Pulpit

Dons Espirituais Alcançáveis—Imutabilidade de Deus—Universalidade do Direito à Revelação—Os Santos Glorificam o Deus da Revelação—Necessidade de Autogoverno

George Q. Cannon

1879-10-05

Ao levantar-me para dirigir-me a esta congregação, há um sentimento que pesa sobre mim, e é minha incapacidade de instruir um povo tão numeroso, a menos que Deus derrame seu Espírito Santo sobre mim e sobre vós.

Reunimo-nos hoje, segundo nosso costume, para sermos instruídos naqueles deveres que nos competem, e também nos princípios de nossa santa religião. Estas reuniões me são extremamente preciosas; são ocasiões de grande regozijo. E tendo a oportunidade, como temos hoje, de nos reunirmos em paz e tranquilidade, sem quem nos moleste ou nos amedronte, deveríamos sentir-nos gratos àquele Deus que nos trouxe aqui; que nos tem preservado e protegido desde que aqui chegamos.

As instruções que recebemos hoje, desde que nos reunimos, se plenamente obedecidas por nós e postas em prática em nossas vidas, farão de nós um povo digno do nome que trazemos, o nome de Santos dos Últimos Dias. E, como foi observado esta manhã, o grande objetivo de ensinar ao povo e de gravar nele os conselhos que são dados de tempos em tempos é fazer com que ponhamos em prática, em nossas vidas, os princípios daquela religião que abraçamos. Este é o grande labor que nos compete. Não se trata apenas de ser teórico; não se trata de deter-se com grande interesse e grande eloquência sobre aquelas doutrinas celestiais que Deus revelou, e ficar arrebatado por elas ao ouvi-las, mas sim de fazer uma aplicação prática delas a nossos pensamentos, a nossas palavras e a todas as ações de nossas vidas. E somente deste modo podemos servir aceitavelmente o Senhor nosso Deus, cujo nome trazemos e de cujo povo professamos ser. Não há razão para que este povo chamado Santos dos Últimos Dias não devesse ter todos os poderes, todos os dons e todas as graças que jamais caracterizaram a Igreja de Deus sobre a terra em qualquer época; não há razão, digo eu, para que não devessem ter tudo isso, se eles próprios forem fiéis aos princípios que foram revelados, e buscarem pô-los em prática. Quem há, nesta congregação, quem há que pertença a esta Igreja em qualquer parte deste Território, que não tenha, em seu coração, o desejo daquelas bênçãos, daqueles dons e qualificações que foram prometidos aos antigos Santos e que foram renovados em nossos dias àqueles que abraçam o evangelho de todo o coração? O Senhor é o mesmo ontem, hoje e para sempre. Esta é, pode-se dizer, a pedra angular de nossa fé. É sobre este fundamento que edificamos; que ele é um Deus imutável; que não manifesta sua mente e sua vontade, em clareza e simplicidade, a um povo, e a esconde de um povo posterior que seja igualmente fiel. Mas a grande verdade nos foi gravada; a grande verdade que perpassa todos os escritos de todo homem de Deus de quem temos algum relato, desde o princípio até a última revelação que foi dada, de que Deus não faz acepção de pessoas, que ele hoje é como era ontem e como sempre foi, e que continuará sendo o mesmo ser enquanto o tempo durar ou a eternidade continuar. E temos sido impressionados com isto, como disse, por todo homem que falou a respeito de Deus e falou com autoridade de sua parte. Digo, portanto, que não há razão para que os Santos dos Últimos Dias, hoje, não devessem obter e desfrutar dos dons, das graças e das bênçãos do evangelho, do mesmo modo que foram desfrutados nos dias antigos pelos antigos servos e pelo antigo povo de Deus.

Envelheceu Deus? Ficaram pesados os ouvidos de Deus? Escureceu-se sua vista? Encurtou-se seu braço? Afetou-o a idade, ou lhe diminuiu o poder a passagem do tempo? Teve isso sobre ele o mesmo efeito que sobre os seres mortais, sujeitos à decadência e à morte? É este o tipo de ser que adoramos? É este o tipo de ser a respeito de quem os profetas e apóstolos falaram e escreveram? Certamente não. Nós o adoramos, o reverenciamos, erguemos nossos olhos a ele, confiamos nele como o Ser Supremo, o Criador dos céus e da terra, o fundador do universo, o construtor do planeta que habitamos e sobre o qual pisamos, o ser sobre quem séculos se passaram sem lhe causar dano algum; a eternidade rolou e continua a rolar e continuará a rolar sem afetar minimamente seu poder ou sua capacidade para o bem; seu olho não se escurece com a passagem das eras; seu ouvido não se torna pesado com a passagem do tempo, nem seu braço se encurta ou enfraquece. Ele é o Deus a quem adoramos. Quando o invocamos, embora possa estar remoto de nós, habitando em sua santa morada no meio das eternidades, os próprios pensamentos de nossos corações, as próprias concepções de nossas mentes, os débeis sussurros de nossas vozes, ascendem até ele, são levados a ele, seu ouvido os compreende; suas entranhas de compaixão se movem para conosco, seus filhos, seu olho que tudo perscruta penetra a eternidade, e o vislumbre de sua visão nos alcança.

Não há um único pensamento de nossos corações que ele não compreenda; não há nada relacionado a nós que ele não saiba. Podemos esconder-nos nas entranhas da terra, mas não podemos ocultar-nos de sua vista que tudo perscruta. Podemos escalar as mais altas montanhas ou descer aos mais profundos vales, ou podemos ir até os confins mais remotos da terra, mas onde quer que formos, ele está lá, seu poder está lá, sua visão está lá para ouvir e compreender os desejos e os anseios de nossos corações.

Sendo este o caso, por que não haveríamos de aproximar-nos dele com fé? Que razão há para que homens e mulheres que vivem neste século dezenove não devessem aproximar-se dele com a confiança daqueles que viveram no século quinze do mundo, ou no vigésimo, ou no quatro-milésimo ano do mundo? Se ele pôde ouvir seus clamores, se pôde responder suas orações e se pôde conceder-lhes os desejos de seus corações; se pôde abrir-lhes os céus e revelar-lhes sua mente e vontade quando o invocaram com fé, crendo que ele o faria, há alguma razão para que não devêssemos ter essa mesma fé, exercê-la e obter essas mesmas bênçãos e recebê-las de suas mãos? Quem há que possa levantar-se e dizer que há razões para que assim seja? Se admitimos, como devemos, que ele é aquele ser que tentei tão fracamente descrever; se admitimos que ele é o Deus dos deuses, o Senhor dos senhores, o criador de tudo, o pai de todos, o sustentador de todos; se cremos nisso, por que não podemos crer que, se ele concedeu suas bênçãos a outras gerações e a outros povos, o fará também a nós, que ouvirá nossas orações, que nos concederá os desejos de nossos corações?

Ora, meus irmãos e irmãs, eu vejo estas conferências e estas assembleias como tendo por objetivo gravar estas grandes verdades em nós e em nossa atenção; o objetivo delas, como as entendo, é fazer de nós Santos dos Últimos Dias não só de nome, mas em palavra e em ação; sermos homens e mulheres de Deus; colocar-nos em comunhão com Deus; receber comunicação dele; ter nossas tradições falsas, nossas ideias impróprias, nossa incredulidade, nossa dureza de coração, e aqueles sentimentos que nos cercam, que crescem conosco, removidos de nós. Há alguma razão para que isso não devesse acontecer? Nenhuma razão, exceto a que se possa encontrar em nós mesmos. Não há razão fora disso. Deus está disposto, ele fez promessas, e cumpriu suas promessas na medida em que nos colocamos em circunstâncias de recebê-las. Quando cumprimos as condições, ele nunca, desde o princípio até o presente, falhou em sua parte; ele é incapaz de falhar. Se há falha, ela é devida a nós, a culpa é nossa, somos nós os culpados. Deixai-me perguntar-vos: quando algum de vós, algum dia, se humilhou perante Deus, quando em segredo o invocou em nome de Jesus e lhe pediu seu Espírito Santo e as bênçãos dele, e deixou de receber resposta a suas orações? Se há Santos dos Últimos Dias nesta condição, então há algo errado com eles. Deus nos fez promessas de que, se fizermos certas coisas, se obedecermos a certos mandamentos e ordenanças, ele concederá sua bênção e responderá às orações daqueles que seguirem este caminho. Mas quantos há entre nós que vão passando de dia em dia, de semana em semana e de mês em mês, descuidados quanto a estes pontos, deixando de viver de modo a receber as bênçãos que ele prometeu, até que pareça, quando se inclinam para invocá-lo, que suas orações mal ascendem acima do alto de suas cabeças.

Como disse, Deus, em dias antigos, era um Deus de revelação; Deus, em nossos dias, é um Deus de revelação, e ele comunica sua mente e sua vontade àqueles que a buscam, não apenas ao Presidente da Igreja; não apenas aos apóstolos da Igreja; não apenas aos sumos sacerdotes, ou setentas, ou a qualquer um dos oficiais, ou a todos eles apenas, mas ele comunica sua mente e sua vontade a todos os que o buscam com humildade, mansidão e humildade de coração, obedecendo a seus mandamentos. Somente aos Santos dos Últimos Dias? Não, nem mesmo apenas a eles, pois não há ser humano nascido de mulher, não há filho ou filha de Adão que já tenha vivido sobre a face da terra que não tenha o direito, e que não tenha obtido, em algum momento de sua vida, revelações de Deus, embora possa não ter compreendido o que eram essas revelações. Os Santos dos Últimos Dias não são tão estreitos em seus sentimentos a ponto de imaginar que são o único e peculiar povo, acima de todos os outros, que, neste sentido, recebeu revelação. Creem ser o povo de Deus e o único povo que obedeceu aos mandamentos de Deus; mas não pensam que, entre todos os filhos de Deus, são eles os únicos receptores de suas bênçãos.

Deus se revelou em várias ocasiões e de várias formas a muitos povos. Os gentios tiveram comunicação dele. Toda a luz que existe; todas as verdades que são ensinadas, e todos os princípios corretos e o conhecimento que foram comunicados e existiram entre os filhos dos homens vieram de Deus; ele é o autor de tudo. Sócrates, Platão, Confúcio, os filósofos gentios que nada sabiam a respeito de Jesus Cristo e do plano de salvação, receberam dele verdades importantes, assim como muitas outras pessoas, em maior ou menor grau, conforme suas capacidades de aperfeiçoar o conhecimento que lhes foi comunicado. Mas a dificuldade tem sido, a respeito destas questões, que a humanidade não tem reconhecido Deus em tudo isso. Um homem tem um sonho. Ele se cumpre de modo extraordinariamente maravilhoso. Ele tem um pressentimento; seu pressentimento se cumpre, e ele o relata a seus amigos como algo muito notável. Um homem recebe uma verdade comunicada a ele após estudo e pesquisa. Ele a comunica a seus amigos como uma descoberta maravilhosa. Reconhece ele a Deus nisso? Às vezes; mas em muitos casos não reconhece a Deus; mas, ao contrário, pensa que é produto de seu próprio pensamento, de sua própria mente. Se é um sonho ou alguma manifestação notável que participa do sobrenatural, em vez de dar a glória a Deus e louvar a Deus por ter feito a comunicação, algum outro princípio é glorificado, ou alguma outra coisa é discutida, o caráter notável da coisa é considerado sem que a pessoa pense que Deus tem algo a ver com isso.

Ora, não há, como disse, ser humano algum que não tenha, em algum momento, tido comunicação do Pai Todo-Poderoso. Alguns reconheceram a Deus e lhe deram a glória por isso; outros não o fizeram. As notáveis descobertas que estão sendo feitas no mundo da ciência; na verdade, todas as notáveis descobertas que foram feitas de tempos em tempos, são produzidas pelas operações de uma influência invisível sobre a mente dos filhos dos homens. Por exemplo, frequentemente aconteceu, na astronomia e em outros ramos da ciência, que, quando uma importante descoberta foi feita, dois ou três homens, aproximadamente na mesma época, amplamente separados uns dos outros, receberam a comunicação; e disputas surgiram quanto a qual deles fazia jus ao crédito. Foi assim com a aplicação do vapor, e os princípios da telegrafia, e também muitas descobertas em astronomia e outras ciências. Disputas surgiram em várias nações a respeito destes pontos; quando a verdade é que Deus é o Autor; foi Deus que moveu as mentes daqueles indivíduos. Foi ele quem os inspirou a fazer o que fizeram; foi ele quem os conduziu de passo em passo até alcançarem os resultados que os tornaram famosos, e às vezes de modo bem inesperado para eles mesmos.

Que é isto que conduziu estes homens famosos no caminho da descoberta? Os Santos dos Últimos Dias o chamam de espírito de revelação; o espírito de revelação repousando sobre os filhos dos homens. Alguns homens o possuem em maior grau do que outros. Alguns têm o dom em uma direção, e são capazes de receber comunicação de Deus numa direção em que outros não o são; suas mentes estão mais preparadas para receber revelação sobre um dado assunto do que as mentes de outros. Alguns receberão grandes verdades morais, e estes homens diferem em seus organismos; mas a luz que recebem toda vem de nosso Pai Celestial; é ele quem dá a inspiração. E assim o homem progrediu de um grau de conhecimento a outro, da rude canoa do índio, com a qual navega o rio, até aqueles poderosos navios a vapor cujas quilhas sulcam todos os mares e circunavegam o globo.

Ora, em que aspecto diferem os Santos dos Últimos Dias do restante da humanidade em relação a estas questões? Nisto: reconhecemos Deus como supremo, a fonte de todo conhecimento, a fonte de todo poder, a fonte de toda inteligência, a fonte de tudo o que é bom. Que são os homens? As criaturas de sua obra, se quiserdes, seus descendentes, seus próprios filhos, gerados por ele, descendentes por linhagem direta do Deus que adoramos. O mesmo ser a quem adoramos é nosso Deus, é nosso Criador, é nosso Pai. Quando o adoro, adoro-o como meu Pai. Aquilo que possuo, se há algo de divino nisso, atribuo-o a ele, como tendo vindo dele por linhagem direta. Toda aspiração, todo pensamento nobre, todo desejo puro, tudo o que é bom, santo e puro, elevado, enobrecedor e divino, vem de nosso Pai, o Deus do universo, o Pai de todos os filhos dos homens. Nele nos movemos, nele temos nosso ser. Ele pode extinguir a vida; pode criar a vida; pode perpetuar a vida. Não há poder que os seres humanos possam conceber que ele não possua. A luz que agora brilha vem dele. A revelação que possamos obter, imperfeita às vezes por causa de nossa condição decaída e por não conseguirmos compreender sua natureza, vem de Deus. Os Santos dos Últimos Dias o glorificam por isso. Se há algo bom, ou grandioso, ou nobre, se há algo a ser admirado, vem de Deus, não do homem. O homem é apenas o meio, apenas o instrumento, é apenas o conduto por onde flui. Deus deve ser adorado; Deus deve ser reverenciado; Deus deve ser glorificado, e o será. E quando formos salvos, quando formos livrados da morte, do inferno e da sepultura, glorificaremos a Deus, não ao homem. O homem não receberá glória alguma; será o Pai Eterno, por meio de Jesus Cristo, quem receberá tudo.

Esta é a posição ocupada pelos Santos dos Últimos Dias. Cremos na revelação. Pode vir de modo tênue; pode vir indistinta, pode vir às vezes com um grau de vagueza que não nos agrada. Por quê? Por causa de nossa imperfeição; porque não estamos preparados para recebê-la em sua pureza; em sua plenitude, tal como vem de Deus. Ele não tem culpa disso. É, porém, nosso dever lutar por mais fé, por maior poder, por revelações mais claras, por melhor entendimento a respeito de suas grandes verdades, à medida que nos são comunicadas. Esse é nosso dever; esse é o objetivo de nossas vidas como Santos dos Últimos Dias—viver tão perto dele que nada nos possa acontecer sem que estejamos previamente preparados para isso. E conheço muitos, muitos Santos dos Últimos Dias que se encontram nesta condição, que de fato vivem de tal modo que nada de importância pode ocorrer para o qual não estejam preparados, e a mente e a vontade de Deus lhes são reveladas, e eles andam de acordo com ela, e buscam, com seriedade e humildade, tê-la revelada a eles; e, ao dar qualquer passo importante, buscam conhecer a vontade de Deus a respeito disso. São eles perfeitos? Longe disso. São mortais, cheios de fraquezas, e ninguém está mais ciente do caráter das fraquezas terrenas do que o homem ou a mulher que assim vive.

É dever de todos viver deste modo, e se os habitantes da terra pudessem compreendê-lo como deveriam, buscariam conhecer a mente e a vontade de Deus a respeito de si mesmos. Mas qual é o espírito do mundo hoje? Que um pregador no mundo profira um belo discurso, e quem pensa em dar a Deus a glória por isso? Quem pensa no Espírito Santo em tais circunstâncias? Deus está removido para longe deles, não existe em seus pensamentos, os pregadores que tentam pregar a Cristo e a este crucificado, eles é que são glorificados. Quem dá glória a Deus pelos discursos de Henry Ward Beecher? Quem dá glória pelos do Dr. Fotheringham, ou pelos do Sr. Talmage, ou por quaisquer dos pregadores populares de hoje? Glorificam os homens a Deus por Spurgeon? Não, ele mesmo é glorificado. O próprio Beecher é glorificado, e Fotheringham é glorificado. É Deus glorificado? Não, nele não se pensa. Morse descobriu o princípio da telegrafia. Quem deu a glória a Deus? Eu estava no salão da Câmara dos Representantes quando se realizou uma grande reunião. Para quê? Para glorificar Morse, o descobridor daquele grande princípio, que o aplicou praticamente e o tornou útil. Ora, não quero dizer que não haja quem tenha Deus em seus pensamentos. Falo agora do sentimento geral que prevalece, do curso geral que se segue. As invenções, por mais grandiosas que sejam, não são atribuídas ao Pai de todas elas, o Criador e Fonte de todo conhecimento. Mas o homem, a quem ele escolheu para ser seu instrumento, ele abençoou com conhecimento a respeito de todas estas coisas, como resultado de seu estudo sério e de seus esforços incansáveis para obter conhecimento. Muito raramente se pensa no Ser que faz isso.

Santos dos Últimos Dias, é este o caminho que devemos seguir? Glorificaremos a criatura à custa do Criador? Como povo, creio que estamos razoavelmente livres disso. Mas temos de fazer um progresso muito maior do que fizemos nestas questões. Temos de buscar a Deus com uma seriedade, um fervor e uma devoção que, no momento presente, não podemos compreender. É nosso dever, como Santos dos Últimos Dias, buscar o conhecimento. Deus no-lo concederá se não o buscarmos? Ele pode, em sua condescendência, às vezes fazê-lo. O Irmão Rich disse esta manhã que acreditava que algumas pessoas eram preguiçosas demais para pensar. É uma verdade claramente expressa. Há demasiados que são preguiçosos ou indiferentes demais—pode ser indiferença e não preguiça em todos os casos—para pensar, para sentir, para buscar e receber a bênção de Deus, embora façam profissão de ser Santos dos Últimos Dias.

Ora, não penso que a religião de um homem valha algo se ele apenas faz profissão dela e não a pratica. Preferiria ter um gentio inteligente, se for honesto e determinado a fazer o melhor que puder, vivendo de acordo com a luz que tem, do que um Santo dos Últimos Dias que é descuidado e indiferente, que não busca desfrutar do espírito de sua religião.

Tenho esperança de que, depois de algum tempo, comecemos a perceber, como nunca percebemos antes, que há deveres práticos que recaem sobre nós, Santos dos Últimos Dias; que se exige de nós algo mais do que sermos membros da Igreja. Como é com muitos? Ora, todo pensamento mau, toda palavra errada que lhes vem ao coração, seja para pensar ou para proferir, eles a acolhem e a expressam, e depois se atribuem o mérito de não serem hipócritas. Não é isto grande loucura? Homens e mulheres pensam pensamentos maus, dão lugar a sentimentos de ira; e pensam ser um ato meritório, e orgulham-se de sua conduta porque lhes dão expressão em vez de reprimi-los! Não é isto extraordinário? Ferem os sentimentos de seus irmãos, irmãs e amigos, porque pensam que seriam hipócritas se não proferissem seus pensamentos maus, por mais infundados ou repulsivos que fossem! Que direito tenho eu de fazer isto? Se meu coração é mau, isso me justifica a dar expressão às suas concepções repugnantes? Certamente não. Se meu coração fosse tal que eu não pudesse pensar bons pensamentos nem nutrir bons sentimentos; se eu estivesse possuído de ira e não pudesse conter-me, então seria melhor para mim coser minha boca e conter minha fala. Não há mérito algum, para um homem ou uma mulher, em dar expressão a um pensamento mau ou a um espírito irado que sente; e tampouco são hipócritas por não o fazerem. Não é hipocrisia reprimir os maus pensamentos que surgem em nossas mentes. Nossos corações são maus em consequência da queda. Como diz o profeta Jeremias: "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?" Há muitas coisas que se concebem em nossos corações que seria bom sufocarmos antes que tomassem forma. Qual é frequentemente o resultado destas concepções más? Pessoas inocentes sofrem injustamente; causa-se prejuízo; espalham-se calúnias; enquanto aqueles que as iniciam se justificam, porque, afinal, isso lhes dizia respeito. Tanto valeria o falsificador, o fabricante de moeda falsa, dizer que, por fabricar uma nota falsa, tem o direito de colocá-la em circulação. Não há nada do Espírito de Deus ligado a tal conduta.

É meu dever e vosso dever pensar pensamentos puros, ter desejos santos, ser caridosos, ser bondosos, ser longânimes, ser cheios de amor, e não de nenhuma daquelas influências más. Ora, o diabo não teria poder algum sobre a terra se não fosse por algumas pessoas que permitem que ele use seus tabernáculos. Tenho pensado muitas vezes neste vale quando aqui chegamos pela primeira vez. Havia alguns índios; mas quem testemunhou o diabo ou seu poder aqui? Se não houvesse aqui homens nem mulheres iníquos, como poderia o diabo manifestar seu poder aqui? Quem ouviu fofocas? Quem ouviu maledicência? Quem ouviu falar de litígios? Quem ouviu falar de brigas? Tais coisas nunca foram ouvidas. Mas assim que os homens vieram, e o adversário obteve poder sobre eles, todos os males que agora testemunhamos por toda esta terra e nesta cidade, que tanto nos afligem, começaram a manifestar-se. E quanto mais houver os que cederem às influências do maligno, mais haverá os que serão por ele guiados, e piores se tornarão as condições. Há os que teriam aqui casas de jogo e salões de bebida, e casas de má fama, e outros deploráveis males que abundam na terra. Por quê? Porque estão dispostos a entregar-se ao diabo, digo-o claramente, é a verdade. Se tais pessoas que praticam estes e outros males semelhantes não se entregassem ao diabo, ele não teria poder aqui. Qual é nosso dever? Não é entregar-nos, em particular alguma, ao diabo, mas é obedecer a Deus; deixar que os frutos da retidão se manifestem em nossas vidas. Se somos Santos dos Últimos Dias, vivamos à altura da profissão, e sejamo-lo em verdade e em ação, e não pensemos que não temos labor algum a realizar no controle de nossos pensamentos e desejos maus; nem nos permitamos imaginar que, por termos nos tornado membros da Igreja, Deus fará tudo sem esforço algum de nossa parte.

Há uma obra que recai sobre todo filho e toda filha de Adão; há uma luta que temos de travar—contra os males de nossas próprias naturezas, pois o coração do homem é enganoso e desesperadamente perverso. O homem natural está em inimizade com Cristo e com Deus; e, a menos que busque vencer sua natureza, trazendo-a à sujeição da mente de Deus, ele não é filho, nem ela é filha de Deus. Este é o labor que nos compete. É por isso que nos reunimos em conferência; é para gravar no povo o caráter e a magnitude desta obra que recai sobre cada homem e cada mulher individualmente. Como disse certa vez neste Tabernáculo, podemos ser aclamados por toda a terra como famosos; mas, a menos que nos vençamos a nós mesmos, é em vão que nossos nomes sejam conhecidos e que nossos feitos ressoem pela terra. Não importa quão famoso seja um homem nesta Igreja—pode ser apóstolo, pode ser sumo sacerdote, bispo, ou ocupar qualquer outro cargo ou posição importante; mas, a menos que esse homem vença a si mesmo e leve adiante, dentro de si, a obra de autoaperfeiçoamento, e traga a si mesmo, e tudo o que há dentro dele, à sujeição da mente e da vontade de Deus, digo-vos que sua fama é tão vazia quanto o som de uma trombeta quando este se dissipa. Nós o ouvimos; ele fere o ouvido, mas logo se dissipa, e ali termina. Assim é com a fama desta natureza. Portanto, digo-vos que o que se aplica ao indivíduo se aplica a nós como povo. Nossa fama pode espalhar-se por grandes obras e grandes feitos que realizamos; mas, a menos que nós mesmos produzamos os frutos da retidão em nossas vidas; a menos que vençamos nossas paixões más, nossos hábitos maus, nossas inclinações más, nossos desejos maus, e os tragamos à completa sujeição do Espírito de Deus, nosso labor é comparativamente sem proveito, pois esse é o objetivo de nos ser pregado o evangelho.

Gostaria de ter o poder de gravar em vossas mentes a importância desta grande verdade. Não há nada tão importante para mim, como indivíduo, quanto minha própria salvação. Esta é a coisa mais importante que pode haver para mim—que eu mesmo seja salvo; que eu mesmo viva de tal modo que seja considerado digno pelo Todo-Poderoso de receber uma exaltação em seu reino. Isto é da máxima importância para mim individualmente. Como disse o Irmão Rich, se todos os demais fizessem certas coisas e ele não, ele não poderia receber a bênção, a recompensa de tais obras; ou se ele o fizesse, e todos os outros não, eles não poderiam ter a bênção. Isto é uma grande verdade; e deveria ser gravado em nós.

Podeis pensar ser algo grandioso os homens irem em missão. Lembro-me do tempo, e provavelmente ainda existe o sentimento—espero que exista—em que se considerava grande honra para um homem ir em missão, especialmente uma missão estrangeira. É correto que valorizemos estes labores. É algo grandioso presidir como bispo ou presidente de estaca, ou atuar no chamado de apóstolo. Todas estas coisas são grandiosas em si mesmas, e refletem honra sobre aqueles que ocupam estes cargos, especialmente quando buscam magnificá-los. Mas, afinal, o grande labor, o labor mais honroso que qualquer pessoa pode realizar, é fazer aquilo que tentei descrever-vos—aperfeiçoarmo-nos; sermos Santos dos Últimos Dias em ação e em verdade, viver nossa santa religião. Ao levantarmo-nos pela manhã, examinar-nos, para ver se há algo em nós que se oponha à mente e à vontade de Deus; e, ao longo do dia, seguir o mesmo curso de autoexame. E, à noite, antes de nos recolhermos ao repouso, curvarmo-nos diante de nosso Pai e Deus em segredo, e derramar nossas almas em oração diante dele, suplicando-lhe que nos mostre em que erramos durante o dia, em que ficamos aquém em pensamento, palavra e ação; e então nos arrependermos disso antes de deitarmo-nos para descansar, e obter dele o perdão de nossos pecados. E assim, continuando dia após dia, semana após semana, e ano após ano, até que chegue o fim. Se fizermos isso, as promessas de Deus são certas, e não podem falhar.

Que possa ser nossa feliz sorte alcançar uma exaltação junto a nosso Pai, é minha oração, em nome de Jesus. Amém.

Como citar este discursoGeorge Q. Cannon, “Dons Espirituais Alcançáveis—Imutabilidade de Deus—Universalidade do Direito à Revelação—Os Santos Glorificam o Deus da Revelação—Necessidade de Autogoverno”, (1879-10-05). Pulpit Vault, 1879-10-cannon-spiritual-gifts-attainable. Tradução desta edição, por método de glossário, contentdm.lib.byu.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).