Revelação — Os Privilégios dos Santos, Etc
George Q. Cannon
Os princípios que foram apresentados esta tarde estão tão estritamente de acordo com os princípios que foram ensinados pelos servos de Deus nos tempos antigos, que qualquer pessoa, após reflexão, deve reconhecer que, para haver uma igreja que professe ser a Igreja de Cristo, deve necessariamente existir nela, se os princípios antigos forem seguidos, o espírito de revelação. Na Bíblia, que nos chegou como o registro dos tratos de Deus com o seu povo, desde os dias de Adão, nosso pai, até aos dias dos últimos discípulos de Jesus Cristo: nesse registro somos informados de que todo homem que professava ser seguidor do Senhor, e especialmente aqueles que pertenciam à Igreja de Jesus Cristo, desfrutava, da parte do Senhor, aquele espírito de revelação. É difícil conceber — se não víssemos ao nosso redor organizações que professam ser seus seguidores e não desfrutam do seu Espírito Santo, ou o Espírito Santo, que comunica a sua mente e a sua vontade àqueles que o procuram. Naturalmente, vemos ao nosso redor, na cristandade, qualquer número de igrejas que professam ser as igrejas de Cristo, cujos membros negam a comunicação atual da parte de Deus, que dizem que a revelação já não é necessária; que o cânone da escritura está completo, que todas as revelações que Deus tinha a dar aos homens já as deu, e que estão contidas no Antigo e no Novo Testamento. Temos, como já disse, qualquer número de igrejas que fazem esta afirmação, ensinam estas doutrinas e treinam as crianças e os adultos na crença de que Deus deixou de falar, que deixou de comunicar a sua mente e vontade aos seus filhos; que o canal de revelação que uma vez foi aberto, e pelo qual todos os que eram os seus verdadeiros filhos eram distinguidos — que esse está para sempre fechado. Mas, como já disse, se não fosse a existência destas organizações; se não fosse o fato de que estes são os ensinamentos que a humanidade recebe; se fôssemos ler o próprio Livro, e confiar nas suas afirmações, a conclusão natural seria de que seria o privilégio de todo homem e de toda mulher que pertencesse à Igreja de Cristo ter comunicações da sua parte, pela razão, como já afirmei, de que era a característica distintiva da organização conhecida como a Igreja de Cristo na dispensação messiânica. Era também a característica distintiva dos homens que foram servos de Deus antes dos dias de Jesus. Seria uma ideia muito singular — se não fosse a existência dessas tradições a que me referi — que Deus, nosso eterno Pai, o nosso Grande Criador, cortasse os seus filhos de toda comunicação com ele, e os deixasse tatear na escuridão, vagueando de um lado para outro sem meio algum certo de conhecer a sua mente divina, de compreender a sua vontade divina a respeito de si mesmos e dos assuntos da terra. Posso associar-me ao irmão Nicholson, que expressou a sua alegria e gratidão por vivermos num dia em que Deus mais uma vez rompeu o silêncio que reinou durante séculos, e revelou a sua mente e deu a conhecer o plano de salvação, na sua antiga simplicidade e pureza, aos habitantes da terra. E se há uma coisa que faz a minha alegria ser ainda maior do que outra, é o fato de que este conhecimento, como ele afirmou, não está confinado a um homem, nem a três homens, nem a doze homens, mas que é comunicado a toda alma humilde que o procura num espírito que é aceitável a Deus. É motivo constante de gratidão para mim que um povo tenha sido reunido que está aliviado, em grande medida, da incerteza, e das lutas, contendas e divisões sobre pontos de doutrina que prevalecem por toda a cristandade. Há em todo coração humano um desejo de saber algo acerca de Deus. Creio que é Bancroft quem diz que o homem natural, o bárbaro, acredita em Deus naturalmente; mas o ceticismo e a incredulidade são os companheiros da civilização, do que se chama esclarecimento. Não há homem que não tenha sufocado aquela porção do espírito de Deus que nele nasceu, que não deseje saber algo acerca de Deus; acerca dos seus propósitos, acerca do plano de salvação, acerca do objeto da sua criação e da sua colocação na terra, e também acerca do seu futuro destino. E porque este conhecimento não vem da maneira que os homens gostariam que viesse, porque Deus não se conforma às ideias e expectativas dos homens, muitos negam a existência de Deus, e dizem que, se houvesse um Deus, certamente revelaria algo àqueles que procuram sinceramente compreendê-lo. Mas há um dito registrado por um antigo Profeta, que a experiência prova ser verdadeiro, mesmo a experiência daqueles que melhor conheceram a Deus, e que estiveram mais familiarizados com o plano de salvação. O Senhor disse que "assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos." Não podemos compreender a Deus; não podemos ditar-lhe o plano que deve seguir para salvar os seus filhos. Os homens frequentemente dizem: "Como seria fácil para Deus revelar-se; como seria fácil para ele tornar a sua mente e vontade conhecidas tão indisputavelmente que ninguém pudesse cavilar sobre isso ou rejeitá-lo; como seria fácil para ele abrir os céus e manifestar a sua glória, e enviar anjos para que todos vissem." Sem dúvida os Élderes desta Igreja têm sido frequentemente confrontados com a objeção — sempre que testificaram que Deus tinha estabelecido a sua Igreja no seu antigo poder, com os seus antigos dons, restaurado o evangelho eterno, e a autoridade para administrar as suas ordenanças, e que tinha feito isto pela administração de santos anjos — foram confrontados com a objeção "Bem, se este testemunho for verdadeiro, por que não enviou ele anjos a alguém ou a algum povo em quem todos acreditassem, e a respeito de cujo testemunho não pudesse haver dúvida, em vez de os enviar a um jovem obscuro, um rapaz iletrado, no Estado de Nova Iorque, retendo de todo o resto da humanidade todo conhecimento deste maravilhoso acontecimento." Naturalmente este tipo de argumento aplica-se ao próprio Salvador, aplica-se a todo o plano de salvação, aplica-se a todo Profeta que jamais viveu, e não pode ser confinado apenas a Joseph Smith ou aos Santos dos Últimos Dias. Com igual força poderia aplicar-se àqueles que viveram no tempo da ressurreição do Salvador. Por que não foi ele visto por todo o povo? Por que nasceu o Filho de Deus em lugar tão obscuro, nascido num estábulo e posto num presépio? Por que não se revelou ele em poder? Por que não convenceu todos os habitantes da terra tão irresistivelmente que se veriam obrigados a aceitá-lo como o Filho de Deus? Este argumento aplicar-se-ia a outras dispensações além daquela do Filho de Deus. Aplicar-se-ia a Noé, a Abraão, a Moisés, e a todos os Profetas e Apóstolos que jamais viveram. Mas Deus, como já disse, tem uma maneira de fazer estas coisas que não se harmoniza com as ideias dos homens. Há uma coisa que nós, como povo, deveríamos entender, e é que Deus intencionalmente colocou um véu entre si próprio e os habitantes da terra para realizar os seus próprios desígnios. Ele tem o poder — todos o admitimos, isto é, todos os que creem em Deus —, de se revelar na sua plenitude; tem o poder de abrir os céus e mostrar a todo ser vivente tudo o que os céus contêm. Não há limite ao seu poder. Ele controla as inumeráveis hostes do céu. Basta-lhe proferir a sua ordem e elas obedecem. Jesus disse, numa ocasião: "Ou pensas tu que não poderia eu agora orar a meu Pai, e ele me daria mais de doze legiões de anjos?" Mas Deus, como já disse, colocou intencionalmente um véu sobre os habitantes da terra. Permitiu a Adão que caísse; permitiu-lhe transgredir a sua lei, para trazer a queda da raça humana, a fim de que o homem pudesse existir, pois, sem a queda, o homem não teria tido existência na terra. "Adão caiu", portanto, "para que os homens existissem; e os homens existem para que tenham alegria." Havia um propósito nisto. Deus, através da sua presciência, compreendeu tudo. Conhecia o fim desde o princípio. Estava tudo arranjado. O Filho de Deus foi pré-ordenado, para vir como um Cordeiro morto desde a fundação do mundo, para morrer pelo homem e expiar o pecado original, e para trazer a passagem da ressurreição dos mortos, sendo ele as primícias daqueles que dormiram. Deus determinou que ele viesse aqui e se revestisse de humanidade. Determinou que lutássemos e contendêssemos aqui, nesta provação, com um vislumbre de conhecimento, uma pequena luz. Deu-nos a sua palavra. Ordenou-nos que o procurássemos, e aquele que procura encontrará, a quem bate abrir-se-lhe-á, e aquele que pede receberá. Como? Virá isto de maneira a convencer todo o mundo? Não. Não haveria fé se assim fosse; não haveria lugar para o exercício da fé. Deus deseja que os seus filhos se desenvolvam. E que melhor posição poderíamos ter para o desenvolvimento de toda espécie do que numa escola de experiência como aquela pela qual estamos agora passando na terra? Se Deus se revelasse como muitos desejariam, não haveria lugar para o exercício da fé, não haveria necessidade de luta. Mas há dois grandes poderes na terra. Aqui está o poder de Deus à direita, e à esquerda está o poder do mal, e, como nos diz o Livro de Mórmon, "é necessário que haja uma oposição em todas as coisas." Não poderíamos desfrutar o doce se nunca tivéssemos provado o amargo. Há dois princípios em ação, e temos de lidar com eles. Jesus, o nosso Grande Sumo Sacerdote e Irmão Mais Velho, quando esteve na terra, teve de contender contra o mal. Não estava isento de tentação. Foi tentado em todas as coisas como nós, mas diferiu de nós ao ser capaz de vencer a tentação, ao ser sem pecado pelo poder que possuía através da sua filiação. Mas deu-nos o exemplo. Conhece, através daquilo que teve de enfrentar, a fraqueza da natureza humana. Está como mediador à mão direita do Pai, intercedendo pelos seus irmãos e irmãs que, como ele, estão sujeitos às provas, tentações e aflições que existem nesta vida mortal. Mas, por causa disto, diremos que Deus não fala? Porque não vemos o seu rosto, diremos que ele não existe? Porque não ouvimos a sua voz, diremos que não tem voz? Porque não vemos a sua mão ou o seu braço — isto é, aquilo a que chamamos mão ou braço —, diremos que ele não tem nem mão nem braço? Certamente que não. Ele será procurado, e todos os que o procurarem receberão a sua bênção. Dará certeza, removerá a dúvida e o mal-entendido, e dará luz, e capacitará todos os que assim procedam a compreender e ver tanto quanto lhes seja necessário para o seu bem; conduzi-los-á passo a passo, até que cheguem à sua presença, se obedecerem aos seus mandamentos. Não terão de fazer isto na escuridão ou na dúvida, não terão de pôr de lado ou entregar o seu juízo, mas ele lhes dará a sua mente e vontade com tal clareza que hão de saber e compreender por si mesmos, ainda que possam ser tentados, provados e afligidos. ¶
A proclamação do Evangelho, tal como tem sido ensinada nos nossos dias, tem trazido paz a milhares e milhares de almas em busca. Foi muito notável, na época em que esta Igreja foi organizada, como o espírito de Deus se moveu sobre uma grande quantidade de pessoas por todos os Estados Unidos, no Canadá, na Grã-Bretanha, na Dinamarca, e noutros países aonde os Élderes foram, levando as boas novas da restauração do Evangelho antigo. Em muitos lugares, membros de igrejas estavam insatisfeitos com a falta de poder nas igrejas a que pertenciam, insatisfeitos com a ausência de dons, e reuniam-se e oravam a Deus para que se revelasse ou lhes desse algum conhecimento acerca do antigo plano de salvação. Aqui estão os meus dois irmãos nesta tribuna, o Presidente Taylor e o Presidente Woodruff, homens idosos, que na sua juventude ou na sua primeira idade adulta estavam nesta condição — o Presidente Taylor no Canadá, e o Presidente Woodruff em Connecticut, um deles um pregador metodista, e o outro membro de nenhuma denominação. Ambos, durante anos, procuraram a Deus com toda a sinceridade das suas almas para lhes manifestar a sua mente e vontade. Estavam insatisfeitos com a condição existente das coisas. O Presidente Taylor, com outros membros da igreja a que pertencia, reunia-se para ler as Escrituras e investigar os princípios ensinados pelo Salvador e seus Apóstolos, tais como os dons que seguem os crentes; mas, na igreja a que pertenciam e nas outras igrejas ao seu redor, não existiam tais dons. Estavam insatisfeitos com esta condição de coisas, conscientes de que Deus era o mesmo então como tinha sido 1.800 anos antes. Procuraram a restauração destes dons, e, quando chegou um Élder com as boas novas de que uma igreja tinha sido organizada segundo o padrão antigo, e se convenceram de que era verdade, encheu as suas almas de alegria, e o Presidente Taylor, e vários outros que agora estão nesta cidade, ou neste Território, membros desta Igreja, receberam as doutrinas com alegria. No princípio duvidaram da sua verdade. Parecia demasiado bom para ser verdade. E sentiram também um pouco como o povo da Judeia nos tempos antigos, quando Jesus estava na terra. As pessoas perguntavam-lhes: "Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?" Assim sentiam a respeito desta Igreja. As pessoas diziam: "Que bem pode vir de uma fonte assim, como se diz que esta é." O mesmo com o irmão Woodruff, o mesmo com centenas de homens e mulheres. E não sei se se deveria limitar a centenas; poder-se-ia dizer que centenas e milhares tinham um anseio, um desejo ansioso, por algo mais elevado, algo mais nobre, algo mais certo, algo que fosse de Deus. Este sentimento animava milhares de corações em várias terras, e os Élderes foram guiados até eles, e quando viram os seus rostos, quando ouviram os seus ensinamentos e se humilharam em obediência aos mandamentos de Deus, ficaram profundamente convencidos, pelo testemunho de Jesus Cristo, de que o evangelho que eles ensinavam era, de fato, o antigo Evangelho restaurado. E de toda terra aonde as boas novas foram levadas pelos Élderes desta Igreja, estas pessoas humildes atravessaram continentes e oceanos, abandonando tudo por causa do Evangelho, alegres nos seus corações por o terem recebido; como o homem que tinha encontrado a pérola de grande valor, estavam prontos a vender tudo para a compra dessa, para poderem tê-la na sua posse. Estavam prontos a abandonar o lar, os parentes, as velhas associações; estavam prontos a sacrificar o seu bom nome — pois isso teve de ser sacrificado —, toda a reputação passada que pudessem ter tido, tudo teve de ser lançado, por assim dizer, ao vento. Mas tinham encontrado a pérola de grande valor. Tinham obtido um testemunho de Deus, e podiam suportar a perseguição. As turbas não podiam extinguir o amor à verdade. A queima de casas, a destruição de propriedades, e mesmo a perda da própria vida, não os podiam levar a abandonar a verdade. Lançaram a sua sorte com os Santos. Este sentimento de unidade tem permeado todo este povo, para onde quer que vades. Podeis ir até aos antípodas e encontrar um ramo da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Podem nunca ter visto um Élder vindo de Utah, e, no entanto, quando entrardes nas suas congregações e vos reunirdes com eles, descobris que acreditam nas mesmas doutrinas, têm precisamente o mesmo espírito e a mesma fé. Antes de ouvirem a verdade, poderiam não ter desejado, e nunca ter pensado em deixar a sua terra natal, mas, assim que recebem o Evangelho, encontrareis nos seus corações, mesmo que nenhum Élder o tenha ensinado, um desejo inextinguível de vir e se associar com o povo de Deus nas Montanhas Rochosas, e nunca ficam satisfeitos até que possam realizar o seu desejo. Ide ao norte e ao sul, ao leste e ao oeste, e às terras mais distantes sobre a face da terra, e encontrareis nos seus corações o mesmo sentimento, nada mais os satisfará. Deus falou, Deus tocou os seus corações pelo poder do Espírito Santo, e é isto que nos tem sustentado. É este sentimento que devemos cultivar. É mais precioso para nós do que a própria vida. É o espírito de Deus que une coração a coração, que une homem e mulher com laços mais fortes do que a morte — a morte não os pode romper. Onde este sentimento é cultivado, a perseguição pode rugir com toda a fúria que for possível, não o pode destruir. Agradeço a Deus, do fundo do meu coração, quando penso nisto, por viver num dia como este e por pertencer a uma igreja desta natureza, por me ser permitido ter uma membresia na Igreja, pois, para onde quer que fordes na terra, não encontrareis nada semelhante a isto. Esta fraternidade vem de Deus. É um antegozo daquela fraternidade que há de existir nos céus; é um antegozo daquela união e daquele amor que ali há de prevalecer, e sem os quais o céu não seria céu. E de onde a sua origem? Onde se originou? Originou-se no céu, e foi comunicada através de um humilde instrumento que os homens desprezavam. ¶
É uma prova de fé abraçar um Evangelho ensinado por um homem com a reputação que o mundo deu a Joseph Smith, com todas as falsidades que se difundiram a seu respeito. É uma prova de fé, hoje, para os habitantes da terra, receber qualquer coisa que tenha origem entre o povo "mórmon". Ora, tanto se poderia acusar um homem de ser leproso em algumas sociedades como acusá-lo de ser "mórmon"! Os homens evitarão o contato com ele. Para quem conhece os Santos dos Últimos Dias, é motivo de riso ver o sentimento que se manifesta, e não há maior causa de espanto na mente desta classe do que quando chegam a Utah e veem a condição das coisas aqui existentes; é tão diferente de tudo o que esperavam. Homens e mulheres frequentemente enchem-se das ideias mais escandalosas a respeito dos Santos dos Últimos Dias. Vêm aqui esperando ver monstros, como se tivéssemos chifres ou fôssemos seres de espécie diferente dos outros povos. Ora, como já disse, é preciso fé e amor à verdade para abraçar o Evangelho em tais circunstâncias. E o diabo está fazendo tudo o que pode, como sempre fez, para prejudicar a mente dos homens, para os enganar, para lhes lançar poeira aos olhos, caluniando os servos de Deus e o povo de Deus. Fez isto com o Salvador. Por que não acreditou toda a Judeia no Salvador, um ser santo cuja vida era imaculada, realizando poderosos milagres no meio do povo? Não poderiam todos ter abraçado o Evangelho? Foi desígnio de Deus que não o abraçassem? Não. Deus dá-nos o nosso arbítrio, e nós mesmos não percebemos quão grande isto é. Não há limite para o nosso arbítrio. O poder de escolher o bem, o poder de recusar o mal, o poder de escolher o mal e recusar o bem é dado a todo ser humano. Podemos, se assim escolhermos, aceitar a Deus; podemos, se assim escolhermos, rejeitar a Deus. Não há compulsão a este respeito, a respeito do seu Evangelho, ou a respeito do plano de salvação. Se vós e eu formos salvos, será porque fomos obedientes, e exercemos o poder que Deus nos deu. Não há limite para isto. Podemos procurá-lo em humildade, em nome de Jesus, e continuar fiéis até ao fim; podemos caminhar humilde e retamente com toda a capacidade de que dispomos, observando a virtude, a castidade, a honestidade e a veracidade, ou podemos, pelo contrário, voltar-nos para o mal, podemos rejeitar tudo o que é bom, podemos ser falsos, podemos ser impuros, podemos ser desonestos, podemos praticar a iniquidade. Como o Senhor disse a Caim: "Se procederes bem, não haverá aceitação para ti? Se não procederes bem, o pecado jaz à porta." Se ele quisesse proceder bem, seria aceito. O arbítrio estava nele; Deus lho tinha dado, e não lho tiraria. Deixaríamos de ser os seres que ele deseja que sejamos, se o fizesse. Não somos autômatos para sermos movidos por alguma mão dirigente, ou puxados por um cordel. Deus controlará as nossas ações, mas não nos ditará nem nos obrigará. Ele sobrepõe todas as coisas para a sua glória e para a realização dos seus propósitos. Os vossos atos e os meus, e os atos de todos os habitantes da terra, estão sujeitos a Deus, que é a providência suprema sobre todos, e ele controla tudo para se adequar aos seus propósitos divinos através da sua superior sabedoria e poder supremo. Mas, se chegardes ao céu, como já disse, se cantardes os cânticos dos remidos, sê-lo-eis porque vós mesmos escolhestes esse caminho e determinastes, com a sua ajuda, andar nele todos os vossos dias; se alguém for algum dia contado entre os condenados, se algum, alguma vez, for para as trevas exteriores e suportar a miséria daqueles que rejeitaram a verdade e violaram aquelas leis que Deus deu, violaram, por outras palavras, a luz que estava dentro deles, e que vem de Deus — se alguém ali estiver, será porque escolheram andar no caminho que leva naquela direção, e Jesus não veio para os salvar, a menos que procurem salvar-se a si mesmos; seria contrário ao plano de salvação se ele o fizesse. Há, portanto, sabedoria divina no fato de vermos tão pouco da presença divina como vemos, é uma prova da nossa fé, e, no entanto, aqueles que seguem o caminho certo recebem a luz que é necessária. Posso testificar-vos isto, hoje, com toda a solenidade perante o Senhor: sei que Deus é um Deus de revelação. Sei-o por mim mesmo. Sei que ele é um Deus que ouve e responde à oração. Sei que é um Deus que sara os doentes quando é procurado com fé, e que as obras poderosas que se fizeram nos tempos antigos ele está tão disposto a que se façam hoje, se o seu povo exercer fé. Ele não adormeceu, como o velho Baal fez. Vós lembrai-vos de Elias e dos Profetas de Baal. Elias acreditava num Deus que ouvia e respondia à oração, mas os crentes em Baal invocavam Baal. Invocaram-no durante todo o dia, mas ele não os ouviu, e Elias escarnecia deles, e dizia: "Clamai em alta voz, porque ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou que tenha alguma coisa que fazer, ou que intente alguma viagem; porventura dorme, e despertará." Mas o Deus de Elias não estava dormindo. Não se tinha afastado tanto que não pudesse ouvir a oração do seu servo escolhido. O Deus dos céus nunca dorme. O seu ouvido está constantemente aberto aos clamores que a ele sobem; o seu olho nunca se fecha; olha para todas as suas criações; e embora reine nos céus e regule os movimentos do universo e controle os planetas com que os céus estão adornados, não há nenhum de nós tão insignificante, pequeno ou obscuro que ele não possa ouvir as nossas orações e os nossos clamores. Provamos isto vezes sem conta na história deste povo. O seu cuidado preservador tem estado ao nosso redor; nunca nos abandonou; e, frequentemente, quando tudo parecia como se a destruição fosse inevitável, e não houvesse caminho de libertação, ele acalmou os elementos irados, abriu o caminho e tornou-o plano, fez brilhar a luz da sua glória sobre esse caminho, e este tem sido claro para aqueles que têm caminhado humilde e retamente diante dele. Este povo é uma testemunha permanente, no meio de todas as nações da terra, de que Deus vive, e de que ele é o Ser que as Escrituras dizem que é. Pensai nos planos que se têm tramado contra nós; pensai nos projetos que se têm feito para a nossa destruição; sem fim para eles, e, no entanto, este pequeno punhado de pessoas, seis no princípio, tem ido crescendo, confiando em Deus como seu Libertador. Fomos amotinados, provados e perseguidos de várias maneiras, mas todas estas coisas têm tido o efeito de nos purificar, todas tiveram o seu propósito. Não daria muito por esta Igreja hoje, se todos os que se tinham juntado a ela fossem membros dela — isto é, membros dela com os seus pecados, corrupções e inclinações para o mal. Sou grato por uma coisa ligada a esta obra, a saber, que toda provação tem o efeito de purificar a Igreja, de a manter pura, de dela retirar o resíduo, e deixar o elemento algo mais puro. Não conviria que o joio crescesse e sufocasse o trigo. Portanto, todas estas coisas serviram a um sábio propósito na economia de Deus; e há esta peculiaridade a respeito desta Igreja: tem o poder da autopurificação, traz consigo, por assim dizer, o poder da autopurificação. Deixai um homem ou uma mulher nesta Igreja fazer o mal e persistir nesse mal, e mais cedo ou mais tarde o Espírito de Deus será contristado, e perderão esse espírito e o seu apego à verdade, e cairão. Desta maneira temos sido preservados. A união do povo, em grande medida, tem sido preservada. É verdade que os que nos deixaram se opõem a nós; é verdade que há oposição de várias fontes; mas isto não muda nem afeta o fato de que há aqueles que fazem o bem, nem diminui nem enfraquece o espírito de Deus que receberam, o espírito de união e de amor. Esse espírito arde tão brilhantemente hoje no meio de um povo fiel como sempre ardeu. ¶
Ora, há muitos que olham para esta obra — e alguns dos nossos Santos fiéis também — e ficam desanimados porque veem a iniquidade ao seu redor, por causa do mal aqui na nossa cidade, por exemplo. Houve um tempo em que estávamos livres destes males, muitos dos quais agora abundam, e alguns temem que o mal esteja a sobrepor-se ao bem. Não partilho destes receios. Penso que é nosso dever sermos vigilantes, sermos atentos, e estarmos sempre fazendo o melhor que pudermos para repelir toda iniquidade, para extinguir, tanto quanto possamos, toda tentação, todo mal que se pratica; para usarmos a nossa influência contra ele, e para fazermos tudo o que estiver ao nosso alcance para o erradicar. Por exemplo, há a embriaguez e a venda de bebidas espirituosas ou de bebidas embriagantes. Penso que é dever de todo Santo dos Últimos Dias ajudar a pôr de lado tais coisas, e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para acabar com as casas de jogo, as casas de má fama, e outros antros de vício; para desencorajar a blasfêmia, o uso de linguagem profana, a desonestidade, o tirar vantagem do nosso próximo, tudo desta natureza. Creio que este é o nosso dever, e todo homem e mulher deveria exercer-se nesse sentido; mas, depois de o fazer, e se esses esforços não conseguem prevenir ou extirpar estas coisas por completo, então quê? Desanimaremos? De maneira nenhuma. Vós e eu não podemos sustentar esta obra sozinhos; não vale a pena pensar que o peso da obra recai sobre nós. É a obra de Deus. Tenho sido levado a sentir isto muitas vezes, quando estive preocupado na minha mente, como que numa aflição, como se tudo se fechasse ao meu redor. Mas aprendi pela experiência que esta obra não é a obra do homem; que a responsabilidade de a levar avante e de garantir o sucesso e prevenir o mal não depende de mim sozinho. Tenho, naturalmente, a minha parte, mas Deus preside sobre ela, Deus a tem em seu poder, está a organizar e a sobrepor tudo para o seu triunfo final. Fará com que a ira do homem o louve, e refreará o resto da ira. Tudo, portanto, o que temos a fazer é fazer aquilo que a nós compete, individual e coletivamente, e deixar o resto a ele, e não pedir emprestado o desgosto. Metade da nossa infelicidade deve-se a desgostos que pedimos emprestado, olhando para algo que nunca há de acontecer. O Salvador deu-nos uma admoestação muito sábia a este respeito. Disse ele: "Basta a cada dia o seu mal." Desfrutai hoje, não impropriamente, mas propriamente. Tomai prazer hoje e deixai vir as ameaças. As nuvens podem estar escuras aqui no oeste, quando o sol se pôr, e podeis pensar que amanhã há de ser um dia tempestuoso; mas quão pouco sensato seria da nossa parte tornarmo-nos infelizes na antecipação da tempestade de amanhã, quando temos o sol brilhando sobre nós hoje, quando os céus estão contentes e toda a natureza é grata pela bondade de Deus. Por que havemos de pensar nas tempestades de amanhã? Deixai-as vir, e estejamos preparados para as enfrentar da melhor forma que pudermos. Ponhamos a nossa confiança em Deus, e, enquanto tivermos paz hoje, desfrutemos dessa paz. Sede felizes à medida que progredis. Desfrutai o dia à medida que vier. Se vier a adversidade, estareis preparados para a enfrentar, tão bem quanto se a tivésseis estado a antecipar durante meses ou anos. Os Santos dos Últimos Dias deveriam ser o povo mais feliz sobre toda a face da terra. Creio que somos. Há uma coisa que o Senhor fez por nós. Removeu aquela incerteza e medo que as pessoas têm a respeito do futuro. E, se procedermos bem, se guardarmos os mandamentos de Deus na medida das nossas capacidades, confessando os nossos pecados e arrependendo-nos deles, não temos motivo para sermos infelizes. Se vierem as aflições, se a morte entrar nas nossas habitações, curvaremos as nossas cabeças e lamentaremos, como se não tivéssemos esperança? Não. Aceitemo-lo como vindo de Deus, acreditando que ele controla todas as coisas para o bem do seu povo. E lembrai-vos disto, meus irmãos e irmãs, que Deus disse, através do seu Filho Jesus Cristo, que nem um cabelo das nossas cabeças cairá ao chão sem que ele o note. Ele vela por nós. Cuida do mais humilde. Até os próprios pardais são objeto do seu cuidado, e nós valemos mais do que muitos pardais. ¶
Rogo ao Pai Eterno que vos abençoe, que vos encha do seu Espírito Santo. Que isto se veja no vosso semblante. Deus ama um coração alegre e um semblante contente. Levai isto para os vossos lares. Maridos: em vez de levar as vossas preocupações para os vossos lares para afligir a vossa família com elas, deixai-as de lado e entrai com um rosto alegre, para que os vossos filhos vos deem as boas-vindas com alegria, como fariam com a presença do sol depois de uma tempestade. Deixai também que a vossa esposa vos receba com alegria, e, se ela tiver tido ansiedade e preocupação, que a vossa presença a console. Uma das coisas mais dolorosas para mim é ver homens irritados na sua família, levando para dentro de casa um espírito que incute medo nos corações das mães e das crianças, e que as faz sentir-se aliviadas quando o homem sai. Ora, tal homem não deveria ter esposa, é indigno de ter filhos. Os maridos, quando entram nos seus lares, deveriam levar consigo um espírito de paz e alegria, para que todos se animassem com a sua presença, os filhos contentes por o encontrar, contentes por o ter chegado, e tristes quando ele se ausenta, e a esposa, pela sua parte, alegrada pelo mesmo espírito. ¶
Rogo a Deus que vos abençoe, meus irmãos e irmãs, e que vos encha do seu Espírito Santo, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶