A Igreja de Cristo — Igrejas dos Homens — Ideias Conflitantes — Verdadeiras Fontes de Conhecimento — A Unicidade Explicada — Somente Uma Religião Verdadeira — "Provação Após a Morte" — Mudança nas Ideias sobre o Inferno — Diferentes Graus de Glória — Obra pelos Mortos — Completude e Simplicidade do Evangelho
Charles W. Penrose
Tendo sido chamado esta tarde para falar a esta congregação, desejo ardentemente ser tão influenciado pelo espírito da verdade que possa trazer à luz coisas que nos sejam proveitosas para refletir. Sinto que somos grandemente abençoados por termos o privilégio de nos reunirmos nesta casa, dedicada à adoração e ao serviço de nosso Pai Celestial, onde podemos atender àquilo que se requer de nós, em paz e em unidade de espírito, e receber instruções conforme o Espírito Santo nos inspire. ¶
Reunimo-nos em nome do Senhor. Tudo o que fazemos deve ser feito em nome de Jesus Cristo, pois assim nos foi ordenado. A Igreja à qual pertencemos é a Igreja de Jesus Cristo. Compõe-se de pessoas chamadas Santos dos Últimos Dias, mas é a Igreja de Cristo. Ele a estabeleceu, Ele a organizou, e todos os princípios e doutrinas que nos foram dados a conhecer foram revelados por meio dEle. É Sua obra, e Ele a vigiará, a dirigirá e a consumará. E Ele nos ordenou que fizéssemos todas as coisas relacionadas com nossa fé em Seu santo nome, e somente dessa maneira serão aceitáveis a nosso Pai Celestial; pois todas as bênçãos que vêm de nosso Pai a nós, Seus filhos, virão a nós por meio de Jesus Cristo. Somente o Seu nome foi dado debaixo do céu pelo qual o homem pode ser salvo. O Evangelho de Jesus Cristo deve ser pregado a toda criatura. Pois não seria justo que nosso Pai Celestial condenasse qualquer de Suas criaturas que não cresse em Jesus Cristo, sem lhes dar a oportunidade de compreender quem Ele é e quais são Seus mandamentos. Todos os povos, então, devem ouvir o Evangelho e ter a oportunidade de recebê-lo ou de rejeitá-lo. Jesus Cristo enviou Seus Apóstolos, depois de Sua ressurreição, a pregar o Evangelho a todo o mundo naquele dia e naquela geração, e eles avançaram e cumpriram o mandamento que Ele lhes deu. Desde então, muitas doutrinas falsas foram introduzidas no mundo, e muitas igrejas foram estabelecidas, segundo as noções e ideias de homens não autorizados pelo Senhor Jesus, não aceitas por Ele, não reconhecidas por Ele de forma alguma. São as igrejas dos homens, e as doutrinas nelas pregadas, em muitos aspectos, são doutrinas e mandamentos de homens. Não são de Deus. Não são reconhecidas por Ele. Não são aceitáveis a Ele. E o mesmo se dá com muitas ordenanças que foram introduzidas desde aquele dia. Alguns homens as introduziram em nome de Jesus Cristo, mas não foram autorizados pelo Senhor a fazê-lo, e por isso Ele não as aceitará, e não trazem benefício algum aos filhos dos homens no que diz respeito à sua salvação. Mas, na era em que vivemos, o Senhor Jesus manifestou-Se novamente e reorganizou a Igreja que estabelecera nos tempos antigos, na mesma forma e figura, com os mesmos ofícios, com as mesmas ordenanças, com os mesmos mandamentos, e com o mesmo espírito, poder, dons e bênçãos. E, nesta Igreja, se vivermos sob a inspiração do espírito e atendermos aos deveres e obedecermos aos mandamentos que Ele revela, na maneira que Ele indicou, seremos aceitos por Ele, e aquilo que Seus servos realizarem na terra em Seu nome, na maneira que Ele designou, será o mesmo que se fora realizado por Ele mesmo em pessoa, e será aceito pelo Pai, exatamente como se fora realizado pelo Senhor Jesus Cristo; e o que eles selarem na terra será selado nos céus, e o que eles desligarem na terra será desligado nos céus, conforme Sua palavra. Temos, portanto, esta grande bênção e privilégio, ao pertencer a esta Igreja, de nos tornarmos o povo do Senhor Jesus, os Santos do Senhor, membros da Igreja de Cristo, não membros de igreja alguma feita por um homem, ou por um grupo de homens, mas a verdadeira Igreja do Deus vivo, estabelecida por Ele mesmo por meio do Senhor Jesus Cristo. E, se oferecermos nossos sacramentos perante Ele na maneira que Ele designou, eles serão aceitos por Ele, e receberemos os benefícios que resultam de atender devidamente a essas coisas. ¶
Atualmente há muitas seitas diferentes que professam ser as igrejas de Cristo. Ensina-se nelas uma grande variedade de doutrinas. De modo geral, supõe-se que essas doutrinas sejam extraídas do livro chamado Bíblia. Os ministros costumam ler uma porção da escritura, seja do Antigo Testamento, seja do Novo Testamento, e pregar discursos a partir dela. Mas, embora essas diferentes religiões e esses diferentes discursos supostamente sejam extraídos de um só livro, são, no entanto, muito conflitantes entre si. As noções e ideias de uma seita a respeito do que está contido no livro diferem das que são sustentadas por outra seita, também professando ser a igreja de Cristo. E, mesmo dentro de cada uma dessas várias seitas, as pessoas não creem todas da mesma maneira. Não compreendem da mesma maneira as doutrinas que pertencem à sua seita em particular. Por exemplo, as pessoas da chamada igreja metodista não creem todas da mesma maneira. As pessoas da igreja batista não creem todas da mesma maneira. Não há apenas diferença entre batistas e metodistas, mas os metodistas diferem entre si, e os batistas diferem entre si; e assim se dá com todas as demais seitas da Cristandade. A razão disso é que não têm padrão real e definido. Tomam a Bíblia, ou melhor, professam tomar a Bíblia como seu padrão; mas suas ideias a respeito das Escrituras diferem. Não compreendem todos a Bíblia da mesma maneira. Se todos compreendessem a Bíblia da mesma maneira, haveria unidade de fé; mas suas ideias diferem quanto ao significado do que está contido na Bíblia. Atualmente há grande controvérsia no mundo cristão a respeito da maneira como este livro deve ser lido, e a respeito de sua autoridade. Alguns afirmam que toda palavra do livro é inspirada; que a palavra contida na Bíblia deve ser aceita implicitamente como a própria palavra de Deus. Outros contestam isso, negam a inspiração plenária das Escrituras, e alguns deles pensam que o livro deveria ser considerado da mesma forma que a história secular. E assim as noções e ideias a respeito da Bíblia são bastante variadas. Fora da Bíblia, não têm padrão algum. Talvez possamos excetuar a igreja chamada Igreja Católica Romana. Essa igreja tem um padrão na pessoa do chefe supremo da igreja — o Papa —, nas tradições e nas decisões dos concílios da igreja. Mas nem a Igreja Católica Romana, nem a Igreja Episcopal, que dela saiu, nem qualquer das seitas que saíram da Igreja Episcopal, têm entre si padrão inspirado algum, salvo as coisas escritas antigamente contidas na Bíblia, as quais não compreendem da mesma maneira. Na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias temos algo além da palavra escrita. Temos os oráculos vivos de Deus, homens que foram chamados e habilitados e separados para ministrar em lugar de Cristo, homens em quem o Senhor colocou Seu espírito, e não somente Seu espírito, mas Sua autoridade, para que possam agir em Seu nome; e eles têm acesso a Ele. É seu privilégio não apenas expor as coisas escritas antigamente que foram preservadas e registradas, e que estão contidas nos livros da Bíblia, mas também receber conhecimento da mesma fonte de onde vieram as coisas inspiradas que estão no Livro. A mesma fonte da qual beberam os profetas antigos está aberta a nós, e os servos de Deus na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias podem conhecer a mente e a vontade de Deus a nosso respeito, tal como existe em Seu próprio seio, porque a fonte da revelação não secou. O acesso a nosso Pai Celestial está aberto como o estava nos tempos antigos; e, se Pedro pôde conhecer a palavra do Senhor e ensiná-la à Igreja de outrora, assim também os servos de Deus que ocupam posição semelhante hoje podem invocar o Senhor e receber Sua palavra e declará-la à Igreja dos Últimos Dias. Se os profetas de Deus de antigamente escreveram e falaram conforme foram movidos pelo Espírito Santo, há profetas de Deus vivendo hoje na terra que podem falar e escrever conforme são movidos pelo mesmo poder. E a palavra de Deus que desce do céu em nossos dias é tão autoritativa quanto a palavra de Deus que veio nos tempos antigos e que está escrita nos livros antigos, e é de muito mais importância para o povo chamado Santos dos Últimos Dias, porque lhes vem diretamente de nosso cabeça vivo. Não vem em nenhuma fraseologia ambígua; não vem de forma que a deixe aberta à controvérsia; mas nos vem clara, simples e direta, de modo que todos possam compreender. Temos o benefício dos oráculos vivos; não apenas as palavras dos oráculos que já morreram, mas as palavras dos que vivem. ¶
E constatamos, ao investigarmos as coisas que Deus manifesta em nossos próprios dias por meio dos oráculos vivos, que, em espírito e em doutrina, correspondem às coisas que Deus revelou nos tempos antigos. Temos, pois, "uma palavra mais segura de profecia" do que as coisas que foram escritas antigamente. O Apóstolo Pedro falou disso em seus dias. Disse que os santos homens de Deus escreveram e falaram conforme foram movidos pelo Espírito Santo, e que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Disse ainda: "E temos muito firme a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia clareie, e a estrela da alva surja em vosso coração." Eles tinham os oráculos vivos. O povo que viveu nos dias de Pedro não tinha apenas as palavras de Isaías, Jeremias, Ezequiel e dos demais profetas, e o Livro das Leis, tal como escrito por Moisés, o profeta inspirado de Deus, que contemplou a Deus e falou com Ele face a face — não tinham apenas essas coisas escritas nos registros antigos, mas tinham oráculos vivos, homens em seu meio que estavam autorizados a falar em nome do Senhor e declarar ao povo a palavra viva de Deus para seu benefício presente. E, como foi com o povo naquele dia, assim é nesta Igreja que Jesus Cristo, nosso Salvador, restabeleceu na terra. Temos os oráculos vivos, aqueles que são chamados e ordenados para estar entre nós e o Senhor. E, além de tudo isso, temos o grande privilégio do Espírito Santo universalmente difundido por todo o corpo da Igreja, para o benefício de cada um de seus membros; de todo homem e de toda mulher, de todo indivíduo que nela foi batizado e recebeu suas ordenanças. Toda pessoa na Igreja pode receber desse espírito, que é a luz de Deus, que é o espírito de inspiração, que testifica das coisas de Deus, e torna claras a todos os que o têm as coisas que Deus revela por meio dos oráculos vivos. Se um servo de Deus fala ou escreve sob a inspiração do Espírito Santo, o mesmo espírito pelo qual ele escreve ou fala está nos membros da igreja, e é seu privilégio ver como ele vê, compreender como ele compreende, para que todos possamos ver "olho a olho" e compreender as coisas de Deus da mesma maneira. ¶
Algumas pessoas têm a ideia de que é impossível levar um grande número de indivíduos a compreender a religião exatamente da mesma maneira. Às vezes se aponta para a diferença que existe no caráter humano. É verdade que nosso caráter varia, assim como nosso semblante. Os rostos que estão diante de mim hoje são todos diferentes, embora sejamos todos da mesma raça. Somos todos diferentes em nossa aparência. Até irmãos e irmãs da mesma família diferem em sua aparência em alguns aspectos. Assim se dá com tudo o que Deus fez. Não é assim apenas quanto à família humana, mas também quanto à criação irracional. Não há duas folhas de relva exatamente iguais. Não há duas folhas nas árvores da floresta exatamente iguais. Não há dois mundos que o Deus Todo-Poderoso fez, que brilham no firmamento à noite, exatamente iguais. Há certas peculiaridades em cada um deles, distintas e diferentes das dos outros. Tudo isso é verdade. Mas será impossível levar pessoas assim organizadas, pessoas de caráteres e mentes diferentes, a ver e compreender exatamente da mesma maneira? Não, não há dificuldade nisso quando a coisa é devidamente compreendida. Tomai qualquer uma das chamadas ciências exatas, e as pessoas podem ser levadas a compreendê-las exatamente da mesma maneira. Tomai, por exemplo, uma operação de aritmética. Quando uma dúzia de pessoas compreende as regras da mesma maneira, resolverão a operação da mesma maneira, não importa onde nasceram, nem que língua falem. Quando compreendem o princípio e a regra que governa a resolução da operação, todos a resolvem da mesma maneira, e o que uma dúzia ou uma centena pode fazer, um milhão também pode fazer. Não importa o número. Se todos compreendem o princípio da mesma maneira, resolverão da mesma maneira, e o resultado será exatamente o mesmo. Por que isso não poderia ser feito naquilo que se chama religião? É verdade que os princípios religiosos não são governados inteiramente pelas mesmas regras e leis que governam as coisas seculares. Mas, ainda assim, se as pessoas possuem o mesmo espírito, e a verdade é tornada clara ao seu entendimento, todas podem ser levadas a ver exatamente da mesma maneira, e nós já o provamos em nossa própria experiência. Por exemplo, quando o Evangelho de Jesus Cristo chegou a nós, encontrou-nos espalhados por diferentes nações. Temos aqui pessoas da Inglaterra, da Escócia, do País de Gales, da Irlanda, e de diferentes partes do continente europeu; da Suécia, da Noruega, da Alemanha, da Itália, e dos vários cantões da Suíça; muitas dos vários estados da América, das ilhas do mar, das Índias Orientais, da África — pessoas de todos os cantos do globo. Ora, quando o Evangelho chegou a nós, encontrou-nos em condição dispersa. Vivíamos em países diferentes, falávamos línguas diferentes; tínhamos ideias diferentes a respeito de Deus e de Seus caminhos. Mas nos ensinaram que devíamos crer no Deus verdadeiro e vivo; que todos havíamos procedido dEle; que Ele era nosso Pai, e que fomos feitos à Sua imagem; que a ideia predominante no mundo, de que a Divindade é um ser sem corpo, partes ou paixões, uma entidade incompreensível, estava totalmente errada. Disseram-nos que procedíamos de Deus e, sendo Sua prole, éramos semelhantes a Ele, e que, portanto, em certos aspectos, Ele é semelhante a nós; que Ele é uma pessoa, e, como toda semente gera sua própria espécie, e nós somos a prole de Deus, poderíamos formar alguma concepção de como Ele é, e abandonamos nossas antigas ideias. Chegamos a uma unidade de fé a respeito de Deus, de que Ele é um indivíduo; de que, embora seja um espírito, habita, no entanto, em um tabernáculo tangível. O homem é um espírito, assim como Deus, porque procedemos dEle. A parte espiritual de nosso ser é a prole de Deus, e essa parte espiritual habita em nossa parte natural que veio do pó. Desta forma, pudemos formar alguma ideia a respeito da Divindade, e todos formamos a mesma ideia; todos chegamos à unidade de fé nesse sentido. Também nos ensinaram que era necessário crermos no Senhor Jesus Cristo, e que, quando tivéssemos plena fé no Senhor Jesus Cristo, deveríamos obedecer a Seus mandamentos, que devíamos arrepender-nos de nossos pecados. Ora, havia ideias diferentes no mundo quanto ao que constituía o arrependimento; mas nos ensinaram que, para nos arrependermos aceitavelmente diante de Deus, devíamos chegar à determinação, em nossa mente, de deixar de pecar, de cessar de fazer o que é errado, e de compreender e fazer o que é certo. Depois nos ensinaram que, para recebermos a remissão dos pecados, devíamos ser batizados. Ora, havia noções diferentes a respeito do batismo no mundo. Algumas pessoas criam que o sinal da cruz, marcado com um pouco de água na testa por um sacerdote, era batismo. Outras criam que aspergir água sobre o rosto era batismo. Outras, que era necessário imergir todo o corpo na água para constituir batismo, e outras ainda, que a pessoa devia ser imersa três vezes. Mas nos ensinaram que o batismo era, ao mesmo tempo, um sepultamento e um nascimento; que, para ser devidamente batizada, a pessoa que administra a ordenança deve ter autoridade de Deus, porque usa o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e não tem o direito de usar os nomes da santa trindade sem estar expressamente autorizada por Deus para tanto. Aprendemos, então, que, em primeiro lugar, o indivíduo que administra as ordenanças deve ter autoridade para administrá-las, e deve administrá-las da maneira que o Senhor designou — não da maneira que o homem possa julgar correta, mas da maneira que o Senhor ordenou, ou de outro modo não seria aceitável a Deus. E nos ensinaram que o indivíduo a ser batizado deve crer e arrepender-se, pois, sem fé e arrependimento, o batismo de nada valeria. Assim, o indivíduo batizado deve ser um crente arrependido, e o indivíduo que administra a ordenança deve ser um servo ordenado de Deus, com autoridade legítima do alto — não a que tomou para si mesmo, não a que possa ter sentido em seu próprio coração o chamado para exercer; mas deve ser um representante genuíno da Divindade, um homem chamado, ordenado e separado, com autoridade de Deus, para administrar em Seu nome, ou não seria válido. E, além disso, o indivíduo que batiza deve descer à água com a pessoa a ser batizada — o candidato deve ser sepultado na água à semelhança da morte e do sepultamento de Cristo, e depois ser levantado da água à semelhança de Sua ressurreição — e o objetivo disso era a remissão dos pecados. ¶
Isso era muito diferente das doutrinas que prevaleciam no mundo. Mas, quando isso nos foi ensinado com clareza, e fomos batizados dessa maneira, recebemos em nosso coração um testemunho de que fomos purificados, de que nossos pecados foram remidos, de que haviam sido lavados — não pela água, mas por nossa obediência à ordenança que Deus estabeleceu e pelo sangue de Jesus Cristo, que foi derramado para a remissão de nossos pecados. Tivemos a convicção selada em nosso coração de que havíamos recebido essa bênção. Como resultado disso, fomos assim levados à unidade da fé. Então, quando os servos de Deus impuseram as mãos sobre nós, segundo o modelo revelado do céu, e conferiram sobre nós o Espírito Santo, o Consolador, recebemos o mesmo espírito do alto, o mesmo Espírito Santo. O povo que recebeu essa ordenança na Escandinávia teve o mesmo espírito descer sobre ele que o povo que a recebeu na Inglaterra ou na Escócia, e o povo neste hemisfério ocidental em que vivemos recebeu o mesmo espírito que o povo recebeu no hemisfério oriental. Em toda parte do globo, onde quer que essa ordenança fosse administrada, o mesmo espírito repousava sobre o povo e lhe dava o mesmo testemunho. Ora, embora haja uma variedade de operações desse espírito, o espírito é, contudo, o mesmo, e a luz que ele traz é a mesma. As pessoas não recebem todas essa luz no mesmo grau, mas a luz é a mesma, assim como a luz do sol é a mesma para todos. Algumas pessoas conseguem ver muito mais longe do que outras com seus olhos naturais. Sua vista é melhor, mas a luz pela qual ambas veem é a mesma. Assim se dá com o dom do Espírito Santo. Nem todas as pessoas o recebem no mesmo grau, porque nem todas são dotadas da mesma capacidade, nem todas têm os mesmos desejos; mas a diferença não está no espírito, está no indivíduo. Algumas pessoas são muito diligentes na busca das coisas de Deus, e aquele que busca encontra, e, quanto mais busca na direção certa, mais encontra. Aquele que é negligente na busca das coisas de Deus obtém pouco; aquele que é diligente obtém muito. Todos podem recebê-lo, mas devem obtê-lo da maneira que Deus designou, cada um recebendo sua medida segundo sua diligência e desejo; mas o espírito é o mesmo. E esse espírito operou em nosso coração de tal maneira a nos tornar — um povo de sentimentos e opiniões diversos — de um só coração e uma só mente a respeito deste assunto. E onde quer que este Evangelho tenha sido pregado e as pessoas o tenham recebido, elas foram levadas a uma "unidade da fé". Não têm mais muitas fés e muitos batismos, mas uma só fé, um só batismo e um só Deus, tendo começado a andar no mesmo caminho estreito e reto que conduz à vida e que é o único caminho de salvação. E todas as pessoas que desejam desfrutar da plenitude de Sua glória devem andar por esse caminho estreito e reto; "pois larga é a estrada, e espaçosa é a porta que conduz à morte, e multidão há", diz-se-nos, "que entra por ela". Há somente um caminho de vida, somente um plano de salvação, porque há apenas um Deus a servir. Se houvesse muitos deuses a adorar, poderia haver muitos caminhos diferentes de salvação; mas, quanto a nós, há somente um Deus, só pode haver um Evangelho, uma Igreja, uma porta que conduz à cidade celestial. ¶
Mostrei que é possível levar um grande número de pessoas de ideias e noções diferentes a compreenderem as coisas da mesma maneira. E, se isso pode ser feito quanto a uma ou quatro coisas (mencionei quatro) ou princípios, pode ser feito quanto a um milhão ou qualquer número de princípios. E as Escrituras nos dizem que virá o tempo em que todos verão olho a olho; porque todos conhecerão a Deus, desde o menor até o maior. Há também um tempo por vir em que o Espírito Santo será derramado sobre toda a carne, "quando os filhos e as filhas profetizarão, os velhos sonharão sonhos, e os jovens verão visões", etc.; e quando a terra e tudo o que nela vive serão redimidos e santificados; a terra será então como era quando saiu das mãos do Criador, e o povo compreenderá a Deus e Seus caminhos; todos os compreenderão da mesma maneira. Não haverá mil religiões diferentes; mas haverá uma só, um só Deus, Pai de todos, e um só Espírito Santo ardendo no coração de Seus filhos. ¶
Atualmente há uma diversidade de opiniões, noções e ideias a respeito de Deus e de Seus caminhos; mas já afirmei que este único caminho em que os Santos começaram a andar é o único caminho verdadeiro. Isso pode soar muito exclusivista; pode também parecer, a alguns, um tanto inconsistente. Isso porque talvez não compreendam o assunto em todas as suas implicações. Digo que só pode haver uma religião verdadeira, simplesmente porque só há um Deus verdadeiro. A verdadeira religião é aquela que vem de Deus; e a religião que é feita pelo homem não pode ser a religião de Deus; portanto, não é vinculante; nada de religioso é vinculante para a humanidade senão o que é revelado por Deus. O que vem de Deus por meio de Seus servos, e é declarado ao povo, é vinculante; aquele que o recebe será salvo; e aquele que o rejeita será condenado. Assim há de ser, porque vem por autoridade, da própria Divindade. É Sua palavra; é Sua vontade; e aquele que a rejeita, rejeita-a contra sua própria salvação; e ninguém pode ser salvo se não obedecer. ¶
Alguns talvez perguntem: "Quer dizer que todas as pessoas que viveram na terra desde os dias em que Jesus e os Apóstolos pregaram, que não ouviram nem obedeceram ao Evangelho, estão todas condenadas e perdidas para sempre?" Respondo que não. Sustentamos apenas a proposição de que há somente um caminho verdadeiro. Remeto-vos à linguagem do próprio Salvador sobre este ponto, dirigida a Nicodemos, um dos principais dos judeus, que procurou uma entrevista com Jesus de noite: "Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus." Eis uma declaração muito clara, e bastante conclusiva. Há milhões de pessoas que viveram na terra que não "nasceram da água e do Espírito". Tomai, por exemplo, somente os milhões de judeus que viveram antes da introdução do Evangelho por Cristo, e depois de ele ter sido pregado a seus antepassados. Pois, deixai-me dizer-vos, o Evangelho foi pregado antes de Cristo o pregar. Quando Jesus veio, Ele não introduziu coisa alguma nova; veio restaurar algo que se havia perdido. O Evangelho era conhecido de nossos primeiros pais quando saíram do Jardim do Éden. Era conhecido de Abraão. Foi pregado a Israel antes de a lei ser acrescentada. É o que declara Paulo aos Hebreus. "Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar. E todos foram batizados por Moisés na nuvem e no mar, e todos beberam de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo." Foram batizados como nós o fomos, mas não receberam plenamente em seu coração a fé do Evangelho; não se aproveitaram da palavra pregada; por isso, Deus acrescentou a lei como aio, para os conduzir ao caminho certo. Acrescentou a lei dos mandamentos carnais porque não quiseram receber com fé a plenitude da lei maior. Quando Jesus veio, restaurou o Evangelho; mas houve milhões e milhões de pessoas, somente entre a nação judaica, desde os dias de Moisés até os de Jesus, que não haviam "nascido da água e do Espírito". Chamavam de gentios as nações fora da nação judaica, e nenhuma delas, por centenas de anos, havia obedecido ao Evangelho — havia recebido as ordenanças pelas quais poderiam nascer da água e do Espírito. O mesmo se dá com o povo desde os dias em que os antigos Apóstolos, que tinham autoridade de Deus, que foram enviados a ministrar em Seu nome, a pregar o Evangelho a todos os povos e a batizá-los em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e a ensinar-lhes todas as coisas que Ele lhes havia ordenado, foram mortos. Desde os dias deles até o tempo em que vivemos, milhares e milhões de pessoas já passaram desta vida sem receber nem obedecer ao Evangelho do Filho de Deus. Segundo as doutrinas dos homens, por não o terem ouvido, estarão condenadas para sempre. As nações gentias, por eras passadas, nem sequer ouviram as doutrinas dos homens que professam ser cristãos. Adoram ídolos; adoram animais; adoram os corpos celestes, etc. Muitos milhões delas estão fora dos limites da Cristandade. Que será feito delas? "Em verdade, em verdade vos digo que, se não nascerdes da água e do Espírito, não podereis entrar no reino de Deus." Assim diz o Salvador; e não há outro nome dado debaixo do céu pelo qual o homem possa ser salvo senão o nome de Cristo Jesus; e, no entanto, há milhões e milhões de pessoas que já passaram desta terra sem jamais terem ouvido o nome de Jesus Cristo. Muitos milhões mais morreram sem conhecimento do verdadeiro Evangelho. E que será feito de todas elas? Segundo as doutrinas da Cristandade moderna, todas estão destruídas, todas estão condenadas. É uma coisa horrível de se pensar. ¶
Há considerável controvérsia atualmente no mundo cristão, não apenas quanto à inspiração plenária da Bíblia, mas também quanto à provação. Está em curso uma discussão a respeito do que se chama "provação após a morte". A questão é se há provação depois que as pessoas deixam este mundo, ou se ela se limita à esfera em que agora nos movemos. Alguns ministros começam a pensar que deve haver uma oportunidade para as almas, depois que deixam a terra, de aprender o caminho da vida e da salvação, mas a grande maioria dos teólogos modernos, representando as opiniões religiosas populares, crê que este é o único estado de provação; que, quando a morte alcança um homem, é o fim de suas oportunidades de salvação. Segundo essa regra, todos aqueles milhões de pessoas que morreram sem ouvir o nome de Jesus Cristo foram para o inferno. ¶
Há diferentes ideias a respeito do inferno hoje em dia. Poucos anos atrás havia apenas uma ideia, que era a de que o inferno é um grande abismo sem fundo, cheio de fogo ardente e enxofre, no qual os iníquos são lançados para nunca mais voltar, enquanto os demônios atiçam continuamente as chamas para o tormento eterno dos condenados. E essa cena costumava ser descrita pelos teólogos populares da maneira mais hedionda e chocante. As pessoas modificaram recentemente suas ideias a respeito do castigo futuro, e essa mudança se deve, em grande parte, aos ensinamentos dos Élderes desta Igreja, e às doutrinas que foram expostas e publicadas como reveladas por meio do Profeta Joseph Smith. A controvérsia que agora é conduzida pelas principais mentes teológicas sobre o tema das provações foi produzida pelo efeito, sobre a mente pública, da pregação dos Élderes da doutrina revelada bem no início da Igreja. Encontrareis em Doutrina e Convênios que Deus revelou a Joseph Smith, já em março de 1830, que "castigo eterno é castigo de Deus". Porque Deus é um ser eterno. Suas leis são eternas, e há penalidades associadas a todas elas. Mas disso não se segue que, por uma pessoa ser banida para o castigo eterno, se pretenda que ali permaneça eternamente. Ela pode ir para o castigo eterno, pode ir para o lugar preparado para os rebeldes e os pecadores, e ali permanecer apenas por certo período. Alguns podem permanecer mais tempo do que outros. Na linguagem das Escrituras, uns são açoitados com muitos açoites, e outros são açoitados com poucos açoites; mas todos permanecem até terem pago "o último ceitil"; todos são castigados segundo a gravidade de sua culpa. Haverá "menos rigor", no dia do juízo, para as pessoas que não ouviram a palavra de Deus na carne, e que foram iníquas, do que para os iníquos que ouviram a palavra de Deus e a rejeitaram. Mas virá o tempo em que todos os homens serão julgados, e o Apóstolo Paulo diz que serão julgados pelo Evangelho; todos comparecerão diante do tribunal para serem julgados segundo suas obras, recebendo segundo seus méritos ou deméritos, avaliados segundo a luz e as oportunidades que tiveram. ¶
Ora, o Senhor tornou isso muito claro na revelação que deu a Joseph Smith. Disse Deus que o termo condenação eterna tinha sido usado para operar no coração dos filhos dos homens, tudo para Sua glória. Isto é, na condição baixa da humanidade em que se encontra a maioria das pessoas, deve haver uma ameaça de castigo e uma promessa de recompensa para influenciar as pessoas a fazerem o que é certo. Deveriam fazer o que é certo simplesmente porque é certo; amar a verdade por si mesma. Mas a humanidade está numa condição baixa e degradada, e é preciso apresentar uma promessa de recompensa para induzir as pessoas a fazerem o bem, e ameaças de castigo para contê-las de fazer o mal. Esse não é o plano superior em que os homens ainda hão de estar. Se as pessoas forem devidamente treinadas, amarão aquilo que é verdadeiro e desgostarão daquilo que é falso; amarão aquilo que é virtuoso, puro e semelhante a Deus, e desgostarão de tudo o que for contrário a isso. Farão o bem, mas não por recompensa; afastar-se-ão do mal, mas não por medo do castigo. Amarão a verdade e praticarão a retidão por si mesmas. Mas, na condição degradada da humanidade, esse castigo eterno que tem sido pregado foi permitido ir adiante para operar no coração dos filhos dos homens, tudo para a glória de Deus, para que o mal fosse refreado, para que a transgressão e o pecado fossem contidos, para que as pessoas fossem detidas de se precipitarem para a destruição por medo das consequências. ¶
Em 16 de fevereiro de 1832, o Senhor tornou este assunto ainda mais claro. Deu a Joseph Smith e a Sidney Rigdon uma das mais gloriosas visões que já foram contempladas por seres humanos. É a mais completa e deliciosa que já li. Não há nada no livro chamado Bíblia que se compare a ela. Está repleta de luz; está repleta de verdade; está repleta de glória; está repleta de beleza. Retrata o futuro de todos os habitantes da terra, dividindo-os em três grandes classes ou divisões — celestial, terrestre e telestial, ou, em comparação, a glória do sol, a glória da lua e a glória das estrelas. Mostra quem será redimido, e que redenção desfrutará; e descreve a posição que os habitantes da terra ocuparão quando entrarem em seu estado futuro. Nessa gloriosa visão, dizem-nos que há apenas uma certa classe que não será redimida no devido tempo do Senhor. Lerei alguns versículos: ¶
"Assim diz o Senhor concernente a todos os que conhecem o meu poder e dele foram feitos participantes; e que se deixaram vencer pelo poder do diabo e negaram a verdade e desafiaram o meu poder — ¶
"Estes são os filhos de perdição, de quem eu digo que melhor lhes fora nunca terem nascido; ¶
"Pois são vasos de ira, condenados a sofrer a ira de Deus com o diabo e seus anjos na eternidade; ¶
"Sobre os quais eu disse que não há perdão neste mundo nem no mundo vindouro — ¶
"Tendo negado o Santo Espírito, depois de havê-lo recebido, e tendo negado o Filho Unigênito do Pai; tendo-o crucificado dentro de si e tendo-o envergonhado abertamente. ¶
"Estes são os que irão para o lago de fogo e enxofre com o diabo e seus anjos — ¶
"E os únicos sobre quem a segunda morte terá qualquer poder; ¶
"Sim, em verdade, os únicos que não serão redimidos no devido tempo do Senhor depois de terem sofrido a sua ira. ¶
"Pois todos os demais ressurgirão na ressurreição dos mortos, pelo triunfo e pela glória do Cordeiro que foi morto e que estava no seio do Pai antes que os mundos fossem feitos. ¶
"E este é o evangelho, as alegres novas, que a voz do céu nos testificou — ¶
"Que ele veio ao mundo, sim, Jesus, para ser crucificado pelo mundo e para tomar sobre si os pecados do mundo e para santificar o mundo e purificá-lo de toda iniquidade; ¶
"Para que, por intermédio dele, fossem salvos todos os que o Pai havia posto em seu poder e feito por meio dele; ¶
"Ele que glorifica o Pai e salva todas as obras de suas mãos, exceto os filhos de perdição, que negam o Filho depois que o Pai o revelou." ¶
Não pretendo ler, desta visão, a condição das pessoas que serão redimidas nos diferentes graus de glória; podeis fazê-lo por vós mesmos. Refiro-me a ela apenas para que fique claro que há somente uns poucos que não serão redimidos no devido tempo do Senhor, por meio dos méritos da expiação realizada por Jesus Cristo. Os filhos de perdição hão de ir para esse castigo eterno e ali permanecer. E, como nos é dito em outra parte da revelação, a altura, a profundidade e a extensão de sua miséria homem algum conhece. Isso não é revelado, salvo a uns poucos, e então a visão se fecha, pois as coisas que contemplam não é lícito proferir. ¶
Os "filhos de perdição" são aqueles que receberam o Evangelho, aqueles a quem o Pai revelou o Filho; aqueles que sabem algo a respeito do plano de salvação; aqueles que tiveram chaves colocadas em suas mãos, pelas quais poderiam desvendar os mistérios da eternidade; aqueles que receberam poder para ascender ao pináculo mais alto da glória celestial; aqueles que receberam poder suficiente para vencer todas as coisas, e que, em vez de usá-lo para sua própria salvação, e no interesse da salvação de outros, prostituíram esse poder e se afastaram daquilo que sabiam ser verdadeiro, negando o Filho de Deus e expondo-O à vergonha pública. Todos esses vivem no espírito do erro, e o amam, e o revolvem debaixo da língua como bocado saboroso; são governados por Satanás, tornando-se servos daquele a quem escolhem obedecer; tornam-se filhos de perdição, condenados a sofrer a ira de Deus reservada para o diabo e seus anjos. E para eles, por terem pecado contra o Espírito Santo, não há perdão, nem neste mundo, nem no mundo vindouro. Mas todos os demais Cristo salvará, por meio do plano de redenção humana preparado desde o princípio, antes que o mundo existisse. ¶
Ora, pode-se perguntar: como podem ser essas coisas? Se nenhum homem pode entrar no Reino de Deus a menos que nasça da água e do Espírito, e apenas uns poucos hão de receber essa condenação eterna, como podem os demais obter essa grande salvação, como podem escapar do castigo eterno? O Senhor lhes preparou um plano, e é muito simples quando devidamente compreendido. Notei, ao ler os relatos das recentes discussões sobre a provação após a morte, que os homens instruídos nelas envolvidos admitiam não saber nada definitivo a respeito. As noções e ideias mesmo dos teólogos mais avançados não passam de teorias e especulações. Mas aqui temos as revelações de Deus a respeito dessas coisas, para que não fiquemos às escuras; de modo que todos possamos nos reunir, e ver olho a olho, e compreender da mesma maneira. Pois é verdade, e a verdade pode ser tornada clara a todos os que desejam sua luz. Mas, quando as pessoas não querem ver a verdade, podem fechar os olhos e excluí-la de sua visão espiritual, assim como às vezes as pessoas excluem de seus olhos a luz do sol de seus "melhores cômodos", que, aliás, são seus piores cômodos, exatamente porque a bendita luz do sol não entra ali — assim as pessoas podem fechar as janelas da alma e excluir os raios do sol da retidão; mas aquele que deseja contemplar a verdade pode vê-la e compreendê-la. Assim como agora nos vemos uns aos outros pela luz do sol, também as pessoas de mentes diferentes e raças diferentes podem voltar os olhos para a verdade e, pela luz do Espírito Santo, a verão exatamente da mesma maneira. Não estarão mais divididas quanto aos princípios de doutrina. ¶
Mas como pode vir a salvação àqueles que jamais ouviram o nome de Jesus Cristo, que jamais ouviram o Evangelho enquanto viviam; que jamais tiveram a oportunidade de nascer da água e do Espírito, de serem batizados por alguém com autoridade, para a remissão de seus pecados, e de terem as mãos impostas sobre sua cabeça para o recebimento do Espírito Santo — como podem ouvir, como podem compreender, como podem obedecer? As pessoas caíram no erro comum de que é impossível aprender a vontade de Deus depois que deixam este mundo. Não sei de onde surgiu essa ideia. Creio que veio de algumas das celas monásticas da antiga Igreja Romana, descendo através das várias seitas que dela saíram. Por que não haveria de ser capaz uma pessoa, fora do corpo, de compreender como quando está no corpo? Se críssemos, como algumas pessoas da Índia, que, quando o espírito deixa o corpo, retorna a Brahma, ou se funde no espírito geralmente difundido do universo, então poderíamos concluir que nada compreenderiam ao deixar o corpo. Se o espírito se tornasse um nada ao ser desencarnado, poderíamos ter razão para sustentar tal noção. Mas compreendemos que o espírito é o homem real, e que o corpo é apenas o invólucro externo; que, quando vem a mudança a que chamamos morte, o corpo retorna à terra tal como era, mas o espírito retorna a Deus, que o deu. Que o espírito é a verdadeira pessoa, aquilo que pensa e raciocina, sendo o corpo apenas o meio que transmite impressões ao ser real que opera em seu interior. Que, quando o espírito é libertado, embora não esteja sujeito às mesmas leis de quando estava no tabernáculo, é, contudo, a mesma pessoa, um filho ou uma filha de Deus; um ser capaz de pensar; de receber inspiração; de aceitar ou rejeitar aquilo que lhe é apresentado; e, portanto, é sujeito de salvação. Se não, por quê? Qual seria a razão? Creio que descobriremos que, ao nos livrarmos desta espiral mortal, ao nos desvencilharmos das amarras do corpo mortal, e entrarmos no estado de espírito, seremos, quando muito, mais inteligentes do que quando no corpo. Não estaremos sujeitos às mesmas leis que agora prendem nossa carne mortal, e seremos capazes de compreender muitas coisas que nos era muito difícil sequer vislumbrar enquanto estávamos no tabernáculo mortal. "Bem", pode alguém dizer, "isso é muito razoável; mas como se concilia isso com a religião cristã, com as doutrinas estabelecidas nas Escrituras?" Vejamos. Lemos que Jesus Cristo foi morto por homens iníquos. Tiraram Seu corpo da cruz e o colocaram num sepulcro novo, escavado na rocha. Mas onde estava Jesus? Não era Jesus que estava no sepulcro. Era Seu corpo mortal que ali foi depositado. Onde estava Jesus? Geralmente supõe-se que Ele foi para o céu. Esperai um momento. Depois que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, uma mulher chamada Maria chorava junto ao sepulcro, quando Jesus lhe apareceu. Maria adiantou-se, aparentemente para abraçá-lO, ao que Ele lhe disse: "Não me toques, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus." Três dias haviam decorrido entre o momento em que o corpo foi tirado da cruz — o momento em que Ele disse: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" — e o momento de Sua ressurreição. Onde Ele estivera nesse intervalo? Pedro nos conta, em sua primeira epístola, capítulo 3, dos versículos 18 a 20: "Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado na verdade, na carne, porém vivificado pelo Espírito; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; os quais antigamente foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca." Parece que, depois de ser morto, Ele foi a algum lugar. Onde? "No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão." Que espíritos? "Os quais antigamente foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca." Ora, isso torna o assunto bem claro para quem deseja compreender. Mas tomai um teólogo instruído cuja mente ficou obscurecida pelas tradições dos homens, e ele não quer nada com esse texto, ou, se quer, tentará explicá-lo de outra forma. Como o clero o explica? Dizem que o espírito de Jesus, em Noé, pregou às pessoas antes do dilúvio. Ora, comparai essa ideia com o texto que citei. Não foi Noé quem foi morto. Mas foi Ele quem foi morto na carne, e vivificado pelo espírito, que foi e pregou aos espíritos em prisão. Novamente, no capítulo 4 da primeira Epístola de Pedro, versículo 6, lemos o seguinte: "Porque para isso foi o evangelho pregado também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, porém vivessem segundo Deus em espírito." Aqui estavam pessoas às quais se pregou que não eram homens na carne. Quem eram elas? Eram espíritos em prisão, e estavam em prisão por causa de sua desobediência nos dias de Noé. Ali estiveram cerca de 2.000 anos, e Jesus foi e lhes pregou. O que Ele pregou? Pregou o Evangelho. Por que lhes pregou? Para que fossem ainda mais condenados e escarnecidos por seu destino miserável? Ah, não. Ele foi para lá para poder pregar-lhes o Evangelho, "para que fossem julgados segundo os homens na carne, mas vivessem segundo Deus em espírito." Isso é o que o antigo profeta predisse a respeito de Jesus. Lemos que Ele entrou na sinagoga no dia de sábado e se levantou para ler. Tomou o livro do Profeta Isaías, e o que leu foi isto: "O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a apregoar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos." Essa era a missão de Cristo — não apenas pregar aos homens na carne, mas pregar aos homens em espírito. Diz Isaías, no capítulo 49, versículo 9: "Para dizeres aos presos: Saí; e aos que estão em trevas: Aparecei"; e no capítulo 42, versículo 7: "para abrir os olhos cegos, para tirar os cativos da prisão, e da casa do cárcere os que jazem em trevas." ¶
Jesus deixou Seu corpo dormindo no sepulcro e foi para o mundo espiritual, e o ladrão arrependido, que morreu ao Seu lado, foi para lá também. Algumas pessoas pensam que, porque o ladrão disse: "Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino", e Jesus respondeu: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso", ele (o ladrão) foi diretamente para o céu e para a presença de Deus. Ora, se assim fosse, Jesus Cristo teria quebrado Sua própria palavra; pois Ele disse: "Aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus." Para onde foi o ladrão? Para onde Jesus foi, o ladrão foi, e teve o privilégio de ouvir Jesus pregar o Evangelho, de modo que pudesse ter a oportunidade de ser julgado segundo os homens na carne, mas viver segundo Deus em espírito. E como poderia fazer isso? Recebendo o mesmo Evangelho que os homens tiveram na carne. Jesus, então, deixou Seu corpo no sepulcro e foi para o mundo espiritual. Aquelas portas eternas tiveram de ser levantadas. "Levantai, ó portas, a vossa cabeça; levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória." Ele foi e pregou libertação aos cativos, e abriu as portas da prisão aos que estavam presos. Foi proclamar o ano aceitável do Senhor. Voltou ao Seu corpo adormecido e, tendo as chaves do inferno, também tomou as chaves da morte, e Seu corpo foi vivificado. Ele se pôs de pé e ministrou a Seus discípulos. Pôde então ir a Seu Pai e relatar o cumprimento de Sua missão. Pôde dizer: "Realizei a obra que me deste para fazer; preguei o Evangelho aos mansos; consolei os quebrantados de coração; preguei libertação aos cativos; abri as portas da prisão aos que estavam presos; conduzi cativo o cativeiro; derramei meu sangue como expiação pelos pecados do mundo; agora, Pai, aceita-me a mim e a meus trabalhos." Então pôde vir à terra e dizer: "Todo o poder me é dado, tanto nos céus como na terra." Havia cumprido Sua missão, e recebera chaves, honras e poderes imortais como recompensa desse cumprimento. Ocupará o lugar mais elevado entre todos os filhos de Deus, porque é o primogênito, e realizou a obra do primogênito no plano da redenção humana. Será exaltado acima de toda criatura, porque foi o mais obediente de toda criatura. Será o maior, porque foi o mais humilde. Será o mais rico, porque foi o melhor. Ele é o Cristo sem pecado, e por isso usa a coroa eterna. ¶
Surge aqui outra questão. Se os homens podem ouvir o Evangelho no mundo espiritual, podem obedecer-lhe plenamente no mundo espiritual? Examinemos isso um pouco. Eis as ordenanças do Evangelho. As ordenanças têm algum efeito? Sim, têm. "Aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus." Exatamente como um estrangeiro que não obedece às leis de naturalização não pode se tornar cidadão dos Estados Unidos. A casa de Deus é uma casa de ordem. Ele tem Seu próprio caminho, e aquele que não aceitar esse caminho não pode obter a bênção. Então, podem aqueles espíritos que ouvem o Evangelho no mundo espiritual obedecer-lhe plenamente? Podem crer? Sim. Podem arrepender-se? Por que não? É a alma do homem, ou o espírito do homem no corpo, não o corpo, que crê. É o espírito do homem no corpo que se arrepende. O que é que obedece às ordenanças? Ora, o espírito. Mas essas ordenanças pertencem a esta esfera em que vivemos, pertencem à terra, pertencem à carne. A água é um elemento terreno composto de dois gases. Pertence a esta terra. Do que há no mundo espiritual, pouco sabemos. Mas aqui está a água na qual os crentes arrependidos devem ser batizados. Podem ser batizados no mundo espiritual? Parece que não. Que se há de fazer, então? O Apóstolo Paulo faz essa pergunta no décimo quinto capítulo da primeira epístola aos Coríntios: "Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos?" Parece que as pessoas a quem isso foi escrito estavam familiarizadas com a ordenança chamada batismo pelos mortos, e eram batizadas por seus mortos. Paulo argumentava sobre a ressurreição literal do corpo, e diz: Que farão eles se os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos? Nossos teólogos instruídos podem presumir, a partir disso, que a doutrina não está exposta com suficiente clareza para endossá-la; mas, para nós, não há dúvida alguma a respeito, tendo o Senhor revelado o princípio ao Profeta Joseph Smith. Ele também explicou a maneira pela qual as ordenanças devem ser administradas, como tudo o mais que revelou, com grande clareza. E é por isso que estamos construindo Templos. As pessoas que visitam nossa cidade frequentemente dizem: "Que bela capela estais construindo." Não, isso não é uma capela; este Assembly Hall e o Tabernáculo adjacente são capelas. Aquilo é um Templo, um edifício no qual esperamos realizar ordenanças pelos vivos e pelos mortos; no qual poderemos ser batizados por nossos mortos, para que recebam o benefício dessa ordenança, desde que creiam e se arrependam e façam a parte espiritual, enquanto nós fazemos a parte material, para que recebam as bênçãos da obediência ao Evangelho, e vivam segundo Deus em espírito. Alguns dirão: "Não consigo compreender por que algo feito por uma pessoa deveria valer por outra." Como compreendeis a doutrina de que Jesus Cristo fez algo por todos nós? Lemos que "sem derramamento de sangue não se faz remissão". Não é o meu sangue, nem o vosso, que há de ser derramado para a remissão de nossos pecados; mas foi Aquele que era sem pecado quem permitiu que Seu sangue fosse derramado como sacrifício por nossos pecados. Ora, toda a questão gira em torno disso. Se rejeitardes a doutrina da procuração no batismo, deveis rejeitar a doutrina da procuração na expiação. ¶
Ora, não há dúvida alguma na mente dos Santos dos Últimos Dias a respeito deste assunto. Aprendemos essas coisas de Deus, e as compreendemos da mesma maneira. Por quê? Porque desejamos a verdade; não nos importamos com as tolices dos homens, queremos a verdade divina que vem de Deus. E, quando ela vem, estamos ansiosos para recebê-la; buscamo-la; pedimo-la; e Ele nos ilumina por Seu Espírito, e, quando o Bom Pastor fala, conhecemos Sua voz; e é essa voz que nos tornou claro que nós, que obedecemos ao Evangelho na carne, podemos ser batizados por nossos antepassados no mundo espiritual. ¶
Se olhardes para isto no espírito que acompanha o seu desenvolvimento, vosso coração se encherá de alegria pela misericórdia e bondade de Deus. Se há aqui homens ou mulheres que não creram nisso, e se ponderarem a respeito, e buscarem a Deus por luz sobre o assunto, terão os olhos abertos para ver que é um dos princípios mais gloriosos. Abre o caminho para a redenção de nossos pais, que viveram e morreram sem ouvir o som do Evangelho. Abre o caminho para a redenção das nações gentias que jamais ouviram o nome de Jesus Cristo. Abre o caminho para as hostes de Israel, com sua posteridade, que, eras atrás, se afastaram da verdade e caíram nas trevas; para aqueles cujo coração tem estado pesaroso, e cujos olhos têm estado cegos — pois está escrito: "que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado. E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, e desviará de Jacó as impiedades; e este será o meu convênio com eles, quando eu tirar os seus pecados." Aqueles de sua linhagem que viverem na terra e obedecerem ao Evangelho realizarão, nos últimos tempos, as ordenanças externas por e em favor de seus antepassados falecidos. Esta gloriosa doutrina levanta o véu escuro do sectarismo e deixa entrar a luz do céu, e torna clara a justiça de Deus, e a misericórdia de Deus. A misericórdia de nosso Deus se estende a todos os Seus filhos, não apenas a um pequeno ramo pelos lombos de Abraão. Todos ouvirão, todos terão a oportunidade de conhecer os caminhos da vida e da verdade, e a oportunidade de neles se regozijar; e este é o meio que Deus adotará para realizar este grande e estupendo resultado! Todo coração se alegrará com as novas da salvação. Os vivos e os mortos serão visitados, e até mesmo aqueles que foram lançados ao inferno, que foram açoitados com muitos açoites, e que sofreram sua porção do castigo eterno, terão o braço da doce misericórdia estendido a eles quando a justiça severa for satisfeita; e, no devido tempo, todo joelho se dobrará, e toda língua confessará que Jesus é o Cristo, para a glória de Deus, o Pai. E virá o tempo em que a morte e o inferno serão destruídos, e não haverá mais morte, nem tristeza, nem dor, mas toda criatura, nos céus acima e na terra abaixo, será ouvida cantando: "Bênção, e honra, e louvor, e poder sejam a Deus e ao Cordeiro para sempre, que nos redimiu com Seu sangue de toda nação, e tribo, e língua, e povo!" ¶
O Evangelho é claro e simples, e facilmente compreendido e apreciado por quem busca a verdade com honestidade. A razão pela qual as pessoas, de modo geral, não o recebem quando lhes é pregado pelos servos de Deus — é um dito difícil, mas, ainda assim, verdadeiro — é que suas obras são más; porque amam mais as coisas do mundo do que as coisas de Deus, e o amor do Pai não está nelas. E, porque rejeitam a verdade quando lhes é apresentada, e se deleitam no espírito do mundo, opõem-se à verdade; e, se não abertamente, em seu coração sancionam atos de perseguição e ódio contra os Santos de Deus. Alguns deles são corruptos em suas práticas, e tais pessoas estão sempre prontas a atacar e a difamar o caráter de nossos principais líderes, homens que sabemos serem puros em sua vida, e retos diante de Deus; são os piores dos homens que seguem esse caminho, e assim o Maligno, o destruidor das almas dos homens, opera neles e por meio deles. E, quando tiverem se oposto a esta obra tanto quanto lhes for possível, hão de constatar que ela floresce, cresce e se espalha, enquanto eles irão para o lugar que lhes foi preparado, onde permanecerão até terem pago o último ceitil por sua iniquidade deliberada. Todos os homens que lutam contra o Santo Sacerdócio de Deus terão de enfrentar isso um dia. Seus atos não estão ocultos dos olhos dAquele que não dorme. Suas más ações e palavras iníquas serão reveladas abertamente. Virá o tempo em que o primeiro anjo de Deus tocará a trombeta, declarando os atos secretos dos homens durante o primeiro milênio; e o segundo anjo tocará sua trombeta e revelará os atos secretos dos homens e os pensamentos e intenções de seu coração durante o segundo milênio, e assim por diante até o último milênio, até que se declare que o tempo não será mais, e os atos secretos de todos os homens, em todas as eras, serão trazidos à luz. Meus irmãos e irmãs, que isso seja uma advertência para vós e para mim. Quando descemos às águas do batismo e fomos imersos pelos servos de Deus, que tinham autoridade para administrar essa ordenança para a remissão dos pecados, ainda que nossos pecados fossem como escarlate, foram lavados mais brancos do que a neve; e saímos da água limpos e puros, purificados de todo pecado pelo sangue de Cristo. Mas, desde então, os atos que praticamos terão seu efeito sobre nós, para o bem ou para o mal, e por eles seremos responsabilizados quando comparecermos diante do tribunal de Deus. Serão vistos e conhecidos de todos; estão escritos nos livros pelos quais seremos julgados, e os atos de cada homem estão gravados em seu próprio ser, em caracteres que falarão por si mesmos, no dia em que veremos como somos vistos e conheceremos como somos conhecidos. ¶
Procuremos, então, fazer o certo pelo amor ao certo, viver na luz do espírito, ver olho a olho, e mostrar-nos dignos da grande salvação; e que Deus nos ajude a assim fazer, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶