Divisões da Cristandade Moderna—Efeitos do Proselitismo Sectário, Etc.
Charles W. Penrose
Tendo sido chamado esta tarde para me dirigir a esta congregação, levanto-me para o fazer, confiando que o Espírito de Deus repousará sobre mim para iluminar a minha mente e sugerir-me os pensamentos que possam ser proveitosos para a congregação reunida, e desejo que os meus irmãos e minhas irmãs me sustentem e apoiem com a sua atenção, a sua fé e as suas orações, para que eu seja inspirado a falar a verdade, e para que todos os que ouvem tenham repousando sobre eles o mesmo espírito, a fim de poderem ver e compreender as coisas apresentadas. ¶
Há hoje muitíssima gente reunida em diferentes partes do mundo para adorar a Deus segundo as várias formas que prevalecem naquilo a que se chama cristandade. Todas essas pessoas que professam ser cristãs creem que há um Deus, e que Jesus de Nazaré, que morreu no Calvário, era o Filho de Deus. Creem também que o livro chamado Bíblia contém a vontade revelada de Deus ao homem. Mas, embora todas professem crer no mesmo livro, no mesmo Deus e no mesmo Salvador, têm, contudo, diferentes formas de adoração, diferentes artigos de fé, e caminham por estradas diferentes, na expectativa de chegarem ao mesmo lugar no fim da sua jornada. As diferenças que existem no mundo, a respeito da religião, são muito deploráveis. Se a humanidade fosse movida pelo mesmo espírito na adoração a Deus, adoraria de uma só maneira, caminharia na senda da verdade, e não seria lançada de um lado para outro, arrastada por diferentes ventos de doutrina. O fato de o povo estar dividido nas suas crenças, no que respeita aos princípios religiosos, é prova de que o mesmo espírito não repousa sobre ele; é guiado por diferentes influências, e, por isso, é conduzido por caminhos diferentes. Há de haver um tempo, segundo as Escrituras, em que o povo que crê em Deus será todo trazido a tal condição que "verá olho a olho." Há de haver um tempo em que todo o povo que vive sobre a terra "conhecerá a Deus, desde o menor até o maior," e não haverá necessidade de contender sobre doutrina ou princípio, mas todos compreenderão da mesma maneira, porque "a terra se encherá do conhecimento de Deus, como as águas cobrem o grande abismo." Como há de se produzir esta grande mudança? No tempo presente, o povo que professa crer em Deus tem muitíssimas ideias diferentes a respeito dele. Tem muitíssimas opiniões diferentes a respeito do ser a quem chama seu Filho, tem muitíssimas ideias diferentes do Evangelho tal como foi ensinado pelo seu Filho, e estas contendas não diminuem; pelo contrário, aumentam. Novas seitas estão a surgir, as igrejas estão a aumentar sobre a terra, mas os filhos dos homens tornam-se cada vez mais variados nas suas opiniões a respeito da religião. Se as coisas continuarem no modo presente, quanto tempo levará até que todos os habitantes da terra sejam trazidos ao conhecimento da verdade? Quanto tempo levará para os trazer todos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus? Dizem-nos as Escrituras que um dos objetivos da pregação do Evangelho era que o povo fosse trazido "à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo." Parece-me que, se as coisas continuarem na sua condição presente, em vez de os habitantes da terra serem trazidos à unidade da fé e ao conhecimento de Deus, a divisão e a contenda hão de aumentar. Quando são enviados missionários das nações cristãs para as nações pagãs, não estabelecem unidade alguma de fé entre aqueles a quem são enviados. Pelo contrário, introduzem a divisão. Por exemplo, vão vários missionários entre os maometanos, e, se converterem uma parte deles às diferentes fés que esses missionários ensinam, são desviados da união, tal como é, do seu antigo credo, para as divisões da cristandade moderna. Se o missionário batista converter certo número de maometanos ao seu credo, a igreja batista será estabelecida entre eles; e se os metodistas introduzirem o seu credo e obtiverem conversos, haverá entre eles a fé metodista e a fé batista; e assim com os episcopais, os presbiterianos e os vários "ismos" que prevalecem na cristandade. Se todas estas seitas fossem introduzidas num país maometano, então, em vez de o povo ser trazido a maior unidade da fé, estabelecer-se-ia a divisão no seu meio, e ficariam divididos em seitas, tal como a cristandade moderna está hoje. E, no entanto, se a Bíblia é verdadeira, há de vir o tempo em que todos conhecerão a Deus, desde o menor até o maior, e em que todos dobrarão o joelho e confessarão que Jesus é o Senhor, para a glória de Deus Pai. A menos que algo de natureza e caráter diferente das várias seitas que agora existem na cristandade seja introduzido no mundo, estes resultados jamais poderão realizar-se. ¶
Se o Evangelho que Jesus Cristo introduziu no mundo, e que os seus Apóstolos foram enviados a pregar, fosse restaurado novamente à terra, e o povo fosse trazido à compreensão desse Evangelho, então chegaria a esta condição, porque esta era uma das características do Evangelho, um dos seus grandes efeitos sobre o povo quando foi introduzido no mundo há mais de 1.800 anos. Quando os Apóstolos que Jesus Cristo enviou foram pregar o Evangelho na terra em que tinham nascido, a Palestina, encontraram gente que professava diferentes credos, mas, quando esta gente veio a receber o Evangelho que os Apóstolos ensinavam, foram todos trazidos à unidade da fé. Se Pedro saía e pregava numa parte do mundo, digamos, aos judeus, e Paulo, "o Apóstolo dos gentios," saía entre as nações gentias e lhes pregava, os conversos feitos por Pedro e os conversos feitos por Paulo criam exatamente da mesma maneira, não importa onde tivessem nascido, não importa que credo tivessem professado antes; e quando Tiago saía, ou qualquer outro dos demais Apóstolos, e fazia conversos, todos chegavam à mesma crença dos conversos de Pedro e dos conversos de Paulo. De fato, o Apóstolo Paulo diz: "Porque todos nós fomos também batizados em um só Espírito para um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e a todos nos foi dado beber de um só Espírito" — "Temos," disse ele, "um só Senhor, uma só fé, um só batismo, e uma só esperança da nossa vocação." Este foi o efeito da aceitação do Evangelho nos dias dos antigos Apóstolos. E, segundo o princípio de que a mesma causa sempre produzirá o mesmo efeito sob as mesmas circunstâncias, se esse Evangelho fosse pregado neste dia do mundo, o povo que lhe obedecesse seria trazido à mesma condição, não importa quais fossem os seus credos. Quando recebessem o Evangelho de Jesus Cristo, seriam trazidos à unidade da fé, receberiam uma só doutrina, receberiam um só espírito, teriam um só Senhor, um só batismo, uma só fé e uma só esperança da sua vocação; começariam na mesma estrada, adorariam ao mesmo Deus da mesma maneira, sob a influência do mesmo espírito. ¶
Ora, o que se passa naquilo a que se chama o mundo cristão? A dificuldade é que o povo da terra se afastou do plano de salvação que foi ensinado por Jesus Cristo e pelos seus Apóstolos, e as opiniões dos homens foram introduzidas em lugar da palavra de Deus. Homens saíram das fileiras para serem pregadores e mestres do povo, e introduziram as suas próprias noções, e igrejas foram edificadas e estabelecidas sobre essas noções. Antigamente, os Apóstolos de Jesus Cristo não sentiam que tinham direito algum de sair a pregar as suas próprias opiniões sobre doutrina, as suas próprias ideias sobre salvação, mas saíam como embaixadores do Senhor Jesus Cristo, tendo dele autoridade para pregar o Evangelho que ele lhes entregara, e nenhum outro; e o Apóstolo Paulo chegou a dizer: "Mas, ainda que nós mesmos, ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho, além do que já vos anunciamos, seja anátema." E João, o discípulo amado e amoroso, que tanto falava de amor e caridade, diz: "Todo aquele que transgride, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem Deus; quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto o Pai como o Filho. Se alguém vem ter convosco, e não traz essa doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis. Porque quem o saúda participa nas suas más obras." Os servos de Deus que têm sido chamados em vários tempos, desde o princípio, para pregar a palavra do Senhor aos habitantes da terra, sempre vieram com a palavra do Senhor; não com as suas próprias ideias, não com as suas noções peculiares sobre doutrina, mas vieram trazer uma mensagem do Todo-Poderoso, e entregaram-na com autoridade. Cada palavra que proferiam, sob a inspiração do Espírito Santo, era a palavra de Deus para o povo, e era obrigatória para ele, pois esses homens eram os representantes de Deus sobre a terra, no que dizia respeito aos seus ensinamentos. "Os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo," e aquilo que diziam sob a influência desse espírito era a Palavra de Deus para o povo a quem chegava. Mas, durante centenas de anos, o povo da terra tem sido ensinado nas doutrinas dos homens. Tem-lhe sido ensinado, "por doutrinas, os mandamentos dos homens," exatamente como lemos nas Escrituras que assim seria; e, em consequência disto, o povo tem-se dividido, as seitas têm-se multiplicado, a divisão tem aumentado, e o povo, em vez de obedecer à voz do Senhor e andar nos seus caminhos, tem seguido os ensinamentos dos homens e andado nos caminhos dos homens, e, por isso, se afastou do Todo-Poderoso. Dizemos, por vezes, que Deus se afastou do mundo. Não é bem assim; o mundo é que se afastou de Deus; "amontoaram para si mestres, tendo comichão nos ouvidos; e desviaram os ouvidos da verdade, e se tornaram às fábulas," como os antigos Apóstolos disseram que fariam. Esta é, em poucas palavras claras, a condição do mundo cristão hoje. Não obstante isto, porém, há muitíssima gente, entre estas várias seitas e religiões, que é sincera na sua adoração. Os seus desejos são bons, e muitos deles pensam que estão a andar no caminho da vida. Mas, como diz o sábio Salomão, "há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte." Há, e só pode haver, um caminho, um verdadeiro caminho para a presença de Deus. "Estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que o encontrem," disse Jesus, enquanto "larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ele." Não há senão um caminho, e "aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador." Não havendo senão um caminho para a vida eterna, quem não anda nesse caminho está noutro, mas não há senão um caminho que o leve à presença de Deus, para receber a glória do reino de seu Pai. Ora, isto pode soar, aos ouvidos de algumas pessoas, como algo muito pouco caridoso. Dizem que os Santos dos Últimos Dias não são caridosos, porque afirmam que só há um caminho para o céu. Nunca se ouve chamar de pouco caridoso um homem que diz que só há um caminho na matemática. Se cinco vezes cinco são vinte e cinco, quem discordar disto é reconhecido como estando errado; mas, quando falamos de assuntos religiosos, parece haver no mundo a ideia de que as pessoas podem crer no que lhes aprouver a respeito de religião, e que está tudo certo. Ora, isto parece-me muito inconsistente. A verdade não pode ser dobrada nem desviada. A verdade não pode ser transformada em erro; não há compromisso entre a verdade e o erro. Se um princípio é verdadeiro numa época do mundo, é igualmente verdadeiro noutra; e as noções e a sinceridade do povo não alterarão essa verdade na menor medida. Jesus veio mostrar o caminho da salvação. Enviou os seus Apóstolos a ensinar um só caminho, um só plano, e, como disse o Apóstolo Paulo, se alguém pregar outro, seja anátema. ¶
Mas suponhamos que examinamos a natureza e o caráter deste plano de salvação, este caminho que Jesus estabeleceu. Remeto-vos ao 3º capítulo do Evangelho segundo São João, e ao 5º versículo. As palavras que vou ler são as palavras de Jesus Cristo. Ora, se vos aprouver dizer que Cristo não era caridoso, podeis fazê-lo. Eu não o direi. Jesus é o grande Mestre Divino. Os que não professam crer que ele era o imaculado Filho de Deus creem que era um grande Mestre inspirado, e que o que ele disse era a palavra de vida para os habitantes da terra. Nicodemos veio a Jesus, de noite, para se informar sobre o caminho da vida. E "Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus." Nicodemos não compreendeu bem o que se queria dizer com "nascer de novo," e Jesus explicou ainda mais, dizendo: "Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus." Esta foi a declaração do Senhor Jesus Cristo. Não há compromisso algum quanto a isto, não há dois caminhos. Aqui está o único caminho estabelecido pelo Senhor: nenhum homem pode entrar no reino de Deus, a não ser que tenha nascido da água e do Espírito. Como devemos entender esta Escritura? Devemos entendê-la, suponho, exatamente como foi estabelecida. Jesus estava a explicar-se claramente a Nicodemos. Disse-lhe que, a não ser que um homem nascesse de novo, não poderia ver o reino de Deus, e, quando Nicodemos perguntou como isto poderia ser, ele explicou ainda mais, que, a não ser que um homem nascesse da água e do Espírito, não poderia entrar no reino de Deus. ¶
Dizem-nos as Escrituras que Jesus não era somente o Mestre, mas era o Grande Exemplo. Jesus "deixou-nos o exemplo, para que sigamos os seus passos." Se assim é, Jesus deve ter nascido da água e do Espírito, e, se pudermos descobrir como ele assim nasceu, então poderemos descobrir como devemos nascer da água e do Espírito. Diz-nos aqui o Novo Testamento que, quando Jesus Cristo tinha cerca de trinta anos de idade (ele conformava-se às leis e costumes dos judeus entre os quais residia), antes de iniciar o seu ministério, foi a João, o precursor, e pediu para ser batizado; mas lemos que João, que conhecia o caráter da missão de Cristo, disse: "Eu careço de ser batizado por ti, e vens tu a mim? Jesus, porém, respondendo, disse-lhe: Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então ele o permitiu. E sendo Jesus batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo." Eis aqui um padrão estabelecido por Jesus Cristo, para a humanidade seguir. Ele sabia que era necessário que cada um nascesse da água e do Espírito, e foi a João, um homem que tinha autoridade de Deus para batizar, e foi imerso por ele, ou batizado por ele — as palavras têm significado semelhante — e o Espírito desceu, e o Pai testificou que estava bem satisfeito com este ato. ¶
Ora, achareis, se ledes as Escrituras, que, quando Jesus Cristo enviou os seus discípulos a todo o mundo, disse-lhes que "pregassem o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado." Diz ainda: "Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo." Se lermos o livro chamado Atos dos Apóstolos, encontramos que estas instruções foram cumpridas ao pé da letra. Naquele grande sermão pregado por Pedro, no dia de Pentecostes, quando tantos foram trazidos à obediência à verdade, quando o povo lhe perguntou: "Que faremos?" Pedro disse-lhes: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo." Primeiro, o nascimento da água, depois o nascimento do Espírito Santo. Este foi o exemplo de Cristo, e foi assim que os Apóstolos o ensinaram. ¶
Se seguirmos os Apóstolos em todas as suas viagens e ensinamentos — tanto quanto a história nos é dada no livro chamado Atos dos Apóstolos, e tanto quanto está estabelecido nas epístolas que escreveram às igrejas — encontraremos que este era o Evangelho preparatório, o Evangelho do reino. Primeiro, "Crede no Senhor Jesus Cristo." O que faremos quando crermos? "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo." E achareis, além disso, que, depois de o povo ser batizado, os Apóstolos impunham-lhe as mãos, e, pela administração dessa ordenança, o Espírito Santo vinha sobre ele. E isto era uniforme. Não era um Evangelho num país e outro noutro; era o mesmo Evangelho para todos. Também não havia vários batismos para diferentes povos, em diferentes lugares, mas um só Senhor, uma só fé, um só batismo; não "efusão" numa parte do mundo e "aspersão" noutra, e o "sinal da cruz" noutra ainda. Não; era um só batismo, sendo sepultado na água à semelhança da morte de Cristo, e sendo levantado da água à semelhança da sua ressurreição; trazido do ventre da água para o elemento do ar, à semelhança do nascimento natural, tudo feito em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, por homens que possuíam autoridade divina. Nenhum homem tinha direito de administrar estas ordenanças como quisesse, ou segundo alguma fantasia da sua própria mente. Um homem tinha de ser designado para o ministério pela voz de Deus, por meio dos oráculos vivos, ou os seus ministérios eram nulos e sem efeito. Quando o povo era batizado desta maneira, ficava preparado para receber o nascimento do espírito, e, quando as mãos dos Apóstolos eram impostas sobre ele, recebia o Espírito Santo, nascia do espírito, e os efeitos eram, como observei no início, não importa o que antes cresse ou desacreditasse, todos eram trazidos à unidade da fé. Criam da mesma maneira, tinham impressões semelhantes, o mesmo espírito repousava sobre eles, eram irmãos e irmãs, já não estavam divididos de sentimento, mas todos eram inspirados pela mesma influência, e desejavam trabalhar pelo mesmo objeto e propósito. Achamos também que este espírito desenvolvia certos dons entre o povo, alguns internos, não perceptíveis ao olho natural, exceto na medida em que influenciavam os atos dos homens; enquanto outros eram externos. Por exemplo, lemos que os frutos do espírito são estes: "amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança" — a que o orador acrescenta "amor fraternal e caridade" — estes eram os efeitos do Espírito Santo no coração humano, nos tempos antigos. Ora, se o mesmo espírito repousa sobre o povo hoje, produzirá os mesmos frutos. "Cada árvore se conhece pelo seu fruto." Havia outros dons dados por este espírito, dos quais lemos na Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios, 12º capítulo. Ele diz: "Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; e a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; e a outro, a operação de milagres; e a outro, a profecia; e a outro, o dom de discernir os espíritos; e a outro, a variedade de línguas; e a outro, a interpretação de línguas: mas um só e o mesmo Espírito opera todas essas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer." Estes eram os frutos do espírito nos dias dos Apóstolos. Ora, se este mesmo espírito é dado ao povo hoje, por meio da obediência ao Evangelho, produzirá os mesmos frutos. O dom de línguas será desfrutado; os dons de interpretação, de cura, de profecia, de discernimento de espíritos, etc., e o povo será unido em espírito e ficará cheio de amor, alegria, paz, paciência e caridade, e será batizado por um só espírito em um só corpo. ¶
Ora, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias — à qual pertence a maior parte do povo desta congregação — foi estabelecida por comunicação direta do céu, nos nossos próprios tempos, e a razão para o estabelecimento deste Evangelho, novamente por revelação do céu, é esta: o mundo afastou-se do Evangelho antigo, cujo esboço vos tenho dado esta tarde; o povo desviou-se dele, e recorreu às fantasias dos homens. O mundo amontoou para si mestres. Homens foram contratados pelo povo para pregar doutrinas que agradassem ao povo. Por isso, tem havido no mundo divisão em lugar de união; discórdia e contenda surgiram em vez de paz, alegria e amor fraternal, que são os frutos do Evangelho. Mas Deus Todo-Poderoso restaurou este Evangelho no dia e na era em que vivemos, porque, segundo as Escrituras, ele deve ser "pregado a todo o mundo, por testemunho, e então virá o fim." O verdadeiro Evangelho, o Evangelho do nascimento da água e do espírito, sem o qual o homem não pode entrar no reino dos céus, deve ser pregado a todas as nações. Deus restaurou esse Evangelho por comunicação direta dos céus. É a única maneira pela qual poderia ser restaurado. Não pode ser evoluído da mente do homem. Deve vir de Deus, ou não é a obra de Deus. Se Jesus Cristo não tem, pessoalmente, nada a ver com uma igreja, ela não pode ser a Igreja de Cristo. Pode ser uma igreja metodista, episcopal, presbiteriana ou quaker, ou pode ser uma igreja com qualquer outro nome que os homens lhe tenham dado; mas, se é a Igreja de Jesus Cristo, ele estará em comunicação com ela. Ora, o Senhor restaurou este Evangelho por revelação do céu. Com ele, restaurou também a mesma autoridade que possuíam os antigos Apóstolos. Anjos desceram à terra para restaurarem este Sacerdócio. Pedro, Tiago e João vieram como anjos ministrantes e restauraram o antigo Apostolado, no qual está a autoridade de pregar o Evangelho, de batizar para a remissão dos pecados, de impor as mãos para conferir o Espírito Santo, de organizar a Igreja de Deus e pôr todas as coisas em ordem; essa autoridade foi restaurada à terra, e, por essa autoridade, o Evangelho deve ser pregado a todo o mundo, por testemunho, antes que venha o fim. ¶
O mundo maravilha-se de como o povo pode ser reunido de tão diferentes nações e países, e todos se estabelecerem sob uma só forma de fé. O povo tem a ideia de que há aqui certas pessoas que exercem grande influência sobre as mentes dos homens; que reuniram o povo por essa influência, e agora o mantêm aqui em cativeiro. Não poderia haver maior liberdade em parte alguma sobre a face da terra do que a que se desfruta aqui mesmo em Utah, pelo povo chamado Santos dos Últimos Dias. Mas o que os atraiu aqui? O que os torna dispostos a passar por qualquer provação ou qualquer sacrifício pela sua fé? É simplesmente isto: ouviram o Evangelho, receberam-no em seus corações, e nasceram da água e do espírito, o Espírito Santo, o Consolador. O espírito pelo qual os Profetas escreveram e falaram; o espírito pelo qual Jesus Cristo trouxe a palavra viva de Deus; o espírito pelo qual os antigos Apóstolos foram inspirados está aqui na terra, e habita nos corações dos Santos dos Últimos Dias. Foram batizados por um só espírito em um só corpo, e todos os dons do espírito antigamente desfrutados são os frutos do espírito hoje, e cada homem e cada mulher, por si mesmo e por si mesma, recebeu um testemunho divino, diretamente do Todo-Poderoso, à sua própria alma, de que Deus começou a grande obra dos últimos dias, que é estabelecer o seu governo sobre a terra, trazer toda a humanidade à unidade da fé, e preparar o mundo para a vinda daquele a quem pertence o direito de reinar. É o poder do Espírito de Deus Todo-Poderoso que repousa sobre os Santos dos Últimos Dias. É isto que os atraiu aqui, a deixarem os seus lares e amigos e a virem até estas montanhas, onde podem aprender mais sobre os caminhos de Deus, e andar mais de perto nos seus caminhos, onde aprendem ainda mais deste Evangelho e daquelas gloriosas ordenanças que pertencem à salvação da humanidade. ¶
Mas a pergunta que aqui se poderá fazer é: "Se só há um caminho de salvação, e vós o recebestes, e todo o resto da humanidade está nas trevas e não anda nos caminhos da vida, o que será deles, e o que será das massas da raça humana que nunca ouviram este Evangelho?" Direis vós o que será dos pagãos que morreram sem nunca terem ouvido falar do cristianismo, de forma alguma? Pois não há senão um nome dado debaixo do céu pelo qual os homens possam ser salvos. O que será das miríades que passaram para o mundo espiritual sem sequer terem ouvido o nome de Jesus Cristo? O que será de todos os judeus — havendo entre eles bons homens e boas mulheres — o que será dos milhões de judeus que passaram para o mundo espiritual de todas as terras, e alguns deles com grande pressa, também, expulsos pelas mãos de "cristãos" — que nunca obedeceram a Evangelho algum? Ora, a palavra de Jesus Cristo há de permanecer firme. Ainda que eu não pudesse compreender o decreto, ainda que não houvesse raio de luz que o tornasse claro à minha mente, contudo, se creio no Senhor Jesus Cristo, devo crer naquela declaração de que há apenas um caminho para o curral, que nenhum homem pode entrar no reino de Deus sem ter nascido da água e do Espírito, e, até que isto se torne claro à minha mente, devo aferrar-me a ele pela fé, se não o puder compreender pela minha razão. Mas, graças a Deus, isto foi esclarecido às nossas mentes, não porque somos sábios e versados nas Escrituras, mas porque Deus Todo-Poderoso se agradou de o dar a conhecer. É a única maneira pela qual chegamos a um entendimento sobre este ponto. Todas as doutrinas que temos em nossa Igreja são escriturísticas, mas não foram tiradas das Escrituras; vieram diretamente do Todo-Poderoso, por revelação, no nosso tempo. O Profeta Joseph Smith, antes da sua morte, obteve do Todo-Poderoso um conhecimento a respeito da condição dos mortos. Foi-lhe mostrada a condição que ocupariam nas eternidades que hão de vir. Numa grande visão, foi-lhe revelado que há três graus de glória — o celestial, o terrestre e o telestial: que os que entram no reino celestial são os que obedeceram às leis do reino celestial; que os que entram no reino terrestre são os que não obedeceram à lei celestial, mas obedeceram a um grau menor de lei, e, por isso, apenas se prepararam para receber um grau menor de glória; e que os que entram no grau mais baixo de glória são os que são lançados abaixo pelos seus pecados, e que têm de pagar a pena dos mesmos, mas todos, exceto os filhos de perdição, eventualmente sairão do seu sofrimento e entrarão numa condição para a qual estejam qualificados. Mas, além disto, o Profeta Joseph Smith viu que o Evangelho do Reino poderia ser pregado não só ao povo na carne, mas ao povo fora da carne; que, quando o povo parte desta vida, retém a sua identidade; que pode ser informado; que pode receber e rejeitar; e foi-lhe também mostrado que há de vir o tempo em que todos ouvirão o Evangelho do Senhor Jesus Cristo, porque por ele serão julgados. O Apóstolo Pedro diz: "Porque para isso foi o evangelho pregado também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, porém vivessem segundo Deus em espírito." Todos devem ouvir o Evangelho e ser julgados por ele: não seria justo julgar alguém por esse Evangelho se nunca o tivesse ouvido. "Mas," dirá alguém, "isso é uma ideia totalmente nova. A ideia no mundo cristão é que há duas condições para onde vão os espíritos dos homens depois da morte, a saber, o céu ou o inferno." Sei que essa é a ideia comum; mas, segundo a doutrina que Joseph Smith ensinou, e que aprendeu por revelação do céu, há de vir o tempo em que todos ouvirão o Evangelho do Filho de Deus, e todos terão a oportunidade de dobrar o joelho perante o Rei Emanuel, e de o fazer com entendimento. ¶
Ora, quando examinamos as Escrituras, achamos que Jesus Cristo, numa certa ocasião, leu na sinagoga judaica uma passagem do Livro de Isaías. Achá-la-eis no 61º capítulo de Isaías. Que diz ela? "O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a apregoar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; a apregoar o ano aceitável do Senhor." Esta era parte da missão de Cristo. Não foi enviado apenas para pregar boas novas aos mansos, mas, ao que parece, tinha uma missão para alguns que estavam em cativeiro. Lerei um ou dois versículos sobre o mesmo assunto, do 42º capítulo do Livro de Isaías: "Eu, o Senhor, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te guardarei, e te darei por convênio do povo, e para luz dos gentios; para abrir os olhos cegos, para tirar os cativos da prisão, e da casa do cárcere os que jazem em trevas." No 49º capítulo de Isaías, encontramos observações da mesma natureza: "Para dizeres aos presos: Saí; e aos que estão em trevas: Aparecei." Pergunto: foram cumpridas estas predições, que geralmente se admite terem sido proferidas a respeito de Jesus Cristo? Vejamos. Jesus Cristo foi tomado por mãos ímpias, pendurado na cruz e crucificado. Orou pelos seus inimigos antes de partir; orou para que Deus os perdoasse, porque não sabiam o que faziam, e então "inclinou a cabeça, e entregou o espírito." Para onde foi o fantasma, ou espírito, de Cristo, depois de deixar o corpo? O corpo foi retirado e colocado na sepultura; mas onde estava Jesus? Estava deitado naquela sepultura, embalsamado? Oh, não; aquilo era apenas o corpo indefeso. O seu espírito tinha partido. Para onde tinha ido? Diz alguém: "foi para o céu, naturalmente." Esperai um momento. Três dias depois disto, encontramos este mesmo Jesus, cujo corpo tinha sido colocado na sepultura, andando no jardim, "e, com medo dele, os guardas tremeram, e ficaram como mortos." Jesus, enquanto andava no jardim, encontrou Maria; e Maria, supondo que ele fosse o hortelão, perguntou onde tinham posto Jesus. Ao dar-se a conhecer a ela, ela correu para ele. Então ele lhe disse: "Não me toques; porque ainda não subi para meu Pai: mas vai para meus irmãos, e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus." Ora, houve três dias entre a colocação do corpo de Cristo na sepultura e a sua ressurreição. Onde estava Jesus, o verdadeiro Jesus, o Jesus vivo, enquanto o seu corpo jazia na sepultura? Quem no-lo pode dizer? Lemos no terceiro capítulo da primeira epístola de Pedro, versículos 18 a 20: "Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado na verdade, na carne, porém vivificado pelo Espírito: no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; os quais antigamente foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas, isto é, oito almas, se salvaram pela água." Onde estava ele? Para onde foi? "Mortificado na carne, porém vivificado pelo Espírito, foi e pregou aos espíritos em prisão." Ali estava Cristo entre o tempo da sua morte e a sua ressurreição, pregando a libertação aos cativos, a abertura da prisão aos que estavam presos. Mas dirá alguém: como sabeis o que ele lhes pregou? A resposta encontra-se no 4º capítulo da mesma epístola, e no 6º versículo, a saber: "Porque para isso foi o evangelho pregado também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, porém vivessem segundo Deus em espírito." Por isto parece que Jesus Cristo foi e pregou o Evangelho aos mortos. Para quê? "Para que fossem julgados segundo os homens na carne;" pois não seria justo julgá-los por esse Evangelho se nunca tivessem tido a oportunidade de o ouvir. Aqui está Jesus, estendido na cruz, orando pelos seus inimigos; inclina a cabeça e entrega o Espírito; o seu espírito parte do seu corpo; vai para o Paraíso. Foi para lá que foi o ladrão que se arrependeu na cruz. "Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino," clamou ele. E Jesus disse-lhe: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso." Estaria isto na presença do Pai, no céu, na glória? Oh, não. Estava no lugar dos espíritos falecidos, alguns deles espíritos desobedientes; parte dele, o lugar em que se encontrou o homem rico de quem se fala na parábola de Lázaro. Cristo foi ao mundo espiritual, e o ladrão foi com ele. Era um lugar onde os ímpios pagam "o último ceitil" pelos seus pecados na carne. Ali foi Jesus. Já não amarrado pelas leis que governam a terra, já não sujeito às cadeias da carne. Este é o lugar de que fala Davi, quando diz: "Levantai, ó portas, a vossa cabeça; levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória." Jesus não é agora o menino de Belém, não é agora o desprezado dos homens, não está agora carregando os pecados dos homens sobre a cruz, mas é Jesus, o poderoso, Jesus, o vencedor. Jesus, o Filho de Deus, Jesus, o Príncipe, Jesus, o puro, que não conheceu pecado, e sobre quem a morte não tinha direito algum. Entrou na morada dos condenados. Proclamou a libertação aos cativos. Pregou o Evangelho aos mortos. Abriu a casa do cárcere e "levou cativo o cativeiro." Depois, voltou ao lugar onde jazia o seu corpo, na sepultura. Os guardas recuaram como se estivessem mortos, quando os anjos, com as chaves da ressurreição, apareceram à porta do sepulcro. A grande pedra foi rolada, e o Cristo ressuscitado saiu em seu poder. Empunhou as chaves do inferno quando entrou nas regiões escuras do Hades. Empunhou as chaves da morte quando voltou triunfante, e subiu às alturas para receber "todo o poder, tanto na terra como nos céus." ¶
Ora, isto pode ser uma visão diferente daquela que se tem tido por centenas de anos, mas é a verdade eterna de Deus, e, tal como sucedeu com os desobedientes nos dias de Noé, assim sucederá com os dos últimos dias. Será como se nos diz no 24º capítulo de Isaías, onde o Profeta, falando dos últimos tempos, diz: "E acontecerá que naquele dia o Senhor castigará os exércitos do alto nas alturas, e os reis da terra sobre a terra. E juntamente serão amontoados como presos numa masmorra, e serão encarcerados num cárcere, e outra vez serão visitados depois de muitos dias." ¶
Jesus Cristo, quando esteve sobre a terra, usou desta notável linguagem: "Aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas; porque eu vou para meu Pai." Parece, por isto, que aqueles que verdadeiramente creem em Jesus, aqueles que são verdadeiramente seus discípulos, seguirão os seus passos, farão as obras que ele realizou, seguirão o mesmo caminho que ele trilhou, para que, com o tempo, possam chegar à mesma glória. Assim, aprendemos, pelas revelações de Deus, por meio do Profeta Joseph Smith, que, quando os servos de Deus partem deste palco de ação, seguem os passos do ilustre capitão da nossa salvação; pregam a libertação aos cativos; publicam o Evangelho da paz nas regiões dos falecidos. Multidões de judeus, multidões de pagãos, e multidões de cristãos morreram para despertar e se encontrarem no mundo espiritual, e não na glória que esperavam, porque o tempo de receber a glória e a recompensa não é senão depois do juízo. E ser-lhes-ão oferecidas, no espírito, aquelas verdades essenciais que não puderam aprender enquanto na carne. ¶
Não é isto reconfortante para os nossos corações? É-o para o meu. Tinha pensado nisto muitas vezes, antes de compreender este princípio, e, quando esta luz me chegou, encheu-me de alegria: que todo o povo que alguma vez viveu na terra terá o privilégio de ouvir o Evangelho de Cristo; que Deus não é tão limitado quanto os pregadores sectários o fariam; que ele não considera apenas algumas das suas criaturas, mas que "as suas misericórdias se estendem sobre todas as suas obras," e que todos terão a oportunidade de receber ou rejeitar os meios de salvação, e cairão ou se sustentarão por causa disso. ¶
Ora, há outra pergunta que surgirá, sobre a qual devo dizer uma ou duas palavras, para tornar clara esta doutrina. Quando o povo que parte da terra sem ouvir o Evangelho vai para o mundo espiritual, e, com o tempo, um homem de Deus vem pregar a palavra de Deus, e estão dispostos a recebê-la, podem eles nascer da água e do Espírito? É o batismo uma ordenança que se pode realizar no mundo espiritual? Eu pensava, diz alguém, que a água era um elemento, ou composto de elementos, pertencente à terra. Ora, segundo as revelações deste grande Profeta, Joseph Smith — um dos maiores Profetas que jamais respirou o fôlego de vida, excetuando, naturalmente, o Senhor Jesus Cristo — aqueles que recebem o Evangelho no mundo espiritual podem ter as ordenanças terrenas necessárias realizadas por eles, por procuração, isto é, os vivos podem ser batizados pelos mortos. Isto sobressaltará algumas pessoas. Alguns bons cristãos ficarão chocados com esta ideia. Mas parai; não vos apresseis. Já pensastes alguma vez no princípio de um morrer por outro? Não sofreu Jesus por todos, segundo o princípio de uma expiação vicária? Sobre este princípio de procuração assenta todo o plano da redenção humana. Sem esse princípio de procuração, cada um teria de pagar a pena de sangue e morte, pois o salário do pecado é a morte, e "todos pecaram, e destituídos estão da glória de Deus," e "sem derramamento de sangue não há remissão de pecado." Cristo morreu por vós, por mim e por toda a humanidade, na condição de que recebessem o seu Evangelho. Morreu, "o justo pelos injustos, para nos levar a Deus." Aquele que não conheceu pecado morreu por aqueles que tinham pecado. Aqui, pois, está o princípio de procuração na morte vicária de Jesus Cristo, tal como foi tipificado nas ordenanças e sacrifícios que foram dados na lei dos mandamentos carnais. ¶
Mas é esta uma doutrina escriturística? É. No 15º capítulo de I Coríntios, 29º versículo, achamos Paulo a fazer uma pergunta peculiar. Está a falar da ressurreição dos mortos. O povo, naqueles dias, não compreendia muito sobre esse assunto. Pergunta ele: "Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos?" Por isto parece que, na igreja cristã primitiva, os vivos eram batizados pelos mortos. Por isto podemos compreender o que Paulo quis dizer quando, escrevendo aos Hebreus, a respeito dos seus antepassados falecidos, disse: "Deus provendo alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados." Esta é a condição de muitíssimos dos nossos antepassados; não podem ser aperfeiçoados sem nós. Não há redenção para os vivos ou para os mortos, senão pelo verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. Não o Evangelho de Wesley, de Calvino, de Lutero, ou de qualquer outro homem, mas o Evangelho de Jesus Cristo, na sua pureza, tal como desce dele para a salvação da família humana. Sem obediência a esse Evangelho, nem os vivos nem os mortos podem ser salvos. ¶
Tenho grande prazer em dar o meu testemunho de que sei que o verdadeiro Evangelho foi restaurado à terra. Sei que o Apostolado foi enviado do céu novamente à terra, e que o poder, assim como o nome, está aqui. Homens receberam autoridade dos céus para administrar em todas as ordenanças da casa de Deus. Este é o único Evangelho, o verdadeiro Evangelho de fé, arrependimento e batismo para a remissão dos pecados, e o recebimento do Espírito Santo, pela imposição das mãos, com o cultivo de tudo o que é bom, e a superação de tudo o que é mau. Este é o Evangelho do reino. Será pregado a todo o mundo, por testemunho de que o fim está próximo. Não há poder que possa deter o progresso desta obra. É para isto que os nossos missionários saem pelo mundo. Algumas pessoas têm a ideia de que são simplesmente agentes de emigração, para reunir gente para Utah. Não é assim. Saem para pregar o Evangelho de Cristo entre as nações da terra. Deve ser proclamado a toda nação, tribo, língua e povo: aos que professam religião e aos que não professam, aos pregadores e às suas congregações, aos pastores e aos seus rebanhos, ao rei no seu trono e ao camponês na sua cabana, aos presidentes das repúblicas, e, de fato, a todos os povos sobre a face da terra. Todos devem ouvir a voz de aviso: Arrependei-vos dos vossos pecados, ó habitantes da terra! Afastai-vos das vossas corrupções, com que vos tendes contaminado, a vós e à terra em que habitais, ou ai de vós, pois eu, o Senhor Deus, purificarei a terra como com a vassoura da destruição. Arrependei-vos, antes que o juízo vos alcance. Arrependei-vos, e sede batizados, cada um de vós, em nome do Senhor Jesus, e sereis purificados do pecado, e um novo coração vos será posto. Nascereis da água, e sereis feitos novas criaturas em Cristo Jesus. Nascereis do Espírito, o Espírito Santo vos será dado como um dom de Deus, que será uma luz para os vossos pés e uma lâmpada para o vosso caminho, pelo qual podereis ser trazidos à comunhão com o Pai e o Filho e as hostes celestiais, pelo qual a luz e a inteligência podem ser transmitidas do reino celestial às vossas almas, e pelo qual podereis saber que sois aceitos por Deus! Este Evangelho deve ser pregado a todo o mundo pelos servos de Deus. E onde quer que o seu testemunho tenha sido recebido — na Inglaterra, na Escócia, no País de Gales, na Irlanda, na França, na Itália, na Alemanha, na Suécia, na Dinamarca, nas ilhas do mar, por todos os Estados Unidos, na América do Sul, na África e nas Índias Orientais — os que lhe obedeceram foram todos batizados no mesmo corpo, e adoram ao mesmo Deus da mesma maneira, e todos querem vir para cá, o grande lugar de ajuntamento dos Santos. Não há necessidade de os persuadir a vir: a grande dificuldade é encontrar dinheiro para os trazer para cá, quando querem ajuntar-se. Nisto estão a cumprir as palavras de Isaías e de Malaquias: "E acontecerá," diz o Profeta Isaías, "nos últimos dias, que o monte da casa do Senhor se firmará no cume dos montes, e se exalçará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações. E irão muitos povos, e dirão: Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine acerca dos seus caminhos, e andemos nas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor." Os que recebem o Evangelho vêm para cá "como as pombas às suas janelas." Do leste e do oeste, do norte e do sul, Deus está a reunir os seus eleitos dos quatro cantos da terra. Este é um dos sinais da segunda vinda do Filho do Homem. Estamos a construir este Templo — não me refiro ao Tabernáculo em que agora estamos reunidos, embora o Profeta Isaías fale também de um tabernáculo, um abrigo do calor e um refúgio da tempestade e da chuva — mas refiro-me ao Templo, noutra parte deste quarteirão; temos outros também em St. George, Logan e Sanpete. Para que servem? Ora, para que os vivos possam entrar na Casa de Deus, segundo o padrão recebido do alto, e cuidar das ordenanças pelos mortos. Joseph Smith e Hyrum Smith foram mortos pela palavra de Deus e pelo testemunho de Jesus, e seguem os passos do seu Divino Mestre. Foram para o mundo espiritual e pregaram a libertação aos cativos, e estamos a construir estes Templos ao nome de Deus, no cume das montanhas, para que os mortos possam ser plenamente redimidos. ¶
Apenas toquei neste assunto, e o meu tempo não me permitirá ir mais longe. Mas desejo dar o meu testemunho a esta congregação de que o Senhor restaurou este Evangelho de que tenho falado. O seu poder está aqui, os dons antigos estão aqui, e eu o sei, e centenas e milhares dos que ocupam estes vales o sabem. É por isso que somos Santos dos Últimos Dias; é por isso que estamos dispostos a ser expulsos e desprezados pelos homens: é por isso que nos apegamos à nossa fé: e digo-vos que esta obra continuará avante, não importa o que possa acontecer, ou que oposição se levante contra ela, pois esta é a obra de Deus. Os reis da terra e as legislaturas das nações podem aconselhar-se entre si, podem traçar os seus planos e fulminar os seus decretos, mas não podem deter esta obra em que estamos empenhados. Continuará avante, não porque sejamos tão sábios ou tão grandes — pois Deus escolheu as coisas fracas da terra para confundir as poderosas — mas porque é a obra de Deus. Poder algum pode impedir esta obra na menor medida; toda arma que se levante contra ela cairá por terra. O Evangelho será pregado, Israel será reunido, e todas as nações e povos serão subjugados, até que todo joelho se dobre e toda língua confesse que Jesus é o Senhor, para a glória de Deus Pai. E as moradas dos mortos, e os salões do mundo espiritual, e cada parte do universo ressoarão com o Evangelho da paz, pregado pelos servos de Deus, até que todos ouçam e obedeçam, e, quando a obra estiver terminada, Jesus Cristo irá diante do Pai e lhe apresentará esta obra concluída, para que Deus seja tudo em todos. ¶
Que o Senhor nos ajude a ser obedientes, a trabalhar na sua causa conforme somos chamados a trabalhar, para que encontremos o nosso caminho de volta à presença de nosso Pai, e recebamos a coroa e a recompensa dos fiéis, assim seja. Amém. ¶