Discurso Fúnebre
John Taylor
Ao dizer algumas palavras a respeito dos mortos, sinto, como já expressaram meus irmãos, reconciliar meus sentimentos com os propósitos do Todo-Poderoso, seja em relação aos mortos, seja em relação aos vivos. ¶
Esta manhã, contudo, tenho experimentado sentimentos de tristeza não por causa da Irmã Cannon; com ela está tudo bem. Seu corpo jaz aqui no frio abraço da morte, mas seu espírito está tranquilo e feliz. Ela combateu o bom combate, acabou a carreira, cumpriu o objetivo de sua criação, e foi para onde o gemido, a tristeza e a aflição não podem alcançá-la; portanto, não posso lamentar por causa dela. Está tudo bem e tudo certo com ela. No entanto, há simpatias, sentimentos e vínculos ligados à humanidade que às vezes é difícil deixar de lado. Conheço a Irmã Cannon desde sua juventude, desde quando era ainda uma menininha, e a tenho acompanhado, comparativamente, por toda a sua vida. Eu a vi em vida, e — ia dizer, em morte; quase isso, pois estive com ela em vários dias sucessivos antes de falecer. ¶
Como já foi dito, desejávamos que sua vida fosse prolongada, ao menos até o retorno de seu marido; mas parece que Deus ordenou de outra forma, por algum propósito sábio que nem sempre nos é manifesto. ¶
Isto me lembra uma circunstância que ocorreu em minha vida, estando eu então em situação bastante semelhante à do Irmão Cannon agora. ¶
Quando estive em Paris, na França, há cerca de trinta anos, tive um sonho que muito me perturbou, no qual vi minha primeira esposa — assim como a falecida aqui é a primeira esposa dele — deitada, doente, à beira da morte. E isso me afetou tanto que despertei, perturbado em meus sentimentos. Voltei a adormecer, e novamente a mesma cena se apresentou a mim, quando despertei de novo e experimentei os mesmos sentimentos de tristeza; e, passado algum tempo, dormi outra vez, e a cena se repetiu pela terceira vez. Soube então que minha esposa estava muito doente, à beira da morte. ¶
Levantei-me e orei fervorosamente ao Senhor que poupasse a sua vida até que, ao menos, eu tivesse outra oportunidade de encontrá-la em carne. Ele ouviu minha oração. Registrei então a circunstância, e soube depois que assim havia sido exatamente como me fora mostrado. Na manhã seguinte, lembro-me de encontrar um cavalheiro que era ministro protestante, e ele notou que meu semblante parecia triste, e perguntou-me a causa. Disse-lhe que minha esposa estava à beira da morte, e ele me perguntou se eu havia recebido uma carta. Disse-lhe que não, mas relatei-lhe como me fora mostrado. Mas, eu disse, levantei-me e orei ao Senhor que poupasse sua vida, e sinto-me consolado sabendo que ela será curada. Quando a Irmã Cannon estava doente, oramos por ela, exercendo toda a fé que possuíamos em seu favor; mas Deus achou por bem levá-la para si. O Irmão Cannon, naturalmente, sentiria como eu senti, desejoso de ter outra oportunidade de ver sua esposa em carne e, se possível, estar ao seu lado quando ela partisse; e, se estivesse ocupado em negócios particulares em vez de públicos, certamente teria estado. Mas não deveria ser assim. Ela partiu durante a sua ausência de casa, e está tudo bem. Assim teria sido se minha esposa tivesse partido nas mesmas circunstâncias; eu teria tido os mesmos sentimentos. ¶
Estamos aqui apenas por um curto período. Nossos espíritos habitavam com nosso Pai antes de virmos à terra. Ao virmos para cá, tomamos sobre nós corpos, segundo o decreto do Todo-Poderoso, e se nossos corpos forem requeridos, não caberia a mim nem a vós dizer quando ou como essas coisas hão de ocorrer. É o Senhor quem dirige em todos esses assuntos, tanto no que nos diz respeito individualmente quanto no que diz respeito a toda a família humana. ¶
O presente é apenas um estágio de nossa existência. Existíamos antes de virmos para cá; existimos aqui por um tempo, e quando partirmos desta vida mortal, teremos uma existência espiritual, uma existência sem o corpo, e depois novamente com o corpo. E cabe àqueles que administram e conduzem esses assuntos fazer o que lhes parecer bom, e cabe a nós render uma submissão voluntária e obediente à vontade de nosso Pai Celestial, sentindo sempre que tudo o que ele faz é perfeito e correto. ¶
Todos os dias ocorrem fatos como este; a família humana vive, como viveram nossos pais antes de nós, por um curto período, e depois nós, como eles, partimos; e então outros continuamente vêm ocupar o lugar dos que partem. E assim continuará até que outras dispensações sejam introduzidas, que colocarão as coisas em outra posição. ¶
Há uma ou duas coisas que desejo mencionar; podem parecer, para alguns, questões de pouca importância. Vejo, num telegrama do Irmão Cannon, que ele menciona certas coisas a respeito deste funeral de sua esposa, uma das quais é que não desejava nenhuma demonstração de luto ligada a ele. Conhecemos seus sentimentos a este respeito; são os mesmos que os nossos. É costume das pessoas vestirem trajes escuros e assumirem uma aparência melancólica. Isso pode ser muito bom, como forma de prestar respeito a nossos amigos falecidos; mas a questão é se essa é a maneira mais apropriada. O Irmão Cannon desejou — também conversei com ele sobre o mesmo assunto — que o caixão em que fossem depositados os restos mortais de sua falecida esposa fosse feito de madeira comum da montanha, e que tudo em torno dele fosse simples e despretensioso, e que sua família não vestisse trajes de luto. Seu irmão Angus tem procurado cumprir suas instruções quanto a este assunto, dispensando inteiramente aquelas aparências ostentosas e toda a exibição desnecessária de luto tão comum hoje em dia nessas ocasiões. ¶
É próprio sofrer; é próprio demonstrar respeito pelo falecido. É próprio que nossas simpatias se manifestem; é próprio que nos reunamos para realizar os serviços fúnebres apropriados, como agora fazemos, para que possamos refletir sobre nossas vidas e sobre a incerteza delas, e sobre a morte e os resultados que dela possam advir; e que consideremos o Evangelho do Filho de Deus, e reflitamos sobre nossa posição, etc. Mas tenho pensado, e de fato o Presidente Young pensava, assim como o Irmão George A. Smith e outros com quem conversei sobre este assunto, que damos atenção demais a essas formas exteriores. Nós, acima de todos os outros povos sobre a face da terra, deveríamos estar livres da exibição exterior, e da aparência de tristeza e luto, tendo em nós plantadas as sementes da imortalidade e da vida eterna; visto que, quando terminarmos os assuntos deste mundo, não apenas esperamos, mas sabemos que herdaremos vidas eternas no reino celestial de Deus. E, sabendo disso, não nos caberia lamentar como os que não têm esperança. ¶
Quando vejo tristeza excessiva, em ocasiões como esta, entre pessoas que professam ser Santos, penso que não compreendem a situação. É próprio lamentar; é próprio ter simpatia, mas não tenho simpatia pela Irmã Cannon; tenho simpatia por seus filhos, especialmente por estes pequeninos que ela deixou; tenho simpatia por seus amigos que lamentam sua perda; tenho simpatia pelo Irmão Cannon, que está ausente em Washington, nas peculiares circunstâncias em que se encontra; mas, ao mesmo tempo, não é próprio que pessoas que talvez lutem arduamente para obter o sustento façam ostentação, gastando grande quantia de recursos para seguir a moda que existe no mundo. Queremos sentir que somos filhos e filhas de Deus; queremos, quando nossos amigos nos deixam, mostrar-lhes o devido respeito, que se deve prestar a todos os homens e mulheres honrados, e, tendo feito isso, cumprimos nosso dever para com eles e nosso dever diante de Deus; não parece próprio colocar famílias ou pessoas em circunstâncias, por meio de ideias falsas, que as constrangeriam e as colocariam em posição desagradável, ao tentar fazer aquilo que na verdade não podem custear. ¶
Se granjeamos o favor de Deus, se somos Santos do Altíssimo, se temos o Espírito Santo habitando em nós, se caminhamos na senda da retidão, se Deus é o nosso Deus e nós somos seus filhos, se estamos cumprindo todos os deveres e responsabilidades que nos cabem, e que seus filhos deveriam atender, aqui na terra, deveríamos sentir-nos satisfeitos se formos sepultados sem muita ostentação ou exibição; e, ao cuidarmos assim das exéquias daqueles que partem, cumprimos os deveres que Deus nos impôs. E ele cuidará deles depois. ¶
Se não fosse pela expiação de Jesus Cristo, o sacrifício que ele fez, toda a família humana teria de jazer na sepultura por toda a eternidade sem esperança alguma. Mas, tendo Deus provido, por meio da expiação do Senhor Jesus Cristo, o meio pelo qual podemos ser restaurados ao seio e à presença do Pai, para participar com ele entre os Deuses nos mundos eternos — tendo ele provido isso, também proveu a ressurreição. Ele proclamou-se a si mesmo a ressurreição e a vida. Disse ele: "Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá." Em breve os túmulos serão abertos e os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e sairão, os que fizeram o bem, para a ressurreição dos justos, e os que fizeram o mal, para a ressurreição dos injustos. ¶
Há algo que me dá grande satisfação: que a Irmã Elizabeth, tendo sido fiel em vida aos princípios que Deus revelou a respeito do casamento celestial, também lhes foi fiel na morte. Sendo a primeira esposa, tendo, no auge da vida e da juventude, seu marido só para si, em obediência à lei de Deus sacrificou seus próprios sentimentos no altar do dever e, em conformidade com as leis do casamento celestial, dispôs-se a que outras também partilhassem do afeto de seu marido. E, durante sua última enfermidade, bem entendendo a animosidade que existia no mundo e no Congresso a respeito deste princípio, quando o sinistro mensageiro a fitava e as gotas frias do suor da morte escorriam de sua fronte, sabendo bem que seu marido se manteria fiel aos seus princípios como ela se manteve aos dela, ela ditou um telegrama, dizendo-lhe que, se fosse a vontade de Deus que ela se restabelecesse, ele poderia realizá-lo tão bem durante a sua ausência quanto se ele estivesse em casa, ao seu leito. E, no conflito entre o afeto e o dever, enquanto as fontes da vida rapidamente se esvaíam, sentindo a importância da posição de seu marido, ditou as seguintes palavras imortais: "PERMANECEI EM VOSSO POSTO." Ela escreveu, em seus últimos momentos terrenos, palavras de testemunho a todo o mundo, de que, ao menos, ela era uma crente naqueles princípios eternos que Deus revelou para a salvação de seu povo, e para sua purificação e exaltação. Sinto-me orgulhoso disso. E creio que milhares de nossas irmãs fariam o mesmo. Se temos uma religião que permanecerá conosco após a vida, se temos uma religião que nos exaltará entre os Deuses nos mundos eternos, o mundo pode uivar, e os corruptos podem gastar suas energias, mas Deus cuidará de seus Santos; e tudo estará bem conosco no tempo e na eternidade. ¶
Rogo a Deus que abençoe estes filhos que lamentam a perda de sua mãe, para que sejam preservados na verdade e conduzidos nas sendas da vida. Rogo a Deus que abençoe as esposas do Irmão Cannon que também estão aqui, juntamente com toda a sua família e tudo o que a ele pertence. Rogo a Deus que os conduza a todos nas sendas da vida; e que todos possamos ser fiéis a nosso Deus, e por fim obter um assento no reino celestial de Deus, em nome de Jesus. Amém. ¶