Pulpit

Observações sobre o Manifesto

George Q. Cannon

Conferência Geral de Outubro de 1890·Sessão Matutina de Segunda-Feira·1890-10-06

Em 19 de janeiro de 1841, o Senhor deu ao Seu servo Joseph Smith uma revelação, cujo parágrafo 49 lerei:

"Em verdade, em verdade vos digo que quando eu dou um mandamento a qualquer dos filhos dos homens de fazer um trabalho ao meu nome e esses filhos dos homens usam toda a sua força e tudo o que têm para realizar esse trabalho e não deixam de ser diligentes; e são atacados por seus inimigos e impedidos de realizar esse trabalho, eis que me convém já não requerer das mãos desses filhos dos homens o trabalho, mas aceitar suas ofertas."

O Senhor diz outras coisas ligadas a isso, que não julgo necessário ler, mas toda a revelação é proveitosa, e pode ser lida por aqueles que assim o desejarem.

É sobre esta base que o Presidente Woodruff se sentiu justificado em emitir este manifesto.

Suponho que não seria justo para com esta Conferência deixar de dizer algo a respeito deste assunto; e, no entanto, todos sabem quão delicado é este assunto, e quão difícil é abordá-lo sem dizer algo que possa ofender alguém. No que me diz respeito, posso dizer que, dos homens desta Igreja que se empenharam em manter este princípio do casamento plural, eu sou um deles. Em público e em particular, professei nele minha crença. Defendi-o em toda parte e sob todas as circunstâncias, e, quando necessário, disse que considerava o mandamento como vinculante e imperativo para mim.

Mas uma mudança se deu. Procuramos, em primeiro lugar, demonstrar que a lei que afetava esta característica de nossa religião era inconstitucional. Acreditamos, por anos, que a lei de 1º de julho de 1862 estava em conflito direto com a primeira emenda à Constituição, que diz que "o Congresso não fará lei alguma a respeito do estabelecimento de uma religião, ou que proíba o seu livre exercício." Apoiamo-nos nisso, e por anos continuamos a prática do casamento plural, acreditando que a lei contra ele era inconstitucional, e que tínhamos o direito, sob a Constituição, de pôr em prática este princípio em nossas vidas. Tão confiante estava eu quanto a este ponto de vista que, em conversas com o Presidente Grant, e com seu Procurador-Geral, o ex-Senador Williams, de Oregon, eu lhes disse que, se meu caso não estivesse prescrito pelo estatuto de limitações, eu estaria disposto a que se fizesse dele um caso de teste, a fim de que a lei fosse posta à prova. Fomos sustentados neste ponto de vista não apenas por nossa própria interpretação da emenda à Constituição, mas também por algumas das melhores mentes jurídicas do país, que assumiam exatamente o mesmo ponto de vista que nós -- de que esta lei era uma interferência em direitos religiosos, e de que, contanto que nossas práticas não interferissem na felicidade e na paz da sociedade, ou de outros, tínhamos o direito de pôr em prática este princípio. De fato, há apenas seis ou oito meses, em conversa com dois Senadores dos Estados Unidos, cada conversa separada da outra, ambos se expressaram, embora não com as mesmas palavras, neste sentido: "Sr. Cannon, se esta característica que o senhor pratica não estivesse associada à religião, poderia ter sido tolerada; mas o senhor a associou à religião, e isso despertou o sentimento religioso da nação, e esse sentimento não pode ser resistido. No que diz respeito à prática em si, se o senhor não a tivesse feito parte de sua fé e uma instituição sancionada pela religião, ela poderia ter passado despercebida." Não dou as palavras exatas; mas estas são as ideias que me transmitiram. Ora, estávamos muito confiantes de que esta lei era inconstitucional. O Presidente Daniel H. Wells se lembrará de como ele e eu procuramos obter um caso para testar a constitucionalidade da lei, ainda em vida do Presidente Brigham Young. Quisemos recorrer ao irmão Erastus Snow. É a última coisa em que teríamos pensado, pôr um homem como ele era na brecha, se não estivéssemos firmemente convencidos de que a lei era inconstitucional e seria assim declarada pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Telegrafamos ao irmão Erastus, no sul, pensando que seu caso não estaria prescrito pelo estatuto de limitações. Ele nos respondeu a esse respeito, e descobrimos que estava prescrito. O irmão A. M. Musser propôs a si mesmo, se bem me lembro, como caso de teste; mas havia um defeito em seu caso. Queríamos que este caso, sempre que apresentado, fosse apresentado com lisura, sem que houvesse evasão alguma nele, mas que fosse um caso que pudesse ser posto à prova com justiça perante os tribunais do país. Por fim, o irmão George Reynolds foi escolhido. Disse a mim mesmo, ao saber do resultado: "é a última vez que terei algo a ver com um caso de teste que envolva a liberdade de alguém." Foi-me prometido, quando ele foi sentenciado, por alguém em alta autoridade e que tinha o direito de fazer a promessa, que ele seria libertado, uma vez que as circunstâncias lhe fossem relatadas; pois lhe foram expostas com lisura, e lhe foi dito que a prova havia sido fornecida pelo próprio irmão Reynolds, e que tudo havia sido feito para torná-lo um caso de teste; o governo fora auxiliado na obtenção de testemunhas, e nenhuma dificuldade fora posta no caminho. Depois, no segundo julgamento, creio que os advogados do irmão Reynolds se assustaram, e algo ocorreu então que lhe deu uma aparência diferente. Mas, quando os fatos foram relatados, como afirmei, a alguém em alta autoridade, este me prometeu que George Reynolds seria perdoado. Havia, porém, nesta cidade, aqueles que estavam determinados a que ele não escapasse da prisão, e o promotor escreveu uma carta que mudou a opinião deste alto funcionário, como ele mesmo depois me disse, e recusou-se a cumprir aquilo que eu havia recebido como promessa. Mas, mesmo assim, havia circunstâncias ligadas a esta decisão que nos deixaram relutantes em aceitá-la.

Desde então, a história dos procedimentos está diante de vós e diante do mundo. Sentimos que este mandamento de Deus era de tal importância para nós, envolvendo consequências tão sérias, que deveríamos fazer tudo o que estivesse ao nosso alcance para que o mundo conhecesse a posição que ocupávamos. Pode haver homens entre nós que acreditavam que seriam condenados se não obedecessem a isso, aceitando-o como um mandamento direto de Deus. Portanto, podeis compreender com que tenacidade protestamos, e com que vigor nos empenhamos, na medida do possível, em tornar públicos nossos pontos de vista a este respeito.

Suponho que haja hoje duas classes nesta congregação -- uma classe que se sente pesarosa até o fundo do coração pela necessidade desta ação que agora tomamos; outra classe que dirá: "Não vos disse eu?" "Não vos disse que chegaria a isto?" "Não vos disse que devíeis tirar proveito disto e cumprir com isto anos atrás, em vez de suportar o que sofrestes desde então?" Pode haver hoje aqui homens que se orgulham de sua clarividência, e que se atribuem o mérito por terem previsto, como alegam, aquilo que fizemos hoje, e que levariam outros a crer que, se o seu conselho tivesse sido adotado, se os pontos de vista que apresentaram tivessem sido aceitos pelo povo, isso poderia ter poupado consequências muito sérias a todos nós, e nos deixado em posição melhor do que a que ocupamos hoje. Mas eu, por mim, discordo inteiramente deste ponto de vista. Creio que era necessário que testemunhássemos a Deus, o Pai Eterno, aos céus e à terra, que este era realmente um princípio querido para nós -- mais querido, poder-se-ia dizer, em certos aspectos, do que a própria vida. Não poderíamos ter feito isso se tivéssemos nos submetido, no tempo em que aqueles de quem falo sugeriram a submissão. Não poderíamos ter deixado nossa própria nação sem desculpa. Poderia ter dito: "Se soubéssemos tudo o que agora nos dizeis a este respeito, teríamos tido pontos de vista muito diferentes a respeito desta característica de vossa religião do que tivemos." Mas agora, depois que os acontecimentos dos últimos seis anos foram testemunhados por toda esta nação e pelo mundo, e por Deus, o Pai Eterno, e pelas hostes celestiais, ninguém pode alegar como desculpa que ignorava nossa crença e o quanto este princípio nos era caro. Mais de mil e trezentos homens foram encarcerados em prisões, por prazos que variavam de um ou três meses até anos. Foram para lá de boa vontade, como mártires deste princípio, fazendo um protesto do qual os céus e a terra devem dar testemunho, de que foram conscienciosos ao abraçar este princípio, e que, se a indulgência sensual tivesse sido nosso objetivo, poderíamos tê-la obtido sem os sacrifícios que a obediência a esta lei envolveu -- sem ir para a prisão, sem sustentar esposas e filhos, sem o opróbrio que sobre nós foi lançado por causa desta nossa ação. Se motivos licenciosos nos tivessem impelido, poderíamos ter alcançado os mesmos resultados de maneira mais barata, e de modo mais conforme com o costume universal em toda nossa terra e em toda a Cristandade. Mas os sacrifícios que fizemos a este respeito testificam aos céus e à terra que fomos sinceros e conscienciosos em tudo o que fizemos, e que não fomos impelidos pelo desejo de usar as mulheres para fins luxuriosos, mas de salvá-las, de torná-las honradas, e de não deixar margem, em nossa sociedade, para que mulher alguma se tornasse presa da luxúria, de modo que toda mulher em nossa terra tivesse a oportunidade de tornar-se uma esposa virtuosa e uma mãe honrada, amada e respeitada por sua prole e por todos os que a rodeiam.

Se nenhum outro resultado adveio do que se possa chamar nossa obstinação, estes resultados estão, ao menos, registrados, e jamais poderão ser apagados. O encarceramento destes homens, os sofrimentos -- os sofrimentos indizíveis, não escritos, sim, pode-se dizer, inominados -- de esposas e filhos, estão registrados no céu e são conhecidos dos homens sobre a terra, e formam um capítulo que jamais será apagado.

Santos dos Últimos Dias, nada se perdeu nos cinco anos que acabam de passar. Não perdemos nenhum crédito. Nenhuma honra foi sacrificada. Podemos olhar Deus no rosto -- isto é, se nos for permitido fazê-lo, no que a isto diz respeito, podemos; podemos olhar os santos anjos no rosto; podemos olhar a humanidade no rosto, sem enrubescer, ou sem sentir que fizemos algo indigno de nossa hombridade ou de nossa profissão e da fé que Deus nos deu. Tudo isso podemos fazer; e, se nenhum outro resultado adveio do que se possa chamar nossa obstinação, além destes que agora descrevo, eles são grandiosos o bastante para compensar-nos por tudo o que passamos.

Mas chegou o tempo em que, na providência de Deus, pareceu necessário que algo fosse feito para atender às exigências do país, para atender às demandas que sobre nós foram feitas, e para salvar o povo. O Presidente Woodruff, e outros de nós, foram interpelados centenas de vezes, poderia dizer; -- posso dizer, por mim, que fui interpelado muitas dezenas de vezes para que algo fosse publicado, e algo fosse anunciado. Alguns de nossos principais irmãos disseram: "Visto que deixamos de dar permissão para que casamentos plurais sejam solenizados, por que não podemos ter o benefício disso? Por que não podemos dizê-lo ao mundo, para termos o benefício disso? Nossos inimigos alegam constantemente que ainda praticamos isso em segredo, e que somos desonestos e culpados de evasão. Ora, se de fato pusemos fim a conceder permissões para que homens tomassem mais de uma esposa, por que o mundo não haveria de sabê-lo, e nós termos essa vantagem?" Estas observações nos foram feitas repetidamente. Mas em nenhum momento o Espírito pareceu indicar que isso deveria ser feito. Esperamos que o Senhor se movesse no assunto; e, em 24 de setembro, o Presidente Woodruff decidiu que escreveria algo, e teve o espírito para tanto. Havia orado a respeito, e suplicado a Deus repetidamente que lhe mostrasse o que fazer. Naquele momento, o Espírito veio sobre ele, e o documento que foi lido em vossa presença foi o resultado. Sei que estava certo, por mais que isso me tenha contrariado em muitos aspectos, porque muitos de vós sabeis do embate que tivemos quanto a este ponto. Mas, quando Deus fala, e quando Deus dá a conhecer Sua mente e Sua vontade, espero que eu e todos os Santos dos Últimos Dias nos curvemos em submissão a ela. Quando aquele documento foi preparado, foi submetido. Mas, como se diz nesta moção que foi feita, o Presidente Woodruff é o único homem sobre a terra que detém as chaves do poder selador. Estes Apóstolos que me cercam têm todos a mesma autoridade que ele tem. Todos fomos ordenados com a mesma ordenação. Todos recebemos as mesmas chaves e os mesmos poderes. Mas há uma ordem na Igreja de Deus, e essa ordem é que há apenas um homem, de cada vez, sobre a terra, que detém as chaves do selamento, e esse homem é o Presidente da Igreja, agora Wilford Woodruff. Portanto, ele assinou aquele documento por si mesmo. Alguns se admiraram e disseram: "Por que não assinaram outros?" Bem, dou-vos a razão -- porque ele é o único homem sobre a terra que tem esse direito, e ele o exerceu, e o fez com a aprovação de todos nós a quem o assunto foi submetido, depois de ter tomado sua decisão, e nós o sustentamos; pois também fizemos disso motivo de oração, para que Deus nos dirigisse.

Nunca houve tempo nesta Igreja em que, creio eu, os principais homens desta Igreja se tenham empenhado em viver mais perto de Deus, porque viram o caminho em que andávamos cercado de dificuldades, cercado de toda sorte de laços, e tivemos sobre nós a responsabilidade de vossa salvação, em certa medida. Deus nos escolheu, não nós a nós mesmos, para sermos os pastores de Seu rebanho. Não buscamos esta responsabilidade. Conheceis bem demais a Wilford Woodruff para crer que ele buscaria um cargo como o que agora ocupa. Confio que conheceis o suficiente de nós, os demais, para crer o mesmo a nosso respeito. Recuei diante do Apostolado. Recuei diante de ser membro da Primeira Presidência. Senti que, se pudesse obter minha salvação por qualquer outro meio, orei a Deus para que assim mo desse, depois que Ele me revelou que eu seria Apóstolo, quando eu era praticamente uma criança; e tenho tido esse sentimento desde então. Estes Apóstolos, todos eles, sentem a responsabilidade que sobre eles recai como líderes do povo, tendo Deus, em Sua providência, nos feito vossos pastores. Sentimos que o rebanho está sob nosso encargo, e, se qualquer mal sobrevier a este rebanho por nossa causa, teremos de responder por isso no dia do Senhor Jesus; teremos de comparecer e prestar contas daquilo que nos foi confiado; e, se formos infiéis e negligentes, e não vivermos de modo a ter continuamente conosco a palavra de Deus e a conhecer Sua mente e Sua vontade, então nossa condenação será certa e segura, e não poderemos escapar dela. Mas vós sois nossas testemunhas quanto a se Deus está ou não conosco, assim como o Espírito Santo o é. Recebestes, e é vosso privilégio receber, o testemunho de Jesus Cristo quanto a se estes homens que se acham à vossa frente são os servos de Deus, a quem Deus escolheu, e por meio de quem Deus dá instruções a Seu povo. Vós o sabeis, porque o testemunho do Espírito está convosco, e o Espírito de Deus arde em vosso peito quando ouvis a palavra de Deus declarada por estes servos, e há um testemunho vivo em vosso coração a este respeito.

Ora, reconhecendo toda a responsabilidade disto, esta ação foi tomada. Provará ela muitos dos Santos? Talvez o faça; e talvez experimente aqueles que não obedeceram a esta lei tanto quanto quaisquer outros na Igreja. Mas tudo o que podemos vos dizer é aquilo que repetidamente vos dizemos -- ide vós mesmos a Deus, se sois provados por isto e não conseguis ver seu propósito; ide aos vossos aposentos secretos e pedi a Deus, e suplicai-Lhe, em nome de Jesus, que vos dê um testemunho como nos deu a nós, e prometo-vos que não saireis de mãos vazias, nem descontentes; tereis um testemunho, e luz será derramada sobre vós, e vereis coisas que talvez não possais ver e compreender no momento presente.

Oro a Deus que vos abençoe a todos, meus irmãos e irmãs; que vos encha de Seu Santo Espírito; que vos mantenha no caminho da exaltação que Ele traçou para nós; que esteja conosco à direita e à esquerda em nosso futuro, como esteve no passado.

Antes de me sentar, desejo chamar a atenção para uma coisa notável, e pode ser para vós uma evidência de que o diabo não está satisfeito com o que fizemos. É raro que eu tenha visto tantas mentiras, e mentiras tão flagrantes e ultrajantes ditas a respeito dos Santos dos Últimos Dias como recentemente. Não tenho tempo para ler os jornais, mas aconteceu de pegar dois ou três jornais e lançar-lhes um olhar, e as mais infernais (perdoai-me por usar esta expressão) mentiras já forjadas são ali ditas. Parece que o diabo está enfurecido de todas as maneiras. "Agora," diz ele, "vão tirar proveito disto, e estou determinado a que não tenham benefício algum com isso; encherei a terra de mentiras a respeito deles, e neutralizarei esta declaração do Presidente Woodruff." E vereis, em todos os jornais, tudo o que se pode dizer para neutralizar o efeito disto. Para mim, é uma evidência bastante boa de que o diabo não está satisfeito com o que estamos fazendo. Quando guardávamos silêncio a este respeito, então éramos um povo muito mau e vil; e agora que rompemos o silêncio e tornamos pública nossa posição, ora, somos ímpios em outras direções, e nenhum crédito se pode dar a nada do que dizemos. Podeis saber, por isto, que sua majestade satânica não está satisfeita com nossa ação. Espero que jamais o esteja.

Como citar este discursoGeorge Q. Cannon, “Observações sobre o Manifesto”, Conferência Geral de Outubro de 1890, Sessão Matutina de Segunda-Feira (1890-10-06). Pulpit Vault, 1890-10-cannon-remarks-on-the-manifesto. Tradução desta edição, por método de glossário, newspapers.lib.utah.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).