Amor e Perdão dos Inimigos Tais Coisas Possíveis Sem Associação e Assimilação Os Santos Exortados Contra a Alienação de Suas Heranças A Idolatria das Riquezas O Homem Não Pode Edificar Sião, Mas Deus Pode e o Fará
Joseph F. Smith
Fui solicitado a ocupar a parte restante do tempo, e confio que, ao fazê-lo, possa desfrutar da liberdade do Espírito e da fé e das orações dos Santos dos Últimos Dias, para que o tempo que eu ocupar seja bem aproveitado, pois não tenho o desejo de reter a atenção desta vasta congregação sem proveito; mas percebo que, sem a ajuda do Espírito do Senhor, não sou capaz de transmitir a esta congregação a palavra da vida. ¶
Sou grato pela oportunidade que temos de nos reunirmos sob circunstâncias tão favoráveis. Alegra-me ver o grande número de pessoas presentes nesta conferência, e confio que sejamos amplamente recompensados pelas instruções que recebemos, pelo tempo e pelo esforço que custou comparecer. A fim, porém, de recebermos a bênção de que necessitamos, é necessário, a meu ver, que todos venham com o Espírito do Senhor em seus corações, no espírito de oração e no amor à verdade, tendo o desejo de edificar o reino de Deus e de realizar todos os propósitos e desígnios que foram manifestados a respeito desta grande obra. ¶
Jesus ensinou a doutrina de que devemos orar por aqueles que nos maltratam; que devemos amar os nossos inimigos; que devemos fazer o bem àqueles que nos fazem mal; que não devemos retribuir o mal com o mal, mas o mal com o bem. Não há crédito particular devido a ninguém que retribua o bem com o bem. Até os publicanos e os pecadores fazem isso, mas é bastante difícil retribuir o mal com o bem. Não obstante, fazê-lo foi ordenado pelos mandamentos do Senhor Jesus. Devemos amar os nossos inimigos; fazer o bem aos que nos odeiam e nos perseguem; e, quando somos perseguidos, não perseguir de volta; quando somos escarnecidos, não escarnecer em resposta; se somos injuriados, não procurar injuriar aqueles que nos injuriam; o que se exige de nós é estabelecer a paz na terra e a boa vontade para com os homens. Assim, quando esquecemos o objetivo do nosso chamado e saímos do caminho do dever para retribuir golpe por golpe, infligir mal por mal, perseguir porque podemos ser perseguidos, esquecemos a ordem do Senhor e os convénios que fizemos com Deus, de guardar os seus mandamentos. É uma questão difícil, estou ciente, para a natureza humana submeter-se a estas ordens das escrituras. É difícil para os homens refrear as suas paixões, conter os seus sentimentos, e resistir à tentação de se rebelarem e retribuírem medida por medida, mas isso nos é ordenado. Fomos verdadeiramente ordenados, nas revelações que nos foram dadas nesta dispensação, a perdoar os nossos inimigos, sem que eles peçam perdão. Está estabelecido que, se os vossos inimigos vierem contra vós para vos destruir, na primeira vez, se o Senhor vos livrar das suas mãos, vós os perdoareis; e se vierem uma segunda vez, vós os perdoareis; e se vierem uma terceira vez contra vós, o Senhor disse que eles estarão então em vossas mãos para fazerdes deles o que quiserdes; mas redundará em vossa honra, crédito e glória se os perdoardes na terceira vez, mesmo que não se tenham arrependido nem tenham pedido perdão. Ora, isto pode parecer uma exigência bastante difícil; não obstante, assim está escrito e assim é exigido dos Santos dos Últimos Dias. Mas quantas vezes os perdoaremos, se eles se arrependerem dos seus pecados e pedirem perdão? Jesus estabeleceu a lei de que devemos perdoá-los tantas vezes quantas se arrependerem e pedirem perdão. Falo agora das transgressões individuais; de pessoas que ofendem a mim ou a vós ou que transgridem contra nós; não estou a falar daqueles que transgridem contra as leis imutáveis, justas e santas de Deus; esses estão sob outra lei, e Deus e os seus servos ajustarão contas com eles. Cabe-nos obter o espírito de perdão, sentir amor por aqueles que são tão ignorantes a ponto de fazer mal aos seus semelhantes sem causa; devemos sentir como Cristo sentiu, na cruz. Ele disse: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." Foi observado ontem por um dos irmãos que dificilmente poderíamos afirmar isto a respeito de muitos daqueles que estão hoje ocupados em perseguir os Santos, pois eles sabem o que estão a fazer, e não ignoram o rumo que estão a seguir. Estão em posição de conhecer a verdade, se quisessem, e de compreender o facto de que estão a mentir a nosso respeito. No entanto, como nos sentimos em relação a eles por causa desta ofensa? Sentimos que devemos retaliar? Sentimos que devemos executar vingança sobre eles porque sabemos que estão a dizer falsidades, e a difamar e a caluniar o povo desta Igreja? Não. Durante anos e anos sentámo-nos calmamente e ouvimos os seus abusos, insultos, calúnias, deturpações e falsidades, que espalharam por toda a terra na medida do seu poder, e nenhum homem sequer disse: "Por que fazeis isto?" Eles desfrutam da mais ampla liberdade para mentir e caluniar e ir até ao limite do seu poder para realizar os seus desejos e propósitos perversos e nefandos, e nós estamos dispostos a arriscar o julgamento de Deus nestes assuntos, no seu próprio tempo devido. Não pretendemos manter-nos eternamente em água quente, brigando, contendendo e resmungando com os nossos inimigos; se o fizéssemos, tornar-nos-íamos rapidamente tão azedos, tão viciosos, tão sujos, tão baixos e tão desprezíveis quanto eles próprios. Bem, vós os amais? Ora, aqui está o busílis! Amais estes caluniadores, estes mentirosos, estes difamadores, estes perseguidores do inocente e do indefeso — amais-nos? [várias vozes: Não, não.] Dificilmente vos posso culpar. [Risos.] Mas isso não está de acordo com a lei de Deus. Quero dizer-vos como me sinto em relação a eles. Amo-os tanto que, se estivesse em meu poder aniquilá-los da terra, não tocaria num só cabelo das suas cabeças — nem um só cabelo. Amo-os tão bem que, se pudesse torná-los homens melhores, convertê-los do erro dos seus caminhos, eu o faria, com a ajuda de Deus. Amo-os tanto que não lançaria um obstáculo no seu caminho para a prosperidade e a felicidade, mas, tanto quanto possível, embaraçaria o seu curso precipitado e descendente rumo à destruição, e, contudo, detesto e abomino as suas ações infames e o seu curso perverso. É assim que me sinto em relação a eles, e é assim que os amo, e se este não é o amor que Jesus desejava que tivéssemos pelos nossos inimigos, dizei-me que tipo de amor devemos ter por eles? Não os amo a ponto de os levar ao meu seio, ou de os convidar a associar-se com a minha família, ou de dar as minhas filhas aos seus abraços, nem os meus filhos aos seus conselhos. Não os amo tão bem a ponto de os convidar aos conselhos do Sacerdócio, e às ordenanças da Casa de Deus, para zombarem e escarnecerem de coisas sagradas que não compreendem, nem partilharia com eles a herança que Deus, meu Pai, me deu em Sião; não os amo o suficiente para isso, e não creio que Deus jamais tenha desejado que o fizesse; mas amo-os tanto que não os feriria, faria-lhes o bem, diria a verdade a seu respeito, beneficiá-los-ia se estivesse em meu poder, e mantê-los-ia, na medida das minhas capacidades, de fazer mal a si mesmos e aos seus vizinhos. Amo-os tanto quanto isso; mas não os amo com aquele afeto com que amo a minha esposa, o meu irmão, a minha irmã ou o meu amigo. Há uma diferença entre o amor que devemos ter pelos nossos inimigos e aquele que devemos ter pelos nossos amigos. Não digam que é ódio aos nossos inimigos quando os impedimos de ferir a si mesmos e aos seus vizinhos; não chamem a isso ódio, isso é amor por eles. Se fosse possível encontrar alguém desta classe de pessoas que tivesse sido enganado, e que tivesse caluniado os Santos de Deus ignorantemente, como fez Paulo, e pudéssemos persuadi-lo a arrepender-se dos seus pecados, a afastar-se da maldade, e a reconhecer a Deus e as suas leis, então deveríamos amá-lo como a um irmão, como a um amigo, e como a um vizinho. Essa seria a diferença. Mas não gostamos de nos associar com os nossos inimigos, e não creio que o Senhor nos exija que o façamos. Se o fizer, terá de o revelar, pois não consigo encontrar isso revelado em parte alguma. Nunca li isso em nenhum dos livros, nunca ouvi ensinar que devemos amar os nossos inimigos a ponto de nos tornarmos como eles, ou de descermos aos seus caminhos vis e desprezíveis, ou de partilharmos com eles a herança que Deus nos deu, ou de supormos por um momento que os perversos e os ímpios algum dia herdarão o reino de Deus, ou entrarão na sua presença, ou desfrutarão da sociedade, da bênção e da recompensa dos fiéis; nunca o farão, não podem, pois não são dignos; não obedeceram à lei e, portanto, não podem receber a sua bênção. ¶
Devemos manter-nos afastados dos perversos; a linha divisória deve ser claramente traçada entre Deus e Belial, entre Cristo e o mundo, entre a verdade e o erro, e entre o certo e o errado. Devemos apegar-nos ao certo, ao bom, à verdade, e abandonar o mal. Vou ler um pouco da escritura sobre este assunto, para que os nossos amigos ou esta congregação não sintam que aconselhar os Santos dos Últimos Dias a manterem-se afastados dos perversos e dos ímpios, a não dividirem as suas heranças com eles, etc., não é justificado pelas escrituras. Vou ler um pouco da escritura precisamente sobre este ponto, que se encontra em 2 Coríntios, capítulo 6, começando no versículo 14: "Não vos prendais em jugo desigual com os infiéis; porque, que participação tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivo, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Portanto, retirai-vos do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; e não toqueis coisa imunda, e eu vos receberei; E eu serei para vós Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso." Ora, aqui está a lei de Deus sobre o assunto; é a palavra do Senhor: "Retirai-vos do meio deles e apartai-vos, e não toqueis coisa imunda." Que afinidade podemos ter com eles? Deixai-os em paz, deixai-os seguir o seu próprio caminho. Ajudai-os a obter toda a felicidade que lhes for possível obter neste mundo; pois será tudo o que alguma vez terão, a menos que se arrependam dos seus pecados e abandonem os seus caminhos perversos. ¶
Para concluir, desejo dizer algumas palavras a respeito de observações feitas ontem por um dos irmãos. Está escrito nas escrituras que "o reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será um reino eterno, e todos os domínios o servirão, e lhe obedecerão." Esta passagem da Escritura foi parcialmente citada ontem por um dos irmãos que falou na Conferência, e então foi feita a pergunta: "Quando será o reino dado aos Santos?" A resposta foi: "Quando os Santos se tornarem suficientemente sábios para não o devolverem imediatamente ao colo do inimigo assim que o obtiverem, e não antes disso." Nunca houve dito mais verdadeiro do que este. São necessárias várias coisas para se fazer um reino. Primeiro, deve haver um rei; segundo, deve haver um povo; terceiro, deve haver território ou um lugar para o povo habitar. Depois vêm as leis e as regras de governo do reino. Ora, o território ou lugar de habitação é parte da realeza desse reino, não é? Poderíamos ter um reino sem um lugar para o colocar? Não. Precisamos de um lugar para colocar o reino, e é tão necessário ter tal lugar quanto ter o rei e o povo. Ora, o que é pior, vender o nosso interesse no rei, no povo ou no território ao inimigo? Se trairdes o rei perante o inimigo, sois um traidor. No entanto, há pessoas que traem o rei; não se importam muito com Cristo, o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores, e vendem o seu interesse nele, ou traem-no com muito pouco escrúpulo de consciência. E há algumas pessoas, segundo ouvi dizer, que vendem os seus vizinhos ou os traem. ¶
Ouvi falar de algumas pessoas que caíram tão baixo que venderiam qualquer coisa por dinheiro; mãe ou pai, ou irmão ou irmã, ou amigo ou vizinho nunca se interporiam. Fariam qualquer coisa para obter dinheiro; o dinheiro é o seu deus. Tais pessoas venderiam o seu interesse no seu rei, no seu povo e no seu país, por dinheiro. Apenas queremos descobrir quem venderá a Deus e ao povo por lucro sórdido e trazê-los a julgamento, e em muito pouco tempo conseguimos cortar relações com eles. Dizemos que se afastou da fé, e o desligamos da nossa comunhão na Igreja. Mas o que fazemos com aqueles que vendem as suas heranças ao inimigo? Ora, damos-lhes tapinhas no ombro, abraçamo-los ao nosso seio, amamo-los e estimamo-los, e está tudo bem; nenhuma apostasia ali! Mas suponde que todos vendêssemos a nossa herança, teríamos então de nos mudar para outro clima. Pode não ser considerado prudente expressar assim publicamente os nossos sentimentos sobre este assunto, pois os caluniadores e vilipendiadores costumam distorcer a verdade e citar mal e deturpar os factos. Contudo, sinto que seria acusado de negligência do dever se não dissesse pelo menos isto sobre o assunto, e não tenho medo nem vergonha de encarar este ponto de vista da questão. Se os homens venderem as suas casas, e as suas heranças, aos perversos e aos ímpios por dinheiro, quando, pergunto eu, estarão preparados para ir edificar a Estaca Central de Sião? Quem desta classe será chamado para fazer esta obra? E terão eles uma herança na Nova Jerusalém? Ora, suspeito que arrancariam as pedras da calçada e as venderiam por dinheiro; roubariam os diamantes, as pérolas e as pedras preciosas dos portões de pérola da Nova Jerusalém, e vendê-las-iam pelo cobiçado "dinheiro"! Sou contrário, nos meus sentimentos, a abrir mão da minha herança em favor daqueles que destruiriam o povo de Deus da face da terra; e, com a ajuda de Deus, nunca o farei. E, além disso, se eu tiver uma herança, cuidarei, tanto quanto estiver ao meu alcance, para que seja colocada de tal forma que nem eu nem a minha família a entreguemos ao inimigo. Podeis fazer como quiserdes, estou a dizer-vos o que vou fazer, o que farei, com a ajuda de Deus. Podeis fazer o mesmo se assim o desejardes. É um país livre — isto é, seria, se não fosse por algumas coisas que os irmãos mencionaram aqui, e não tenho tempo para as repetir. ¶
Que o Senhor abençoe esta congregação e os Santos em geral. Que Ele abençoe todos os que estão a ajudar a edificar Sião e o bem da terra em toda a parte. Sião será edificada, pois Deus o fará; e nenhum homem deve enganar-se, alimentando a opinião, o pensamento ou o sentimento no seu coração de que é ele que edificará Sião, pois os homens não o podem fazer. Deus disse: "Eu o farei; é a minha obra; é o meu reino; cortei a pedra do monte com as minhas próprias mãos, e eu a farei rolar; realizarei os meus propósitos e os meus desígnios e o meu povo triunfará." Deus o disse, e Ele o fará, e o homem não o fará, pois não pode fazê-lo, embora venha a ser o instrumento nas mãos de Deus para realizar muito bem. Deus concederá grande poder aos seus servos e os abençoará com luz e sabedoria, conhecimento e entendimento, poder e autoridade, e as chaves do Sacerdócio, para realizar uma obra grande e poderosa. Mas será Ele quem terá a honra e a glória; pois é Ele quem dará o poder para realizar a obra; o homem não tem poder algum em si mesmo para o fazer. ¶
Que Deus nos abençoe e nos dê poder para vencer o mal com o bem, é a minha oração em nome de Jesus, Amém. ¶