A Lei da Obediência
Orson F. Whitney
A Lei da Obediência — Samuel e Saul — A Inconsistência de Ingersoll — Presunção Blasfema — Como as Bênçãos São Obtidas — O Exemplo de Abraão — Viver de Cada Palavra — A Vontade do Senhor em 1847 — "Este É o Lugar" — Como os Gentios Conquistarão o Mormonismo — A Lei Celestial
Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender é melhor do que a gordura de carneiros. ¶
Quem falava era o profeta Samuel, e aquele a quem falava era Saul, rei de Israel. Saul havia recebido uma comissão de Deus, por meio do profeta, para destruir os amalequitas, um povo perverso e corrupto que havia emboscado Israel a caminho de Canaã, nos dias de Josué; e tão rigoroso era o mandamento que Saul foi instruído a não poupar alma viva alguma, nem gado, nem ovelhas, nem coisa alguma pertencente àquela nação. Mas ele se desviou do mandamento de Deus; fez-se juiz de qual parte dele deveria obedecer, e qual parte poderia ignorar; poupou Agague, o rei amalequita, e o trouxe cativo em direção a Jerusalém. Poupou, também, o melhor do gado e das ovelhas, e pensou justificar-se em sua desobediência fazendo um grande sacrifício a Jeová. ¶
Encontrando-se com Samuel no caminho, Saul foi perguntado se havia cumprido o mandamento do Senhor, e respondeu afirmativamente. "Que quer dizer, então, este balido de ovelhas e este mugido de gado que ouço," indagou o profeta; e o rei teve de confessar, para sua vergonha, que não havia cumprido plenamente o mandamento, mas havia poupado o monarca perverso, e permitido que o povo o persua- ¶
disse a tomar despojo e voltar com ele para oferecer um holocausto a Jeová. Foi nessas circunstâncias que Samuel proferiu as palavras: ¶
Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender é melhor do que a gordura de carneiros. ¶
Pergunto-me se o rei Saul estava possuído do mesmo espírito que parece imbuir alguns homens nestes dias modernos. Tenho em mente um renomado agnóstico, o falecido Robert G. Ingersoll, um homem maravilhoso sob alguns aspectos, um orador nato — magnético, poderoso em sua influência sobre o povo, brilhante na eloquência, mas superficial e inseguro em seus raciocínios. Ele sustentava que Jeová era um assassino, porque ordenou a Josué exterminar as raças perversas que oneravam a terra de Canaã, e porque Saul foi instruído a matar os amalequitas. Em seus escritos, condena Josué por sua obediência, e louva Saul por mostrar compaixão para com o rei perverso e por desobedecer ao mandamento de Deus. Ingersoll também declarou que Jeová era um violador da lei, um transgressor de Seus próprios estatutos porque, com efeito, havia ordenado que "quem derramar o sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado," e depois havia emitido mandamentos exigindo que Josué e Saul e outros de Seus generais destruíssem as nações perversas ao seu redor. ¶
Não tenho tempo para me deter neste ramo de meu assunto; mas direi, de passagem, que o Doador da vida não pode cometer assassinato ao tirar a vida, e é o cúmulo da impertinência e da presunção ¶
que qualquer homem acuse a Deus de crime. O homem não pode dar a vida, e por isso lhe é ordenado não tirar vida alguma; mas a vida pode ser tirada por seu Autor sem cometer pecado. Executar um criminoso não é assassinato. É igualmente presunçoso dizer que Jeová, o grande legislador, é um violador da lei porque escolhe, a qualquer momento, revogar um mandamento e substituí-lo por outro; revogar uma lei e promulgar outra em seu lugar. O Coronel Ingersoll era advogado — o que alguns chamariam de estadista — sabia que a legislatura de qualquer estado ou território é inteiramente competente para promulgar novas leis e revogar as antigas; e, contudo, teve a blasfema presunção de acusar o onisciente e onipotente Criador de quebrar Suas próprias leis, porque, tendo ordenado que homem algum derramasse sangue, Ele posteriormente ordenou a certos homens que matassem. Pergunto-me se Saul estava possuído da mesma ideia. Sua ofensa parece ter sido que ele se fez árbitro e juiz do mandamento que havia recebido; determinando qual parte deveria ser cumprida, e qual parte poderia desobedecer; uma ofensa tão séria, aos olhos do Senhor, que Ele rasgou o reino de Saul e o deu a outro. ¶
Não cabe ao homem sentar-se em juízo sobre os decretos do Todo-Poderoso. É seu dever obedecer. Somos informados pelo Profeta Joseph Smith que é sobre o princípio da obediência que recebemos todas as nossas bênçãos. "Há uma lei," diz ele, "irrevogavelmente decretada no céu, antes da fundação deste mundo, na qual todas as bênçãos se baseiam; e, quando recebemos uma bênção de Deus, é por obedi- ¶
ência à lei na qual ela se baseia." ¶
O exemplo de Abraão deveria ter sido suficiente para Saul. Ele foi ordenado a matar seu filho Isaque; e, embora isso, sem dúvida, lhe torcesse o coração, para fazer o sacrifício, ele estava disposto, e estava prestes a fazê-lo, quando recebeu, da mesma fonte, outro mandamento suspendendo a ordem anterior, e exigindo-lhe que não pusesse a mão sobre o rapaz. Abraão teria cumprido o primeiro mandamento, se não tivesse recebido o segundo. E, se estivesse relutante, teria sido um transgressor; mas, tendo recebido um mandamento de não fazer aquilo que havia sido ordenado, se ele tivesse continuado deliberadamente e desobedecido a exigência posterior, teria sido um transgressor. Nem o Doador desses mandamentos teria sido inconsistente. "Minha palavra é minha lei, diz o Senhor." Ele tem o direito de exigir uma coisa hoje e outra coisa amanhã, e a última palavra que vem d'Ele é a palavra que Seu povo deve obedecer. ¶
É isto que significa "viver por toda palavra que procede da boca de Deus." Não podemos justificar-nos vivendo apenas por aquela parte específica da palavra que nos agrada, a parte que desejamos obedecer, mas devemos estar dispostos a fazer sacrifícios. Às vezes o sacrifício está envolvido em fazer um ato, e às vezes em deixá-lo por fazer. Não tomamos nossos mandamentos da Bíblia. Não somos governados pelo evangelho tal como revelado aos nefitas. Estamos vivendo na dispensação da plenitude dos tempos, e temos o direito de receber revelação divina, aqui e agora, e esta é nossa orientação, nossa lei, e por ela devemos ser governados. Nenhum homem ¶
pode se levantar hoje nesta Igreja e justificar-se em qualquer curso alegando o que os nefitas fizeram, ou o que os judeus fizeram ou deixaram de fazer. A questão vital para nós é: o que Deus exige dos Santos dos Últimos Dias? Temos tanto direito à palavra do Senhor quanto tinham os nefitas, os judeus, ou os primeiros cristãos. Se isso não é verdade, o mormonismo é uma farsa e não é o que afirma ser. ¶
No mês de janeiro de 1847, os Santos dos Últimos Dias estavam acampados nas margens do rio Missouri. Haviam sido expulsos do Estado de Illinois, e um grupo de pioneiros estava sendo selecionado para a jornada através das planícies até as Montanhas Rochosas. A palavra e a vontade do Senhor foram dadas por meio do Presidente Brigham Young, ordenando ao povo que se organizasse em companhias, com capitães de centenas, e cinquentenas, e dezenas, em preparação para sua jornada rumo ao Oeste. Essa foi a palavra do Senhor a nossos pais e avós. O Profeta Joseph Smith havia predito que os Santos dos Últimos Dias seriam impelidos para o oeste e se tornariam um povo poderoso no meio das Montanhas Rochosas, e o Presidente Young, como seu sucessor e executor, deu aquela palavra e vontade do Senhor em Winter Quarters, mas é essa a palavra e a vontade do Senhor para vós e para mim? Devemos atrelar juntas de bois, nesta era de ferrovias e automóveis e aeroplanos, e ir vagando até a Califórnia, ou ao México, ou ao Canadá, e justificar-nos apontando para a palavra do Senhor dada em janeiro de 1847, nas margens do Missouri? Ora, não; a falácia é evidente à primeira vista. ¶
Este é o lugar escolhido pelo Deus dos céus, onde Seu povo deveria permanecer e se tornar poderoso. O Presidente Young declarou que contemplou o Vale do Lago Salgado em visão enquanto vinha para cá; viu uma tenda "descendo do céu," pousando sobre este lugar, enquanto uma voz do alto declarava: "Este é o lugar onde meu povo Israel armará suas tendas." ¶
E, lembrai-vos, o Profeta Joseph havia declarado que este povo se tornaria poderoso — não no México, não no Canadá, não na costa do Pacífico; mas "no meio das Montanhas Rochosas." Todos sabeis, se estais familiarizados com a história, dos esforços feitos para induzir o Presidente Young a se desviar do curso indicado por aquela predição. Samuel Brannan, que havia contornado o Cabo Horn com uma colônia mórmon, e desembarcado na costa da Califórnia, encontrou os pioneiros no rio Green e tentou induzi-los a mudar seu propósito e plantar sua colônia nas férteis encostas do Pacífico. Brigham Young respondeu: "Não; este é o lugar; aqui construiremos a cidade e o templo de nosso Deus." Bridger, Harris, e outros montanheses pensaram em desencorajá-lo, dizendo-lhe que grãos não poderiam ser cultivados na Grande Bacia; mas ele fez ouvidos moucos às suas declarações. Ele havia visto este vale; havia visto uma grande cidade erguendo-se aqui, das areias áridas, e sabia mais do que o Coronel Bridger, ou Samuel Brannan; pois era guiado pela inspiração do céu. ¶
Aqui os Santos dos Últimos Dias permanecerão, é minha crença, até que desçam, no poder do Deus de Israel, para tomar posse da Terra Prometida; seu próximo movimento geral será para o leste, não para o oeste, a partir das Montanhas Rochosas. Ah, mas os gentios estão vindo em números avassaladores para nos superar nos votos, para nos soterrar! Bem, ¶
e daí, se o fizerem? Se os gentios vierem a nós, isso nos poupará o trabalho de ir até eles. Nossa missão é para os gentios — não a partir deles; e, se vierem, não nos esconderemos nem fugiremos, mas nos voltaremos para eles e estenderemos o ramo de oliveira, pregaremos o evangelho a eles, e salvaremos suas almas, se pudermos; pois essa é a nossa missão. Quero ver os gentios conquistarem o mormonismo. Os romanos conquistaram a Grécia, e foram conquistados, ao fazê-lo, pela cultura, erudição e civilização grega; e os romanos foram conquistados pelos bárbaros, que, por sua vez, foram submetidos ao Papa de Roma e se tornaram cristãos. Se os gentios conquistarem o mormonismo, isso os tornará mórmons — e é exatamente isso que queremos. Queremos todos os bons gentios que pudermos conseguir, e não nos importa quantos deles venham e abracem o evangelho. Falam em os gentios sobrepujarem os mórmons e destruírem a obra de Deus! Sim, assim como os romanos destruíram os judeus e os cristãos. Posso sair à rua hoje e encontrar um judeu; posso sair e encontrar um cristão; mas alguém viu algum romano ultimamente? Os romanos se tornaram cristãos, e os gentios, dezenas de milhares deles, talvez milhões, se tornarão Santos dos Últimos Dias e ajudarão a edificar o reino de Deus. Essa é a minha fé nesta obra, e minha confiança nos gentios, e na palavra do Senhor a respeito deles nesta terra. ¶
Recebemos todas as nossas bênçãos sobre o princípio da obediência. Há uma lei celestial, uma lei terrestre, e uma lei telestial; e podemos alcançar qualquer grau de glória que desejarmos, mas será sobre o princípio da obediência. Se obedecermos à lei celestial, obteremos glória celestial. Se obtivermos glória terrestre, será por obediência à lei terrestre; e o mesmo com a lei telestial e a glória telestial. E o que é a lei celestial? Não significa uma única coisa; significa todas as coisas. É a plenitude da obediência: é viver por toda palavra que procede da boca de Deus. Se hoje estais guardando os mandamentos que agora estão em vigor, estais vivendo uma lei celestial, e vossas possibilidades são boas para a glória celestial. Amém. ¶