Pulpit

Necessidade de Revelação — Evidências da Igreja de Cristo — O Futuro dos Santos — Casamento Plural

George Q. Cannon

1879-07-20

Sinto-me muito satisfeito nesta tarde por ter a oportunidade de reunir-me com os Santos dos Últimos Dias, e de ouvir os testemunhos que o Irmão Staines prestou a respeito desta obra. Eu também estive ausente por algum tempo. Há mais de 34 semanas deixei esta cidade para ir ao leste; voltei duas vezes durante esse período, por alguns dias, e é um grande prazer, poderia dizer um deleite, ter a oportunidade de estar aqui, ouvir as instruções, os cânticos, e participar do Espírito que prevalece neste Tabernáculo; para mim, é o espírito do lar, é o espírito da paz, e sinto mais deleite e satisfação em conviver com os Santos dos Últimos Dias do que em qualquer outra circunstância. Eles são meu povo. Sua religião é minha religião. Seu Deus é meu Deus. Seu futuro é o futuro do qual espero participar. Se prosperarem, espero prosperar. Se tiverem circunstâncias adversas a enfrentar, espero partilhar delas; e é este conhecimento, do qual falou o Irmão Staines, que desperta os sentimentos a que me refiro.

Se há alguma peculiaridade naquilo que o mundo chama de mormonismo, ou naquilo que denominamos o Evangelho do Senhor Jesus Cristo, ensinado por sua Igreja, que eu admire, que eu ame, que me faça sentir grato a Deus, é a peculiaridade a que se referiu o Irmão Staines, a saber, que William C. Staines, ou George Q. Cannon, ou qualquer outro homem ou mulher, por mais humilde que seja, ligado a esta Igreja, tem o direito, segundo as promessas de nosso Pai celestial, de receber dele revelação quando necessário. Eu não daria muito por uma religião cujas revelações se limitassem a dois, três, quatro, ou talvez doze homens. Ela não se recomendaria como a religião daquele Ser que é o Pai de todos, que criou tudo, e que nos colocou a todos aqui na terra como seus filhos. Esta característica a que me refiro é uma das mais deleitosas do Evangelho do Senhor Jesus Cristo. O Irmão Staines referiu-se aos profetas Joseph Smith e Brigham Young, e a outros que ocuparam posições proeminentes nesta Igreja, que receberam revelações de Deus e as transmitiram ao povo. De que valor, de que valor especial, seriam essas revelações para aqueles a quem foram transmitidas por meio desses homens, se não tivessem algum meio de comprovar sua veracidade? Que condição terrível seria a nossa se Deus, em sua providência, restringisse seu conhecimento dessa maneira — se fôssemos obrigados, como alguns imaginam que a humanidade é obrigada, a submeter-nos aos ensinamentos de nossos semelhantes, e a aceitá-los e praticá-los apenas porque esses homens dizem que provêm de Deus! Imaginai a condição dos Santos dos Últimos Dias se assim fosse! Imaginai a condição do mundo inteiro se um só homem, proeminente, ou três homens, ou doze homens, ou quinze homens, proeminentes, recebessem revelações da divindade e as transmitissem aos filhos dos homens, exigindo-se que aqueles que as recebessem se submetessem a elas como se fossem a voz de Deus, e o próprio povo estivesse destituído de qualquer meio de comprovar a veracidade dessas revelações, a não ser recorrendo à sua razão e ao senso de justiça nele gerado! Ora, muitíssimas pessoas que não conhecem a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, nem os ensinamentos dessa Igreja — e não sei se não há mesmo alguns que são membros dela — imaginam que esta é a natureza da organização da Igreja de Cristo, e que este é o modo pelo qual o conhecimento é transmitido ao povo, e pelo qual o povo se submete às exigências que lhe são feitas. Ora, esta Igreja não poderia subsistir, não poderia ter suportado as provações, as aflições e a oposição a que tem sido exposta, uma só hora, se esse fosse o caso. Cairia em pedaços; não haveria poder algum, nenhum poder coesivo, para mantê-la unida. A força, o poder, a causa da perpetuidade desta obra, o caráter maravilhoso de suas operações por todas as nações da terra, a admirável atratividade deste Evangelho, o segredo de seu grande êxito em terras estrangeiras, pregado por homens iletrados, consiste no fato de que Deus, o Pai Eterno, revela sua mente a toda alma honesta que humildemente a busca. Não a um só homem, não a três homens, não somente a apóstolos, não somente a bispos, não somente a sumos sacerdotes, não somente a setentas, não somente a élderes, mas a toda alma humilde que, com sinceridade, com coração quebrantado e espírito contrito, se curva em segredo diante do trono do grande Eterno, e, em humildade, pede, em nome de Jesus, que se lhe conceda conhecimento se aquilo que ouviu é a verdade. Este é o segredo do êxito desta obra. Esta é a causa de seu maravilhoso poder e da atratividade que exerce sobre o coração dos filhos dos homens. É por esta razão que homens iletrados, ao saírem para testificar destas coisas, têm tido tanto êxito em todas as nações da terra onde estiveram, e é isto que os atrai, como nos disse esta tarde o Irmão Staines, aos milhares, das terras estrangeiras, e os faz vir a esta terra e assimilar-se aos que já aqui estão; até que temos, neste nosso Território, ao longo destes vales que se estendem de norte a sul, de leste a oeste, um povo sem exemplo, e, sob muitos aspectos, diferente de qualquer outro povo de que tenhamos conhecimento. Ora, nesta última companhia, que chegou há poucos dias, seus membros falavam umas sete línguas. Lembro-me de uma companhia de santos que partiu de Liverpool enquanto eu ali estava, cujos membros falavam nove línguas diferentes. Eram Santos dos Últimos Dias reunindo-se de várias terras, alguns da Suíça, da França, da Grã-Bretanha, e das diversas nações da Europa, todos se reunindo, cantando os cânticos de Sião em seus próprios idiomas, testificando que Deus lhes revelara, em seu próprio idioma, a verdade deste Evangelho eterno. Com tal espírito vêm a estas montanhas, espalham-se entre o povo já aqui existente, tornam-se homogêneos. Temos aqui uma unidade de sentimento e de propósito, uma unidade de espírito, e uma unidade de sentimento e de coração, que em vão procurareis em qualquer outra parte da terra. Às vezes penso que negligenciamos essas grandes e gloriosas bênçãos que Deus nos concedeu. Negligenciamos com demasiada frequência o espírito de unidade que foi derramado sobre este povo. Os homens pedem um sinal; dizem: "Onde estão as evidências da divindade da obra em que credes? Dizeis que pregais o Evangelho de Jesus; dizeis que sois o povo de Deus." Ora, poderia haver maior evidência do caráter divino desta missão do que a que se testemunha nos efeitos deste Evangelho sobre o povo que o abraça? Somos levados a esperar que o céu seja um lugar de unidade, um lugar de amor; que não haja contendas, nem litígios, nem lutas no céu; nenhum homem em guerra contra seu semelhante, nenhum homem exaltando seu credo e suas ideias como superiores ao credo e às ideias de seu próximo; todos habitando em paz e em amor. Não é essa a ideia do céu que nos foi ensinada na Bíblia? Qualquer outra coisa não seria o céu; nenhum outro tipo de lugar poderia ser o céu. Não é razoável supor, então, que, se o espírito do céu repousa sobre um povo, este será unido, amar-se-á mutuamente, morrerá uns pelos outros, se necessário? Ora, certamente. Se eu saísse hoje em busca da Igreja de Jesus Cristo, se não soubesse de sua existência sobre a terra, esperaria encontrar um povo unido, um povo que se amasse mutuamente, e que produzisse os frutos do Evangelho de Jesus tal como o ensinou. Esperaria encontrar um povo que demonstrasse, em sua vida, aquelas verdades celestiais ensinadas por Jesus quando esteve na terra. E, até encontrar tal povo, desesperaria de encontrar a Igreja de Cristo. Homens poderiam realizar milagres diante de mim, e dizer-me muitas coisas maravilhosas, mas, a menos que eu pudesse encontrar um povo com o amor de Cristo em seu peito, unido como o coração de um só homem, um povo que se amasse mutuamente, não creio que pudesse, com o conhecimento que tenho, reconhecê-lo como o povo de Cristo, ou como o povo da Igreja de Cristo. Para as evidências de que eram essa Igreja, não seria apenas na profissão de fé que eu buscaria. Não seria apenas em seu culto dominical. Não seria apenas nos sermões pregados em seus tabernáculos, casas de reunião ou igrejas. Não seria apenas em nenhuma dessas coisas que eu buscaria, mas nos frutos do Evangelho, tal como os encontrasse manifestados em sua vida diária, em sua conversação, em seu relacionamento uns com os outros. Se eu encontrasse um povo contencioso, se encontrasse um povo lutando uns contra os outros por seus direitos, se encontrasse um povo empunhando armas de guerra uns contra os outros, não importa por que nome fossem chamados, não importa quão pomposas fossem suas professões de fé, eu diria: estes não podem ser o povo de Cristo; estes não são os frutos que o Evangelho do Senhor Jesus Cristo produz. Mas, se encontrasse um povo humilde, manso, modesto, disposto a sofrer o mal antes de o praticar; se encontrasse um povo perseguido por causa da justiça; se encontrasse um povo de quem todos falassem mal, embora sua vida não fosse má, embora sua conduta fosse humilde e pura, e estivesse disposto a amar-se mutuamente e a viver em paz, começaria a dizer: eis aqui alguns dos sinais, alguns dos frutos do Evangelho de Jesus Cristo. Devo deter-me aqui. Devo examinar este assunto. Devo observar este povo, e ver se é o povo que procuro. Se eu viesse a este vale do Lago Salgado e encontrasse um povo que professasse pertencer à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e me pedissem que relatasse o que vi, seria levado a dizer que não podem ser o povo que professam ser. Por quê? Porque toda espécie de mal se fala contra eles. Há algum crime, no sombrio catálogo dos crimes, de que não tenham sido acusados? Há algum mal que as pessoas possam cometer de que não tenham sido acusados e declarados culpados? Se eu me deixasse desanimar pelos relatos, bastaria parar em Salt Lake City, ou no Território de Utah, para ter esse sentimento; mas, se me lembrasse de que aqueles que estão em Cristo Jesus certamente hão de sofrer perseguição, e que "Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?" — se eu tivesse esse fato em mente, poderia parar e examinar mais a fundo. Se eu olhasse ao meu redor e indagasse a respeito dos Santos dos Últimos Dias, provavelmente descobriria que não bebiam licor, não se embriagavam; provavelmente descobriria que não tomavam o nome do Senhor em vão, não litigavam uns com os outros, mas antes evitavam fazê-lo, e eram a favor de promover a paz, e que, por causa disso, ofendiam advogados, juízes e outros. Se observasse os aspectos materiais da cidade, encontraria uma bela cidade, traçada e planejada com sabedoria, projetada por alguém que entendia algo da vida e do que era conveniente à sociedade. Se investigasse mais, saberia que, poucos anos antes, antes do advento da assim chamada civilização em meio aos Santos dos Últimos Dias, desde a fronteira de Idaho, ao norte, até a fronteira do Arizona, ao sul, não havia tabernas de bebida, não havia embriaguez, e a profanação era punida; mas, em cada povoado e em cada lar, por todo o comprimento e largura da terra, subiam orações, manhã e noite, ao Deus dos céus, em favor de si mesmos e de seus filhos, e em favor dos íntegros de coração em todas as nações da terra. Se eu por acaso estivesse ali quando chegasse uma companhia, e, misturando-me a ela, perguntasse o que os trouxera a esta terra, dir-me-iam, em norueguês, em sueco, em dinamarquês, em alemão, em italiano, em galês, em inglês, em polonês, em holandês, em francês, que cada um desses homens e mulheres havia obedecido ao Evangelho tal como lhes fora ensinado pelos élderes que lhes haviam sido enviados, e que, em resposta à oração, haviam recebido, cada um para si, um testemunho do Todo-Poderoso de que sabiam ser este o Evangelho de Cristo, de que Deus lhes ordenara reunirem-se dentre as diversas nações, e que, em resposta a esse mandamento, haviam saído e estavam ali. Estas seriam as coisas que me diriam. Se eu indagasse a respeito de outros assuntos, descobriria que criam neste livro (a Bíblia) em sua totalidade, não numa parte, não em partes isoladas deste livro, algumas partes deste livro, algumas partes separadas das demais, mas em sua totalidade, em suas partes doutrinárias. Descobriria que criam que Deus era hoje o mesmo que fora ontem, que é um Deus de revelação, um Deus de verdade, um Deus que pode ouvir e responder à oração. Descobriria que criam na organização da Igreja tal como era nos tempos antigos, tendo Deus primeiro estabelecido na Igreja apóstolos, profetas, mestres, etc. Descobriria, além disso, que contendiam, como Tiago ordenou aos santos em seu dia que fizessem, seriamente pela fé uma vez entregue aos santos, fé pela qual se realizaram as poderosas obras de que fala Paulo no décimo primeiro capítulo de sua epístola aos Hebreus. Descobriria que contendiam por esta fé, que criam nos sinais que acompanham os que creem; que contendiam por eles, contendiam por essa fé; e ensinavam a seus filhos a exercê-la na maior extensão possível. Ora, onde mais na face da terra eu poderia encontrar uma comunidade que ensinasse e praticasse estas coisas! Fui, em meu tempo, um viajante bastante experiente. Convivi com muitíssimas pessoas, em bastantes terras, e confesso-vos hoje que nunca vi um povo que correspondesse a esta descrição, exceto os Santos dos Últimos Dias. Não digo isto por vaidade, nem por jactância, porque este Evangelho é destinado a toda pessoa, não somente aos que hoje são Santos dos Últimos Dias, mas a todo homem e mulher honestos, por toda a face da terra. Este Evangelho do reino há de ser pregado a todas as nações, e então virá o fim. Não é, portanto, com nenhum sentimento de orgulho por serem estas as doutrinas cridas e praticadas pelos Santos dos Últimos Dias que a elas aludo desta maneira, mas porque Deus, em sua infinita misericórdia, revelou o Evangelho aos habitantes da terra, porque é novamente ensinado por autoridade divina. Como poderíeis explicá-lo de outra maneira? Dizei-me, se há aqui filósofos ou sábios. Dizem os homens que é ilusão, dizem os homens que é impostura, dizem os homens que a edificação deste sistema é resultado de fraude. Extraordinários resultados de fraude, se fraude é! Homens saindo sem bolsa nem alforje, como nos tempos antigos, pregando o Evangelho eterno, batizando pessoas, com o espírito de unidade e de amor repousando sobre eles, acompanhados pelo Espírito de Deus, que testifica, como ouvimos esta tarde do Irmão Staines, como lhe testificara, que esta é a Igreja de Cristo, que este é o Evangelho de Jesus que abraçaram. As pessoas podem pensar, as pessoas podem falar sobre a ilusão dos Santos dos Últimos Dias. Ora, crer que estes resultados que vemos são produto de fraude, ou de impostura, exigiria muito mais credulidade do que fé para crer que provêm de Deus. Onde há alguma peculiaridade da Igreja antiga que não seja hoje possuída pelos Santos dos Últimos Dias? Pode-se mencionar uma sequer? Pode-se mencionar uma doutrina ou princípio pelo qual contendia a Igreja antiga, que não seja hoje defendido e buscado pelos Santos dos Últimos Dias? Foram perseguidos? Então é bem certo que podemos reclamar uma bênção, se é que a perseguição traz bênçãos. Seus nomes foram lançados fora como maus? Então podemos reclamar, com eles, os mesmos resultados, se bênçãos acompanham tal coisa. "Mas", diz alguém, "eram boas pessoas; os apóstolos, em tempos antigos, eram boas pessoas, mas vós, mórmons, sois um povo muito ímpio." Ora, imaginais que, se os tivessem considerado um homem muito bom, um ser muito santo, teriam crucificado Jesus entre dois ladrões? Não. O povo, quando Pilatos quis perdoá-lo por causa da festa da páscoa, clamou: "Não; solta-nos Barrabás, o assassino, o vil. Que ele seja solto, mas crucifica-se o Cristo; caia o seu sangue sobre nós e sobre nossos filhos." Estavam dispostos a arriscar as consequências, porque criam ser ele um vil impostor. Pensais que Pedro e Paulo, dos quais um foi decapitado e o outro crucificado de cabeça para baixo — imaginais que, ao matá-los, os romanos pensavam estar matando homens bons, inocentes e puros? Certamente que não. Eram odiados tanto quanto somos odiados nós. Naturalmente, pensavam estar prestando serviço a Deus, assim como muitos hoje pensam prestar serviço a Deus ao perseguir os Santos dos Últimos Dias. Pensavam estar fazendo algum bem ao mundo, livrando a terra de impostores como Pedro e Paulo. Seus olhos estavam cegos à sua bondade e às suas virtudes. Tais coisas estavam ocultas a sua vista. Só podiam dizer que eram enganadores do povo, que desviavam o povo, e que, como impostores, eram dignos de morte. E assim é por todo este Território. As virtudes dos Santos dos Últimos Dias não são percebidas. Nossa temperança, nossa frugalidade, nossa perseverança, nossa laboriosidade, nossa união, e todas as qualidades que fizeram este deserto florescer, até tornar-se a admiração de todo visitante, o júbilo de todo viajante — todas essas coisas são obscurecidas, e por muitos perdidas de vista, diante da ideia, imaginada por muitíssimos, de que o Irmão Brigham era um vil impostor, de que todos os que a ele se associaram não são melhores, e de que seria prestar serviço a Deus destruí-los da face da terra, para que o povo por eles enganado se libertasse da influência que exercem sobre ele. Ó geração de cegos — ia dizer de tolos, mas usarei tal expressão? Mas não há evidência suficiente diante dos olhos desta geração, do que foi feito no passado, na perseguição de homens justos e santos, em sua morte, no derramamento de seu sangue, para que os homens não possam aprender que existe tal coisa como um homem ser bom, virtuoso, puro, e ainda assim ser caluniado pelos inimigos da pureza e da virtude, como nos dias de Cristo? Esta geração terá muito a responder por conta disto. Como Santos dos Últimos Dias, temos sido acusados de todo crime. Disseram de nós que estávamos prontos a cometer homicídio a qualquer momento, para servir a nossos próprios fins, que estávamos prontos a derramar o sangue do inocente, e que esse sentimento de destruir a vida existia entre nós, quando, ao mesmo tempo, por estas montanhas selvagens e vales isolados, a vida tem sido mais segura, a propriedade mais protegida, do que nas ruas das cidades mais bem administradas da União. Nunca houve um dia, desde que viemos para além destas montanhas, em que os viajantes não pudessem passar do norte para o sul, e do leste para o oeste, e por todas as partes, com perfeita segurança. Nunca houve um dia, enquanto os Santos dos Últimos Dias viveram sozinhos nestes vales, em que uma mulher fosse insultada, seja de palavra, seja de gesto, de dia ou de noite, fosse ela senhora idosa ou jovem, ao viajar de uma ponta a outra de nosso Território. Pode-se dizer isto de nós hoje? Certamente que não; mas era assim, poucos anos atrás, por todos estes vales, e permiti que vos diga que voltará a sê-lo.

Às vezes penso que, se fôssemos um vigésimo tão maus quanto somos acusados de ser, seria muito perigoso por todo este país para muitos que hoje não são molestados. Sei isto: nenhuma outra comunidade teria suportado um vigésimo do insulto e do dano que nós temos suportado tão silenciosamente. O que nos levou a isso? Será porque somos incapazes de sentir, ou porque não compreendemos nossos direitos, ou porque não os desejamos, que nos deixamos ser oprimidos? Não, não foi por causa dessas coisas. Nosso peito ardeu, provavelmente, com o fogo da indignação, tanto quanto qualquer povo na face da terra poderia arder em tais circunstâncias. O que nos reteve? Simplesmente o conhecimento de que esses homens são ignorantes, e creio que os Santos dos Últimos Dias participaram daquele espírito que teve Jesus quando pendia da cruz. Foi de certo modo nesse espírito que os Santos dos Últimos Dias agiram. Teria sido fácil para eles agirem de outro modo, se assim o tivessem escolhido. Poder-se-ia dizer que foram contidos pelo medo. Não foi pelo temor do homem, mas o temor de Deus conteve este povo. É muito melhor sofrermos o mal do que praticá-lo; é melhor suportar o mal, a ignomínia, a vergonha e a perseguição do que voltarmo-nos e praticar qualquer dessas coisas nós mesmos.

Espero que uma grande mudança se opere em nossas circunstâncias. A nação da qual fazemos parte olha para nós, como povo, com mais interesse do que para qualquer outra parte dos Estados Unidos. Não há povo, não há comunidade, dentro dos confins de nossa República, a respeito da qual se sinta tanto interesse quanto pelos Santos dos Últimos Dias. Os olhos dos homens se voltam para nós. Creio que estamos sendo cada vez melhor compreendidos. A conclusão desta ferrovia, que se supunha seria o dobrar de finados do mormonismo, a descoberta destas minas, que nós mesmos antes desaprovávamos, essas coisas que muitos supunham seriam o meio de destruir este povo, estão agora em operação há anos, e com que resultado? Com este resultado, tanto quanto minha observação alcança — um melhor conhecimento a respeito deste povo, e das circunstâncias que nos cercam; um conhecimento mais amplo de nossa terra, e de todas as dificuldades que tivemos de enfrentar. Eu mesmo tenho observado isto no Congresso: sempre que quero realizar algo relacionado a nosso Território, encontro sempre homens que aqui estiveram, que viram por si mesmos e formaram suas opiniões de acordo, prontos a fazer tudo o que for razoável que eu peça. O contato tem tido o efeito de remover o preconceito. Há pessoas neste país que nos temem. O próprio fato de nos temerem, ao nos negarem nossos direitos, não só demonstra que não nos compreendem, como também é, de sua parte, um reconhecimento de nosso poder; e, como tal, devemos aceitar a negação desses direitos a que temos pleno direito. Governadores, juízes e outros funcionários são enviados para cá, sem que tenhamos voz alguma em sua escolha. Mesmo que fossem todos homens honestos, patriotas, justos e retos, sua escolha, sem nossa voz, é uma injustiça, mas que nenhum povo pode suportar melhor do que nós. Estamos, porém, aprendendo lições que serão de imensa importância para nós nos dias vindouros; pois, tão certo quanto brilha o sol, tão certo quanto Deus vive, tão certo este povo chamado Santos dos Últimos Dias há de tornar-se um povo governante. É consequência inevitável na própria natureza das coisas. Possuímos todos os elementos para nos tornarmos um povo forte, poderoso, governante. Há, portanto, um grande futuro reservado para nós, e, para nos preparar para esse futuro, é necessário que passemos pela fornalha da aflição, que sintamos a mão da opressão, e que sintamos os efeitos da injustiça, para que, quando chegar nossa vez, como indubitavelmente chegará, na própria natureza das coisas, saibamos, pelo tratamento que recebemos, como temperar a justiça com a misericórdia, como estender aos outros aquilo que nos foi negado, e cujo valor bem conhecemos. Não se pode reprimir um povo como este. Não digo isto para vos lisonjear, porque tendes muitas falhas. Nós as conhecemos, e não creio que tenhamos medo de vos dizer vossas falhas, e de dizer as nossas próprias. Mas um povo que possui as qualidades dos Santos dos Últimos Dias há de crescer e tornar-se poderoso. A união é força. O amor há de prevalecer; é um grande poder na terra, e, a isto, acrescentam-se a integridade, a frugalidade, a temperança e a virtude — pois há virtude nesta terra —, há castidade aqui. Nestas montanhas, entre este povo chamado Santos dos Últimos Dias, se a virtude não é apreciada logo depois da própria vida humana, é porque as pessoas não estão vivendo à altura dos ensinamentos que receberam. Se o homem não é tão virtuoso quanto a mulher, é porque o homem não se beneficiou do que lhe foi ensinado. Pensais que se deva esperar de uma filha mais virtude do que de um filho? Pensais que as moças de uma família devam ser mais castas do que os rapazes? Certamente que não. Um dos maiores crimes, o maior, com exceção do derramamento de sangue inocente — e é uma doutrina ensinada pelos Santos dos Últimos Dias, e que deveria ser ensinada por todo homem em seu lar — que se pode cometer é a sedução ou a corrupção do sexo mais fraco. Não pode haver crime maior, exceto o derramamento de sangue inocente, e um povo assim ensinado, o que será? Ora, se observar tais ensinamentos, será forte, vigoroso e poderoso. Podeis reprimir um povo assim? Enviar alguns homens à prisão por infringir a lei de 1862 destruirá esta obra? Mover uma ação judicial contra os executores do espólio do falecido Presidente Young, ou contra o Fiduciário desta Igreja, destruirá esta obra? Ora, os homens que assim dizem não leram a história. Nada compreendem do que se relaciona com o progresso humano e com os poderes humanos, se se lisonjeiam com tais opiniões. Todas essas coisas intensificam o povo, acrescentam-se à nossa força.

Quanto ao casamento plural, ao tratar dessa grande questão, como é chamada, se eu tivesse ansiado por extingui-la ou reprimi-la, jamais teria permitido que recebesse a atenção que recebeu. Tem havido completa má compreensão quanto ao melhor método de tratar esta questão. Ora, esta prática antiga, praticada por poucas pessoas nestas montanhas, foi elevada a importância nacional. O mormonismo tornou-se famoso por causa da prática, por parte de uma porção do povo, desta doutrina, até que toda a terra ressoa com a conversa sobre "a poligamia dos mórmons", como se os mórmons fossem metade do povo dos Estados Unidos. De fato, se eles somassem vinte e cinco milhões, em vez de duzentos mil, não poderiam ter recebido mais atenção. É um grande erro de estadismo, da parte daqueles que querem suprimir as doutrinas mórmons. Se os homens entendessem de estadismo, deixariam a questão passar, mas, em vez disso, estão decididos a nos dar notoriedade mundial, a nos exaltar diante do mundo, e, por seus atos tolos, fazer com que o povo sofra como mártires por esse princípio. Coisa muito imprudente. Isto me faz lembrar de um episódio mencionado na história da Inglaterra de Macaulay. Ele traça um contraste entre a política de Jaime II e a de seu sucessor, Guilherme. Todos sabeis que Jaime era tido por um velho impostor, e que, por fim, foi expulso do trono. Havia, nos dias de Jaime, um Bispo que parecia muito ansioso por alcançar certo objetivo, e que tanto incomodou o rei que este chegou a pensar que o Bispo queria ser mártir, e disse Jaime: "Estou decidido a que ele o seja." Macaulay contrasta esta política com a de Guilherme, em circunstâncias semelhantes. Guilherme era um governante sábio, e houve um homem que fez algo semelhante a ele, em seu tempo, agindo de modo ofensivo, como o Bispo fizera com Jaime, seu sogro. Este também parecia ansioso por ser mártir, e disse Guilherme: "Estou igualmente decidido a que não seja satisfeito." Nisto vemos a diferença entre o estadismo dos dois reis; e um verdadeiro estadista, ao tratar da questão da poligamia, deixá-la-ia rigorosamente em paz. Se quisesse exterminá-la, não pegaria George Reynolds e o enviaria à prisão, fazendo dele um herói, em vez de um criminoso. Tal procedimento só tinha a tendência de fazer o povo apegar-se mais à sua fé e dispor-se a sofrer por ela. Se o casamento plural for divino, como dizem os Santos dos Últimos Dias, nenhum poder na terra pode suprimi-lo, a menos que se esmague e se destrua o povo inteiro. Mas, supondo que não seja divino, como muitos dizem que não é, supondo que não seja de Deus, não pensais que os quarenta milhões podem dar-se ao luxo de deixá-lo em paz? Se sua posição for verdadeira, não pensais que estariam mais seguros fazendo mais, entre os 200.000 que creem, e uma parte dos quais praticam isso, por força moral do que por perseguição e violência? Assim penso. Agora veremos qual é a melhor política. Não creio em ser desafiador. Homens que se casam com mais de uma esposa devem estar dispostos a suportar a pena que lhe seja imposta, se alguma houver, ou não deveriam tomá-las. Um homem que entra nesta Igreja deveria estar disposto a morrer por seus princípios, se necessário, e certamente deveria poder ir para a prisão por eles sem se lamentar do assunto. Se fordes sentenciados à prisão por vos casardes com mais de uma esposa, erguei os ombros e suportai como homens, sem murmurar; preparai-vos para arcar com as consequências. Sabemos que, pelo Evangelho, em tempos antigos, muitos entregaram a vida com alegria, que o grande Capitão de nossa salvação foi crucificado, e que quase todos os profetas pereceram violentamente. Se esperamos, então, ser um com eles, e herdar a mesma glória que herdam, devemos estar preparados para suportar a consequência de nossa adesão à verdade, e de nossa defesa dela; e assim deveríamos estar, em relação a toda doutrina que abraçamos. Abraçamos certas doutrinas. São impopulares. Ainda assim, se somos homens, estaremos preparados para suportar todas as consequências, quaisquer que sejam, sem alarde algum. Mas estou abusando de vosso tempo. Que o Senhor vos abençoe, vos encha do Espírito Santo, vos conserve um povo santo, e vos capacite a vencer todo o mal, é minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém.

Como citar este discursoGeorge Q. Cannon, “Necessidade de Revelação — Evidências da Igreja de Cristo — O Futuro dos Santos — Casamento Plural”, (1879-07-20). Pulpit Vault, 1879-07-cannon-necessity-of-revelationevidences-of-the. Tradução desta edição, por método de glossário, contentdm.lib.byu.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).