Participação da Ceia do Senhor, Etc.
Charles W. Penrose
Reunimo-nos esta tarde, meus irmãos e irmãs e amigos, para adorar a Deus, o Pai Eterno, em nome de seu Filho Jesus Cristo, confio que sob a influência de seu Santo Espírito, e oro para que esse Espírito repouse sobre toda esta congregação, e para que eu seja iluminado por sua influência, de modo a poder dizer algo esta tarde que edifique e instrua a congregação. Tendo sido chamado a falar-vos, espero ter vossa atenção e o benefício de vossa fé e de vossas orações, para que tais assuntos possam ser apresentados a minha mente que sejam proveitosos para meditarmos nesta ocasião. ¶
Estamos participando dos emblemas do corpo e do sangue de Jesus Cristo, o Redentor do mundo. Fazemo-lo em memória dele, em memória da expiação que ele realizou por nós e por toda a humanidade que der ouvidos a sua voz e obedecer a seus mandamentos, e também para dirigir nossos pensamentos a outro grande acontecimento, ligado à história de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que ainda está por acontecer. Tomamos este sacramento nesta tarde não apenas em memória do passado, mas para dirigir nossa mente ao futuro. Participamos dele para testemunhar que cremos na expiação realizada pelo Senhor Jesus no Monte Calvário, e também que esperamos seu reaparecimento sobre a terra. Esperamos que ele venha novamente, não na próxima vez como o bebê de Belém, não na próxima vez para ser desprezado e rejeitado dos homens, homem de dores e experimentado nos sofrimentos, mas como o Senhor da vida e da glória, como o Rei de Israel, a assentar-se no trono de seu pai Davi, a reinar dos rios até os confins da terra; não para ser trazido à sujeição dos homens, mas para ter todas as coisas sujeitas a ele; não para carregar sua cruz pela encosta do Calvário, mas para vir como monarca, como governante dos homens, como o legítimo Senhor e Rei desta terra em que vivemos. Ao participarmos destes emblemas esta tarde, então, nossa mente é levada de volta ao passado, e levada adiante ao futuro, e, quando seguramos um pedaço de pão, abençoado pelos servos de Deus, em nossas mãos, o tomamos em sinal e testemunho a Deus de que cremos naquele de quem este pedaço de pão é representante. Este pão é, para nós, uma representação do corpo de Cristo partido por nós. Quando bebemos do cálice, fazemo-lo em memória de seu sangue, e como testemunho a Deus e uns aos outros de que cremos em Jesus Cristo. Não somente isso, mas também testificamos diante dos céus e uns aos outros que estamos dispostos a tomar sobre nós o nome de Jesus Cristo, e a lembrar-nos dele, e a guardar os mandamentos que ele nos deu. De modo que, em nossas assembleias públicas na tarde de domingo — ou no dia de Sábado, se assim preferirdes chamá-lo — reunimo-nos para renovar nossos convênios, para manifestar diante de Deus e uns dos outros nossos sentimentos e desejos em relação a estes assuntos, para testemunhar aos céus e à terra que somos chamados a ser Santos, que saímos do mundo, que nos separamos do que é mau, e nos dedicamos e consagramos ao serviço de Deus, para realizar seus propósitos sobre a terra, para sermos guiados por seu Espírito, para sermos impelidos pelos mesmos motivos que impeliam nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, quando ele era homem entre os homens, para renovar nossos convênios diante de Deus, de que o serviremos em todas as coisas, e de que preferiremos a verdade tal como está em Cristo Jesus, de que preferiremos o Reino de Deus, tal como ele o estabeleceu sobre a terra nos últimos dias, acima de todas as outras coisas; que colocaremos em nossa estima, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua retidão, com a esperança e a crença de que, se assim fizermos, todas as outras coisas nos serão acrescentadas, conforme delas precisarmos. ¶
Esta, então, é uma ocasião solene, e, embora tenhamos o privilégio de reunir-nos como o fazemos nesta tarde a cada Dia do Senhor, contudo não é menos sagrada, e não deveria ser menos solene para nós, e deveríamos procurar, nesta ocasião, recolher nossos pensamentos dispersos, abster-nos de pensar nas coisas deste mundo, em nossos cuidados, nossos negócios, os assuntos que pertencem ao exterior do Tabernáculo, e concentrar nossos pensamentos e nossos sentimentos e nossos desejos para Deus, e para as coisas de Deus, de modo que seu Espírito paire sobre nós, e para que sejamos refrescados por isso; para que sejamos espiritualmente nutridos e alimentados; para que, ao deixarmos nosso lugar de reunião, saiamos fortalecidos e preparados para batalhar contra os males da vida e contra os males deste mundo. Às vezes penso que, se fôssemos privados por um pequeno período do privilégio de nos reunirmos, e de participarmos daqueles sagrados emblemas, atribuiríamos maior importância a nossas reuniões e às ordenanças da Casa do Senhor. Se fôssemos privados do privilégio de escutar a voz dos servos de Deus a instruir-nos em nossos deveres por algum tempo, talvez valorizássemos mais seus ensinamentos do que fazemos. A ausência da música desta tarde de nosso grande órgão traz-me isto à mente. Lamento não podermos ter música do órgão hoje. Gosto de ouvir os tons que vêm daquele belo instrumento, um órgão construído pelas mãos do povo de Deus, desta comunidade, quando tocado por um bom músico. Talvez, se formos privados do uso daquele órgão por um pequeno período, o valorizemos mais depois de concluídos os reparos. Assim é com nossas assembleias públicas; assim é com os vários meios de graça que tão abundantemente nos são concedidos, como filhos de Deus. Deus tem sido muito misericordioso conosco, ao conceder-nos tantos privilégios de instrução. O tempo todo há uma voz que diz: "este é o caminho, andai nele." Não há necessidade de que qualquer homem ou qualquer mulher, entre os Santos dos Últimos Dias, se desvie por falta de instrução. Temos nossas reuniões públicas em nossos povoados, no dia de Sábado, onde o povo se reúne para adorar o Pai em nome do Filho, onde podem receber os derramamentos do Espírito em capacidade coletiva, como congregação. Temos nossas Escolas Dominicais, para as quais podemos enviar nossas crianças, para que sejam ensinadas no caminho da vida, e nas sendas da santidade e da virtude diante do Senhor. Temos nossas Reuniões de Ala nas noites de domingo, onde podemos reunir-nos em capacidade de ala, e dar nosso testemunho da verdade, ou receber instruções de nossos Bispos e dos missionários que possam nos visitar de tempos em tempos. E, durante a semana, temos muitas oportunidades de reunir-nos, para ouvir a palavra da vida, para falar uns aos outros das coisas de Deus, e sermos instruídos em nossos vários deveres, tanto temporais quanto espirituais. Depois temos o grande privilégio que Deus nos deu, de que, o tempo todo, podemos aproximar-nos do trono da graça e receber para nós mesmos, tanto individual quanto coletivamente, o poder do Espírito Santo, para nos iluminar a respeito dos propósitos de Deus, para nos fortalecer contra o pecado, para nos capacitar a cultivar o bem que há em nós, e a crescer até aquele que é nossa cabeça viva em todas as coisas, mesmo o Senhor Jesus. ¶
Esta é a maior dádiva que se pode conferir a mortais enquanto habitam na carne, o dom do Espírito Santo, o Consolador, o espírito de verdade, que revela aos homens as coisas do Pai e do Filho, que é luz espiritual para o ser interior, que é para a natureza espiritual do homem o mesmo que a luz que emana do sol é para a natureza física do homem. Assim como somos capazes de ver os vários objetos físicos da criação pela luz do sol, ou, como a chamamos, luz natural, assim, pelo auxílio desta luz espiritual, podemos discernir as coisas de Deus, e elas podem tornar-se tão claras a nossa visão espiritual, pelo poder do Espírito Santo, quanto as coisas da terra se tornam claras a nossos olhos naturais, pelo poder da luz natural que vem do sol, ou de qualquer meio artificial que possamos usar ou descobrir. A luz que vem de Deus para iluminar a mente do homem é, em certo grau, universalmente difundida, como a luz do glorioso sol. É a luz verdadeira que alumia todo homem que vem ao mundo. Não há pessoa nascida neste mundo, que respire o fôlego de vida, que não receba, ao mesmo tempo, uma porção deste divino espírito, desta divina iluminação. Esta bênção não se restringe a pessoas chamadas "cristãs", não se limita a nenhum ramo particular da família humana. Todos os povos que vivem, se movem e têm ser sobre a face da terra são, em certa medida, iluminados por este Espírito de verdade que vem de Deus. É a luz e a vida do mundo ao mesmo tempo. Assim como lemos no primeiro capítulo do Evangelho segundo São João. Falando a respeito de Jesus, que ali é chamado o Verbo, lemos: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens." [...] "Que era a luz verdadeira, que alumia todo homem que vem ao mundo." Este é aquele espírito de inteligência de que se fala no livro de Jó. Ali lemos que "há um espírito no homem, e a inspiração do Todo-Poderoso os faz entender." Se temos algum entendimento, alguma inteligência, alguma inteligência natural com que nascemos no mundo, é a dádiva de Deus. Aquele que criou os céus e a terra, os mares e as fontes das águas; aquele que fez o sol e sua luz — ele alumia todo homem que vem ao mundo. Este é o mesmo espírito chamado o Consolador, ainda que não opere no mesmo grau que aquele espírito chamado o dom do Espírito Santo, do qual lemos no Novo Testamento, nas promessas de Jesus Cristo a seus discípulos e a todos os que guardarem seus mandamentos; mas todas as pessoas nascidas no mundo recebem uma porção de luz divina, e, se crescessem sob a influência dessa luz, e fossem impelidas e guiadas por seus sussurros durante toda a sua carreira terrena, isto as conduziria gradualmente até a fonte da luz, até "o Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação"; isto as conduziria gradualmente a Deus, de modo que pudessem comungar com Deus enquanto permanecessem na carne; cresceriam cada vez mais próximas dele, pois escolheriam o bem e rejeitariam o mal; tomariam em sua natureza aquilo que as levaria em direção a Deus, e repeliriam de si aquilo que as levaria para baixo, discerniriam a senda estreita e apertada que conduz à vida, e evitariam a estrada larga que conduz à destruição, na qual tantos da família humana têm caminhado desde o princípio. É porque o povo que habita a terra não dá ouvidos à "pequena e suave voz" daquela luz natural que nasce com ele no mundo, que não recebe as coisas de Deus. É porque amam o que tem sabor das trevas e do mal que não compreendem as coisas de Deus tal como são nele, e são excluídos daquela comunicação que todos os povos poderiam ter, se caminhassem no caminho correto. ¶
Estamos colocados aqui num mundo de opostos. Assim como se simbolizou no Jardim do Éden, quanto à árvore da vida e à árvore da morte, ou à árvore do conhecimento do bem e do mal, assim é aqui. Ao longo de todas as eras passadas, Deus colocou diante de seus filhos o bem de um lado e o mal do outro, e é privilégio de todos os homens escolher o bem ou o mal, o que lhes aprouver. Seu arbítrio é livre. Deus não forçará homem algum ao céu; não permitirá que homem algum seja forçado ao inferno. Estamos colocados aqui, onde há uma mistura de bem e mal, de luz e trevas, de verdade e erro, de tristeza e alegria, de amargo e doce, de vida e morte; vida espiritual e morte espiritual, e também vida e morte naturais. Por que somos colocados aqui, num mundo de morte, num mundo de opostos? Para que possamos ser postos à prova; para que possamos ser experimentados, e para que possamos manifestar a Deus, aos anjos e às hostes celestiais, e uns aos outros, aquilo para que somos aptos, no mundo para o qual nos apressamos. Todos nos apressamos para outra esfera, e todos seremos julgados pelos atos que fizemos enquanto habitamos nesta esfera. Todos serão julgados segundo seus atos e oportunidades, segundo a luz que receberam ou a luz que poderiam ter recebido, se lhes agradasse abrir os olhos a ela, e todos, no devido tempo do Senhor, serão colocados onde ele ou ela sejam aptos a estar. Encontraremos nosso próprio nível. Assim como a água encontra seu nível natural. Há de vir o tempo em que todo espírito encontrará seu próprio nível. Todos, algum dia, gravitaremos para o lugar a que pertencemos, e esse lugar será determinado por nossa condição, segundo as oportunidades que tivemos, e segundo o modo como delas nos aproveitamos, seja cultivando o bem e rejeitando o mal, seja rejeitando o bem e cultivando o mal. Somos todos indivíduos responsáveis. Toda pessoa que alcança os anos de responsabilidade torna-se um ser responsável. É responsável perante o Ser que a criou, perante Deus, que é o Pai de sua natureza espiritual; pois, embora vivamos todos sob várias circunstâncias aqui sobre a terra, embora a humanidade seja composta de raças diferentes, contudo, no que se refere a nossa natureza espiritual, o indivíduo real, somos filhos e filhas de Deus, que é o Pai dos espíritos de todos os homens, e ele que "determinou os tempos já antes ordenados, e os limites de sua habitação" nos enviou, a seus filhos e filhas, para habitarmos a terra em corpos terrenos, alguns de nós numa parte do mundo, alguns em outra, mas somos todos filhos de um só Pai, e, portanto, somos todos irmãos e irmãs. E há de vir o tempo em que nosso Pai, que nos enviou para cá por uma experiência, por uma escolarização, por uma educação, para que compreendêssemos as coisas pertencentes a esta esfera inferior, e enfrentássemos o mal e o superássemos, nos julgará com juízo justo, e todos iremos para o lugar para o qual nos preparamos por nossos atos terrenos. ¶
Ora, o Senhor, no princípio de nossa existência temporal sobre a terra, colocou dentro de nós este espírito de vida e luz, e, se fôssemos impelidos por aquele espírito e caminhássemos na senda que conduz à presença do Pai, chegaríamos tão perto dele que aprenderíamos dele pessoalmente. Mas todos se desviaram, e, quando tomamos a história da humanidade e a examinamos nas várias eras e entre as várias raças de homens, achamos que todos têm sido propensos a fazer o mal; que a maior parte da família humana, de qualquer modo, tem amado mais as trevas do que a luz; que têm amado mais o erro do que a verdade, e que têm sido guiados mais pelo Maligno do que pelo espírito que vem do Pai. Quando Jesus Cristo veio sobre a terra, disse ao povo que, se não tivesse vindo entre eles, não teriam pecado, mas, agora que viera entre eles, não tinham manto para seu pecado. Por quê? "Porque", disse o Salvador, "a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más." E, assim como Cristo veio no meridiano do tempo para revelar o Pai aos filhos dos homens, tanto quanto pudessem compreendê-lo, assim, em diferentes épocas, durante a história do mundo, Deus enviou homens santos, inspirados pelo Espírito Santo, homens autorizados por ele a declarar sua palavra ao povo, para que pudessem ter vida, para que pudessem, se assim quisessem, escolher a luz e nela caminhar, ou escolher as trevas e nelas caminhar. ¶
Mas como tem sido com aqueles homens santos? Recebeu-os, em geral, o povo do mundo? Deram-lhes as boas-vindas, a eles e a seu testemunho? Saudaram com alegria os mensageiros do Santo, que traziam luz e verdade e boas novas de grande alegria? Não. Achamos, quando investigamos o assunto, que, em todas as eras do mundo, os Profetas de Deus têm sido rejeitados dos homens. Jesus, o Filho de Deus, teve de dizer ao povo em seu dia: "qual dos profetas vossos pais não mataram?" e disse ao povo de seu dia que sobre eles viria "todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o templo e o altar. Em verdade vos digo, todas estas coisas hão de vir sobre esta geração." Por quê? Porque tinham o testemunho daqueles Profetas anteriores, tinham o testemunho daqueles homens santos que haviam vindo em eras passadas, e podiam ver, ao lerem a história do passado, como iniquamente a humanidade rejeitara os servos de Deus, e, contudo, quando o próprio Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, veio ao seu próprio meio, o rejeitaram, e, ao rejeitá-lo, rejeitaram também os Profetas que o precederam, que predisseram sua vinda, e o sangue de todos haveria de recair sobre aquela geração. Assim tem sido em todas as eras do mundo, os Profetas têm sido rejeitados. Se viesse um homem que lisonjeasse o povo, que falasse as palavras sedutoras da sabedoria humana, ou segundo o saber e a ciência da época em que veio, receberiam-no de braços abertos, dar-lhe-iam as boas-vindas em seu coração, receberiam seu ensinamento, festejar-lhe-iam e aplaudir-lhe-iam, vestiriam-no e alimentá-lo-iam e o enriqueceriam. Mas, se viesse um homem com a palavra do Senhor, com autoridade do Santo, para ministrar em nome do Altíssimo, rejeitá-lo-iam e o matariam. Tomai a Bíblia, e lede a história dos antigos Profetas. Qual foi seu destino? Ora, exatamente como Paulo nos diz, em sua epístola aos Hebreus. Foram apedrejados, serrados, degolados, perseguidos, considerados indignos de viver senão em masmorras e cavernas da terra; foram afligidos, atormentados e rejeitados. ¶
Algumas pessoas que vivem nestes tempos dizem, talvez: "Ora, mas, se tivéssemos vivido naqueles dias, teríamos recebido os servos de Deus, teríamos dado ouvidos à voz dos Profetas, ter-nos-íamos alegrado de ouvir as palavras de homens enviados de Deus, homens que detinham autoridade do Altíssimo, homens que podiam comunicar-se com os céus, teríamos olhado para eles como libertadores de nossas dúvidas, de nossas trevas, de nossas divisões, de nossa contenda, de nossa falta de conhecimento." Teríeis? Tendes certeza disso? Se tivésseis vivido sobre a terra nos dias em que Jesus Cristo veio, como teríeis sabido que Jesus era realmente o Cristo? Como o teríeis descoberto? O povo a quem ele veio o rejeitou. Não havia marca especial posta sobre ele, pela qual a humanidade pudesse discernir que ele era o Cristo. Havia apenas um modo pelo qual se poderia descobrir se Jesus era ou não o Cristo. E qual era esse modo? Ora, pela revelação de Deus, e, se vós e eu tivéssemos vivido naqueles tempos, e não crêssemos em revelação de Deus, como teríamos descoberto que Jesus, de Nazaré, era o Cristo? Lemos que os discípulos foram, em certa ocasião, indagados por Jesus Cristo: "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem? E eles disseram: Uns, João Batista, outros, Elias, e outros, Jeremias, ou um dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis vós que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." Ora, como descobriu Pedro isso, quando aqueles homens sábios, aqueles fariseus, aqueles doutores, aqueles legistas, os expositores da lei mosaica, os homens a quem os judeus consideravam luzeiros do saber, homens que haviam estudado as santas Escrituras e feito do ensino delas uma profissão, homens que faziam longas orações nas esquinas das ruas e traziam passagens de escritura costuradas na orla de suas vestes — como foi que Pedro descobriu que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo, e o restante do povo não conseguiu descobrir? "E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus. E também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela." Que pedra? "Pedro," dirá alguém. O nome Pedro — Cefas — significa uma pedra, e as pessoas pensam que Cristo edificou sua igreja sobre Pedro. Bem, se o fez, edificou-a sobre fundamento fraco; pois foi apenas pouco tempo depois disto, de acordo com a predição de Jesus, que Pedro foi posto sob severa provação, que o levou a negar o Senhor que o comprara. O povo declarou que Pedro estava com aqueles que estavam com Jesus, e ele negou a acusação e jurou que nunca o conhecera. Bem, foi sobre esta rocha da revelação que o Senhor havia de edificar sua Igreja. Foi por revelação que Pedro soube que Jesus era o Cristo. Nenhum homem pode descobrir que Jesus é o Cristo senão por aquele mesmo espírito; nenhum homem pode saber que ele é o Senhor senão pelo Espírito Santo. Ora, pode haver muita gente que diga que Jesus é o Cristo. Como o sabeis? "Bem, creio nisso." Por quê? "Porque fui criado como cristão, e por isso creio nisso." Mas sabeis que Jesus é o Cristo? Não, não podeis sabê-lo, a menos que recebais uma revelação de Deus a esse respeito. Podeis crer que Jesus é o Cristo, podeis ter sido treinados nessa crença; mas não podeis sabê-lo, a menos que Deus vo-lo revele. Somente pelo poder do Espírito Santo pode este conhecimento vir aos filhos dos homens, nem pode conhecimento algum vir a ninguém, a respeito das coisas de Deus, senão pelo mesmo espírito. ¶
Ora, este dom do Espírito Santo, como já observei antes, é a maior dádiva que se pode conferir a homens mortais, porque, por ele, podem discernir e compreender as coisas de Deus, e, sem ele, não podem. Podem refletir sobre elas, ponderar sobre elas, especular a respeito delas; podem chegar a certas conclusões em sua própria mente, por razão e lógica, mas não podem obter conhecimento destas coisas, a menos que seja pelo poder e dom do Espírito Santo, que é um espírito de revelação. Como se pode obter este dom? Só se pode obtê-lo do modo que o Pai apontou. O caminho é simples e claro, mas há apenas um caminho. O Senhor não confere seus dons como as pessoas quiserem. O Deus que governa o universo tem um modo próprio. Não nos pergunta como queremos que se regule o tempo de semear e de colher, ou como a terra deve girar em seu eixo, ou como deve mover-se ao redor do sol. Não nos pergunta quando queremos tempo quente, ou tempo frio, nem quando queremos que a chuva ou a neve desçam, ou que as nuvens se afastem e deixem o sol brilhar em todo seu esplendor. Governa o universo por leis fixas, que não podem ser desviadas de seu curso pelos caprichos dos homens. E assim é no universo espiritual. As coisas terrenas são um modelo das coisas celestiais, e, assim como há leis que governam as coisas físicas, assim também há leis fixas que governam as coisas espirituais. Há um modo pelo qual este dom do Espírito Santo, como espírito de revelação, para manifestar as coisas do Pai e do Filho, e torná-las claras aos homens mortais na carne, pode ser obtido. Qual é ele? Está apontado com bastante clareza nas Escrituras, mas, estranhamente, a maior parte do povo que professa crer nas Escrituras não toma esse caminho, quando este é tornado claro a seu entendimento. Em primeiro lugar, segundo as Escrituras, os homens devem crer em Deus. Não podem vir a ele sem crerem nele. A fé deve ser despertada no coração humano, e todas as pessoas têm o poder de crer. Quando um servo de Deus, inspirado pelo Espírito Santo, prega a palavra da vida, aqueles que desejam a verdade serão despertados à fé pelo poder de seu testemunho e sua pregação, e pela autoridade do Sacerdócio que detém. Aquela luz natural que ilumina todo homem que vem ao mundo será despertada. Pois luz se apega a luz, e verdade se apega a verdade; e, assim como a luz do sol, ao derramar-se sobre os cumes das montanhas, desperta a luz latente na terra, e como os raios quentes, ao derramar-se, despertam seu calor latente, assim o testemunho do servo de Deus, pelo poder do Espírito Santo, e pela autoridade que detém, desperta o espírito natural de inteligência nascido em todo homem e mulher, e o testemunho que ele traz encontrará eco em seu coração, a verdade que apresenta será tornada clara a seu entendimento, e verão como ele vê. Ele testifica que Deus vive. Por quê? Porque sabe. Sabe-o por comunhão com ele, por meio do poder e do dom e da luz do Espírito Santo, e, à medida que testifica ao povo que Deus vive, e que ele é enviado com uma mensagem dele, começam a crer. Mas, se os homens creem em Deus, devem também crer em Jesus Cristo como o Salvador do mundo, como o Redentor do homem; devem crer que ele é o Filho de Deus, porque todos os homens vêm a Deus por meio de Jesus Cristo. Seu nome é a palavra-chave da salvação. Por meio dele temos acesso ao Pai, e não podemos vir ao Pai senão pelo Filho. O servo de Deus também testifica que sabe que Jesus, que morreu no Calvário, é o Filho de Deus e o Redentor do mundo, e que é enviado como testemunha disto, para dar seu testemunho a respeito destas coisas. Então, tendo exercido fé em Deus e em Jesus Cristo, surge naturalmente o desejo de obedecer aos mandamentos de Deus e de Jesus Cristo. Aqueles que creem veem que transgrediram, que pecaram, e que ficaram aquém da glória de Deus, e desejam afastar seu pecado e cessar de fazer o mal. Isto é arrependimento. Qual é o próximo princípio? Fé primeiro. Todas as coisas devem brotar da fé, pois, sem fé, é impossível agradar a Deus. A fé é o primeiro princípio, o arrependimento vem em seguida. Não quero dizer um pranto, um choro; não quero dizer lançar-se em paroxismos de tristeza e ansiedade de coração; quero dizer uma determinação fixa, com a ajuda de Deus, de cessar de fazer o que é errado e procurar fazer o que é certo. Este é o próximo princípio. O seguinte é obter remissão dos pecados passados. "Ora", dirão alguns, "se o homem se arrepende, não é ele perdoado?" De modo nenhum. Um homem pode contrair uma dívida pesada numa loja, mas sentir-se arrependido de tê-la contraído não pagaria a antiga conta. Fé e arrependimento, então, são o primeiro e o segundo princípios do Evangelho de Jesus Cristo, o primeiro e o segundo passos para se alcançar aquela grande dádiva, o Espírito Santo, o Consolador. Qual é o próximo passo? Ser sepultado na água, à semelhança da morte de Jesus Cristo, por um homem que detém autoridade de Deus para administrar aquela ordenança, e ser levantado da água por essa pessoa, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Esta ordenança é para a remissão dos pecados — não que a água limpe o homem espiritualmente, não que a água lave quaisquer pecados que o homem tenha cometido. Só o sangue de Cristo purifica de todo pecado. Aquele sangue foi derramado por toda a humanidade, mas a humanidade somente obterá os plenos benefícios que dele fluem pela obediência às leis fixas que se relacionam com o assunto e pertencem à salvação. Devemos obedecer aos mandamentos do Senhor para obter as bênçãos do Senhor. "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus; mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus." Jesus Cristo estabeleceu o padrão. Desceu ao rio Jordão; foi batizado por João; foi levantado da água, e então o Pai testificou que estava bem contente com ele. O Espírito Santo desceu no sinal de uma pomba, e o Pai falou dos céus, dizendo que estava bem contente. Ora, eis aqui a Santa Trindade, toda testificando a esta ordenança — o Filho na água, o Espírito Santo descendo, e o Pai nos céus, proferindo sua voz, dizendo: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo." Cristo nos deu um exemplo para que sigamos seus passos. O homem que batizou Jesus Cristo tinha o direito de batizá-lo, tinha autoridade de Deus, e, se não tivesse essa autoridade, o batismo teria sido nulo, exatamente como os batismos no assim chamado mundo cristão de hoje. Qualquer homem que finge ser um oficial, e que não é um oficial de fato, não pode realizar um ato oficial válido, todos os seus atos são nulos, e qualquer homem que batiza outro — mesmo que use a forma, a fórmula, tudo exatamente correto segundo o padrão — se não tem autoridade do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo para batizar, o batismo que realiza não é mais do que um banho. Por que haveria de usar o nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo? Não estará implicando que tem autoridade da Trindade? E, se não tem autoridade da Trindade, então o batismo é sem efeito; é como se nunca tivesse sido. Cristo foi batizado por João, homem chamado de Deus, um Profeta de Deus, homem que detinha autoridade para batizar. Jesus Cristo também recebeu sua autoridade de Deus. Lemos que ele "não se glorificou a si mesmo para se fazer sumo sacerdote, mas aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, hoje te gerei. [...] Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque." Cristo recebeu seu Sacerdócio do Pai. Cristo conferiu essa mesma autoridade a seus Apóstolos, dizendo-lhes: "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio." Ora, eis aqui o padrão: aqueles que creem e se arrependem devem ser levados à água e sepultados de sua velha vida, devem despojar-se do velho homem com seus atos, devem ser sepultados à semelhança do sepultamento de Cristo, e levantados novamente à semelhança da ressurreição de Cristo. Então, quando saem da água, se creram, se arrependeram, e foram batizados por um homem enviado de Deus para batizar — então, "ainda que os seus pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã." São limpos, vêm a um novo nascimento, nascem da água, e, cada vez que participam do santo sacramento, testificam a Deus que continuarão em seus caminhos, e andarão em suas veredas, que se revestiram de Cristo, e que se lembrarão dele, para guardar seus mandamentos em todas as coisas. Ora, quando as pessoas são assim devidamente limpas, e purificadas, e tornadas brancas, como bebês recém-nascidos ao entrarem no mundo, sem mácula nem mancha, então seus tabernáculos estão aptos a receber o Espírito Santo. Como vem ele? Como a remissão dos pecados, vem segundo leis fixas; vem por meio da imposição das mãos de homens designados pelo Todo-Poderoso para administrar. Impõem as mãos sobre o crente batizado e lhe confirmam o Espírito Santo. Pode um homem conferir o dom do Espírito Santo? Não; o homem é apenas o ministro; o Espírito Santo vem de Deus; mas este é o plano estabelecido e fixado na economia dos céus, pelo qual as pessoas que habitam a terra hão de receber este dom. Fé, arrependimento e batismo, então o dom do Espírito Santo, pela imposição das mãos. ¶
Ora, se tomardes o Novo Testamento, achareis que este é o plano que os Apóstolos seguiram em todos os casos, onde quer que fossem pregar a palavra do Senhor. Chamavam o povo a crer em Jesus, a quem os judeus crucificaram, e a ser batizado para remissão de seus pecados, depois a ter as mãos impostas sobre eles para o recebimento do Espírito Santo. Tinham autoridade para batizar, mas nem sempre tinham autoridade para conferir o dom do Espírito Santo. Filipe desceu a Samaria e pregou a palavra do Senhor, e muitos foram batizados, mas não receberam o Espírito Santo, ainda que cressem em Jesus e fossem batizados. Não puderam receber aquele dom até que alguém descesse de Jerusalém, com autoridade, mas, quando Pedro e João desceram e impuseram as mãos sobre eles, então o Espírito Santo caiu sobre eles. Quando as pessoas recebiam este Espírito Santo em tempos antigos, quais eram seus efeitos sobre elas? Lemos aqui, no Novo Testamento, que as pessoas tinham um testemunho interior de que eram aceitas por Deus. Essa era a bênção de que todo homem e mulher na Igreja desfrutava em tempos antigos. Já não era mais objeto de especulação; tinham o Consolador, o Espírito Santo, o Espírito do Senhor, que lhes revelava as coisas do Pai e do Filho, e podiam dizer, como Pedro, "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." "Deus mo revelou, e eu o sei. Já não estou em dúvida. Minha fé cresceu a conhecimento. Sei que tu vives, sei que Cristo é teu Filho, e sei que estou na senda que conduz a tua presença." Que mais? Todos os que receberam este espírito receberam o mesmo espírito. Já não eram mais sectários, fariseus, saduceus, essênios, herodianos, nem de qualquer outra seita; eram "todos batizados por um só espírito num só corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres", e tinham "um só Senhor, uma só fé, um só batismo, e uma só esperança de seu chamado". Portanto, vedes que um de seus efeitos era fazer com que todos vissem olho a olho. Já não estavam divididos em suas opiniões a respeito destes assuntos, mas estavam unidos, vendo do mesmo modo e compreendendo do mesmo modo. Ora, alguns dirão que é impossível que pessoas de mentes diferentemente constituídas vejam e saibam da mesma maneira. Por quê? Se apenas refletirem um pouco, verão que este não é o caso. Quantas pessoas disputarão que cinco vezes quatro são vinte? Há alguém que dispute isso? Nesse caso, todas as pessoas compreendem do mesmo modo. E assim é em relação a qualquer um dos princípios da matemática, quando compreendidos. Ora, se podemos concordar a respeito destas coisas, por que não em relação às coisas espirituais? Se somos todos influenciados pelo mesmo espírito, por que não haveríamos de ver olho a olho? Há de vir um dia em que "a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar", e quando ninguém precisará dizer a seu vizinho: "Conhecei ao Senhor", pois todos o conhecerão, desde o menor até o maior. Todos verão e compreenderão do mesmo modo, sendo batizados por um só espírito, e tendo a gloriosa dádiva do Espírito Santo, o Consolador, que revela as coisas de Deus, e as torna claras à mente humana. Os dons do espírito são enumerados por São Paulo, no capítulo 12 de Coríntios. "A um", diz ele, "é dada a palavra da sabedoria; a outro, a palavra do conhecimento; a outro, a fé; a outro, os dons de curar; a outro, a operação de milagres", etc. — diferentes dons a diferentes pessoas, todos pelo mesmo espírito. Que mais? "Ora", diz o Apóstolo Paulo, "o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança." Estes são alguns dos frutos do espírito, e, segundo a quantidade do derramamento daquele espírito sobre os diferentes indivíduos, assim será sua posse destes vários dons, interna e externamente. Se um homem que tem o Espírito Santo ora para ter o dom de línguas, e nisso concentra o coração, há de obtê-lo. O quê! Nesta época do mundo? Ora, certamente, se o Espírito Santo não mudou. ¶
"Oh", diz alguém, "não creio em coisa alguma assim. Não há revelação hoje em dia. Não há ministério de anjos; tudo isso é ilusão, tudo é tolice. Não há profecia hoje em dia, pelo dom do Espírito Santo; não há comunhão com o Pai Eterno agora. Jesus Cristo tem sido excluído da vista dos homens por séculos, e não hão de ver seu rosto de novo." Por que fala assim o povo? Porque o Espírito Santo cessou de operar entre os filhos dos homens. Centenas de seitas e milhares de pregadores, mas nenhum Espírito Santo. Multidões de homens que afirmam ser enviados, mas nenhum deles com autoridade do Todo-Poderoso. Treinados para serem pregadores, pagos para serem pregadores, desejosos de serem pregadores, mas sem comunhão com os céus, e, portanto, sem autoridade de Deus. De fato, repudiaram a própria ideia de tal coisa, e um homem que declara ter comunhão com os céus e autoridade de Deus simplesmente é motivo de riso, e o clamor é: "Fora com ele, é um impostor, que seja morto", exatamente como fizeram nos dias de Jesus e nos dias dos antigos Profetas. ¶
Ora, em nosso próprio tempo, na geração em que vivemos, veio um jovem, dando testemunho de que tivera uma visão, na qual contemplara o Pai e o Filho; e o Senhor lhe disse que o mundo se havia desviado, e que estava próximo o tempo em que o Evangelho seria restaurado em toda sua plenitude, acompanhado de todo seu poder, dons e bênçãos antigos. Depois testificou que seres divinos haviam descido do alto, e o haviam ordenado à autoridade que detinham quando eram homens na carne. Testificou que João Batista, o mesmo que batizou Jesus, veio e o ordenou ao mesmo Sacerdócio que ele detinha, e o enviou como precursor, a preparar um povo antes da segunda vinda do Redentor. Depois testificou que Pedro, Tiago e João, que detinham as chaves do Apostolado nos tempos antigos, vieram e o ordenaram ao mesmo Apostolado que detinham, e o enviaram a administrar do mesmo modo que estavam autorizados a administrar quando estavam na carne. Qual foi a consequência? Todo o mundo se voltou contra ele, e particularmente os homens que professavam ser ministros do Evangelho. "Todas estas coisas", diziam, "já se acabaram, não deis ouvidos a ele, é um vil impostor." Mas, apesar disto, deu seu testemunho, e as pessoas que haviam estado à espera da restauração do evangelho eterno receberam seu ministério. Suas palavras penetraram em seu coração; arrependeram-se, foram batizadas, e tiveram as mãos impostas sobre elas para o recebimento do Espírito Santo. Mas receberam o Espírito Santo? Assim o disseram. Testificaram ter recebido os vários dons — o dom de línguas, a interpretação de línguas, a profecia, etc.; os coxos foram feitos andar; os ouvidos dos surdos foram destapados; os olhos dos cegos foram abertos. Dizem eles: "Sei que Jesus é o Cristo; sei que o testemunho de Pedro é verdadeiro, e sei que este homem, que é expulso como impostor, é um Profeta de Deus; o Espírito Santo assim me testifica. Não dependo de seu testemunho. Deus, meu Pai, revelou-me isto, e eu o sei." A obra prosseguiu. Homens foram ordenados com a mesma autoridade e foram às diferentes nações, e, onde quer que fossem, os mesmos efeitos se seguiam — judeu ou gentio, servo ou livre, escandinavo ou alemão, italiano ou francês, inglês, escocês, galês ou irlandês, todos receberam este testemunho; foram batizados no mesmo espírito, e receberam os mesmos dons. É por isso que estamos aqui, habitando juntos nestes vales das montanhas. Todos recebemos o mesmo Evangelho, o mesmo testemunho. Nosso testemunho a todo o mundo é: sabemos que Deus vive; sabemos que Jesus é o Filho de Deus; sabemos que a expiação foi realizada por nós e por todo o mundo que a receber; sabemos que recebemos a remissão de nossos pecados; sabemos que o Senhor nos tirou do lodo pegajoso e colocou nossos pés sobre uma rocha, e pôs em nossa boca um cântico novo de louvor eterno a Deus e ao Cordeiro. Estamos todos à espera da segunda vinda de Jesus, e não está distante o tempo em que ele virá e reinará de polo a polo, e de costa a costa. Virá para tomar vingança sobre aqueles que não conhecem a Deus e não obedecem ao Evangelho; para purificar a terra com a vassoura da destruição, e para sujeitar todas as coisas a si mesmo. ¶
Bem, que fizeram com este jovem que deu este testemunho de que o Evangelho, em toda sua pureza e poder antigos, fora restaurado à terra? Que fizeram com ele? Caçaram-no de lugar em lugar, de cidade em cidade, perseguindo-o à direita e à esquerda. Os assim chamados ministros do Evangelho pregaram todo tipo de falsidade contra ele. Incitaram o povo contra ele, e, vez após vez, foi tomado por mãos ímpias e lançado na prisão. Cerca de quarenta e nove vezes foi acusado de vários crimes, mas nenhuma condenação se pôde obter. Por fim, o levaram à prisão de Carthage. Um guarda foi posto ao redor da prisão para fazer seus amigos crerem que estava seguro, e, assim que se estabeleceu esta ideia, a turba, com os rostos enegrecidos, irrompeu na prisão e matou o Profeta e seu irmão Hyrum, que morreram pela verdade e pelo testemunho de Jesus; as últimas palavras que se ouviram do Profeta foram: "Ó Senhor, meu Deus." ¶
Joseph Smith, Profeta de Deus, foi rejeitado dos homens, como os antigos Profetas. Veio a uma geração perversa e ímpia. Veio a um povo que se desviara de Deus, e seguira os caminhos dos homens. Veio a um povo que adorava a Deus com os lábios, enquanto seu coração estava longe dele. Veio a um povo que amava mais as trevas do que a luz, e, por isso, fizeram as obras de outros que estiveram na mesma posição em eras anteriores — mataram o Profeta de Deus. Seu sangue mancha o solo de Illinois, e dos Estados Unidos, seu sangue sobe em fumaça a Deus com o sangue de Abel, e com o sangue de todos os mártires, e há de ser posto à porta de uma geração perversa e corrupta; pois, embora nem todos tenham imbuído suas mãos em seu sangue, contudo consentiram no ato, e estavam prontos a dizer: "bem-feito, alegramo-nos de que esteja fora do caminho." O mesmo espírito se manifesta contra nossos líderes hoje. O mundo gostaria de vê-los também trucidados. Que mal jamais fez Joseph Smith ao mundo? Deu testemunho destas coisas àqueles que professavam crer neste livro (a Bíblia), e que o abraçam ao peito, e cantam: ¶
"Santa Bíblia, livro divino, tesouro precioso, tu és meu." E rejeitaram as próprias verdades contidas naquele livro, que este homem, um Profeta do Senhor, proclamava pelo poder do Espírito Santo. ¶
Nós, Santos dos Últimos Dias, nos reunimos de todas as partes do mundo a estes vales das montanhas, ocupando um país ao norte, ao sul, a leste e a oeste, por cerca de 500 milhas. Cristo disse que um dos sinais de sua vinda seria que "este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim." Este Evangelho está sendo pregado como testemunho a todas as nações, e o fim se aproxima. Que mais disse ele, em conexão com isto: "e enviará os seus anjos com grande clamor de trombeta, e ajuntarão os seus eleitos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus." Isaías os viu vindo "como nuvens, e como pombas, às suas janelas"; e, por meio dele, o Senhor disse: "Direi ao norte: Dá; e ao sul: Não retenhas; trazei os meus filhos de longe, e as minhas filhas, das extremidades da terra." Viemos das nações da terra aos cumes das montanhas, para erguer uma casa ao Deus de Jacó, para que possamos aprender de seus caminhos e andar em suas veredas. Deus fala novamente aos homens sobre a terra; Jesus Cristo se revelou a si mesmo, e o Espírito Santo, o Consolador, o espírito de verdade, manifesta as coisas do Pai e do Filho. "De repente virá ao seu templo o Senhor", e participamos deste sacramento para nos manter em memória disto, e para nos prepararmos, pois o dia está próximo. ¶
Dou-vos meu testemunho, meus irmãos, irmãs e amigos, com toda sinceridade e sobriedade, diante de Deus e dos anjos, dos céus e da terra, de que sei que esta obra é verdadeira. Não dependo de outra pessoa por este conhecimento. Sei, por mim mesmo, que recebi este Evangelho em meu coração; obedeci a suas ordenanças; recebi de seu espírito: sei que Deus vive. Sei que esta obra há de avançar. Sei que o Evangelho será pregado a toda criatura. Sei que os honestos e amantes da verdade, que ousam enfrentar as reprovações dos homens, que ousam encarar a opinião popular, hão de sair das seitas e partidos da terra, e das diferentes nações e países, e serão batizados nesta Igreja, e receberão o Espírito Santo, e assim serão levados a aproximar-se de Deus, e preparados para o advento do Senhor. Virão de todas as partes da terra. Esta obra há de avançar. Nenhum governo, ou reino, ou poder, ou presidente, ou governante, ou monarca pode deter seu progresso. Não é obra do homem. É a obra do grande Deus. As pessoas se maravilham de como este povo pode ser reunido às centenas e aos milhares, e estar tão unido. Pensam que está sob a influência de algum grupo de homens conspiradores, e que estamos num estado de servidão. É tudo tolice e desatino. O poder que nos une é o poder do Espírito Santo, o poder do Consolador, o poder do espírito de revelação. Este poder está em nosso coração. A união que nos liga é trazida pelo mesmo poder que une as águas do grande mar. Este mar de humanidade, composto de pessoas de todas as nações, tem sido tocado pelo poder e dom do Espírito Santo. É aí que reside nossa unidade; é nossa obediência à lei e à verdade, não ao homem. As pessoas confundem muito o caráter dos Santos dos Últimos Dias, se pensam que somos um bando de servos. Saímos do meio de várias nações, contra a oposição de nossos amigos e parentes, e nos levantamos pelo que é justo. Cruzamos o grande abismo e atravessamos as vastas planícies por nossa religião. Quando cruzei o oceano, levou trinta dias para completar a viagem, e treze semanas para cruzar as planícies. Sou o único de minha família que recebeu o Evangelho. Vim para cá porque sabia que era verdadeiro, e para que pudesse aprender mais dos caminhos de Deus. Vim lançar minha sorte com o povo de Deus, para a vida ou para a morte, para o tempo e para a eternidade, com todas as minhas forças corporais, mentais, físicas e espirituais. Ao dar meu testemunho, apenas falo o testemunho de centenas e milhares que habitam estes vales das montanhas. ¶
Bem, agora estamos aqui, o que pretendemos fazer? Descobriremos a lei de Deus tão rapidamente quanto pudermos, e, com a ajuda de Deus, a viveremos. Procuraremos levar este Evangelho às partes mais remotas da terra, a leste, a oeste, ao norte e ao sul. Estamos dispostos a percorrer qualquer número de milhas a qualquer nação, arcando geralmente com nossas próprias despesas. Para quê? Para pregar este Evangelho, e testemunhar que Deus falou dos céus. Mas dirão alguns: "Sois povo muito mau. Casais com muitas esposas, e estais criando uma multidão de filhos." Bem, não somos piores do que o pai dos fiéis, Abraão, o amigo de Deus, e, se não gostais de homens que têm mais de uma esposa, temo muito que, quando chegardes aos portões da cidade santa, a Nova Jerusalém, na qual se hão de inscrever os nomes de doze homens, que foram os filhos de quatro mulheres por um só homem — e, se passardes pelos portões para a cidade celestial, e encontrardes Abraão, Isaque e Jacó no reino de Deus, com suas esposas e filhos, como o princípio de sua glória e domínio eternos, direis: "Quero ir para outro lugar, deixai-me sair desta cidade, é habitada por polígamos." ¶
Antes de sentar-me, deixai-me dizer, meus amigos, que aqueles nesta comunidade que se casaram com mais de uma esposa o fizeram por motivos puros. Mas algumas pessoas não conseguem compreender isso. Esta geração é tão corrupta e tão licenciosa que alguns não conseguem compreender como um homem possa casar-se com uma esposa por motivos puros. Ora, se podeis compreender os sentimentos e os motivos com que um homem virtuoso se casa com a esposa de sua juventude, "na alegria e na tristeza", então podeis compreender os motivos dos Santos dos Últimos Dias quando se casam com mais esposas, pois os mesmos impulsos que os moveram na primeira vez os movem na seguinte. Deus Todo-Poderoso nos deu uma revelação a respeito deste assunto. Casamo-nos com nossas esposas sob direção divina e sanção divina, e sob o mesmo santo Sacerdócio que tem poder de administrar o batismo para a remissão de pecados, e a imposição das mãos para o dom do Espírito Santo, e "tudo o que ligar na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligar na terra será desligado nos céus." Não tenho tempo, contudo, para deter-me neste assunto, mas apenas direi que nosso casamento é o casamento celestial, para o tempo e toda a eternidade — como aquele com que Adão foi casado a Eva, no Jardim do Éden, quando eram seres imortais, e quando não havia ninguém para uni-los senão Deus. Cristo também morreu por eles, e, ainda que fossem separados pela morte, hão de vir e ser reunidos novamente, como gloriosos seres ressurretos. Como diz nosso hino: ¶
"Vinde a mim; aqui estão Adão e Eva à cabeça, de uma multidão vivificada e erguida dos mortos; aqui estão mundos que já foram, e mundos que hão de ser; aqui está a eternidade — sem fim: Amém. Vinde a mim." ¶
Segundo aquele padrão, somos casados para o tempo e toda a eternidade, e esperamos, quando surgirmos na ressurreição dos justos, se formos dignos, receber nossas esposas em nosso seio, e nossos filhos ao círculo familiar; que eles hão de ser o princípio de nossa exaltação e glória; que então a bênção de Abraão, pronunciada sobre nós, se cumprirá, e de nossa posteridade não haverá fim. O Senhor há de multiplicar nossa semente como as estrelas dos céus, e como a areia que está à beira do mar. E, quando entramos nesta santa ordem de matrimônio, seja com uma ou duas, ou mais esposas, casamo-nos nesta ordem e no temor de Deus, e sob a direção de seu espírito, e para propósitos santos, e não para a gratificação da luxúria, e aqueles que dizem que o fazemos ou estão muito enganados, ou mentem deliberadamente. Há pessoas que constante e persistentemente mentem a nosso respeito, mas delas não desejo falar, por temer irritar-me, e sinto-me feliz demais para pensar nelas. Alegro-me em saber que meus pecados foram lavados pelo sangue de Cristo, por obediência a seus mandamentos. Alegro-me em saber que o Espírito Santo está em meu coração, e guia meus passos; que posso invocar a Deus e receber resposta a minhas orações; e que sei que ele gosta de ouvir e responder as orações de seus servos. Dou-vos este testemunho nesta tarde, e, como servo do Senhor, digo a todos os que não obedeceram ao Evangelho, em nome do Senhor Jesus Cristo, e pela autoridade do santo Sacerdócio: arrependei-vos, e sede batizados, cada um de vós, em nome do Senhor Jesus Cristo, para a remissão de pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, e para vossos filhos, e para todos os que estão longe, tantos quantos o Senhor nosso Deus chamar, e, se rejeitardes este testemunho e mandamento, e amardes mais as trevas do que a luz, tereis de prestar contas disso no grande dia do juízo. ¶
Que Deus abençoe esta congregação, e encha seus Santos de seu Santo Espírito continuamente, para que possamos fazer avançar a gloriosa obra de Deus, e para que possamos viver pela verdade, e, se necessário, morrer em sua defesa. Que a paz e a bênção se multipliquem sobre vós, por meio de Jesus Cristo. Amém. ¶