A Natureza Prática do Evangelho
George Q. Cannon
Resta um pouco de tempo, que me foi pedido que ocupasse. ¶
O tema do Evangelho é um daqueles que se pode desenvolver por muito tempo sem, contudo, esgotar-se; pois, segundo o entendimento dos Santos dos Últimos Dias, o Evangelho abrange toda a verdade, e não há verdade alguma, de nenhuma natureza ou nome, seja científica, moral ou religiosa, que não esteja compreendida no âmbito do Evangelho de Jesus Cristo. Portanto, aqueles que abraçam o Evangelho, como já se disse, entram na senda do progresso, cujo fim ninguém pode ver; não é dado aos seres humanos compreendê-lo; ele se estende até a eternidade, e abrange a sabedoria, o poder e o conhecimento da eternidade. Tem-se observado com frequência, a respeito de nossas reuniões neste Tabernáculo, por pessoas que não estão acostumadas à nossa forma de adoração e ao nosso método de instrução, que muitas vezes tratamos de assuntos que outras pessoas não consideram apropriados para o dia do Senhor. Há uma razão para isso; encontra-se no fato que já mencionei — que o Evangelho de Jesus Cristo abrange toda a verdade; e, portanto, tudo o que for necessário para a promoção da felicidade do homem, para a ampliação de suas visões e de sua mente, e para o desenvolvimento de todo o seu ser, físico e mental, tudo isso deve ser tratado no momento e na ocasião em que for necessário. Eu, pessoalmente, não valorizo uma religião que restrinja seus ensinamentos ao dia do Senhor, que não penetre na vida cotidiana daqueles que a professam. Uma religião assim as pessoas podem vestir como fazem com suas roupas de domingo, usando-a para ir à capela; e, quando o dia passa, despem-na como fazem com suas roupas, e retomam suas práticas do dia a dia. Mas a religião de Jesus Cristo deve ser ensinada e praticada por aqueles que nela creem, todos os dias da semana e em todas as ocupações da vida. E, a esse respeito, penso às vezes que nós, como Santos dos Últimos Dias, deixamos de fazer aquilo que nos incumbe. Permitimos que nossa religião seja demasiado teórica, e não a praticamos na medida exigida pelos ensinamentos do Evangelho. É muito bom vir hoje e ouvir o discurso que ouvimos, e regozijar-nos com seu espírito; mas, se não levarmos conosco os princípios ensinados e não os aplicarmos em nossa vida, nossa visita hoje a este Tabernáculo terá sido de pouco proveito. É para esse fim que o Evangelho foi revelado, é para esse fim que é ensinado, é para esse fim que o Espírito Santo foi prometido e derramado, para que aqueles que o recebem possam tornar-se homens melhores, mulheres melhores, mais puros, para que o mal que parece ser natural em nós, em consequência de nossa condição decaída, possa ser vencido, desarraigado e afastado de nós. Serão desonestos aqueles que creem no Evangelho e o praticam? Certamente que não. Tirarão vantagem de seu próximo? Dirão falsidades a respeito de seu próximo? Entregar-se-ão à calúnia, à maledicência e às fofocas? Serão invejosos, ou cheios de malícia ou de ciúmes? Não, se praticarem o Evangelho; não, se o espírito do Evangelho repousar sobre eles, não farão nenhuma dessas coisas. Se o fizerem, serão refreados em seus sentimentos, o Espírito de Deus os reprovará, e, se viverem como devem, quando se prostrarem à noite para pedir perdão pelos atos do dia que foram impróprios aos olhos de Deus, isso lhes trará à memória e lhes mostrará claramente em que pontos falharam, e terão o espírito de arrependimento, e procurarão afastar de si tais coisas. Deste modo hão de progredir. Ora, isso não é exigido de nós apenas neste dia — o primeiro dia da semana, o dia de adoração separado para que nos reunamos —, mas é exigido na segunda-feira, na terça-feira, e assim por diante até o sábado. Esta obra de aperfeiçoamento pessoal, sob a influência e o poder do Evangelho e do Espírito de Deus, deve prosseguir todos os dias de nossa vida, e deve ser objeto constante de nossos pensamentos quando nos levantamos pela manhã e quando nos deitamos à noite: Em que deixamos de obedecer aos princípios do Evangelho? Causei algum prejuízo a meu próximo? Entristeci o Espírito do Senhor? Descuidei de algum dever? Disse algo que não deveria ter dito? Fiz algo que não deveria ter feito? Fui justo, fui misericordioso, fui íntegro? Permiti que algum pensamento, algum sentimento entrasse em meu coração a respeito de meu próximo, a respeito de algum de meus semelhantes, que não deveria ter alimentado? Se sim, então é meu dever, se creio no Evangelho e desejo praticar seus princípios, arrepender-me disso, confessá-lo. ¶
Houve um tempo em que Deus exigia de seu povo o sacrifício de animais. Traziam seus animais, que eram oferecidos em sacrifício, e por esse meio obtinham a remissão dos pecados. Isso era exigido sob a lei de Moisés; foi exigido até a vinda do Filho de Deus, até que ele fizesse seu grande sacrifício pelo homem. Mas o que Deus exige de nós? Que tragamos animais e lhe ofereçamos holocaustos? Não, ele não nos faz hoje essa exigência; mas este é o sacrifício que se exige de nós: pede-nos que venhamos a ele com o coração quebrantado e com espírito contrito. Se assim o fizermos, ele nos aceitará; nossas oferendas serão como as oferendas de Abel, aceitáveis a seus olhos; mas, se formos a ele como Caim, nossas oferendas não lhe serão aceitáveis, e ele as rejeitará. Mas se tu e eu, e todos os que professam ser seguidores do Senhor Jesus, nos prostrarmos diante dele com corações humildes, cada um de nós com o coração quebrantado e espírito contrito, qual será o efeito? Ora, confessaremos a ele nossas faltas, porque estas se tornarão claras a nossos olhos, ver-nos-emos à luz do Espírito de Deus, e o espírito de arrependimento repousará sobre nós. Suponhamos que nos prostremos diante dele apenas por ser costume fazê-lo, de maneira formal, adorando-o com os lábios enquanto nossos corações estão longe dele, repetindo de memória certas frases que aprendemos e às quais nos acostumamos — será tal oferenda aceitável aos olhos de Deus? Certamente que não. Ele deseja que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade, e que confessem seus pecados não somente a ele, mas também, onde tiverem ofendido uns aos outros, uns aos outros. É meu dever, se ofendi meu irmão, ir a meu irmão, confessar e pedir seu perdão. Se ofendo minha irmã, é meu dever fazer o mesmo. Se faço o mal contra meu Deus, é meu dever prostrar-me diante dele em humildade e confessar, em contrição de espírito, o mal que fiz, e suplicar-lhe, em nome de Jesus, que perdoe meus pecados. E este é um dever que recai sobre nós como Santos dos Últimos Dias. ¶
Estas são algumas das partes práticas de nossa religião e, como já disse, não devem ser praticadas apenas hoje, o primeiro dia da semana, o dia do Senhor, mas devem ser praticadas amanhã, e realizadas em nossa vida, em nosso relacionamento diário uns com os outros; sermos mansos e humildes de coração, buscando o Espírito de Jesus, dispostos a sofrer o mal antes de o praticar; não sermos rudes, nem ásperos, nem insensíveis, nem indelicados em nosso relacionamento com nossas famílias, mas levarmos conosco o espírito de mansidão e de amor, para que, ao entrarmos em nossos lares, sejamos recebidos com alegria, e nossos filhos se comprazam em nossa presença como se comprazeriam na visita de um anjo, se soubessem que um estava para vir. Quantos são os homens, nesta assembleia e nesta Igreja, que, ao entrarem em suas casas, entram com o rosto carrancudo, trazendo consigo todas as suas preocupações, perturbando a serenidade de suas famílias, tornando sua presença desagradável a todos, em vez de entrarem com alegria e paz, levando consigo o consolo que deveria sempre acompanhar sua presença? Suas esposas talvez estejam irritadas pelo excesso de trabalho, com os nervos afetados pelas fadigas do dia ou pelo calor, o que as deixa de humor irritável, e, quando os dois se encontram nessas circunstâncias, produz-se atrito, e seguem-se maus sentimentos e ofensas. É dever, direito ou privilégio de um homem levar suas preocupações para dentro de sua família e perturbar a paz e a serenidade que ali existem, relatando seus problemas? Certamente que não. Quando seu pé pisa a soleira de sua porta, sejam quais forem suas dificuldades ou perplexidades, deve entrar com o espírito de paz em seu coração e com o amor de Deus ardendo dentro dele. Se houver irritabilidade, sua presença deve ser tranquilizadora para cada membro de sua família, e particularmente ao falar com seus filhos, estes devem sentir a influência de sua presença; e, se houver sentimentos impróprios, devem ser acalmados como se acalmam as águas turvas e agitadas ao se derramar óleo sobre elas. Um Santo dos Últimos Dias! Pensai na natureza deste nome. Um santo de Deus! Ora, ele deveria estar próximo de um anjo; o mais perfeito da família humana. Deveria ser perfeito em sua esfera, assim como Deus é perfeito na sua. Deveria estar livre de falhas. Se tiver alguma falha, deveria procurar corrigi-la diária e horariamente, e não se satisfazer, enquanto tiver consciência da existência de uma falha, até vencê-la, suplicando ao Pai, em nome de Jesus, força para vencer sua fraqueza, poder para afastá-la, levando consigo o espírito de amor, o espírito de serenidade, o espírito de paz, para que, ao aparecer em sociedade, onde quer que esteja, todos os que entrarem em contato com ele possam sentir sua influência e sentir-se purificados e fortalecidos por seu exemplo, por suas palavras e por sua própria presença. E é isto o que Deus deseja que sejamos como Santos dos Últimos Dias. Fofocar uns dos outros; caluniar, difamar e falar mal uns dos outros — são coisas próprias de Santos dos Últimos Dias? Não. Devem ser banidas de nossa sociedade e de nossos lares. Nossos filhos devem ser mais bem ensinados. Quando falarem mal de alguém, devem ser refreados e instruídos a nada dizer se não puderem dizer algo bom a respeito de seus semelhantes. Em vez de buscar defeitos, deve haver caridade, que cobre uma multidão de pecados. Em vez de olhar para as falhas dos outros, devem ser ensinados a olhar para as próprias falhas. E estas são numerosas o bastante; temos delas de sobra para nos manter ocupados o tempo todo, com toda a oração e toda a fé que pudermos exercer diante de Deus. Nossas próprias falhas, nossos próprios pecados, nossas próprias deficiências bastam para ocupar toda a nossa atenção, sem que precisemos pensar nas de nosso próximo, ou sequer falar delas. Aqueles que portam o sacerdócio têm o direito, e é seu dever, de administrar repreensão e apontar faltas; mas cabe aos membros da Igreja cuidar de si mesmos. Que qualquer membro da Igreja que pense ter bastante tempo, depois de cuidar de suas próprias faltas, para cuidar das do próximo, examine-se; que se prostre diante do Senhor e peça que o Espírito Santo seja derramado sobre ele, para que possa ver-se em sua verdadeira luz; e, se não se levantar convencido de que levará todo o seu tempo para corrigir suas próprias fraquezas e loucuras, será muito estranho. ¶
Somos, pois, honestos uns com os outros? Faço a meu próximo, em minhas relações com ele, o que gostaria que ele me fizesse? Se não o faço, então não cumpro os princípios de minha religião. Se me aproveito de sua ignorância, de sua inexperiência ou de suas circunstâncias — pode ser que ele esteja em situação apertada, obrigado a fazer algo que não faria se suas necessidades não o pressionassem —, estarei cumprindo meu dever para com ele como Santo dos Últimos Dias? Se me aproveito dele, então não o trato como gostaria de ser tratado se nossas posições estivessem invertidas. Entra em meu coração o espírito de cobiça, e penso: "Eis aqui uma oportunidade para eu lucrar, ou para tirar vantagem"? Se isso acontece, então não sou um Santo dos Últimos Dias nesse aspecto; não cumpro os princípios do Evangelho de Jesus Cristo, falho em ser aquilo que professo ser, e tenho motivo para me arrepender verdadeira e sinceramente, e pedir perdão ao Senhor e a meu irmão. ¶
Esta obra de aperfeiçoamento pessoal, sob o poder e a influência do Evangelho de Jesus Cristo, é uma obra confiada a cada um de nós. Deveria ser a grande obra de nossa vida; deveria ser o pensamento principal de nosso coração. Não há nada maior. O Irmão Stayner observou que, se pudesse ser o instrumento de salvar uma só alma, quão grande seria seu gozo. Sim, isso é verdade. E, se essa alma for ele mesmo, seu gozo será grande. Mas, se ele for o instrumento de salvar outra alma, seu gozo será ainda maior. Mas a maior obra que podemos realizar é viver de tal maneira que sejamos nós mesmos salvos, que nossos próprios atos sejam corretos, e que nossa vontade, nossos desejos e nossas paixões sejam trazidos à sujeição à vontade de Deus. Não conheço obra alguma tão grande e importante para mim quanto esta. Um homem pode cumprir uma missão; pode realizar inúmeras boas obras; seu nome pode ser proclamado por toda a Igreja e às nações da terra, e o povo pode recebê-lo como o de um homem grande e poderoso; mas, se esse homem não vencer a si mesmo e não viver em estrita conformidade com os princípios do Evangelho, sua posição apenas aumentará sua condenação. Bem melhor é a condição do homem humilde, do homem obscuro, desconhecido fora do círculo limitado de seus companheiros imediatos, que não tem fama, mas que vive sua religião, que pratica os princípios do Evangelho tal como são ensinados pelo Senhor. Bem melhor é a condição desse homem do que a do outro, se ele age assim e o outro homem descura de fazê-lo. Este nosso Evangelho é um Evangelho prático. Não é como nossa roupa de domingo, para ser vestida hoje e despida amanhã; deve ser levada conosco em todas as transações da vida, aplicada a tudo o que pensamos, dizemos e fazemos, e sempre lembrada por nós. E, então, que espécie de povo seremos? Seremos um povo a quem o Senhor terá prazer em abençoar, e sobre quem repousarão seu Espírito e seu poder. E, por mais que sejamos caluniados e mal falados, teremos o consolo de saber, do Senhor, que estamos certos, que fizemos aquilo que ele exige, e que temos sua bênção e sua aprovação. Isso vale mais do que tudo o mais que se possa obter. Pela experiência que tenho tido em minha vida, preferiria ter a graça de Deus, a doçura e a felicidade, a bênção e o conforto de seu Espírito, e estar na pobreza tão grande quanto a do índio selvagem de nossas montanhas, do que habitar em palácios e regalar-me em luxo e comodidade sem essa graça e esse Espírito. Já experimentei isso para minha inteira satisfação, experimentei em circunstâncias em que comprovei que um homem pode ser tão feliz quanto um anjo — isto é, tão feliz em sua esfera, fazendo a vontade de Deus em meio à pobreza e às dificuldades. Não são essas circunstâncias externas as fontes da felicidade. É claro que é certo e apropriado cuidarmos dos corpos que Deus nos deu, tanto quanto de nossos espíritos, que devem ser mantidos limpos, que nossas vestes devem ser confortáveis e nossa habitação adequada. Deus nos deu sabedoria e poder para fazer isso, e colocou ao nosso redor os elementos, e nos condenaria se não os usássemos para nosso conforto e bem-estar. Mas essas não são as únicas coisas necessárias. Podeis amontoar dinheiro até encher este Tabernáculo, e sua posse não faria um homem feliz. Podeis dar aos homens carruagens e cavalos, casas e terras, e tudo dessa natureza, mas, a menos que haja neles o espírito da felicidade, não serão felizes. O homem que vive próximo de Deus, que tem o Espírito de Deus, por mais humilde que seja, é um homem feliz; e, sem isso, não há verdadeira felicidade. ¶
Deveria ser nosso estudo constante viver de tal modo que o Espírito Santo sempre habite conosco, para que, ao nos levantarmos pela manhã, nossa mente e nosso coração estejam tão claros quanto o céu quando não há nuvem alguma nele, para que nos sintamos em paz com Deus e com os homens. Deveria ser o objetivo de todo aquele que professa ser Santo dos Últimos Dias não sair de seu aposento pela manhã antes de sentir esse espírito de paz, com a fronte desanuviada de cuidados, com a consciência de ter-se comungado com Deus, sabendo qual é sua posição diante dele. Quando sair de seu aposento tendo esse espírito, difundirá alegria e regozijo por toda a sua casa. Se algo ocorrer para perturbar a serenidade de um Santo dos Últimos Dias, este deveria retirar-se e pedir a Deus, em nome de Jesus, que o afastasse e derramasse sobre ele o espírito de paz e de consolo, para lhe encher o coração. Também à noite se deve buscar esse mesmo Espírito de paz. Devem-se rever os pensamentos, as palavras e as ações do dia, e buscar perdão pelo mal cometido; então o homem poderá recolher-se em paz; e, se Deus, em sua providência, o chamar para casa durante a noite, sentir-se-á em paz com ele e com todos os homens. Deste modo devemos viver, e, se não vivermos assim, deixamos de ser aquilo que professamos ser. ¶
Que Deus nos ajude a viver assim é minha oração, em nome de Jesus. Amém. ¶