O Poder de Deus e o Poder do Homem
Orson F. Whitney
Há um velho ditado segundo o qual os homens não passam de crianças de maior estatura. Lembrei-me desse ditado ontem de manhã, quando o Presidente Smith declarou que há homens, poucos, nesta comunidade, que quereriam fazer-nos crer que o poder de Deus não é maior que o poder do homem. ¶
Certo domingo à noite, na Ala Décima Oitava desta cidade, quando eu era bispo ali, realizava-se uma conferência da Associação Primária, e entre os exercícios estava o ensino, por uma das irmãs, de uma classe de crianças pequenas. Ela as reuniu ao seu redor sobre o estrado e relatou-lhes, na presença da congregação, a bela história do Salvador alimentando a multidão. Depois que a reunião se dispersou, uma das mães, indo para casa com seu filhinho, submeteu-o a uma série de perguntas para verificar o que ele se lembrava da lição que fora ensinada. ¶
"O que a Irmã Pyper esteve lhes contando?" perguntou a mãe. O menino respondeu: "Ela nos ensinou sobre o Salvador alimentando o povo." "Quantas pessoas havia?" ela indagou. "Cinco mil," ele respondeu. "Com que Ele as alimentou?" "Com cinco pães e dois peixes." A mãe então disse: "Bem, agora, como você supõe que Ele pôde fazer isso? Como Ele pôde alimentar uma grande multidão, cinco mil pessoas, com apenas cinco pães e dois peixes?" O pequenino ficou pensativo por um momento, e então exclamou: "Bem, eu não acredito que os que estavam no meio receberam nada." (Risos.) ¶
Aquele menino evidentemente cria, como algumas de nossas "crianças de maior estatura," que Deus não é mais poderoso que o homem. Ele buscou uma solução científica para um problema miraculoso, e resolveu-o à sua própria maneira. ¶
Mas nem todas as crianças são desse tipo. Minha experiência com meninos e meninas ensina-me que, via de regra, eles reconhecem que há uma vasta diferença entre o poder de Deus e o poder do homem. É comparativamente fácil para eles aceitar o miraculoso; não têm o preconceito contra ele que alguns homens e mulheres têm. Recordo-me de outra anedota, que já relatei antes, que ilustrará essa faceta do meu tema. ¶
No Salt Lake Theatre, há muitos anos, John B. Gough, o grande orador da temperança, proferia uma palestra, no curso da qual censurava a prática de tentar simplificar a Bíblia para que as crianças pudessem entendê-la. Disse ele: "Deixem-nas ler a Bíblia tal como é, e elas a entenderão; compreendem as coisas muito mais rapidamente do que lhes damos crédito." Ele ilustrou o ponto com esta história. Dois meninos, um chamado Johnny e o outro Billy, brincavam no quintal. Johnny tinha um canivete e estava sentado na soleira da porta aparando um graveto. Billy, que acabara de apanhar uma mosca, aproximou-se de Johnny com a mosca entre o polegar e o indicador, observando: "Que coisa engraçada é uma mosca! Veja quantas pernas ela tem; e toda vez que eu sopro nela, ela zumbe." Aqui ele soprou na mosca e a colocou junto ao ouvido para ouvi-la zumbir. "Fico pensando como Deus a fez," meditou Billy. E o grande orador fez uma pausa suficientemente longa em sua narrativa para dizer: "Muitos homens sábios já fizeram a mesma pergunta, e não souberam respondê-la." "Mas," acrescentou ele, "Johnny tinha uma ideia de como Deus fez a mosca. Ele continuou aparando seu graveto, e disse: 'Bem, Billy, Deus não faz moscas como os homens fazem casas; quando Ele quer moscas, Ele diz: Haja moscas, e então há moscas.'" (Risos.) ¶
"Aquele menino," disse o Sr. Gough, "vinha lendo a Bíblia, e acreditava no que lia, e o entendia; era claro para ele que o poder de Deus é maior que o poder do homem. Ele havia lido aquela bela lição apresentada bem no início do livro de Gênesis: 'E disse Deus: Haja luz; e houve luz.'" ¶
Quando o homem quer luz, precisa riscar um fósforo, ou apertar um botão, ou girar um interruptor, ou friccionar dois pedaços de madeira, como fazem os índios, para criar uma chama. Mas quando Deus quer luz, basta-Lhe dizer: Haja luz, e há luz. Não, Ele nem sequer precisaria fazer tanto quanto isso, pois o próprio Deus é Luz, habita no meio da luz, no meio de eternas fogueiras, e bastar-Lhe-ia aparecer, e as trevas fugiriam. ¶
Nós, crianças, nós, homens e mulheres, que por ora temos de aprender como meninos e meninas, por métodos rudes e primitivos — dizem-nos que virá o tempo em que, como recompensa da obediência, da fidelidade contínua, nossos corpos serão cheios de luz, nossos olhos serão fixos unicamente na glória de Deus. Mas nos aproximamos dessa condição gradualmente. Estamos aprendendo a fazer as coisas, pouco a pouco. Fazemo-las agora de maneiras inferiores; mas nosso Pai Celestial aprendeu a fazê-las de maneira magistral. Então, por que haveríamos de procurar rebaixá-Lo, e negar Seu poder de fazer coisas que nós não somos capazes de fazer? Onde está a lógica disso? ¶
Por que esse preconceito contra o miraculoso? Por que haveria qualquer homem ou mulher, e particularmente qualquer Santo dos Últimos Dias, de tomar posição de oposição contra os milagres, e tentar relegá-los ao domínio do mítico? Onde isso vai parar, se vos entregardes ao espírito do ceticismo? Permiti-vos pensar que Cristo jamais caminhou sobre as águas, que Ele jamais despertou Lázaro do sono da morte, que Ele jamais fez um milagre, jamais trouxe um mundo morto à vida pelo derramamento de Seu sangue como resgate pelos pecadores — encorajai essas dúvidas, e aonde elas vos levarão? Aonde elas conduzirão? Elas vos conduzirão a rejeitar o Redentor do mundo; elas vos conduzirão a negar, como muitos fazem, que um homem como Jesus de Nazaré jamais viveu. Continuai a ceder à dúvida, e acabareis duvidando de vossa própria existência — como muitos já fazem. ¶
Se não houve milagres antigos, não houve milagres modernos. Se as obras maravilhosas do Filho de Deus são mitos, então toda essa estrutura do "mormonismo" desmorona por terra, não tem fundamento, pois está baseada em milagres, antigos e modernos, e foi destinada a se basear neles. ¶
Como sei que Joseph Smith realmente viveu? Como sei que ele foi um profeta de Deus? É porque meus pais o conheceram — porque me disseram que ele era um profeta? Quantos de vós já viram o Profeta Joseph Smith? Quantos aqui sabem, pela visão do olho e pela audição do ouvido, que tal homem viveu, trabalhou e morreu? Há dois homens neste estrado, talvez outros, mas conheço dois que, sendo meninos, viram o Profeta José — "três, quatro, cinco," diz alguém atrás de mim. Esses cinco são o Presidente Joseph F. Smith, o Presidente Francis M. Lyman, o Patriarca Angus M. Cannon, o Élder William W. Riter, e o Élder Nymphus Murdock. Pode haver outros, mas isso não importa — não estou tentando torná-lo cumulativo. Este é o ponto: Como sei que Joseph Smith realmente viveu? É porque esses irmãos o viram? Tenho respeito pelo testemunho deles; é um dos elementos do meu próprio testemunho a respeito desse homem. Mas se sei que Joseph Smith é um profeta — e sei disso — é porque Deus mo mostrou, pelo poder de Seu Espírito, o espírito de revelação. É assim que eu sei, e é assim que vós sabeis. Nós o sabemos por manifestação miraculosa, ou não o sabemos de modo algum. Somos dependentes do miraculoso para tudo o que sabemos a respeito de tais coisas. Então, por que haveríamos de querer arrancar de sob nossos pés os fundamentos sobre os quais nos apoiamos? ¶
Setecentos anos antes do nascimento do Salvador, um profeta declarou, em relação aos últimos dias, que uma obra seria feita entre os homens pelo Todo-Poderoso, mesmo uma obra maravilhosa e um assombro, e a sabedoria dos sábios pereceria, e o entendimento dos prudentes se esconderia. O que cumpre essa predição senão o "mormonismo," a grande obra de Deus dos últimos dias, fundada em maravilhas e assombros? Podeis conceber algo mais maravilhoso do que a abertura dos céus numa época em que os homens negavam a revelação, negavam a visitação de anjos, e declaravam que o mundo jamais teria mais nenhuma delas; quando havia perdido seu conhecimento do Deus verdadeiro e virtualmente O expulsara de Seu próprio universo? Podeis conceber algo mais maravilhoso do que a abertura dos céus e o aparecimento, o aparecimento pessoal, de Deus, o Pai e o Filho, a Joseph Smith, então um menino entre quatorze e quinze anos de idade? Ali está o primeiro prodígio do "mormonismo," ali está o começo do cumprimento da predição de Isaías a respeito da obra maravilhosa e do assombro. ¶
No início, o testemunho de José foi recebido com zombaria, e ele foi denunciado como impostor, como um velhaco. Todo tipo de história maldosa foi espalhada a respeito dele, a fim de destruir seu testemunho. "Isso é tudo obra do diabo," disse um ministro metodista, a quem ele contou sua história — contou-a de maneira simples, infantil, declarando que Deus lhe aparecera em visão, e falara com ele. O rapaz jamais se desviou daquela declaração, e, como homem, morreu por ela e por causa dela. ¶
Gradualmente, o mundo começa a admitir que Joseph Smith foi ao menos sincero, que realmente imaginou que viu e ouviu, e um grande e sábio homem coroou o clímax da sabedoria mundana, em seus esforços para explicar Joseph Smith, afirmando que essas maravilhosas manifestações — a vinda de Deus, o Pai e o Filho, a vinda do Anjo Morôni, a vinda de João Batista e de Pedro, Tiago e João, trazendo de volta os poderes do sacerdócio e a plenitude do evangelho eterno — que tudo isso foram alucinações, resultado de um ataque epiléptico! Houve alguma vez uma ilustração mais impressionante do cumprimento da profecia — "a sabedoria dos sábios perecerá, e o entendimento dos prudentes se esconderá"? ¶
Sabemos que o testemunho de Joseph Smith é verdadeiro; sabemo-lo pelo Espírito Santo; e essa é a força desta Igreja. Não é a sagacidade de seus líderes, não são seus membros, que constituem sua força. Somos apenas um punhado no meio de muitos milhões. A força desta Igreja está no testemunho possuído por cada homem e mulher que a ela pertence, de que ela é de fato a obra de Deus. ¶
Os testemunhos são de duas espécies, diretos e indiretos, positivos e negativos. A perseguição testifica indiretamente da verdade. "Todas as coisas prestam testemunho de mim," diz o Senhor. Basta-nos olhar ao redor, para as manifestações da natureza, e vemos e ouvimos que elas testificam do Criador. Cada coisa criada proclama seu criador, para os que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir, e que os usam para esses propósitos. ¶
Uma vez eu conversava com um cavalheiro que expressou um sincero desejo de que os Santos dos Últimos Dias cooperassem com aqueles ricos filantropos que se empenham em colonizar os pobres judeus dos países cristãos — tirá-los das grandes cidades — fazer fazendeiros e artesãos de um povo que tem sido, por séculos, mascates, comerciantes e cambistas. Uma dessas colônias, aliás, fica no centro de Utah, perto da cidade de Gunnison. Esse cavalheiro me disse: "Reconheço o povo 'mórmon' como os maiores colonizadores do mundo, e admiro-me de que não vejam a necessidade de cooperar com homens como o Barão Hirsch, que gastou milhões de sua fortuna tentando colonizar esses judeus, mas fracassou até agora, por falta de conhecimento e experiência em métodos de colonização. Por que vós, Santos dos Últimos Dias, não cooperais com ele, ele fornecendo os milhões, vós fornecendo a experiência?" E acrescentou: "Poderíeis estipular que todo judeu que ajudásseis a colonizar se tornasse um Santo dos Últimos Dias." (Risos.) "Vede como isso engrandeceria vossa Igreja." ¶
Respondi ao Sr. Davenport — esse era o nome do cavalheiro — em substância como segue: "O senhor me faz lembrar de uma conversa que tive uma vez nos Estados do Leste, durante minha primeira missão. Perguntaram-me: 'Por que vós, élderes "mórmons," não voejais por caça mais alta? Por que sempre pregais aos pobres e humildes? Por que não vos elevais entre os altos e poderosos? Tomai Henry Ward Beecher, por exemplo'" — ele estava então vivo, o grande pastor do Brooklyn Tabernacle — "'convertei-o, e toda a sua congregação afluiria depois dele; e vede como isso engrandeceria vossa Igreja!'" Disse eu ao Sr. Davenport: "Esse não é o modo de Deus edificar Sua igreja. O Senhor declarou, por um antigo profeta: 'Eu vos tomarei, um de uma cidade, e dois de uma família; e vos levarei a Sião, e vos darei pastores segundo o meu coração.'" Expliquei o grande problema da dispersão e coligação de Israel, pelo qual o sangue de Abraão, Isaque e Jacó, o sangue que crê, com espíritos que respondem a esse sangue, dispersos por um sábio propósito entre todas as nações, estão agora sendo chamados de volta e reunidos num grande movimento chamado "A Coligação," preparatório para a edificação da Nova Jerusalém e a gloriosa vinda do Senhor. E acrescentei: "Deus não está ansioso por grandes congregações. Ele não deseja que os judeus, ou qualquer outro povo, façam um acordo com Ele e se unam à Sua Igreja como um negócio." ¶
A sugestão lembrou-me daquela cena em "O Mercador de Veneza," de Shakespeare, onde o pobre velho Shylock comparece diante do tribunal, condenado por ter conspirado contra a vida de um cidadão de Veneza, e o juiz decreta, em efeito: "Metade de teus bens é confiscada em favor do mercador Antônio, cuja vida buscaste, e metade é confiscada em favor do estado de Veneza, cujas leis violaste; e, além disso, o tribunal decide que te tornarás desde já cristão." (Risos.) ¶
Cristãos não são feitos por decisões judiciais, nem os Santos dos Últimos Dias são convertidos por decreto legislativo ou por barganha comercial. Há apenas um modo de fazer um Santo dos Últimos Dias. Um homem deve ter fé em Deus, deve arrepender-se de seus pecados, deve ter seus pecados lavados pelo batismo pelas mãos de quem tem divina autoridade para administrar as ordenanças sagradas; deve ter as mãos impostas sobre ele para o dom do Espírito Santo, e por esse testemunho ele saberá que esta é a obra de Deus, e se tornará um Santo dos Últimos Dias pleno. Esta é a força da Igreja — que todo homem, mulher e criança que obedeceu ao Evangelho sabe, por si mesmo, que é a verdade de Deus, a obra de Deus. Esta é a rocha sobre a qual Cristo fundou Sua Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Amém. ¶