Duas Dificuldades Confrontam o Orador Comum
Orson F. Whitney
Duas dificuldades confrontam o orador comum numa conferência geral da Igreja. Uma é escolher um tema adequado à ocasião; a outra é apresentar esse tema com algum grau de completude sem ultrapassar o tempo destinado. ¶
Reconheço, é claro — todos nós reconhecemos — a sabedoria e a necessidade das limitações de tempo, quando há tantos oradores a serem ouvidos; e procuro conformar-me ao regulamento. Mas não é a coisa mais fácil do mundo perder-se num assunto e ao mesmo tempo vigiar o relógio; falar sobre a eternidade e, o tempo todo, pensar no tempo — o tempo de encerrar. "Ninguém pode servir a dois senhores." ¶
Esta é a razão pela qual uso notas em algumas ocasiões. Posso falar sem elas, e geralmente o faço, mas não consigo condensar meus pensamentos tão bem ao falar de improviso quanto quando os registrei, ao menos em parte, no papel. ¶
O Valor do Conhecimento
Saber exatamente o que dizer, em qualquer ocasião, é muito importante. Saber como dizê-lo, ou ter o poder de dizê-lo de um modo que agrade, é igualmente importante. Uma máquina, numa grande fábrica, quebrou, e um especialista foi chamado para consertá-la. Ele deu duas batidas com seu martelo, e a máquina voltou a funcionar. A conta foi de $250. O superintendente, assim que recuperou o fôlego, exigiu um extrato detalhado. Ele veio, e dizia o seguinte: "Bater com o martelo, $1,00; saber onde bater, $249." ¶
É exatamente assim com o orador. Ele deve saber onde bater e, mesmo assim, deve deixar que o Senhor faça a batida. Nosso Pai Celestial conhece nossas necessidades, e só ele pode supri-las. Ele sabe onde bater, e o orador é o martelo com que ele bate. Os golpes de marreta desferidos durante esta Conferência são amostras de sua obra. Deveriam ser suficientes para pôr qualquer máquina em movimento — na direção certa. ¶
Os Primeiros Princípios
Daniel Webster, em sua grande réplica ao Senador Hayne sobre a necessidade de preservar a União, aconselhou um retorno aos primeiros princípios. Nosso próprio irmão Roberts, igualmente eloquente, deu conselho semelhante em uma de nossas recentes conferências gerais. Encontro-me hoje em disposição muito semelhante. Desejo falar sobre os primeiros princípios do Evangelho. ¶
Uma de nossas Regras de Fé diz o seguinte: ¶
"Cremos que os primeiros princípios e ordenanças do Evangelho são: primeiro, Fé no Senhor Jesus Cristo; segundo, Arrependimento; terceiro, Batismo por imersão para a remissão de pecados; quarto, Imposição de mãos para o dom do Espírito Santo." ¶
Aprendi esses princípios na escola dominical, quando era menino, e eles me serviram todos os dias de minha vida. Levei-os comigo quando, aos vinte e um anos, saí pelo mundo para pregar o evangelho. Descobri que eram tão eficazes no combate ao erro quanto foram, para Davi, a pedra e a funda em seu encontro com o Gigante. Nunca encontrei homem ou mulher que pudesse contestá-los. ¶
Perguntas Inúteis
E nossos missionários hoje podem dizer o mesmo, quando pregam esses princípios com o poder e a demonstração do Espírito Santo, testificando da Restauração do Evangelho, e deixando de lado perguntas inúteis como: Quem escreveu o livro de Gênesis? Foi Jó um personagem fictício ou histórico? Deus salva o homem, ou o homem salva a si mesmo? ¶
Esta Igreja não foi estabelecida, nem seus missionários são enviados, para discutir ou contender sobre estas ou quaisquer outras questões. Com a salvação de um mundo tremendo na balança, importa muito pouco o que veio primeiro — a galinha ou o ovo —, ou se uma casa arde por cima ou arde por baixo. ¶
O Conselho de Brigham Young
Há cinquenta anos, quando eu era um jovem missionário no Estado de Ohio, recebi uma carta do Presidente Brigham Young, contendo estas palavras de ouro: "Nunca te rebaixes a discutir com os ímpios. Os princípios do evangelho são sagrados demais para serem motivo de contenda. Dá teu testemunho com humildade, e deixa o resultado com o Senhor." ¶
Isso é tudo o que podemos fazer. Esta é a obra de Deus, não do homem, e ele a está realizando à sua própria maneira, usando homens e mulheres como seus instrumentos. Nenhum homem pode dizer, de qualquer parte da obra do Senhor, "Eu a fiz." Nenhuma carne pode gloriar-se em sua presença. O missionário cumpre todo o seu dever quando dá um testemunho fiel pela língua ou pela pena, por palavra e por obra, e deixa o resultado com o Senhor. ¶
A Contenda É um Mal
A contenda é "do diabo," diz o Senhor, e o tempo é tão precioso e tão curto entre o Agora e o Fim, que precisamos de cada minuto dele para entregar nossa mensagem, clamar arrependimento e advertir o mundo dos juízos divinos que se seguirão à rejeição do evangelho. ¶
O Que É o Evangelho e o Que Ele Faz
O Evangelho de Cristo "é o poder de Deus para a salvação." É mais do que isso — é o poder de Deus para a exaltação. Ele redime, salva e glorifica todos os que se submetem obedientemente às suas exigências. É o Caminho para a Perfeição, e foi instituído como tal pela sabedoria dos Deuses antes de este mundo ser formado, antes de o homem ter caído, antes de ele ter necessidade de redenção e salvação. Há apenas um evangelho, mas houve muitas dispensações do evangelho, e esta é a maior e a última. Jamais haverá outra neste planeta. É a última vez que Deus falará assim ao homem. Mas ele falará de outras maneiras, por outras línguas, e o mundo terá de escutar: ¶
Outros Testemunhos
"Pois depois de vosso testemunho" — diz o Senhor aos élderes de Israel — ¶
"vem o testemunho de terremotos, que farão gemer a Terra em seu âmago; e homens cairão por terra e não poderão ficar de pé. ¶
"E vem também o testemunho da voz de trovões e da voz de relâmpagos e da voz de tempestades e da voz das ondas do mar, arremessando-se além de seus limites. ¶
"E todas as coisas estarão tumultuadas; e certamente o coração dos homens lhes falhará; pois o temor tomará conta de todos; ¶
"E anjos voarão pelo meio do céu, clamando em alta voz, soando a trombeta de Deus, dizendo: Preparai-vos, preparai-vos, ó habitantes da Terra; pois é chegado o julgamento do nosso Deus. Eis que vem o Esposo; saí para encontrá-lo." (D&C 88:89-92.) ¶
Princípios Eternos
Os princípios fundamentais do Evangelho são eternos. Nunca foram criados. São autoexistentes. A sabedoria divina, reconhecendo certas leis e ordenanças como essenciais para a elevação e o progresso da humanidade, colocou-as no plano do evangelho e as tornou disponíveis e eficazes para a redenção, a salvação e a glória eterna do homem. ¶
E como foram elas tornadas disponíveis e eficazes para esses elevados fins? Aqui tocamos a questão de saber se Deus salva o homem ou se o homem salva a si mesmo. , ¶
Um Espírito Sinistro
Um espírito sinistro está se insinuando por este mundo — um espírito de arrogante autoafirmação, uma disposição de afastar Deus, de excluí-lo de seu próprio universo, de despojar o Divino de sua divindade, negar seu poder miraculoso e considerá-lo nada mais do que um super-homem, um Mestre bom e sábio que aponta o Caminho pelo qual os homens devem andar — e é praticamente isso. Mesmo no púlpito, tais coisas às vezes são ditas. Na literatura atual, a divindade está abaixo do par. Qualquer escritor que faça um ataque sensacionalista à religião, despojando Cristo de sua Cristandade, encontra editor disposto e venda garantida. Aquele que se ergue com firmeza em defesa de Deus e da Verdade — seu manuscrito fica sem comprador. ¶
Sem Valor de Mercado
A religião pura não tem valor de mercado. É a farsa que prospera. Toda religião é vista por muitos como um conservadorismo antiquado, algo ultrapassado, e considera-se progressista, e até heroico, passar sem ela. O Dr. William B. Riley, num discurso recente nesta cidade, disse: "Tem-se proposto, em algumas de nossas instituições seculares, a ideia de que uma pessoa deve tomar suas próprias decisões morais, sem consideração à lei divina." Que o céu impeça que tal espírito, ou qualquer coisa semelhante, jamais invada a Igreja de Cristo — a Igreja dos Santos dos Últimos Dias! Diz Riley outra vez: "Faça o homem crer que é responsável apenas por si mesmo, remova toda crença num poder superior, e é certo que prevalecerá um estado de anarquia." ¶
Permitam-me agora ler-lhes um poema muito esplêndido: ¶
INVICTUS, de William Ernest Henley ¶
Da noite que a mim encobre, negra como o abismo de Polo a Polo, agradeço a quaisquer deuses que existam por minha alma inconquistável. ¶
Na garra cruel das circunstâncias não estremeci nem gritei em voz alta; sob os golpes do acaso, minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada. ¶
Além deste lugar de ira e lágrimas paira apenas o horror da sombra, e, no entanto, a ameaça dos anos me encontra, e há de me encontrar, destemido. ¶
Não importa quão estreito seja o portão, quão carregado de punições o pergaminho, eu sou o senhor de meu destino, eu sou o capitão de minha alma. ¶
Todos nós admiramos a coragem, a fortaleza e o poder de suportar pacientemente. Reconhecemos tais qualidades como essenciais ao sucesso, tanto nos empreendimentos espirituais como nos temporais. Mas essas qualidades heroicas, por mais admiráveis que sejam, e por mais desejáveis que também sejam, não podem diminuir, nem um jota nem um til, a necessidade de um Salvador, para fazer por nós o que não podemos fazer por nós mesmos. Neste poema maravilhosamente viril e poderoso, não há reconhecimento de nenhuma necessidade de ajuda divina. Isso, para mim, é uma falha. É claro que um homem precisa conhecer a Deus antes de poder reconhecê-lo, e este pobre homem evidentemente não o conhecia. ¶
Um Caniço Quebrado
Uma dose razoável de autoconfiança é algo bom, é um pilar de força em qualquer caráter humano. Mas quando um homem confia inteiramente em si mesmo e não busca ajuda alguma do divino Ajudador, ele está apoiando-se num caniço quebrado, por mais poderoso que se julgue. ¶
Davi confiava em si mesmo quando enfrentou Golias de Gate; mas isso porque sabia que Deus estava com ele. "Ele vos entregará em minhas mãos," disse o jovem pastor. E foi sua fé simples, sua confiança sublime, sua absoluta confiança no Todo-Poderoso que derrubou o Gigante — não apenas uma funda com uma pedra dentro. ¶
"Eu sou o capitão de minha alma" é verdade apenas em medida muito limitada. O homem é um agente livre, com vontade própria, com o poder de realizar, de ter êxito ou fracassar. Isso é verdade. Mas há um Capitão Maior de nossas almas, a quem todos devemos lealdade, pois ele redimiu nossas almas da morte, e elas são dele; ele as comprou por um preço. A autoconfiança é boa, se não levada longe demais. Mas a autossuficiência, a presunção, a vaidade de si mesmo, são coisas más. Não existe tal coisa como independência absoluta. Dependemos uns dos outros, e todos dependem de Deus. ¶
A Queda e a Redenção
Respondendo agora à pergunta: Como são os princípios do evangelho tornados disponíveis e eficazes para a salvação e exaltação do homem? É por meio da Queda e da Redenção. "Adão caiu para que os homens fossem" — para que uma raça de espíritos pudesse tabernacular na carne e assim se tornar almas, capazes de aumento sem fim, de progresso eterno e exaltação. Mas a queda trouxe a morte — a morte eterna, que teria de ser vencida antes que esses espíritos, essas almas, filhos e filhas de Deus, pudessem cumprir seu destino decretado pelo céu e prosseguir rumo à perfeição. ¶
Cristo venceu a morte — conquistou o inferno e a sepultura — morreu e ressuscitou; e, porque ele vive, nós também viveremos. Ele obteve essa grande vitória, não trucidando seus inimigos, mas perdoando-os, permitindo que seu próprio sangue fosse derramado por eles e por todos, pagando assim uma dívida que ninguém mais poderia pagar. "Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida por seus amigos." Mas aqui havia Alguém que deu sua vida tanto por seus inimigos como por seus amigos. Nenhum simples homem poderia fazer isso. Foi necessário o amor e a vida de um Deus. ¶
A Agonia Divina
Foi preciso um Ser capaz de suportar tormentos que nenhum simples mortal poderia suportar — tormentos do corpo e do espírito, tão terríveis, tão pungentes, tão de longo alcance e insondáveis que a mente finita fica atônita diante da contemplação do infinito e terrível mistério; tormentos que o levaram, "sim, Deus, o maior de todos, a tremer por causa da dor, e a sangrar por todos os poros." ¶
E ele "sofreu essas coisas por todos, para que não precisassem sofrer, caso se arrependessem." Mas, se não se arrependessem, então teriam de sofrer, assim como ele sofreu. (D&C 19:16-18.) ¶
"Pois eis que ele sofre as dores dos homens, sim, as dores de toda criatura vivente, tanto homens como mulheres e crianças, que pertencem à família de Adão. ¶
"E ele sofre isto para que todos os homens ressuscitem, para que todos compareçam diante dele no grande dia do julgamento. ¶
"E ordena a todos os homens que se arrependam e sejam batizados em seu nome, tendo perfeita fé no Santo de Israel, pois do contrário não poderão ser salvos no reino de Deus. ¶
"E se não se arrependerem, não acreditarem em seu nome, não forem batizados em seu nome nem perseverarem até o fim, serão condenados, pois o Senhor Deus, o Santo de Israel, disse-o." (2 Néfi 9:21-24. Veja também D&C 18:11, 12.) ¶
Pode alguém ler isso e crer que tudo o que Cristo fez foi apontar o Caminho da Salvação e ordenar aos homens que nele andassem? E quanto à construção do caminho? Não havia caminho até que ele o fizesse. Andar nele, por difícil que seja às vezes, é uma bagatela em comparação. ¶
A Maquinaria e o Poder
A queda de Adão colocou o homem na terra e tornou disponível para ele o plano de salvação e exaltação. Sem a queda, o espírito não teria corpo e, consequentemente, não teria direito à ressurreição. E foi Cristo quem realizou a ressurreição. Ele é seu Autor. Foi sua morte, sua oferta sacrificial, que deu vitalidade ao plano do evangelho e tornou eficazes a fé e as obras do homem em seu próprio favor. Sem a Expiação, para compensar e anular os efeitos fatais da transgressão original, toda a autoajuda do homem não valeria nada, e o próprio Evangelho seria mera maquinaria sem o poder. ¶
Dentro e Fora do Poço
Quando Adão caiu, foi como se a raça humana tivesse caído num poço, do qual eram incapazes, por qualquer ato próprio, de emergir; sem meios de subir e sair, e nem mesmo sabendo como subir. Mas um Amigo, todo-sábio e todo-poderoso, vem até a boca do poço, compadece-se de seus infelizes habitantes e propõe resgatá-los de sua desditosa situação. Ele faz de sua própria vida uma escada; desce-a até o poço e diz: "Agora subi!" Os que sobem saem do poço. Os que se recusam a subir permanecem no poço — e quem é o culpado, senão eles mesmos? ¶
A Crucificação no Calvário, a autoimolação de um Deus, é a Rocha sobre a qual repousa o evangelho — o Evangelho Eterno, a escada para a vida eterna. ¶
"A fé sem obras é morta." Trabalhamos por nossa salvação. Não há dúvida quanto a isso. Mas a trabalhamos por meio de Jesus Cristo, e não independentemente dele. Não nos salvamos a nós mesmos. Apenas nos valemos dos meios de salvação providos por nosso Senhor e Salvador, o Deus que morreu para que o homem pudesse viver. ¶