Pulpit

Paz Desfrutada, Mas Aflição Esperada—Falsidades a Respeito dos Santos—Poder dos Santos Temido—Verdade e Erro em Conflito—O Casamento Plural Não é a Verdadeira Objeção—Mineração de Metais Preciosos Evitada—Bom Efeito da Legislação e Decisões Ilegais—Esperanças para o Futuro

George Q. Cannon

1882-09-24

Sou grato, neste dia, pelas circunstâncias pacíficas que nos rodeiam. Sou grato porque, por todos estes vales montanhosos, prevalece um bom grau de liberdade, e o povo pode reunir-se para adorar a Deus sem molestação nem temor. A palavra do Salvador é extremamente aplicável, quando ensinou aos seus discípulos que basta a cada dia o seu mal. Se nós, Santos dos Últimos Dias, não desfrutássemos do presente e vivêssemos na antecipação de um futuro temido, imagino que seríamos um povo muito infeliz, pois nunca houve um dia, ou pelo menos um período em nossa história, em que, no que dizia respeito às ameaças, o futuro — se o olharmos naturalmente, do ponto de vista dos homens — não parecesse ameaçador. Mas temos provado que os males temidos, quando enfrentados com coragem e com espírito destemido, geralmente se desvanecem.

Estamos hoje numa posição excelente, como temos estado em muitas ocasiões no passado, para termos a nossa fé posta à prova, para vermos se realmente temos fé em Deus ou não. A ideia prevalece geralmente entre os que não estão familiarizados conosco nem com os nossos métodos de pregar e ensinar, de que, para reunir o povo das várias nações, os Élderes desta Igreja oferecem incentivos extraordinários aos seus conversos, contando-lhes histórias lisonjeiras a respeito da vida que levarão se apenas se reunirem em Utah; e por estes meios têm êxito em iludir os ignorantes e incautos, induzindo-os a abandonar os seus lares e ligações. Mas os que estão familiarizados com os ensinamentos dos Élderes da Igreja sabem que exatamente o oposto disto tem sido o rumo e o estilo de ensino adotado pelos que têm pregado fielmente este Evangelho aos habitantes da terra. Desde o princípio nos foi ensinado a esperar que a nossa adesão a este Evangelho poderia custar-nos tudo o que nos era próximo e caro sobre a terra; que Deus quis ter um povo provado, um povo que fosse posto à prova até o limite máximo, sondado da maneira mais penosa, um povo que estivesse disposto a passar por, e a suportar fielmente, as mais severas provações. E, até o presente momento, os que entraram nesta Igreja, os que abraçaram as doutrinas ensinadas pelos servos de Deus, não têm sido desapontados. É verdade que, em muitos aspectos, o povo fiel de Deus tem tido tempos muito melhores, tem desfrutado de circunstâncias mais agradáveis e prósperas do que se lhe levou a esperar; mas isto se deu porque tiveram a fé de menosprezar os males com que eram ameaçados, e não lhes deram importância, nem permitiram que perturbassem a sua paz ou os incomodassem de qualquer maneira. Pois, se não fosse pela fé, a fé que Deus plantou nos corações dos que abraçaram a verdade, ter-lhes-ia sido impossível suportar; teriam ficado tão assustados que nunca poderiam ter permanecido fiéis a esta obra. E uma das mais notáveis evidências que este povo oferece ao mundo da divindade desta obra, que o mundo opprobriosamente chama de "mormonismo", é o fato de que, no meio das mais severas provações e perseguições, rodeado de circunstâncias que, em alguns aspectos, foram as mais ameaçadoras em seu caráter, o povo de Deus permaneceu verdadeiro e fiel, unido e imperturbado.

Uma a uma, as falsidades que se propagam a nosso respeito são expostas. A ideia foi diligentemente circulada, impressa e publicada, de que o povo, por todos os vales de Utah, só se mantinha unido pela força da superstição e do engano; de que os poucos homens astutos que conseguiram ganhar poder e posição entre eles, pela sua sagacidade e por artes astuciosas, conseguiram enganar o povo e mantê-lo unido. Não suponho que qualquer ideia isolada tenha sido mais amplamente circulada a nosso respeito do que esta; e não suponho que qualquer outra ideia seja mais amplamente acreditada a nosso respeito do que esta. A grande maioria das pessoas que não compreendem, por contato real conosco, ou que não se dão ao trabalho de investigar as nossas doutrinas, imaginam que é por este meio que os Santos dos Últimos Dias foram reunidos e mantidos nestas montanhas. Ora, não há nem 20 anos que uma das histórias mais frequentemente circuladas, publicadas e destacadas, na tribuna e na imprensa pública, era que nenhum homem ou mulher podia deixar Utah sem o consentimento do Presidente Brigham Young; que nenhum homem ou mulher podia escrever uma carta do Território de Utah sem que ele a inspecionasse; que vivíamos aqui numa condição de terror imposta sobre nós pelo Presidente Young e por aqueles que estavam imediatamente associados a ele; e que, se um homem ou mulher tentasse partir, especialmente se tivesse abandonado a fé, seria seguido por anjos destruidores, e que, se escapasse, seria com risco da sua vida e provavelmente com a perda total de tudo o que possuía. Tão firmemente esta ideia se apossou de muitas mentes que hoje forma o alicerce de dois ou três dramas que são representados no palco e que recebem considerável patrocínio no leste e no oeste.

Quando Albert Sidney Johnston veio aqui com o exército em 1857-58, a ideia popular era que, assim que as tropas chegassem a este vale, haveria uma explosão completa por parte do povo; que saudariam com alegria ilimitada a presença das estrelas e listras em seu meio, e que centenas de mulheres abandonariam a escravidão em que se supunha que viviam.

Ora, como já disse, uma a uma, temos provado a falsidade destas afirmações. Mas cessará esta deturpação e calúnia a nosso respeito? De maneira nenhuma. A fabricação continua ainda. Toda calúnia concebível é fabricada e posta em circulação. Mal se prega uma mentira ao balcão, e outra começa e passa por verdadeira, até que há muitas pessoas que mal sabem o que pensar, tendo ideias tão exageradas a respeito do povo do Território de Utah.

A estrada de ferro tem-nos feito um imenso bem, tornando-nos mais conhecidos. As viagens de ida e volta através do continente, juntamente com as viagens por estes vales, norte e sul, leste e oeste, têm tido o mesmo efeito. Mas, com o aumento do conhecimento, veio também um temor acrescido. Apoderou-se de muitas mentes o sentimento de que somos um povo muito a temer. Isto traz-me à mente uma observação feita por um homem cujo nome vos é familiar, tendo ele tomado uma parte muito proeminente na discussão do nosso caso no Congresso, na Câmara dos Representantes, um representante de nome Haskell, uma espécie de meio-pregador: certo dia, em conversa comigo, na época em que se discutia o projeto de lei Edmunds, observou ele: "Tive ocasião, Sr. Cannon, de examinar o catolicismo, e estou algo familiarizado com a organização católica romana. Também prestei alguma atenção à organização da vossa Igreja. Penso que é a organização mais forte e mais magnífica que existe atualmente na Cristandade, ou dentro do alcance do meu conhecimento — onde a obtivestes?"

Não foi nenhum sentimento de admiração que motivou estas observações. Continuou, afirmando que chegaria o tempo, se esta legislação não desse resultado, em que o exército seria trazido a lidar conosco, e a nossa organização seria eliminada a sangue. Vedes que o sentimento que ele tinha era de temor, de apreensão. Em vez de encarar esta organização à sua verdadeira luz, olhava-a como uma engenhoca do mal que provavelmente produziria resultados terríveis, que estava em antagonismo com as instituições existentes, e que teria de ser reprimida por uma lei como a lei Edmunds, ou, se tal legislação falhasse, então pelo braço forte da força militar, pelo uso de armas de guerra e pelo derramamento de sangue. É esse o sentimento que alguns homens têm a nosso respeito. No decorrer da nossa conversa, convidei-o a vir a Utah. "Vinde," disse-lhe eu, "e sabei do que falais; tendes ideias a nosso respeito que são inteiramente incorretas. Se viajardes pelos nossos vales, como vos darei oportunidades de fazer, se vierdes, dar-vos-ei cartas de apresentação que vos permitirão ver o nosso povo em seus lares, e, se sois um homem justo, um homem disposto a aceitar a evidência dos vossos próprios sentidos, mudareis as vossas opiniões a respeito do povo que represento."

Há homens que se servem de nós para ganhar favor com os ignorantes e com aqueles que têm fortes preconceitos religiosos e pouco conhecimento a nosso respeito. Há homens que procuram ganhar aprovação popular deste modo, e, em vez de dizer a verdade, ou de estarem dispostos a que a verdade seja dita e conhecida, estão sempre dispostos a que toda espécie de história seja propagada, por mais falsa que seja. Haverá alguma mudança a este respeito? Temo-la esperado nos últimos 52 anos, desde que a Igreja foi organizada, mas essa mudança não veio. Como já disse, assim que se desmente uma calúnia, outra é posta em circulação. Não há fim, nem haverá, para as falsidades que serão contadas e circuladas a nosso respeito. Poder-se-ia perguntar: Por que é isto? Pela melhor de todas as razões, que, sempre que Deus tentou fazer alguma coisa sobre a terra, desde os dias do Pai Adão através dos séculos que se intercalaram até hoje, todo o inferno se levantou contra essa obra e contra os que nela estavam empenhados. Mesmo quando os homens tiveram apenas verdade parcial, e tentaram reformar erros existentes, tiveram de enfrentar esta oposição em maior ou menor grau; e nenhuma grande reforma jamais se efetuou sobre esta terra sem custar o melhor sangue da geração em que a reforma foi tentada. A nossa geração não é exceção a este respeito. Mesmo nesta terra, sob a nossa gloriosa forma de governo, a mais gloriosa jamais concebida pelo homem, sob a qual se pode desfrutar a maior medida de liberdade — mesmo sob ela, o sangue de Profetas e Apóstolos foi derramado e manchou a terra; e nós, por causa da nossa religião, fomos obrigados a fugir dos nossos lares e a buscar refúgio nestas terras selvagens montanhosas, e a edificar novos lares, para que pudéssemos viver em paz e em quietude, não molestados por aqueles que nos odeiam.

Isto não é coisa nova sobre a terra, o antagonismo entre o erro e a verdade, entre o mal e o direito, entre os seguidores daquele que procura usurpar o domínio sobre a terra, e os seguidores do Filho de Deus. Esse antagonismo tem sido perpétuo, imorredouro. Custou o sangue do melhor Ser que jamais pisou a terra, o próprio Filho de Deus, e todos os seus Apóstolos e todos os profetas — todos eles, com poucas exceções, deram as suas vidas pela verdade. E, no entanto, falamos da nossa civilização, do esclarecido século dezenove, e dizemos, como disse a geração em que o Salvador viveu: "Se tivéssemos vivido nos dias dos nossos pais, não teríamos matado os Profetas, não teríamos sido culpados de derramar o seu sangue." Este era o clamor da geração em que o Salvador viveu, e, no entanto, essa mesma geração o crucificou da maneira mais ignominiosa.

Ora, já nos disseram — e não sei quantas vezes já mo disseram — "se vós, 'mórmons', apenas deixásseis de lado algumas das vossas doutrinas que são tão objetáveis, não haveria problema." Já ouvi homens falarem-me deste modo, cuja opinião respeito muito, que eram amigáveis, que eram bem dispostos, que estavam ansiosos por ver estas dificuldades resolvidas, e por nos ver escapar dos males com que acreditavam que estávamos ameaçados e por que talvez fôssemos oprimidos. Não faz muitos dias que um homem proeminente me disse: "Ora, Sr. Cannon, há cinquenta milhões de pessoas que se opõem a vós. Ora, não podeis abrir mão de algumas das vossas peculiaridades. Se disserdes que fareis isto este ano, ou no próximo, ou dentro de certo período, embora eu não esteja autorizado a falar pelo governo, ainda assim posso dizer que não precisa haver problema quanto aos vossos assuntos."

Ora, não tenho a menor dúvida em minha mente de que há milhares de pessoas bem-intencionadas que gostariam de nos ver desfrutar de paz nestes vales, e desfrutar a terra que resgatamos com tanto labor e sacrifício de um deserto, sem serem perturbados por influências externas. Acreditam firmemente que isto é alcançável se apenas renunciássemos a algumas das nossas peculiaridades. Nunca houve maior engano, nunca houve ideia mais equivocada acalentada por alguém. Como o sabemos? Pela triste e amarga experiência do passado. É verdade que, se apostatássemos; se renunciássemos à nossa religião; se pusermos de lado aquilo que cremos que Deus nos confiou e nos ordenou impartir ao mundo, não duvido de que nos daríamos bem, no que diz respeito ao mundo, sem o antagonismo que agora temos. Mas, então, quem pode fazer isto? Se há de se fazer uma escolha, como teríamos de fazer, entre rejeitar a salvação de um lado, e aceitar a paz e o favor do mundo do outro, quem há que esteja preparado para fazer essa troca? Mas amigos me disseram: "Ó, enganais-vos ao pensardes que vos pedimos que renuncieis à vossa religião."

Ora, há algo mais do que o casamento como ponto de ataque que se ergue na mente dos homens ao falarem disto. O Sr. Haskell expressou-o. Não era apenas o casamento plural que estava na sua mente. Não é apenas o casamento plural na mente de centenas, e poderia dizer milhares, dos que examinaram esta questão. Há algo mais do que isto; há algo por trás disto, algo maior do que isto, e é a organização do povo, a união do povo, aquilo a que muitos homens chamam a teocracia desta organização. Foi isto que excitou a turba, nos primeiros dias da organização. Enquanto em Far West, no Condado de Caldwell, no ano de 1838, o General que comandava a milícia que veio sob a ordem exterminadora do Governador Boggs, do Missouri, no seu discurso ao povo "mórmon", disse: "Deveis dispersar-vos e viver como outras pessoas, e passar sem os vossos Bispos e os vossos Profetas e os vossos homens principais, e não escutar o seu conselho." Não é esta a linguagem exata, mas são estas as ideias. Em outras palavras, deveis dispersar-vos; não podemos suportar a vossa organização, a vossa reunião e união como estais. Tememos que tomeis posse dos nossos principais condados, e a vossa influência política será tão grande que, com o tempo, controlareis este país; e não podemos suportá-lo, e deveis partir. A ordem do Governador Boggs dizia que, se o povo não deixasse o Estado do Missouri dentro de certo prazo, seria exterminado. Assim, o povo teve de fugir em pleno inverno e atravessar o Mississippi para o Estado de Illinois. Ora, quem já ouviu falar então de casamento plural? Não era praticado. Era a organização do povo que era objetável; e assim foi também depois, quando fomos obrigados a deixar Nauvoo. A turba queimou as nossas casas e matou o nosso gado, e destruiu os nossos grãos, não por causa de nenhuma característica desta natureza, mas porque éramos "mórmons," e críamos numa forma de religião em que eles não criam. Assim, estavam determinados a que partíssemos dali.

E isto lembra-me outra falsidade que circulou naqueles dias para justificar os ultrajes contra nós. Toda espécie de histórias foi circulada a respeito dos nossos furtos; disse-se que éramos uma quadrilha de ladrões e assaltantes; que o povo próximo de Nauvoo, e ao longo da parte superior do Mississippi, por toda aquela região do país, vivia num estado de terror, assim se alegava, por causa da proximidade dos "mórmons," e que seria uma grande bênção expulsá-los, pois eram fora-da-lei. Assim, a turba julgou-se justificada nos seus ultrajes por estas razões; e criou-se uma opinião pública contra nós que os sustentou ao matarem o Profeta Joseph Smith e Hyrum, seu irmão, ao atirarem sobre o Presidente Taylor, e ao matarem outros homens e mulheres. E criou-se uma opinião pública tão desfavorável aos "mórmons" que outras pessoas pensavam: "Bem, são um mau bando; merecem a extirpação; lamentamos ver as leis pisadas e recorrer-se à violência, mas algo tem de ser feito com estes 'mórmons.'" "Temos de nos livrar deles de alguma forma; e, se a lei não os pode alcançar," como observou a turba, quando Joseph foi julgado e absolvido de traição, "a pólvora e a bala podem."

O mesmo processo está agora em curso. Que é que produz a condição de coisas que existe aqui hoje? É uma opinião pública adversa e hostil a nós, que justifica os ultrajes e os atos iliberais a que estamos sujeitos. É isto que impele os homens a pisar a Constituição e todas as instituições do governo. É isto que permite que o direito de representação seja derrubado, e faz com que um Governador de um Território, culpado dos mais ultrajantes atos de tirania, seja sustentado por três administrações, e uma voz mal se ouça em protesto contra isso — governo republicano derrubado, e o povo destas montanhas, sem exceção o mais bom e mais tranquilo que se pode encontrar dentro dos limites da república, privado do direito de representação.

Aludo a isto, embora seja um assunto político, pois se enquadra apropriadamente na linha das minhas observações. Qual é a causa disto? É, como já disse, porque Deus estendeu a sua mão para realizar uma obra sobre a terra, e o diabo está determinado a que ela não seja realizada. Está determinado a derramar o sangue de todo homem ligado a ela, e coloca no coração dos filhos dos homens o ódio à verdade e aos que a ensinam. E, no entanto, há muitas pessoas que dizem que não há Deus nem diabo. Gostaria que explicassem por que temos sofrido como sofremos; por que um povo que, não fosse pela sua religião, deveria ser aplaudido pelo que fizemos nestas montanhas, é tratado como somos tratados. Quando tínhamos o controle destes vales, de uma ponta a outra da terra, de norte a sul, a embriaguez era desconhecida; uma mulher podia então viajar pelas nossas ruas e estradas, mesmo até as partes mais remotas do nosso Território, e nunca ouvir uma palavra de desrespeito, nunca testemunhar um gesto que a fizesse corar; podia viajar em perfeita paz e segurança por todas as nossas cidades e povoados. O roubo era desconhecido, e a vida humana era sagrada. Assim também com a propriedade. A paz reinava nas nossas fronteiras. Olhamos para trás agora — eu olho, olho para aqueles dias e os contrasto com o presente, e pergunto a mim mesmo: Até quando continuará esta condição de coisas? Podíamos deixar as nossas portas destrancadas; ninguém pensava em ladrões. A virtude era cultivada, e um homem que se tornasse culpado de atos não-virtuosos era denunciado. E tal indústria como praticávamos — e não é vanglória dizê-lo — era inigualável. Vivíamos aqui em paz — pessoas de várias nações, falando várias línguas, de vários modos de pensamento e várias educações, vivendo aqui em paz e tranquilidade, cada homem seguindo o seu próprio rumo, não molestado pelos seus vizinhos. Esta era a condição do nosso Território. Poder-se-ia pensar que um povo que assim vivia, vivendo numa terra que nenhum outro povo poderia possivelmente cobiçar, no que diz respeito aos interesses agrícolas, as ocupações que principalmente seguimos em Utah — poder-se-ia pensar que tal povo poderia ser deixado sem ser molestado, para desfrutar dos frutos da sua indústria e labor.

Não tocamos nas minas, pois sabíamos que, se as abríssemos e nos embarcássemos na mineração, seriam cobiçadas por outros, e por isso não tem sido a nossa política tocar nas minas. No princípio, teria sido uma política muito imprudente fazer isto; teria desestabilizado-nos, e, em vez de passarmos o nosso tempo cultivando o alimento necessário para sustentar a vida, estaríamos prospectando nas montanhas, procurando os metais preciosos. Mas, quando a estrada de ferro foi terminada, e se tornou possível obter suprimentos de outros lugares se nos faltassem, mesmo então era impolítico para nós tomarmos as minas, pelo fato de que, se tivéssemos obtido minas ricas, não poderíamos ter esperado mantê-las; seriam cobiçadas, e, nos tribunais, é provável que não teríamos tido tão boa oportunidade como outras pessoas.

Se pensais, meus irmãos e irmãs, que seremos deixados não molestados e livres de ataques, enganais-vos a vós mesmos. Não está escrito nos céus acima, nem na terra abaixo; tão certo como vivemos, teremos de enfrentar oposição, perseguição e violência. Deus estendeu a sua mão para estabelecer um poder sobre a terra. Esse poder tem excitado antagonismo no passado; excita antagonismo hoje; e continuará a excitar antagonismo até o fim, até que Deus reine, e os habitantes da terra se curvem ao seu cetro. Este livro (a Bíblia) está repleto de predições a este respeito. Todos os profetas que já falaram a respeito dos últimos dias predisseram que Deus faria uma obra poderosa nos últimos dias; e ele a está fazendo.

"Bem," diz alguém, "espera um punhado de gente como vós revolucionar a terra e realizar estes resultados?" Sim, esperamo-lo; cremo-lo de todo o coração; trabalhamos por isso; ensinamo-lo aos nossos filhos. Faríamos desta terra um lugar pacífico, um lugar delicioso para as pessoas residirem; tornaríamos possível esta união de que falei, nestes vales; e, se os nossos princípios se estendessem sobre a terra, tornariam a terra na mesma condição. Agradeço a Deus, de todo o coração, que exista tal obra em curso. Quando ouço falar de pessoas que vêm de terras remotas, impelidas pela sua fé, que ouviram a pregação dos Élderes que saíram na sua fraqueza, e, em muitos casos, sim, na maioria dos casos, na sua ignorância escolástica, para proclamar o Evangelho — quando vejo os resultados maravilhosos da sua pregação, homens e mulheres de terras estrangeiras, com o testemunho de Deus em seus corações, de que esta é a sua obra, que receberam mediante o arrependimento e sendo batizados por um homem que tem a autoridade, cada homem testificando na sua própria língua — o escandinavo, o alemão, o francês, o britânico, o povo da distante África e das ilhas do mar, e os vários países onde os nossos Élderes foram, todos afluindo juntos como pombas às janelas do seu senhor, muitos deles nunca tendo visto um Élder de Utah, mas tendo ouvido homens que tinham a autoridade para ensinar este Evangelho — todos vindo dos vários pontos cardeais, testificando com toda humildade e em nome de Jesus, que Deus lhes deu conhecimento da verdade — quando vejo estas coisas, o meu coração se enche de alegria e gratidão. Agradeço a Deus que a minha sorte tenha sido lançada nestes vales. Agradeço a Deus pelos meus filhos, que a sua sorte tenha sido lançada nestes vales; que vivamos num dia em que Deus está realizando uma obra tão poderosa; quando ele está reunindo o seu povo; quando derrama sobre eles o espírito de união, pois esse é o espírito do Evangelho. Jesus, na sua última oração, acrescenta: "E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim. Para que todos sejam um como tu, ó Pai, és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste." Orou por todos eles, para que fossem um com ele, como ele era um com o Pai; para que a mesma união, o mesmo amor, estivesse nos seus corações. Os Santos dos Últimos Dias são um povo iletrado, longe de ser o que esperamos que sejam; mas são um povo honesto, honesto o bastante para abraçar a verdade quando a ouvem; honesto o bastante para abandonar casas e terras e lares, e tudo o que os homens têm por caro nesta vida, por causa do Evangelho como o creem. É preciso coragem moral para se ser "mórmon," para se assumir o opróbrio do mundo, para se saber que isso pode custar-lhes a vida antes de o terminarem, e é preciso o poder de Deus estar com homens e mulheres para lhes permitir fazer isto. E agradeço a Deus por ele ter encontrado tais pessoas, aqui poucos, ali poucos. Nas várias nações onde os Élderes foram, encontraram-nos, Deus os dirige a eles, e vêm; e os seus filhos herdarão a terra, e serão inteligentes, e se tornarão um grande povo. Pois possuirão todas as virtudes que constituem a verdadeira grandeza entre os homens. Não tenho medo algum, em minha própria mente, por este povo. Quando me falaram do efeito desta legislação, observei que um povo como o do Território de Utah não pode ser esmagado por legislação adversa. Suportará uma quantidade imensa. Tomai um povo que é unido; que é industrioso, que é frugal, que está familiarizado com as dificuldades, que suportou perseguição no passado e está familiarizado com ela e a espera; tomai tal povo, tendo em seus corações o amor de Deus e o amor uns pelos outros, crendo que a melhor expressão que podem dar ao amor de Deus é amar o próximo como a si mesmos; um povo dessa espécie não pode ser esmagado. Está destinado a viver sobre a terra na luta pela existência; destinado a ter o seu lugar entre a humanidade; está perfeitamente apto a sobreviver a qualquer luta ou qualquer condição que lhe seja imposta.

Quanto a esta legislação, quero dizer-vos que, em certos aspectos, sou grato por ela. Que venha a perseguição, se há de ter bom efeito. E, quanto às regras que foram feitas pelos Comissários, como eu mesmo declarei pessoalmente a esses cavalheiros, discordo da sua interpretação da lei, e penso que as regras estão erradas; contudo, sou grato por as terem feito na sua forma atual. Irmãos me disseram: Não poderemos representar aos Comissários quão erradas e injustas são essas regras, e procurar tê-las mudadas, para as tornar aplicáveis àqueles fora, bem como àqueles dentro das relações matrimoniais? Disse-lhes: Sim; tentai-o se o desejardes; e, se puderdes efetuar uma mudança, muito bem; mas, no meu próprio coração, sou grato por as Regras terem sido feitas como são. São feitas aplicáveis a todos — tanto aos que nunca violaram lei alguma, como aos que a violaram. Não há distinção entre os que entraram no casamento plural antes, e os que entraram nesse estado depois de 1862. Até que a lei de 1862 fosse aprovada, deveis entender, não havia lei dos Estados Unidos, nem lei deste Território, que tornasse o casamento plural um crime. Deveis compreender isto, e não duvido que compreendais a diferença entre aquilo que é um crime em si mesmo, per se, e aquilo que é feito um crime por estatuto. O casamento plural não é um crime em si mesmo, é malum prohibitum, feito assim por uma lei, e essa lei foi promulgada em 1862. Ora, a menos que a legislação seja feita ex post facto, as pessoas que se casaram antes de 1862 não violaram lei alguma; mas as regras, como têm sido aplicadas, excluem estas pessoas do registro; excluem até mesmo uma esposa cujo marido tomou esposas plurais antes de 1862. Decisão muito extraordinária. Mas sou grato por isso. Por quê? Porque nos coloca a todos no mesmo barco, e não nos divide. Não se poderia ter concebido melhor plano para nos tornar um do que a decisão que fizeram a respeito daqueles "nas relações matrimoniais." Há centenas de pessoas que podem fazer esse juramento, que, se aquelas palavras não estivessem nele, não poderiam fazê-lo. Podem registrar-se por causa destas quatro palavras. Podem avançar corajosamente e fazer esse juramento de que nada fizeram desse tipo "nas relações matrimoniais." Sou grato por que seja assim. Por quê? Sentir-me-ia extremamente mal, penso, se fôssemos reduzidos ao nível dos que violaram as leis de Deus e dos homens. Nós violamos, alguns de nós, as leis dos homens, mas não violamos, na nossa fidelidade, as leis de Deus. Somos sinceros na nossa crença; e dai-me um fanático, a qualquer momento, de preferência a um patife. Posso tolerar um fanático que faz o que crê ser reto; mas não tenho simpatia por um homem ou mulher que comete um ato sabendo que é errado. Fomos excluídos de nos registrarmos porque fizemos algo que nos foi ordenado pelo Senhor; mas homens que fizeram coisas sabendo que eram erradas, que agiram contra as leis de Deus e dos homens, tanto homens como mulheres, podem fazer o juramento e registrar-se.

Bem, alegro-me com isso; alegro-me por não estar nessa categoria; não quero estar nessa multidão. Quero poder dizer, como posso dizer, que, por causa da minha religião, por causa de fazer aquilo que creio que seria condenado se não o fizesse, fui privado do direito de voto; creio de todo o coração que Deus deu um mandamento dessa natureza, e ele pesou com tal poder sobre mim que cri que seria condenado se não o obedecesse. Ora, estou disposto a aceitar as consequências disso; mas odiaria ser colocado no mesmo nível de todo adúltero e sedutor da terra; e não o estou, pela decisão dos Comissários. Há uma linha de demarcação nítida e bem definida, traçada entre os Santos dos Últimos Dias, que praticam o casamento plural por causa da sua religião, e o adúltero e o sedutor.

Vejo a mão do Senhor em tudo isto, e o reconheço. Deus está a superintender, e há de superintender estas coisas para o nosso bem. Ele nos porá à prova, nos provará, e, se houver algum ponto fraco em nós que não seja visto, ele o descobrirá. Esperamos alcançar a glória que Cristo, nosso Senhor e Redentor, alcançou. Oramos por ela, temos lutado por ela, para que sejamos considerados dignos de nos assentarmos à direita de Deus, o nosso Pai Eterno; considerados dignos de habitar com Jesus nos mundos eternos; e com os santos que já se foram, com homens cujo sangue foi derramado, que não contaram as suas vidas como caras por causa da sua religião — esperamos estar com eles. Podeis imaginar, então, por um único momento, que poderemos alcançar aquela glória, a menos que, como eles, estejamos dispostos a suportar todas as coisas por causa do Evangelho?

Ora, o mundo pensa que esta é uma prática muito estranha para uma religião; espantam-se com ela; não podem compreendê-la. No entanto, que qualquer homem olhe pela terra e veja a maré de corrupção, os males sob os quais a humanidade geme nas várias nações da Cristandade, bem como a divisão e a contenda que existem em todos os assuntos religiosos. O casamento e a moral pertencem por direito à religião e são parte dela. Ide ao mundo e perguntai aos ministros da religião: "Que farei para ser salvo?" Um vos dirá uma coisa e outro outra coisa, cada homem seguindo o seu próprio caminho, cada congregação dividida da sua congregação irmã — contenda e confusão de toda espécie entre os que professam ser seguidores de Jesus Cristo. Mas tenho pensado muitas vezes, ao viajar pelo mundo e ver o espírito que se manifesta, que, se eu não tivesse outra esperança senão aquela que vejo à minha volta, não me importaria de ter família, não me importaria de ter filhos, haveria tão pouco pelo que viver; homens procurando tirar vantagem dos seus semelhantes de todas as maneiras possíveis; homens procurando destruir os seus semelhantes; professores de religião sem nenhum do espírito que a Bíblia nos ensina ser o Espírito de Deus. Nunca saio de casa sem voltar o rosto para estes vales, e para o povo destas montanhas, e sem um profundo sentimento de gratidão a Deus por a minha sorte ter sido lançada entre este povo, com todas as suas faltas, e são numerosas, e com todas as minhas faltas, e são numerosas. Temos amor uns pelos outros e nos esforçamos por vencer as nossas faltas e cultivar aquele amor que pertence ao evangelho de Jesus Cristo.

Ora, sejamos pacientes. Como disse a alguns amigos que encontrei ontem, nunca me senti mais feliz em minha vida do que no momento presente. É verdade que tive de suportar aflição doméstica, o que me entristeceu. No entanto, alegro-me com as esperanças que tenho para o futuro, e posso verdadeiramente dizer que nunca me senti mais feliz entre o nosso povo do que agora. Tudo é paz; Deus está conosco, os seus anjos estão à nossa volta, e o seu Santo Espírito está sendo derramado sobre nós. Não sei que o sol seja menos brilhante, que a lua seja menos clara, que os elementos sejam menos puros e deliciosos do que eram há doze meses. Os nossos cereais, os nossos legumes, as nossas frutas, todos amadurecem, a terra dá da sua força e nos dá do seu acréscimo para o nosso bem. A paz reina nas nossas habitações; a paz reina nos corações do povo. Sabemos que Deus superintende tudo, e que ele controlará todas as coisas para a sua glória, e para a realização dos seus propósitos. Por que, então, deveríamos estar tristes? Por que deveríamos lamentar? Por que deveríamos temer o futuro? Por que deveríamos antecipar aquilo que nunca ocorrerá? Não há necessidade disso. Desfrutemos o hoje. Regozijemo-nos hoje na bondade de Deus, e, quando vier o amanhã, virá carregado de bênçãos, tal como o hoje. E assim será todo dia e toda semana e todo ano, até que sejamos introduzidos na plenitude da glória de nosso Deus.

Não tive antes a oportunidade de vos agradecer pela vossa fé e bons sentimentos para comigo, enquanto estive ausente. Posso assegurar-vos, meus irmãos e irmãs, que os apreciei. Homens me disseram, em vista daquilo por que estamos passando, e o sentimento amargo manifestado contra nós — Como pareceis alegre! Respondi que tinha motivo para estar alegre; que não havia homem no plenário do Congresso que tivesse mais motivo para alegria do que eu. Atrás de mim estavam os meus constituintes, em colunas sólidas, dando-me o seu apoio e sentimentos bondosos e amor. E várias vezes disse que, de quase todo lar em Utah, de norte a sul, onde habitam Santos dos Últimos Dias, sabia que orações ao Deus Todo-Poderoso ascendiam manhã e tarde, não apenas de homens, mas de mulheres e crianças, em meu favor. Sabia isso, e deu-me grande conforto; sim, conforto indescritível. Agradeço-vos os vossos bons sentimentos, como o faço a todos os meus irmãos e irmãs.

Oro a Deus que derrame o seu Santo Espírito sobre vós; que vos preserve de todo mal; que vos mantenha na verdade; que vos faça amá-la mais do que qualquer outra coisa na terra, e a seguirdes até o fim, o que peço em nome de Jesus. Amém.

Como citar este discursoGeorge Q. Cannon, “Paz Desfrutada, Mas Aflição Esperada—Falsidades a Respeito dos Santos—Poder dos Santos Temido—Verdade e Erro em Conflito—O Casamento Plural Não é a Verdadeira Objeção—Mineração de Metais Preciosos Evitada—Bom Efeito da Legislação e Decisões Ilegais—Esperanças para o Futuro”, (1882-09-24). Pulpit Vault, 1882-09-cannon-peace-enjoyed-but-trouble-expectedfalsehoods-about-the. Tradução desta edição, por método de glossário, contentdm.lib.byu.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).