Discurso
George Q. Cannon
Não me recordo de uma conferência que eu tenha apreciado mais (até onde já avançamos) do que esta Conferência que começou na última sexta-feira. Tenho sentido o Espírito de Deus em nosso meio, e tenho ficado extraordinariamente edificado e satisfeito com as observações feitas pelos diversos oradores. É motivo de ação de graças para todo Santo dos Últimos Dias, quando nos reunimos em Conferência, saber que o Senhor Se reúne conosco, e que Seu Espírito é derramado sobre Seus servos. Ouvimos dos Élderes o quanto precisamos deste Espírito, e o quão impossível nos é agradar a nosso Deus, e realizar os trabalhos que nos incumbem, sem sua presença e assistência. Sou grato todos os dias de minha vida por viver em uma época em que Deus derramou Seu Santo Espírito sobre o homem; em que não somos deixados à orientação de nossas próprias mentes, para tatearmos na incerteza, na dúvida, nas trevas a respeito de Deus, a respeito da vida futura, a respeito de Seus propósitos para com o homem e a terra em que ele habita. Quando penso nas trevas que foram dissipadas; quando penso na incerteza e na dúvida que foram dissolvidas; quando penso na torrente de luz que Deus enviou de Seu trono eterno a Seus filhos sobre a terra, por meio de Seu Profeta, por meio da revelação de Seu Evangelho, por meio da concessão de Seu Santo Sacerdócio e do dom do Espírito Santo, sinto-me grato a Deus, de todo o coração, por minha sorte ter sido lançada em um dia como o presente. Pois não somos deixados a nós mesmos; não somos deixados como presa da dúvida, do temor e da ansiedade. Sabemos que Deus está conosco; sabemos que Ele guia esta grande obra, que tudo relacionado a ela lhe é conhecido, e que seu destino final foi por Ele predito. Se jamais houve um povo sobre a face da terra que devesse estar cheio da mais profunda gratidão a nosso Deus por tudo o que Ele tem feito por eles, nós, que estamos aqui reunidos hoje, bem como todos os membros da Igreja que aqui não estão, devemos ser esse povo. Somos ameaçados por nossos inimigos; somos ameaçados por males terríveis; dizem-nos que nossa destruição está bem à porta, que seremos inevitavelmente derrubados e que nosso poder nos será arrancado. Mas não é a primeira vez em nossa história que ouvimos tais afirmações. Ao longo do caminho que trilhamos, ameaças semelhantes já nos foram feitas; este caminho tem sido cercado de dificuldades, assediado por inimigos, e tem parecido à visão humana como se nossa fuga fosse absolutamente impossível. Com que frequência isto tem sido o caso, bem o sabem aqueles que têm experiência. Tem parecido, por vezes, que havia uma barreira intransponível em nosso caminho, impenetrável à visão humana, impenetrável ao progresso humano. Mas, à medida que avançamos, as dificuldades desvaneceram-se, o caminho se abriu, todo obstáculo foi removido, e avançamos com alegria para realizar a obra que Deus nos confiou e nos ordenou desempenhar. Regozijo-me extraordinariamente com isso. Somos, nós mesmos, muito fracos; e aqueles de nós que carregam responsabilidade estão bem conscientes, quando vivem como deveriam, de sua incapacidade, e de quão longe estão de ser o que deveriam ser. Recuamos diante da contemplação do grande peso que sobre nós repousa, do caráter dos trabalhos que temos de realizar. Ficaríamos aterrorizados diante deles, não fosse a consciência de que Deus está conosco, de que Deus sustenta este povo; de que Deus fornece a sabedoria e dá a força, e de que Ele proveu a vitória; e é reconfortante saber que tudo o que temos a fazer é cumprir aquilo que nos é designado, no melhor de nosso poder e capacidade, depositando nossa confiança nEle. E quão fortes isto nos torna! Não em nossa própria força, mas na força de nosso Deus — Ele que nos livrou de tantas provações — Ele que nos conduziu através de tantas tribulações — Ele que jamais nos desertou ou abandonou, mas que Se fez presente sempre que O invocamos. Ele nos ouviu quando a aflição nos acometeu, estendendo-nos livramento, enchendo-nos de esperança, enchendo-nos de paz, enchendo-nos de alegria, por mais ameaçadoras que fossem as circunstâncias que nos cercavam. Pode-se encontrar um povo melhor sobre a face da terra do que os Santos dos Últimos Dias? Não posso falar por todos, mas falo pela maioria, pelos irmãos e irmãs que conheço. Sei, por seus semblantes, tão radiantes de alegria, que há paz e júbilo em seus corações. Sei por meus próprios sentimentos — pois minha vida, não obstante suas vicissitudes, não obstante suas tristezas, tem sido para mim um júbilo completo até agora. Regozijei-me com alegria indizível; minha linguagem não pode descrevê-la, não em mim mesmo, mas em nosso Deus, na salvação que Ele nos assegurou. Sei que este povo é um povo favorecido. Sei que, não obstante todas as nossas provações, não obstante tudo o que temos de enfrentar, não há inimigo nosso, não há combinação de inimigos nossos, cuja felicidade se compare, em grau algum, com o júbilo e com a felicidade que os Santos dos Últimos Dias possuem. Não é isto motivo de grande ação de graças para nós? Não deveriam nossas almas transbordar de gratidão a Deus, nosso Pai, por estas bênçãos a nós concedidas? Não deveríamos ser um povo humilde e obediente? Não deveríamos fazer Sua vontade e ter nossa vontade inteiramente absorvida por Sua santa vontade? Se este não for o caso, então somos o povo mais ingrato que jamais existiu, e nossa condenação será muito pesada, se nos encontrarmos nesta condição. ¶
Ouvimos observações saírem dos lábios de nossos irmãos, durante as reuniões precedentes, a respeito da desunião que existe entre os Santos dos Últimos Dias. Suas observações trouxeram-me à memória uma conversa que tive há algumas semanas com um velho conhecido que conheci em Washington. Ele havia assistido a uma de nossas reuniões em companhia de algumas senhoras amigas, e elas haviam ouvido alguns dos oradores, em suas manifestações públicas, insistirem sobre a importância da união. E ele me relatou os comentários feitos por suas amigas a respeito do ensinamento. Elas haviam inferido, das observações, que os Élderes dirigentes temiam que a Igreja estivesse desmoronando, que a obra de desintegração estivesse avançando a tal ponto a lhes causar grande alarme, o que explicaria os tons sérios e solenes com que os oradores se dirigiam aos Santos a respeito da união e de sua importância, e suas exortações ao povo para que fosse mais unido. ¶
Suponho que aqueles que não nos conhecem possam tirar tais conclusões das observações feitas durante esta Conferência. Mas deve-se lembrar, ao menos por nós, seja lá o que outras pessoas possam pensar, que nós, como nos disse o Presidente Woodruff, fomos colocados como sentinelas sobre os muros de Sião, e que não falamos como falam os ministros mercenários. Não é nosso chamado dizer coisas agradáveis ao povo, quando ele precisa de instruções e conselhos diferentes. Além disso, o espírito de instrução e conselho é algo que todo Élder deveria buscar, pois há momentos na história do povo de Deus em que é tão necessário que se profiram palavras de reprovação e advertência — que se administre a reprovação quando existe iniquidade e erro, e que se levantem sinais de advertência, chamando o povo a atentar para seus caminhos e a evitar certas coisas para que a destruição não venha sobre ele — quanto o é dizer-lhe palavras de consolo. Assim tem sido sempre, quando Deus teve um povo sobre a terra. Tem sido o ofício e o chamado de todos os Profetas e Apóstolos falar conforme movidos pelo Espírito Santo. Não é, portanto, sinal de desintegração, não é sinal de alarme, o fato de os Élderes assim ensinarem o povo e o advertirem, e talvez o reprovarem, e falarem em tons de aspereza, e talvez, às vezes, de severidade, a respeito de sua condição. ¶
Não há característica em nossa política tão desejável quanto a união. Sem ela, somos um povo extraordinariamente fraco; com ela, somos fortes, fortes no Senhor, porque o Senhor nos reconhece como Seu povo quando estamos unidos; Ele coloca Seu selo sobre nós, e nos marca como Seus. Portanto, não é de se estranhar que os Élderes sejam levados a falar sobre a importância da união. É da mais alta importância que sejamos unidos; e não é sinal de alarme, não é evidência de que os Élderes que assim falam estejam temerosos quanto ao resultado desta obra, ou aos efeitos dos ataques de nossos inimigos contra esta obra, o fato de falarem desta maneira aos Santos reunidos em Conferência, ou a qualquer outra assembleia pública. Em alguns aspectos, penso que somos um povo extraordinariamente unido. Mas, devido às circunstâncias — a ausência de muitos dos homens dirigentes, e os grandes trabalhos que recaem sobre aqueles que estão livres e aptos a percorrer o território — o povo não tem sido visitado por alguns anos, como antigamente costumava ser; e, portanto, muitas coisas têm surgido e brotado, que precisam da atenção dos Élderes dirigentes, dos Presidentes de Estacas e seus conselheiros, dos Bispos e seus conselheiros. E é preciso um bom esforço, no presente, para expor tais assuntos ao povo como se deve. Mas devemos ser um povo unido; e não podemos insistir demais na importância da união. Quando estamos divididos, somos muito fracos; quando estamos unidos, somos muito fortes, pois Deus está conosco. ¶
Deus nos deu uma organização que, se a mantivermos como devemos, preservará a união, preservará completa harmonia e força na Igreja. Portanto, devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para manter essa organização, que é completa e perfeita. Embora outros possam depreciar o Sacerdócio e a influência do Sacerdócio, e possam se opor a ele, e nos censurar por darmos ouvidos aos conselhos do Sacerdócio, cabe a nós ouvir a voz de nosso Deus, manter sua integridade para conosco, precaver-nos de que nenhum espírito que não seja de Deus tenha lugar dentro de nós, mas que, em todas as circunstâncias, sejamos guiados por Seu Santo Espírito, e pelos conselhos de Seus servos. Aquilo que testemunhamos hoje por todo este Território; aquilo que temos testemunhado onde quer que os Santos dos Últimos Dias se tenham estabelecido — os livramentos que se têm operado, a prosperidade que Deus nos tem concedido — deve-se ao fato de termos tido Seus servos em nosso meio, e de o povo ter dado ouvidos a seus conselhos. Haveremos de virar as costas a essa autoridade que Deus assim tem abençoado, que Ele tem sustentado, e mostrado Sua aprovação concedendo Suas bênçãos àqueles que têm obedecido a seus conselhos? Não devemos fazer isso. Devemos evitá-lo; e devemos ser humildes, mansos e modestos em nosso proceder e conversação; em todas as nossas relações uns com os outros, e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para manter em sua integridade a organização que nos foi dada. ¶
Em uma conversa, alguns anos atrás, com um cavalheiro de nome Haskell, do Kansas, que era Membro do Congresso, e que já faleceu, ele me disse: Sr. Cannon, tenho prestado alguma atenção à sua organização, e considero-a a mais magnífica organização que existe sobre a terra — como conseguiram obtê-la? Eu lhe disse que não supunha que, se lhe contasse tudo a respeito, ele estivesse preparado para aceitar minha afirmação como verdadeira; mas lhe disse, evidentemente, que a organização provinha de Deus, e que sua perfeição se devia à sabedoria divina. Menciono isto como o testemunho de um homem de considerável experiência, observação e vasta leitura, como uma alta homenagem à força, ao poder e à superioridade excepcional de nossa organização. É, meus irmãos e irmãs, marcadamente evidente para todo aquele que reflete o quanto Deus nos tem abençoado a esse respeito. E devemos orgulhar-nos disso — isto é, devemos ser gratos por isso, e não nos envergonharmos disso. ¶
Tenho sentido, por algum tempo, que alguns dos Santos dos Últimos Dias começam a manifestar uma disposição de sentir-se envergonhados do Sacerdócio, e envergonhados de buscar conselho junto ao Sacerdócio, como se isso fosse algo proibido, como se fosse algo que fazemos de errado ao praticá-lo; como se vir e pedir conselho aos servos de Deus fosse algo tão contrário à opinião pública que alguns homens se acanham de fazê-lo, e sentem-se envergonhados de pedir conselho aos servos de Deus. Se tais sentimentos viessem a prevalecer entre os Santos dos Últimos Dias, seria uma coisa deveras deplorável; penso que o resultado seria desastroso para nós. Se eu conhecesse um homem que tivesse o conselho de Deus, e desejasse obter conselho, sentiria que seria a maior bênção que se poderia me conceder, nas circunstâncias, poder ir até ele para pedir-lhe conselho a respeito do rumo que eu deveria tomar. Este tem sido meu proceder ao longo da vida, e sei que tem sido acompanhado de bênção. Suponhamos que o mundo escarneça disso; suponhamos que o mundo o ataque; suponhamos que o mundo nos acuse de poder unipessoal, de unir igreja e estado; eles nos acusarão de qualquer forma, não importa o que façamos, não importa quão corretas sejam nossas vidas; e havemos de nos privar das bênçãos que Deus nos concedeu na esperança de conciliar o mundo, e de impedir que o mundo fale de nós? Se essa for nossa ideia, iludimo-nos a nós mesmos de maneira lamentável. O homem que sustenta a opinião de que, tomando certo rumo que não está exatamente de acordo com a vontade de Deus, ganhará o favor do mundo, comete um grande erro. Não penso que devamos ser insensatos nestes assuntos; a sabedoria deve ser exercida em tudo o que fazemos. Mas não vos priveis, meus irmãos e irmãs, daquela luz que Deus colocou ao nosso alcance para nossa orientação e nossa segurança, por causa de qualquer temor que possamos alimentar a respeito da opinião pública em relação a esse modo de proceder. ¶
O clamor tem-se levantado de que unimos igreja e estado. Nunca se fez maior calúnia a respeito de nenhum povo do que essa a nosso respeito. Devido à nossa posição peculiar, todos os nossos homens elegíveis portam o santo Sacerdócio. Não nos foi possível, em nosso Território, em dias passados, obter homens adequados que não fossem membros do Sacerdócio. Não nos restava outra escolha senão selecionar os melhores homens que tínhamos, independentemente de sua posição na Igreja. Pelo fato de termos feito isso, não se deveria pensar que, com isso, misturamos igreja e estado, ou que olhamos para a Igreja como uma instituição a ser associada ao governo civil; de modo algum. Não creio ser possível encontrar outro povo, situado como nós estivemos por tantos anos nestes vales, que tivesse traçado as linhas de distinção entre igreja e estado com tanta clareza quanto nós o fizemos. ¶
Sempre olhamos para o governo civil como inteiramente distinto do governo eclesiástico; e nossas opiniões a esse respeito deveriam ser tão bem conhecidas a ponto de não deixar espaço sequer para acusação. Foi proclamado por Joseph Smith; foi proclamado por Brigham Young; foi proclamado por John Taylor; foi proclamado por Wilford Woodruff, e por todos os Élderes dirigentes a eles associados, que Deus pretendia organizar um Reino sobre a terra que não fosse composto apenas de Santos dos Últimos Dias, mas que membros desse Reino pertencessem também a outras denominações religiosas, além da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Esta tem sido uma doutrina cardeal nesta Igreja — isto é, entre os Élderes que têm experiência e conhecimento a respeito daquilo que há de vir, e daquilo em que o Profeta Joseph acreditava e ensinava. De fato, ele deu o exemplo em certa ocasião, e aqueles que estão familiarizados com isso o sabem. Ele mostrou aos irmãos, antes de morrer, que o Reino de Deus, quando estabelecido, estenderia sua égide protetora sobre o infiel, sobre o metodista, e sobre o presbiteriano, sobre o batista, sobre o católico e sobre todo outro homem, seja qual for a forma de crença que professe, assim como sobre o Santo dos Últimos Dias; e que cada homem e cada denominação haveria de receber direitos iguais, favores iguais e proteção do Reino de Deus. Esta tem sido nossa doutrina pelos últimos quarenta e cinco ou cinquenta anos. Portanto, é uma das maiores calúnias que se pode proferir contra um povo dizer a nosso respeito que acreditamos na mistura de igreja e estado. Não acreditamos em tal doutrina; e direi mais: nunca acreditamos nela. Mas, em consequência de nossa posição peculiar; em consequência do fato, como já disse, de que todo homem respeitável entre nós que atingiu a maioridade porta o Sacerdócio, nossos inimigos se apoderaram disso e o converteram em fundamento para vis calúnias e ataques contra nós. ¶
Retornarei à ideia sobre a qual estava discorrendo. Havemos, pergunto eu, de sentir-nos envergonhados de pedir conselho? Se um Mestre viesse à minha casa, e eu estivesse em dúvida a respeito de algum assunto sobre o qual desejasse obter conselho, eu de bom grado lhe perguntaria quais eram suas opiniões, e desse modo, se possível, obteria seu conselho, considerando o Mestre como um homem de Deus. Se um Élder viesse à minha casa, ou um Bispo, ou um Sumo Sacerdote, ou um Setenta, ou um Apóstolo, e eu estivesse em dúvida a respeito de algo que estivesse contemplando, e desejasse obter mais luz sobre isso, eu de bom grado submeteria meu caso a ele e pediria seu conselho. E, se ele não viesse à minha casa, e eu pudesse ter acesso a ele, eu não me engajaria em nenhum empreendimento importante sem tomar esse rumo. Nos primeiros dias da Igreja, isto se dava universalmente. Buscávamos conselho junto aos servos de Deus, exatamente como se fazia nos tempos antigos. Reis não iam à guerra sem buscar conselho. Lembrai-vos do caso de Acabe e Josafá, quando contemplavam a guerra. Josafá pediu ao rei de Israel, seu aliado, que consultasse ao Senhor como isso deveria ser com eles; e o rei de Israel reuniu seus profetas, cerca de quatrocentos homens, todos os quais disseram: "Sobe, porque o Senhor a entregará na mão do rei." Mas parece que Josafá não estava inteiramente satisfeito com esta palavra, por mais favorável que fosse; e ele perguntou: "Não há aqui ainda algum profeta do Senhor, ao qual possamos consultar?" E o rei de Israel disse a Josafá: "Ainda há um homem por quem podemos consultar ao Senhor; porém eu o odeio, porque nunca profetiza de mim bem, mas só mal; este é Micaías, filho de Inlá." E disse Josafá: "Não fale o rei assim." Um mensageiro foi enviado para trazer Micaías perante o rei Acabe e Josafá; e o profeta foi informado do que os outros profetas haviam dito a respeito do resultado da batalha; e foi-lhe pedido que profetizasse da mesma maneira; e assim o fez, dando o tipo de conselho que o rei de Israel desejava. Mas o rei suspeitou que havia algo de errado nisso; e conjurou-o a dizer-lhe a verdade. Então Micaías profetizou aquilo que Deus lhe havia dado, a saber, a completa derrota do rei Acabe e de seu exército — uma profecia que se cumpriu ao pé da letra. ¶
Ora, reis fizeram isso em tempos antigos, e homens poderosos, e não se considerava isso impróprio; e não se segue, pelo fato de acreditarmos neste princípio, que sejamos teocráticos, e que estejamos tentando fundar uma teocracia. Uma coisa não decorre da outra. Todo homem tem o direito de buscar a Deus da maneira estabelecida; de buscá-lO em oração, e além de invocá-lO em oração, de obter Sua palavra por meio de Seus servos designados. Os membros das Alas deveriam ensinar seus filhos a pedir conselho a respeito de todos os assuntos que desejem empreender, todos os empreendimentos em que desejem entrar. Quando um Bispo vive de acordo com seu dever, ele tem a palavra do Senhor para seu povo; e não pode dar conselho correto ao seu povo se não estiver vivendo como deveria viver. O mesmo se aplica ao Presidente de uma Estaca. E quando o Sumo Conselho se reúne com o Presidente da Estaca, é seu privilégio saber por si mesmos a respeito dos assuntos para dar conselho a esse respeito. Assim se dá com todo conselho nesta Igreja. A luz do céu que vem de Deus para iluminar as mentes dos filhos dos homens não se confina a um único indivíduo, a uma única classe, ou a um único conselho ou quórum; pelo contrário, essa luz se difunde por todo o corpo do Sacerdócio, e por todo o corpo da Igreja, de acordo com a fidelidade dos membros. Devemos compreender isto. A luz do céu — isto é, a luz que ilumina nossas mentes — é tão livre quanto a luz do sol, tão livre quanto o ar que respiramos. Devemos buscar e desfrutar destes privilégios. Gostaria de ver os Santos dos Últimos Dias tão impressionados com sua importância, que sempre que déssemos um passo sério ou grave, buscássemos o conselho de Deus. Deveríamos fazer isso de joelhos em nossos aposentos, a sós; e é nosso privilégio buscá-lo e obtê-lo também em outros lugares, para que possamos caminhar retamente perante Deus e de modo aceitável diante dEle. Deste modo, o Reino de Deus será edificado. ¶
Quero ver o poder do Sacerdócio fortalecido; não apenas o poder da Primeira Presidência; não apenas o poder dos Doze Apóstolos; não apenas o poder dos Presidentes de Estacas, ou o dos Sumos Conselhos, ou dos Bispos e seus Conselheiros. Quero ver esta força e este poder difundidos por todo o corpo do Sacerdócio, desde a cabeça até o mais humilde e menor diácono na Igreja. Todo homem deveria buscar e desfrutar as revelações de Deus, a luz do céu brilhando em sua alma e dando-lhe conhecimento a respeito de seus deveres, a respeito daquela porção da obra de Deus que lhe incumbe em seu Sacerdócio. Quando assim vivermos, seremos um poder poderoso, irresistível em nossa marcha adiante. Embora, quando estivermos nesta condição, provocaremos mais ódio, maior oposição do que a que agora enfrentamos; porque é essa característica em nossa organização que Satanás teme e odeia; e ele espera que seus servos combatam isto e procurem destruí-lo; e os esforços de nossos inimigos, por anos, têm sido destruir o poder e a influência do santo Sacerdócio, sabendo que, se isso pudesse ser feito, perderíamos nossa força, e nos tornaríamos fracos como água, por assim dizer. ¶
Sou a favor de tudo o que tenda a edificar Sião, que nos fortaleça e nos torne mais compactos. Temos esta oposição a enfrentar; façamos o que fizermos, não podemos aplacar a hostilidade de Satanás. Ao mesmo tempo, não acredito em desprezar a sabedoria, e agir como se não houvesse tal coisa como sabedoria no mundo. Esse é o outro extremo. Creio que podemos fazer tudo isso e sermos sábios em nossa conversação, sábios em nossa conduta, e em todas as nossas relações; sem nos entregarmos a fogo-fátuo ou fazer coisas tolas. Mas esta é a obra de Deus, e Ele cuidará dela, não importa o que façamos. Ao mesmo tempo, nós, por falta de sabedoria, podemos provocar a ira e trazê-la sobre nós, e muitos homens o fazem por seus próprios atos imprudentes. Ao tomarmos este rumo, nos afastamos do conselho dos servos de Deus. Sempre haveis de encontrar que os homens que se metem em dificuldades trazem dificuldades sobre outros por causa de suas ações imprudentes e discursos insensatos; e são eles os homens que desprezam o conselho. ¶
Antes de me sentar, desejo mencionar uma doutrina que tenho tido em mente, e, como esta será talvez a última oportunidade que terei durante a Conferência, chamarei a atenção para ela agora. A doutrina a que me refiro está relacionada com a ressurreição. Lerei daquela revelação conhecida entre nós como a Visão, que se encontra na 76ª seção de Doutrina e Convênios. O Senhor, falando a respeito dos filhos de perdição, diz: ¶
Estes são os filhos de perdição, de quem eu digo que melhor lhes fora nunca terem nascido; ¶
Pois são vasos de ira, condenados a sofrer a ira de Deus com o diabo e seus anjos na eternidade; ¶
Sobre os quais eu disse que não há perdão neste mundo nem no mundo vindouro — ¶
Tendo negado o Santo Espírito, depois de havê-lo recebido, e tendo negado o Filho Unigênito do Pai; tendo-o crucificado dentro de si e tendo-o envergonhado abertamente. ¶
Estes são os que irão para o lago de fogo e enxofre com o diabo e seus anjos — ¶
E os únicos sobre quem a segunda morte terá qualquer poder; ¶
Sim, em verdade, os únicos que não serão redimidos no devido tempo do Senhor depois de terem sofrido a sua ira. ¶
Pois todos os demais ressurgirão na ressurreição dos mortos, pelo triunfo e pela glória do Cordeiro que foi morto e que estava no seio do Pai antes que os mundos fossem feitos. ¶
Foi-me dado a entender, enquanto eu e outros dos irmãos estávamos no exílio, que, por causa desta passagem contida nesta revelação, alguns dos Élderes haviam concebido a ideia, e a estavam ensinando, de que os filhos de perdição não seriam ressuscitados; e nos foi feita indagação a esse respeito. A doutrina, tal como era ensinada, era que certa classe de espíritos que haviam recebido tabernáculos sobre a terra não seria ressuscitada; e, para sustentar esse ponto de vista, citavam-se os parágrafos que acabamos de ler: "Pois todos os demais ressurgirão na ressurreição dos mortos, pelo triunfo e pela glória do Cordeiro que foi morto e que estava no seio do Pai antes que os mundos fossem feitos." Por causa desta linguagem, alguns inferiram que todos os demais seriam ressuscitados, e que os filhos de perdição não seriam ressuscitados. Se lerdes o contexto com atenção, vereis que não é esse o significado. "E os únicos sobre quem a segunda morte terá qualquer poder; sim, em verdade, os únicos que não serão redimidos no devido tempo do Senhor... Pois todos os demais ressurgirão", etc. Isto é, eles serão redimidos e ressurgirão, mas não ressurgirão da maneira como nós seremos ressuscitados; não receberão aquela redenção que o restante dos filhos dos homens receberá. Deus, nesta gloriosa revelação por meio de Seu servo Joseph, nos ensinou isto: que haverá um tempo em que todo ser humano, exceto os filhos de perdição, participará da salvação de nosso Deus. E mesmo, diz-se a respeito daqueles da glória telestial, que são herdeiros da salvação. Mas os filhos de perdição não são herdeiros da salvação; não receberão redenção, tendo cometido o pecado imperdoável, do qual jamais poderão ser redimidos, ao menos, na medida em que Deus nos ensinou em Suas revelações. ¶
Ora, se vos voltardes para a 29ª seção de Doutrina e Convênios, achareis quão claro o Senhor tornou este assunto, tão claro que não deixa dúvida a esse respeito: ¶
E virá o fim; e os céus e a Terra serão consumidos e passarão; e haverá um novo céu e uma nova Terra. ¶
Pois todas as coisas velhas passarão e todas as coisas tornar-se-ão novas, sim, o céu e a Terra e toda a sua plenitude, tanto homens como animais, as aves do céu e os peixes do mar; ¶
E nem um único fio de cabelo nem argueiro serão perdidos, pois são obra de minhas mãos. ¶
Mas eis que em verdade vos digo: Antes que passe a Terra, Miguel, meu arcanjo, soará sua trombeta e então todos os mortos despertarão, pois suas sepulturas serão abertas e eles surgirão — sim, todos. ¶
"Então todos os mortos despertarão" — notai bem as palavras — "pois suas sepulturas serão abertas e eles surgirão — sim, todos." ¶
O Livro de Mórmon é também muito claro a respeito desta doutrina. Lerei alguns trechos daquele livro relacionados com este assunto, que se encontram no 9º capítulo do Segundo Livro de Néfi, versículos 15 e 16, 21 e 22: ¶
E acontecerá que quando todos os homens tiverem passado desta primeira morte para a vida, tornando-se imortais, deverão comparecer ante o tribunal do Santo de Israel; e virá então o julgamento e serão julgados de acordo com o santo julgamento de Deus. ¶
E certamente, como vive o Senhor, pois o Senhor Deus disse-o e é sua eterna palavra, a qual não pode passar, os justos ainda serão justos e os imundos ainda serão imundos; portanto, os imundos são o diabo e seus anjos; e irão para o fogo eterno para eles preparado; e seu tormento é como um lago de fogo e enxofre, cuja chama ascende para todo o sempre e não tem fim. ¶
E ele vem ao mundo para salvar todos os homens, se eles derem ouvidos à sua voz; pois eis que ele sofre as dores dos homens, sim, as dores de toda criatura vivente, tanto homens como mulheres e crianças, que pertencem à família de Adão. ¶
E ele sofre isto para que todos os homens ressuscitem, para que todos compareçam diante dele no grande dia do julgamento. ¶
O Profeta Helamã diz: ¶
Pois eis que ele certamente deverá morrer para que venha a salvação; sim, cabe-lhe morrer e isso é necessário para levar a efeito a ressurreição dos mortos, para que assim os homens possam ser conduzidos à presença do Senhor. ¶
Vedes que há outro profeta que dá testemunho a respeito do caráter da redenção operada pelo Salvador. Não importa quais possam ser os pecados de um homem, quaisquer que sejam os crimes que possa ter cometido, a ressurreição do corpo mortal lhe é assegurada pela redenção do Senhor Jesus Cristo. Mas, depois disso, vem a segunda morte; e dela participarão os que são filhos de perdição. ¶
Amuleque, no 40º versículo do 11º capítulo de Alma, diz: ¶
E virá ao mundo para redimir seu povo; e tomará sobre si as transgressões daqueles que acreditam em seu nome; e estes são os que terão vida eterna e para ninguém mais haverá salvação. ¶
Portanto, os iníquos permanecerão como se não tivesse havido redenção, sendo apenas desatadas as ligaduras da morte. ¶
Quão claras são as palavras do profeta: "Os iníquos permanecerão como se não tivesse havido redenção, sendo apenas desatadas as ligaduras da morte; pois eis que dia virá em que todos se levantarão da morte e apresentar-se-ão perante Deus e serão julgados segundo suas obras." ¶
O espírito e o corpo serão novamente reunidos em sua perfeita forma; os membros e juntas serão restaurados à sua devida estrutura, tal como nos achamos neste momento; e seremos levados a apresentar-nos perante Deus, sabendo o que sabemos agora, e tendo uma viva lembrança de toda a nossa culpa. ¶
Poderia continuar, ainda citando do Livro de Mórmon e de Doutrina e Convênios, em corroboração do ponto de vista que procurei expor, mas isso não é necessário. Todos os homens ressurgirão dentre os mortos, independentemente de sua condição, independentemente de seus pecados, os justos e os injustos; todos comparecerão perante o tribunal de Cristo, e sobre eles serão proferidos os julgamentos dEle. Alguns receberão e terão pronunciadas sobre si as bênçãos das vidas eternas, conforme prometido aos fiéis, e serão exaltados; outra classe não receberá exaltação, mas, ainda assim, será redimida, e haverá graus na condição dos filhos dos homens ali, assim como há graus em nossa condição aqui. Haverá, porém, esta diferença: os justos e os injustos não se misturarão como agora, mas uma grande separação ocorrerá. Alguns se tornarão governantes no Reino de Deus. São eles para quem Deus reserva coroas e cetros, tronos e domínios, principados e poderes. São os homens que se mantiveram fiéis diante de Deus em meio a toda provação, cujos joelhos jamais tremeram, cujas mãos jamais vacilaram diante do inimigo — homens de Deus, que partiram para servir a Deus de todo o coração — homens que se dedicaram, nesta vida, à causa de Deus, e que demonstraram integridade inabalável em toda condição de vida. Deus, para eles, reservou tronos; para eles Ele reservou principados e poderes e domínio, sim, Deus reservou para eles o maior de todos os dons, o dom das vidas eternas, e eles serão governantes em Seu Reino. Sede consolados, então; sede consolados, vós, aflitos, cujas almas têm gemido sob o peso de vossas tristezas; vós que sentistes que a vida era quase demasiado dura para suportar, sede consolados! Pois, tão certo como Deus vive, e como Seu trono não pode ser movido pelos esforços do homem, tão certo será que aqueles que forem fiéis em Cristo Jesus receberão esta gloriosa recompensa. Receberão coroas; receberão tronos; receberão principados e poderes, e nenhum poder na terra ou no inferno poderá privá-los disso. ¶
Meus irmãos e irmãs, sejamos fiéis; guardemos os mandamentos de Deus; mantenhamos brilhante nossa armadura. Ouçamos a voz dos homens inspirados, dos homens que nos ensinaram com tanto poder, e com a demonstração do Espírito Santo, nestes dois dias que passaram. Humilhemo-nos perante nosso Deus nesta Conferência, e digamos: "Quanto a mim e à minha casa, serviremos ao Senhor." Ponhamos nossas casas em ordem; sejamos castos; sejamos fiéis a nossos irmãos e irmãs; sejamos retos em nossos negócios; estejamos dispostos a sofrer o mal antes de fazer o mal; ponhamos em prática, em nossas vidas, os ensinamentos de nosso bendito e glorioso Redentor, tornando Seu Evangelho parte de nossas vidas, e exibindo, em nossa conduta e em nossas relações com os filhos dos homens, seus preceitos. Para que possamos fazer isto, peço, em vosso nome e no meu próprio, em nome de Jesus. Amém. ¶