A Dor das Mães
Albert E. Bowen
A Dor das Mães
Talvez não haja hoje um único dia em que algum lar não seja desolado pelo recebimento de uma mensagem do departamento de guerra ou da marinha, que começa: "Lamentamos informar-lhe...." Seguem-se então algumas frases sobre coragem, devoção ao dever, morte gloriosa, e alguma mãe sente o baque surdo e pesado de um coração partido, sinal de esperanças destroçadas por um filho que não voltará mais para casa. Ninguém pode saber que devaneios perpassam sua mente enquanto ela se senta sozinha, desconsolada... O filho que repousara aninhado sob seu coração, o filho que ela nutriu com seu próprio corpo durante sua infância indefesa, o filho para cujo futuro ela sonhara sonhos nos quais se teciam os louvores das línguas dos homens ao exaltarem suas realizações, e cujos filhos um dia se sentariam em seu colo enquanto lhes contava a história de sua ascensão à fama... Agora tudo parece terminado, a promessa da vida ceifada, tornada infrutífera, todos os sacrifícios e esforços em vão. Seu filho está morto, vítima da estupidez humana desastrada num mundo pérfido e voluntariamente desobediente. ¶
Então, talvez, enquanto ela se demora em suas cismas, tendo o desespero por companhia, vislumbre uma visão de esperança nascida da história daquela outra mãe, que, com algumas mulheres e um único discípulo, tanto tempo atrás velou ao pé da cruz enquanto seu primogênito, ali erguido e pregado, morria em agonia entre malfeitores, em meio aos escárnios e zombarias de uma soldadesca licenciosa e aos regozijos de adversários aparentemente vitoriosos, fanáticos e vingativos. O nascimento dele fora proclamado pelo céu, pois o anjo de Deus veio a essa mãe em Nazaré e disse: ¶
Disse-lhe então o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus; ¶
... e eis que em teu ventre conceberás, e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. ¶
Este será grande, e será chamado Filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai: ¶
E reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim. (Lucas 1:30-33.) ¶
Então a mãe enlutada de hoje talvez possa vislumbrar, com alguma compreensão, as emoções conflitantes que devem ter puxado e disputado o coração de Maria quando, depois de vê-lo colocado no túmulo, ela reviveu a vida multifacetada e misteriosa daquele Filho anunciado pelo céu. ¶
Revendo Acontecimentos na Vida do Salvador
Deve ter ficado gravada de modo indelével em sua memória aquela saudação angélica: "Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres." E, mais uma vez, seu coração deve ter palpitado ao recordar a predição de um reinado eterno para seu Filho prometido. À medida que se desenrolava o pergaminho da memória, ela reviveria aqueles trinta anos de obediência filial até que ele foi batizado por aquele homem estranho, João. Ela reviveria aquela longa vigília no deserto, onde ele desprezou a tentação de prostituir seu poder ou de trocar sua alma por todos os reinos do mundo e sua glória. Retraçando os passos dele de volta à sua província natal, ela recordaria como ele "percorreu toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo. ¶
E a sua fama correu por toda a Síria; e traziam-lhe todos os que padeciam, acometidos de várias enfermidades e tormentos... e ele os curava. ¶
E seguiam-no grandes multidões da Galileia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judeia, e de além do Jordão. (Mateus 4:24-25.) ¶
Ela provavelmente se veria sentada como membro daquela congregação em Nazaré, quando ele entrou na sinagoga no dia de sábado, de onde, por ter dito que as escrituras se cumpriam nele, seus próprios conterrâneos o expulsaram e o levaram pela cidade até a beira do despenhadeiro, com evidente intenção de precipitá-lo abaixo. Mas, ao que parece exercendo por uma vez seu poder em seu próprio favor, ele passou por entre eles e seguiu seu caminho. Passaria diante de sua mente sua entrada triunfal em Jerusalém, quando o povo se aglomerava para recebê-lo e estendia pelo caminho suas vestes e ramos de palmeiras, e clamava: "Hosana ao Filho de Davi; bendito o que vem em nome do Senhor." (Mateus 21:9.) ¶
Novamente ela ouviria suas palavras penetrantes desde a encosta do monte junto ao mar, quando, naquele mais maravilhoso de todos os sermões já proferidos por lábios humanos, ele chamou de bem-aventurados os pobres de espírito, os mansos, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores, os que têm fome e sede de justiça, e os que são injuriados, perseguidos e caluniados por causa de seu nome; e testemunharia de novo, em retrospecto, sua compassiva alimentação da multidão, e os veria tentar coroá-lo rei à força, apenas para se voltarem e "não andarem mais com ele" quando ele explicou que suas doutrinas impunham exigências pesadas àqueles que o seguiam quanto à pureza e à fidelidade de sua vida pessoal. ¶
Olhando para trás, ela recordaria como ele havia surpreendido os letrados pela profundidade de seu entendimento, e confundido questionadores hipócritas pelo poder de sua sabedoria infalível; como ele mostrou misericórdia ao pecador, trouxe conforto ao desconsolado, esperança ao oprimido, ânimo ao sobrecarregado, e cura ao coração partido. ¶
Todos esses triunfos Maria deve tê-los testemunhado ou deles ouvido relato. E então, por último de tudo, viria a angustiante visão dele sendo julgado perante Herodes e Pilatos, submetendo-se mansamente a ser vestido com um manto de púrpura, com uma coroa de espinhos cravada em sua fronte, e zombado e açoitado. E, por fim, a assombraria a visão dele cambaleando sob o peso de sua própria cruz e morrendo em agonia sobre ela. ¶
O que se haveria de fazer de tudo isso? Essa morte ignominiosa parecia significar o fracasso de sua vida, a frustração de sua missão e o malogro da promessa de um reinado perpétuo sobre o reino que não teria fim. ¶
A Maravilha da Ressurreição
Mas Maria não teve de lutar por muito tempo com essas perplexidades, pois: "No fim do sábado, quando já despontava o primeiro dia da semana..." vieram as mulheres ao sepulcro para prestar certas homenagens ainda não cumpridas aos mortos. Seu espanto cresceu quando um anjo, sentado sobre a pedra que fora revolvida da porta do túmulo, disse: ¶
Vós não tenhais medo; pois eu sei que buscais Jesus, que foi crucificado. Não está aqui, porque já ressuscitou, como tinha dito... E ide imediatamente, e dizei aos seus discípulos que já ressuscitou dos mortos... (Mateus 28:1-7.) ¶
Tal é a gloriosa mensagem daquela grande manhã triunfal. Ela trouxe a Maria a resposta à sua perplexidade. Agora ela podia saber que as promessas feitas a seu Filho na anunciação não haviam falhado, que sua vida de ansiedade, cuidado, sofrimento e dor não tinha sido em vão. Assim, do mesmo modo, toda mãe pesarosa que recebeu uma carta de "Lamentamos informar-lhe" pode extrair força da certeza de que a vida de seu ente querido não fracassou. Talvez, dentro de suas limitações finitas, numa fraca similitude da grande oferta vicária do Senhor pela redenção da raça humana, seu filho também tenha dado a vida, uma oferta vicária. Pois, neste mundo, ele mesmo jamais colherá os frutos de seu próprio sacrifício. ¶
Enquanto tal mãe se senta sozinha com sua angústia e revê os acontecimentos da vida de seu filho martirizado, pode desenrolar-se diante de sua visão o pergaminho onde estão escritas as experiências de Maria, mãe do Filho de Deus, e do triunfo final da vida dele ela pode extrair o poder sustentador da esperança e da fé; pois a ressurreição é tão universal quanto a raça humana. ¶
Sua realização foi a grande obra coroadora da vida de Cristo. Para essa consumação todo o seu curso fora dirigido. Ao se aproximar da hora de sua agonia, ele disse: "mas para isto vim a esta hora." (João 12:27.) ¶
"E eu, quando for levantado da terra," disse ele novamente, "atrairei todos a mim." (João 12:32.) ¶
Além disso, ele disse a seus discípulos: "Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; porém, se morrer, dá muito fruto." (João 12:24.) ¶
Assim, sua morte, seu sepultamento e sua ressurreição dentre os mortos dão fruto na ressurreição de todos os que morrem. Esse era todo o peso da mensagem dos discípulos. ¶
O Testemunho de Paulo Diante de Agripa
Paulo, de pé, algemado, diante de Agripa, disse: ¶
Ao meio-dia, ó rei, vi no caminho uma luz do céu, que excedia o esplendor do sol, a qual me rodeou a mim e aos que iam comigo com sua claridade. ¶
E caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me falava, e em língua hebraica dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões. ¶
E disse eu: Quem és, Senhor? E ele respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. (Atos 26:13-15.) ¶
Não são estas as palavras de um homem iletrado, nem de alguém enfeitiçado por viver sob o feitiço da poderosa personalidade de Jesus, nem iludido pelas histórias que dele contavam seus admiradores. Pois, por sua própria confissão, Paulo vivera como fariseu, a mais rigorosa seita de sua religião, aqueles que haviam sido alvo das mais severas repreensões do Senhor. ¶
Ele odiava os cristãos com ódio amargo. Havia testemunhado contra eles quando eram condenados à morte; caçara-os de cidade em cidade, lançara-os na prisão, obrigara-os a blasfemar, e os havia perseguido vilmente. Estava em tal missão a caminho de Damasco quando a luz apareceu diante dele no caminho e ele ouviu a voz do Senhor ressuscitado. A realidade de sua experiência — a sinceridade de sua conversão — é atestada pela devoção de sua vida subsequente, suportando naufrágio, privação, perseguição, correntes e, por fim, a morte por seu testemunho da realidade do sacrifício expiatório de Jesus. Com lógica impecável ele escreveu aos coríntios: ¶
Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? ¶
E se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. ¶
..... ¶
Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, e foi feito as primícias dos que dormem. (I Cor. 15:12-20.) ¶
Essa doutrina é o centro e o eixo da teologia cristã, o fundamento da religião cristã, a própria base da esperança cristã. Retirai esse dogma do vosso credo, e destruireis o cristianismo. Retirai-o, e desvitalizareis vosso Novo Testamento, pois é o fato fundamental de todo esse registro. ¶
O Conselho do Sr. Moody a um Jovem Pregador
Conta-se que, na Europa, o grande evangelista, o Sr. Moody, foi perguntado por um jovem ministro: "Qual é a diferença entre o sucesso da sua pregação e o da minha; um de nós dois está errado?" ¶
Moody disse: "O senhor me ouviu pregar, e eu não o ouvi pregar; diga-me qual é a diferença." O ministro respondeu: "O senhor faz muito da morte de Cristo... Não creio que isso tenha algo a ver com o assunto. Eu prego a vida." ¶
Então o Sr. Moody citou-lhe várias escrituras que declaravam a expiação, e perguntou ao jovem pregador, a respeito de cada uma delas: "O que o senhor faz com isso?" Em cada caso ele respondeu: "Nunca preguei isso," e por fim afirmou: "Penso que tudo isso é uma farsa." Então disse o Sr. Moody: ¶
"Aconselho-o a deixar o ministério muito depressa. Eu não pregaria uma farsa. Se a Bíblia não for verdadeira, deixemos de pregá-la, e saiamos, como homens, para lutar contra ela, se é uma farsa e não é verdadeira; mas, se essas coisas são verdadeiras, e Jesus Cristo deixou o céu e veio a este mundo para derramar seu sangue e salvar pecadores, então agarremo-nos a isso e preguemo-lo em tempo e fora de tempo." ¶
Essa é uma daquelas coisas que não admitem meio-termo. É da espécie "tudo ou nada." O mesmo registro que narra o milagre da ressurreição contém tudo o que sabemos sobre os ensinamentos morais de Jesus. Não se pode muito bem repudiá-lo quanto a um aspecto e angariar lealdade entusiástica a ele quanto ao outro. Hoje é guardado como memorial por toda a Cristandade. A própria comemoração do dia pressupõe a realidade do acontecimento que ela assinala, pois não se pode comemorar um acontecimento que nunca ocorreu. ¶
A Ressurreição, Fundamento da Fé e da Esperança
O grande obstáculo à aceitação da crucificação e da ressurreição parece ser que se pensa que elas se opõem à lei natural. Mas o que é a lei natural? Quem a estabeleceu? Concede-se, de quase todos os lados, que há uma lei sobrenatural operante neste universo. Quem há de dizer que, ao efetuar os propósitos de Deus, ela não possa transcender a lei natural? Se admitirmos Deus de algum modo, parece consistente supor que ele pôs em movimento leis que o congelaram fora delas e o tornaram impotente diante das obras de suas próprias mãos? ¶
Sabemos tão pouco sobre este mundo maravilhoso, no qual o conhecimento crescente apenas revela panoramas que se estendem cada vez mais para dentro do reino do desconhecido, que há de ser homem verdadeiramente temerário quem ousar afirmar, por sua própria sabedoria finita, o que é e o que não é possível a Deus. ¶
Em grau demasiado grande, o mundo professamente cristão tornou-se, para seu próprio dano evidente, apóstata da realidade do anúncio: "Ele ressuscitou dentre os mortos." Retirai a crença nessa realidade, e fareis dos alicerces da fé um monte de escombros, e roubareis dos desconsolados a mais bela de suas esperanças. ¶
O registro conta um acontecimento em que Jesus, com seus discípulos e "muita gente," entrava na cidade chamada Naim. Foram ao encontro de um cortejo fúnebre que levava para o sepultamento o filho único de uma viúva. Compadecido daquela mãe, Jesus mandou que ela cessasse de chorar e, ordenando ao jovem que se levantasse do esquife, entregou-o vivo a ela. Assim como ele deteve aquele cortejo fúnebre e restituiu o morto à vida, também, por sua morte e ressurreição, ele deteve para sempre o triunfo da morte sobre todos os homens. ¶
A toda mãe que chora, o túmulo vazio proclama em alta voz a boa nova de que, quer os ossos de seu filho jazam a embranquecer sob os quentes areais da África, quer encontrem seu repouso no fundo do mar, quer seu corpo seja baixado à sepultura, ele há de ressuscitar novamente e viver. ¶