Pulpit

A Voz da Revelação

George Q. Cannon

Conferência Geral de Abril de 1889·Sessão Matutina·1889-04-07

Ao levantar-me para dirigir-me a vós, dependo da assistência de vossa fé e de vossas orações. É uma séria responsabilidade dirigir-me a uma assembleia como esta sobre os princípios da salvação. Não deveria tentá-lo se não esperasse ser auxiliado pelo Espírito de Deus. Estamos em circunstâncias peculiares. Nunca houve tempo em que, como povo, precisássemos mais de conselho do Senhor do que precisamos no presente. Não podemos viver sem a palavra de Deus. Nosso ajuntamento nestas montanhas tem sido em cumprimento da vontade do céu. A organização destes povoados nesta região montanhosa deve-se ao fato de que Deus deu mandamentos, e os Santos se reuniram em obediência a eles. Nossa preservação, crescimento, união e força são todos atribuíveis às Suas bênçãos. Se estas fossem retiradas, estaríamos em uma condição bastante lastimável.

Reunimo-nos para sermos instruídos, a fim de melhor compreendermos nossa relação e obrigações para com nosso Pai, e de melhor sabermos como cumprir nossos deveres. Até agora Ele não ocultou Seu conselho nem nos reteve Suas palavras. A reflexão me traz alegria de que, desde a organização da Igreja, os Santos dos Últimos Dias não foram deixados a tatear na escuridão, sem a vontade de Deus para guiá-los. A voz da revelação não foi retirada. Tem havido uma voz de Deus, pela qual o povo pôde receber conhecimento de Sua vontade. Não louvaremos hoje ao Senhor por não ter havido trevas tão grandes que impedissem a luz do mundo eterno de chegar até nós? Nosso caminho foi claramente traçado. A humanidade pode ter seguido caminhos tortuosos, mas a direção em que devemos viajar tem sido claramente manifesta a nós. Assim tem sido desde o princípio, e agradeço a Deus por esta certeza nos ter sido dada.

Nosso Pai respondeu às nossas orações no passado, e nos mostrou o que fazer. A perseguição tem lançado sobre nós sua mão pesada, mas não fomos deixados a nós mesmos. Esta grande obra não foi abandonada por seu Fundador; nem Seu favor nos foi retirado. Ele sempre esteve próximo para nos dar luz e todo dom necessário às nossas circunstâncias. Isto tem sido uma grande bênção e vale mais para nós do que toda honra mundana. Quem há que valorize a verdade eterna, que ame a Deus, que deseje a salvação eterna, que não desse tudo o que possui pelas bênçãos e pelo favor de Deus? Homens morreram por menos verdade do que a que temos hoje. Fizeram grandes sacrifícios por princípios menos semelhantes a Deus do que aqueles que nos foram revelados. Estes homens sentiram que poderiam sacrificar a própria vida pela comunicação com o mundo eterno. Homens oraram pelo Sacerdócio e pela autoridade de Deus, e fizeram sacrifícios sem limites para obtê-los. O que teria dado Martinho Lutero por esta autoridade? Como era, ele desafiou o mundo inteiro; tomou sua vida em suas mãos, e estava disposto a morrer por até mesmo o pouco de verdade que possuía. Mas quão mais disposto estaria ele a fazer o sacrifício se tivesse tido as verdades que possuímos.

Na providência de Deus, Sua vontade não foi comunicada senão nesta era posterior. A terra fora encharcada com o sangue de Apóstolos e homens justos. O Sacerdócio foi levado de volta a Deus até o tempo em que Ele julgou apropriado comunicá-lo. Os corajosos reformadores serão recompensados por seus labores, e receberão as ordenanças e a salvação que buscaram, pois a obra de Deus é da eternidade até a eternidade, e nenhum de Seus filhos se perderá, exceto os filhos de perdição. Aqueles homens que tão nobremente lutaram pelo que era certo receberão a grande recompensa a que sua fidelidade à verdade os fez merecedores.

A nós, que temos contemplado este dia glorioso, são dadas as bênçãos e o conhecimento do evangelho. Somos escolhidos para sermos salvadores de nossos antepassados—salvadores do mundo—por causa da graça de Deus para conosco. Que povo devemos ser, e como nossos corações devem transbordar de gratidão a Deus. Homens morreram por estes princípios que recebemos. Foram caçados e mortos por sua fidelidade à verdade. Como é conosco? Comparai nossas circunstâncias com as daqueles homens a quem me refiro. Temos tudo o que é necessário para nosso conforto; casas elegantes, alimento e vestuário abundantes, nenhuma dificuldade como as que os antigos Apóstolos sofreram. Para nós tem havido perseguição comparativamente leve, ou não tem havido serrar ao meio, nem decapitação, nem ter que fugir para cavernas e ali habitar com nossas esposas e filhos; mas estamos desfrutando todas as bênçãos que Deus, em Sua maravilhosa bondade, tem nos concedido, e Ele nos pede que Lhe demos nossos corações. Ele nos pede que não adoremos as coisas terrenas, mas nos diz: "Escolhei primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e eu vos acrescentarei estas outras bênçãos. Quero vossos corações; quero vosso afeto; quero vossa devoção; quero que me obedeçais." Estes são os pedidos que Deus, nosso grande Criador, nosso Pai benevolente, nos faz. Daremos a nosso Pai aquela obediência que a Ele pertence, a fonte de nossa força e vida? Como nossos corações devem elevar louvor a Ele, pois Ele nos recompensou cem vezes por tudo o que temos feito.

Cada Élder que sai em missão testifica da grande felicidade que desfruta nesse trabalho. Testifica que Deus esteve com ele e que Seus anjos estavam ao seu redor. Estes Élderes regressam e se associam entre o povo. Hoje, podeis percorrer nossos povoados, e, embora tenham passado anos em missões, não podereis identificá-los por sua pobreza; não há distinção em seus bens que indique seu sacrifício, porque Deus tem multiplicado sobre eles Suas bênçãos temporais, e a prosperidade os acompanha. Assim Deus manifesta que está disposto a recompensar aqueles que O servem. Examinai estas coisas e vereis que são verdadeiras. Vós, Santos dos Últimos Dias, podeis testificar delas. Isto mostra que aqueles que servem a Deus são abençoados como nenhum outro o é. Aqueles que têm sido generosos com os pobres, e têm sido estritos no pagamento de seus dízimos, também têm recebido bênçãos semelhantes. Têm sido mais prosperados do que aqueles que têm sido mesquinhos e negligentes de seus deveres. Desta maneira Deus tem testificado a nós que nos recompensa por servi-Lo. E se continuarmos a obedecer Suas leis, as bênçãos continuarão a fluir sobre nós, e o favor de Deus estará conosco.

O Apóstolo João diz que "seremos semelhantes a ele". É para este propósito que Deus revelou o Evangelho—para que Seus filhos possam tornar-se semelhantes a Ele. Não quero dizer em sentido espiritual; isto é, na forma como estas coisas são espiritualizadas por alguns homens. Cremos que somos a prole literal da Divindade. Descendemos daquele grande Ser que formou esta terra, e dEle herdamos as gloriosas aspirações de sermos semelhantes a Ele. Com esta esperança dentro de nós, buscaremos purificar-nos como Ele é puro.

Em observações feitas aqui há algumas semanas pelo Élder Penrose, ele referiu-se a uma doutrina sustentada por alguns homens acerca de cada povo ter seu próprio Deus a adorar. O índio tem sua ideia de Deus; o hindu tem sua ideia de Deus; as várias nações da terra têm suas diferentes visões de Deus; e o cristão tem sua ideia de Deus. Ora, há algo correto nisso. Adoramos aquilo que admiramos; e sem dúvida tudo o que é admirável pertence a Deus e à Trindade. Talvez não a tenhamos toda, mesmo com nossa luz e nossa inteligência. Talvez não compreendamos todos os atributos, e certamente não podemos compreender a grandeza de nosso Deus. Outros podem ter ideias sobre Ele, corretas até certo ponto. Há verdade até mesmo entre os pagãos. Com os mais baixos da espécie humana há algo de verdade vinda de Deus. À medida que os homens avançam, recebem mais verdade. Esta é a distinção entre nós e os demais. Cremos em um Deus de revelação que nos dará cada vez mais luz até que possamos tornar-nos semelhantes a Ele.

Adoramos o Ser que se revelou a nós. Foi necessário, no início desta obra, ter uma revelação dEle. Havia muitas ideias errôneas sobre Deus, e a primeira revelação a Joseph Smith foi o aparecimento do Pai e do Filho. Ouvi dizer que há alguns entre nós que dizem que ambos são uma só pessoa. Isto é uma falácia. Há duas personagens, o Pai e o Filho. Deus é o Ser que caminhou no Jardim do Éden, e que falou com os Profetas. Esta revelação nos veio com certeza. Como disse, logo no início, o Pai e o Filho foram revelados em glória inefável e vistos por homens mortais. O testemunho deles, este testemunho, permanece registrado, corroborado e sustentado pelo testemunho de outros que desde então têm visto o Senhor Jesus Cristo; somos testemunhas vivas de que O viram, de que Ele vive, e de que Ele é, de fato, o Filho de Deus e uma das duas personagens que formam a Trindade. Neste aspecto, diferimos dos demais; entre este povo há conhecimento a respeito de Deus. Conhecemos, até certo ponto, a Ele e Seus atributos. "Como o homem agora é, Deus foi outrora; como Deus agora é, o homem pode vir a ser." Possuímos o atributo que Ele possui, e o propósito do Evangelho é conduzir-nos ao que Ele é. Esta é a verdadeira teoria da evolução—que podemos progredir até nos tornarmos semelhantes a Deus. Este é o incentivo à fidelidade.

Quem compreende este princípio pensaria em sacrificar tais gloriosas perspectivas cometendo pecado? Ninguém que tenha o Espírito de Deus pecaria para ser privado destas grandes bênçãos. Podemos fazer coisas quando não estamos conscientes dos resultados, mas nenhum Santo dos Últimos Dias cometerá pecado tendo em vista as gloriosas perspectivas que temos diante de nós. Tem havido milhares e milhares que fizeram todo tipo de sacrifício por preferência terrena. Mas quem comparará isto com a grande glória que Deus tem reservada para nós? Quem a comparará com o Reino que Deus nos prometeu? Ele prometeu que nos assentaremos sobre um trono, que teremos uma coroa, que teremos uma posteridade tão numerosa como as estrelas do céu, tão incontável como as areias à beira-mar. "Pois", diz Ele, "selo sobre vós as bênçãos dos reinos, dos tronos, dos principados, dos poderes e dos domínios. Selo sobre vós as bênçãos de Abraão, de Isaque e de Jacó; selo sobre vós a promessa de que vireis na manhã da primeira ressurreição, vestidos de glória, vestidos de imortalidade, vestidos de vida eterna." Estas são as promessas feitas aos Santos dos Últimos Dias. Foram seladas sobre as cabeças da maioria de vós. Que sacrifício há, então, que não devêssemos fazer por tais bênçãos? Nenhum. Não há entre nós, que compreendemos estas coisas, quem as renuncie por prazer mundano.

Aqueles que não são dos nossos, e que ainda assim professam o cristianismo, dizem que nossas doutrinas são estranhas. São elas mais estranhas do que os princípios em que crê o mundo cristão? Eles adoram Jesus como seu Deus, e Ele o é. Mas Ele foi outrora um bebê, e há muitos que adoram sua mãe Maria. Ele nasceu de uma mulher. E se um Deus nasceu de mulher, não poderiam outros também nascer? Dizer que não poderiam não é lógico. Alguns negam a doutrina da pré-existência diante do fato de que Jesus, o Senhor, nasceu de mulher e de que este mesmo Deus havia aparecido a Moisés e a outros. É mistério dizer que, se Ele pôde nascer de mulher, nossos espíritos também poderiam ser assim comprimidos de modo a podermos nascer como crianças? Por não compreendermos estas coisas, devemos rejeitá-las, ou devemos esperar até recebermos a luz plena? Em certa ocasião Jesus encontrou um homem possuído de demônios, que disse que seu nome era Legião. Os demônios Lhe suplicaram que os deixasse entrar em uma manada de porcos. Jesus deu permissão, e eles entraram nos porcos, os quais correram para dentro do Mar da Galileia e se afogaram. Pensai apenas numa legião de demônios em um só homem! Contudo, isso foi um fato. Estes espíritos haviam se rebelado contra Deus no céu, e perdido seu primeiro estado. Eles vagueiam pela terra, procurando desviar os homens, e esforçando-se por trazer o restante da família de Deus à mesma condição em que se encontram. Temos nisto um exemplo de como os espíritos podem ser comprimidos.

Tivemos uma existência antes de virmos para a mortalidade. Provavelmente não há homem ou mulher que não tenha uma impressão como de algo que sente ter esquecido. Quantos há que reconheceram, como algo que lhes era familiar, os princípios do Evangelho. Creio que, quando encontrarmos nosso Pai, a lembrança de que estivemos com Ele retornará. Também conheceremos nossa mãe, e aqueles com quem antes nos associamos. Conheceremos uns aos outros, pai, mãe, marido, esposa, filhos. Eu era um menino quando meu povo se reuniu com a Igreja. Eu estava curioso para ver o Profeta Joseph. Não tinha meios de identificá-lo, mas o reconheci como se já o houvesse visto antes; e não duvido de que assim fosse. Há espíritos afins que são atraídos uns aos outros, sem dúvida, por laços que se formaram antes de seu nascimento nesta esfera. No futuro nossas memórias e nossos poderes serão avivados. Há um poder notável latente na mente humana, e quando avivado pelo Espírito de Deus, alcançará de volta a vida que existiu antes desta. Abraão viu que fora escolhido para realizar uma obra poderosa.

Referir-me-ei brevemente a uma doutrina de que tenho ouvido falar. Ouvi dizer que há entre nós aqueles que sustentam a ideia de que alguns estão predestinados a serem condenados, não importa o que façam. Isto é uma falácia. Homens e mulheres confundem a presciência com a pré-ordenação. Deus sabia que Faraó oprimiria Israel; mas estava no poder de Faraó escolher seu próprio caminho. Ele não foi pré-ordenado a ser condenado, mas Deus sabia o que ele faria. Jesus sabia que Judas O trairia e se tornaria um demônio, mas ele não foi pré-ordenado a tornar-se o que se tornou. Foi sua própria escolha. A doutrina de que os homens estão fadados a cometer pecado é falsa. Não existe tal doutrina no Evangelho do Filho de Deus. Temos nosso livre-arbítrio, sem restrições, como nos foi dito tão claramente ontem.

Temos o livre-arbítrio para fazer o que é certo; o livre-arbítrio também para fazer o que é errado. Mas cabe a nós fazer o que é certo. Cabe a nós guardar os mandamentos de Deus e servi-Lo de todo o coração; e se assim fizermos, Deus nos fará sair triunfantes. Triunfaremos sobre todo obstáculo, e este Reino de nosso Deus se espalhará e crescerá em poder; superará todas as dificuldades com que tiver de se defrontar, até que cada palavra proferida a seu respeito se cumpra. Encherá toda a terra; governará e exercerá domínio, e Jesus virá reinar sobre a terra por mil anos. Se formos fiéis, reinaremos com Ele; aqueles que adormecerem serão ressuscitados e serão arrebatados para encontrar o Senhor nos ares, assim como aqueles que jazem na sepultura, como diz o Apóstolo Paulo. Aquele dia está próximo. Sede encorajados; não vos desanimeis nem temais em vossos corações, pois Deus vela sobre esta obra e sobre vós. Não há um cabelo de vossas cabeças que não esteja contado. Nem um pardal—ave tão comum entre nós aqui agora—pode cair ao chão sem que Ele o note, e vós valeis mais do que muitos pardais. Deus vela sobre vós; Seu cuidado é para convosco; Seus anjos estão ao vosso redor.

Lembrai-vos do que Ele disse em certa ocasião: "Cuidai para que não ofendais o menor destes meus pequeninos; pois vos digo que seus anjos estão diante da face de meu Pai continuamente." Não ofendais, pois, os eleitos de Deus. Cuidai para não transgredir contra vossos irmãos e irmãs. Seus anjos estão constantemente diante da face de nosso Pai nos céus, intercedendo por sua causa, velando sobre eles, e tendo cuidado deles.

Falei sobre os espíritos malignos e as influências malignas de Satanás; mas não mencionei aquela gloriosa hoste de anjos e espíritos puros que estão à mão direita de Deus, nosso Pai Eterno, e são como agentes que executam Suas ordens sobre Seus eleitos em todos os momentos, para que não firam o pé contra uma pedra. Deus cuida de nós e de todos os Seus filhos; e se formos fiéis a Ele, por mais profundas que sejam nossas aflições, por mais pesadas que sejam nossas tristezas, por mais que nos pareça que seremos esmagados até a terra, Deus ainda está próximo de nós; Seus anjos têm cuidado de nós, e seremos salvos e livrados, e eventualmente exaltados, se formos fiéis a nosso Deus, o que peço por todos vós e por mim mesmo, em nome de Jesus Cristo, amém.

Como citar este discursoGeorge Q. Cannon, “A Voz da Revelação”, Conferência Geral de Abril de 1889, Sessão Matutina (1889-04-07). Pulpit Vault, 1889-04-cannon-discourse. Tradução desta edição, por método de glossário, newspapers.lib.utah.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).