificados pela dotação, pela perseverança e por seu próprio trabalho, para assim cumprirem esse propósito. ¶
Não podemos nos satisfazer com o fato de sermos Santos dos Últimos Dias, e de termos recebido o sacerdócio, e de nos terem chegado vários chamados. Se tivermos a verdadeira perspectiva da vida e de nossa missão, nós nos qualificaríamos desde a juventude para enfrentar toda e qualquer responsabilidade que viesse a nós. Isso é particularmente necessário para um povo crer e praticar quando professa ao mundo que os homens que presidem sobre eles na Igreja e no sacerdócio de Deus foram chamados por Deus, por meio daqueles que estão em autoridade, para pregar o evangelho e administrar as suas ordenanças. ¶
Se realmente cremos no quinto Artigo de Fé, se realmente cremos que temos tal missão a cumprir nesta terra, então de fato seremos diligentes em nos prepararmos para enfrentar as responsabilidades da vida. Sentir-nos-emos qualificados a ir a qualquer lugar e a ouvir qualquer doutrina, seja ela do homem ou do diabo, e a estarmos certos, antes de irmos, de que voltaremos firmes no conhecimento das verdades eternas que Deus revelou nestes últimos dias por meio de seus profetas. ¶
Não precisamos temer as filosofias do mundo. Não precisaremos de nenhum esclarecimento, nem instrução, nem auxílio de ninguém, senão do Consolador. Pois testifico a vós, hoje, que, se aceitarmos do Senhor o quinhão que ele nos deu como nosso direito de nascença, como nossa herança, e edificarmos sobre ele como devemos, desfrutaremos, ao longo de toda a nossa vida, daquele Consolador que o Salvador prometeu a seus discípulos. ¶
Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito. (João 14:26.) Espero e rogo, meus irmãos e irmãs, que sejamos diligentes em compreender e apreciar as verdades eternas do evangelho de Jesus Cristo, que vivamos, e não apenas existamos. Não pode haver em nossa vida emoção maior do que ter consciência de que tomamos as faculdades que Deus nos deu e as utilizamos como nosso Pai nos céus pretendia que fizéssemos. ¶
Fiquei emocionado além da conta outro dia. Tenho um netinho de três anos de idade. Encontrei-me com ele diante da vitrine de uma loja. Ele disse: "Vovô, compre-me alguma coisa." Olhei apressadamente os artigos, e pensei que todo artigo na vitrine era destinado a uma menina — bonecas, etc. ¶
Eu disse: "Não há nada ali para um menino", mas quase no mesmo instante ele ergueu os olhos para mim, com seus grandes olhos, e disse: "Ora, Vovô, há um caminhão ali. ¶
Homens dirigem caminhões." ¶
Fiquei emocionado ao pensar que, naquela mente de três anos de idade, aquele poder de utilizar o intelecto, de pensar e raciocinar, já existia tão cedo na vida, e trouxe àquele jovenzinho, ao menos naquele momento, o resultado desejado. ¶
Espero e rogo agora, meus irmãos e irmãs, que todos nos coloquemos na posição de podermos utilizar essas faculdades assim como fez aquela criança, em toda circunstância da vida, e que, por meio de nossa obediência, e por meio da orientação e direção do Espírito Santo, a resposta certa a todos os nossos problemas venha até nós. ¶
Que Deus assim nos abençoe, rogo humildemente, em nome do Senhor Jesus Cristo. ¶
Amém. ¶