As Bênçãos do Evangelho Só São Obtidas Pela Observância da Lei
Lorenzo Snow
"Sendo, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o Senhor a Abrão, e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito." ¶
A este respeito, citarei parte das palavras do Salvador em seu sermão do monte, contidas no último versículo do quinto capítulo de Mateus. ¶
"Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus." ¶
Ao ocupar um breve tempo nesta manhã, desejo um interesse em vossa fé e orações. ¶
Aprendemos que o Senhor apareceu a Abraão e lhe fez promessas muito grandiosas, e que, antes de estar preparado para recebê-las, certa exigência lhe foi feita: que se tornasse perfeito diante do Senhor. E a mesma exigência foi feita pelo Salvador a seus discípulos, que se tornassem perfeitos, assim como ele e seu Pai no céu eram perfeitos. Concebo que este é um assunto que concerne aos Santos dos Últimos Dias; e desejo oferecer algumas observações, a título de sugestão, para a reflexão daqueles a quem isto concerne. ¶
O Senhor propõe conferir as mais altas bênçãos aos Santos dos Últimos Dias; mas, como Abraão, devemos preparar-nos para elas, e para isso a mesma lei que lhe foi dada pelo Senhor nos foi dada para observarmos. Também nos é exigido chegar a um estado de perfeição diante do Senhor; e o Senhor, neste caso, como em todos os outros, não fez uma exigência que não possa ser cumprida; antes, colocou à disposição dos Santos dos Últimos Dias os meios pelos quais podem conformar-se à sua santa ordem. Quando o Senhor fez esta exigência a Abraão, deu-lhe os meios pelos quais poderia qualificar-se para obedecer àquela lei e corresponder plenamente à exigência. Ele tinha o privilégio do Espírito Santo, pois nos é dito que o evangelho foi pregado a Abraão, e através daquele evangelho podia obter aquele auxílio divino que o capacitaria a compreender as coisas de Deus, e sem ele nenhum homem poderia chegar a um estado de perfeição diante do Senhor. Assim, em relação aos Santos dos Últimos Dias, eles não poderiam de modo algum alcançar tal padrão moral e espiritual, exceto por meio de auxílio e assistência sobrenaturais. Tampouco esperamos que os Santos dos Últimos Dias, de imediato, se conformem ou possam conformar-se a esta lei em todas as circunstâncias. Isto requer tempo; requer muita paciência e disciplina da mente e do coração para obedecer a este mandamento. E embora possamos falhar de início em nossas tentativas, isto não deveria desanimar os Santos dos Últimos Dias de se esforçarem por exercer determinação em cumprir a grande exigência. Abraão, ainda que pudesse ter tido fé para andar diante do Senhor segundo esta lei divina, contudo houve ocasiões em que sua fé foi severamente provada; mas ainda assim não se desanimou, porque exercia determinação em cumprir a vontade de Deus. Podemos pensar que não conseguimos viver conforme a lei perfeita, que a obra de nos aperfeiçoarmos é demasiado difícil. Isto pode ser em parte verdade, mas permanece o fato de que é um mandamento do Todo-Poderoso para conosco, e não podemos ignorá-lo. Quando experimentamos momentos difíceis, é então o momento de valermo-nos daquele grande privilégio de clamar ao Senhor por força e entendimento, inteligência e graça, pelos quais podemos vencer a fraqueza da carne, contra a qual temos de travar uma guerra contínua. ¶
Abraão foi chamado a deixar sua parentela e sua terra. Se não tivesse cumprido esta exigência, não teria sido aprovado pelo Senhor. Mas cumpriu-a; e, ao deixar seu lar, sem dúvida estava vivendo em obediência a esta lei divina de perfeição. Se falhasse nisto, certamente não poderia ter obedecido às exigências do Todo-Poderoso. E, ao deixar a casa de seu pai, ao sujeitar-se a esta provação, fazia aquilo que sua própria consciência e o Espírito de Deus o justificavam em fazer, e ninguém poderia ter feito melhor, desde que não estivesse fazendo mal algum ao realizar este trabalho. ¶
Quando os Santos dos Últimos Dias receberam o evangelho nas nações distantes, e quando a voz do Todo-Poderoso lhes disse que deixassem as terras de seus pais, que deixassem sua parentela como fez Abraão, na medida em que cumpriram esta exigência, nessa medida estavam andando em obediência a esta lei; e eram tão perfeitos quanto homens poderiam ser nas circunstâncias, e na esfera em que atuavam—não que fossem perfeitos em conhecimento ou poder, etc.; mas em seus sentimentos, em sua integridade, motivos e determinação. E, ao atravessarem o grande abismo, desde que não murmurassem nem se queixassem, mas obedecessem aos conselhos que lhes eram dados, e de todo modo se comportassem de maneira decorosa, eram tão perfeitos quanto Deus exigia que fossem. ¶
O Senhor propõe-se a elevar-nos ao reino celestial. Ele deu a conhecer, por revelação direta, que somos sua prole, gerados nos mundos eternos, que viemos a esta terra com o propósito especial de nos prepararmos para receber a plenitude da glória de nosso Pai, quando retornarmos à sua presença. Portanto, devemos buscar a capacidade de guardar esta lei, de santificar nossos motivos, desejos, sentimentos e afeições, para que sejam puros e santos, e que nossa vontade, em todas as coisas, seja subserviente à vontade de Deus, e não tenhamos vontade própria, senão fazer a vontade de nosso Pai. Tal homem, em sua esfera, é perfeito, e atrai a bênção de Deus em tudo o que faz e aonde quer que vá. Mas estamos sujeitos à loucura, à fraqueza da carne, e somos mais ou menos ignorantes, sendo, portanto, propensos a errar. Sim, mas isto não é razão para que não nos sintamos desejosos de cumprir este mandamento de Deus, especialmente vendo que ele colocou ao nosso alcance os meios de realizar esta obra. Este é, entendo eu, o significado da palavra perfeição, tal como expressa por nosso Salvador e pelo Senhor a Abraão. Uma pessoa pode ser perfeita em algumas coisas e não em outras. Uma pessoa que obedece fielmente à Palavra de Sabedoria é perfeita no que diz respeito a essa lei. Quando nos arrependemos de nossos pecados e fomos batizados para sua remissão, éramos perfeitos no que dizia respeito a este assunto. Ora, o Apóstolo João nos diz que "agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser; porém sabemos que, quando se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos." "E qualquer que nele tem esta esperança, purifica-se a si mesmo, como também ele [Cristo] é puro." Os Santos dos Últimos Dias esperam alcançar este estado de perfeição; esperamos tornar-nos como nosso Pai e Deus, filhos aptos e dignos de habitar em sua presença; esperamos que, quando o Filho de Deus aparecer, recebamos nossos corpos renovados e glorificados, e que "estes corpos vis sejam transformados e se tornem semelhantes ao seu corpo glorioso." Estas são nossas expectativas. Ora, que todos os presentes façam a si mesmos esta pergunta. Estão nossas expectativas bem fundamentadas? Em outras palavras, estamos buscando purificar-nos? Como pode um Santo dos Últimos Dias sentir-se justificado em si mesmo, a menos que esteja buscando purificar-se assim como Deus é puro—a menos que esteja buscando manter sua consciência livre de ofensa diante de Deus e dos homens todos os dias de sua vida? Sem dúvida, muitos de nós andamos de dia em dia, de semana em semana, de mês em mês, diante de Deus, sentindo-nos sem condenação, comportando-nos devidamente, e buscando com afinco e em toda mansidão que o Espírito de Deus dite nosso rumo diário; e, contudo, pode haver certos momentos em nossa vida em que somos grandemente provados e talvez vencidos; ainda que assim seja, isto não é razão para que não tentemos novamente, e isto com energia e determinação redobradas para realizar nosso objetivo. Havia o Apóstolo Pedro, por exemplo, um homem valoroso pela verdade, e um homem que andava diante de Deus de maneira que obtinha sua divina aprovação; ele disse ao Salvador, em certa ocasião, que ainda que todos os homens o abandonassem, ele não o faria. Mas o Salvador, prevendo o que sucederia, disse-lhe que, naquela mesma noite, antes que o galo cantasse, o negaria três vezes, e assim o fez. Provou-se despreparado para a provação; mas depois adquiriu poder, e sua mente foi disciplinada a tal ponto que tais provações já não podiam afetá-lo. E se pudéssemos ler em detalhe a vida de Abraão, ou as vidas de outros grandes e santos homens, sem dúvida descobriríamos que seus esforços por serem retos nem sempre foram coroados de êxito. Portanto, não devemos desanimar-nos se formos vencidos em um momento de fraqueza; mas, ao contrário, arrepender-nos imediatamente do erro ou do mal que porventura tenhamos cometido, e, tanto quanto possível, repará-lo, e então buscar a Deus por renovada força para prosseguir e fazer melhor. ¶
Abraão pôde andar perfeitamente diante de Deus dia após dia quando deixava a casa de seu pai, e demonstrou evidências de uma mente superior e bem disciplinada no rumo que sugeriu quando seus pastores contenderam com os pastores de seu sobrinho, Ló. Chegou, porém, um momento na vida de Abraão que deve ter sido muito penoso; de fato, dificilmente se pode conceber algo mais severo; foi quando o Senhor o chamou a oferecer em sacrifício seu amado e único filho, precisamente aquele por meio de quem esperava o cumprimento da grande promessa que o Senhor lhe fizera; mas, ao manifestar disposição adequada, foi capaz de superar a provação, e provar sua fé e integridade a Deus. Dificilmente se pode supor que Abraão herdasse tal estado de espírito de seus pais idólatras; mas é razoável crer que, sob a bênção de Deus, pôde adquiri-lo, depois de passar por uma guerra semelhante à nossa contra a carne, e sem dúvida sendo vencido às vezes e depois vencendo, até que foi capacitado a suportar uma prova tão severa. "Haja em vós este mesmo sentimento," diz o Apóstolo Paulo, "que houve também em Cristo Jesus: o qual, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus." Ora, todo homem que tem este objetivo diante de si se purificará como Deus é puro, e procurará andar perfeitamente diante dele. Temos nossas pequenas loucuras e nossas fraquezas; deveríamos procurar vencê-las tão depressa quanto possível, e deveríamos inculcar este sentimento nos corações de nossos filhos, para que o temor de Deus cresça com eles desde a mais tenra juventude, e para que aprendam a comportar-se devidamente diante dele em todas as circunstâncias. Se o marido puder viver com sua esposa um dia sem contender, ou sem tratar ninguém sem bondade, ou sem entristecer o Espírito de Deus de modo algum, isto está bem até aí; ele está, até aí, perfeito. Que procure então ser o mesmo no dia seguinte. Mas suponhamos que falhe em sua tentativa do dia seguinte? Isto não é razão para que não obtenha êxito ao fazê-lo no terceiro dia. Se o Apóstolo Pedro se tivesse desanimado com seu manifesto fracasso em manter a posição que assumira, de permanecer ao lado do Salvador em todas as circunstâncias, teria perdido tudo; ao passo que, arrependendo-se e perseverando, nada perdeu, mas tudo ganhou, deixando-nos também a nós que nos beneficiássemos de sua experiência. Os Santos dos Últimos Dias deveriam cultivar constantemente esta aspiração, que foi tão claramente exposta pelos apóstolos em dias passados. Deveríamos procurar andar cada dia de modo que nossa consciência estivesse livre de ofensa diante de todos. E Deus colocou na Igreja certos meios pelos quais podemos ser auxiliados, a saber, apóstolos, e profetas, e evangelistas, etc., "para o aperfeiçoamento dos santos," etc. E também nos conferiu seu Espírito Santo, que é um guia infalível, permanecendo como um anjo de Deus a nosso lado, dizendo-nos o que fazer, e proporcionando-nos força e socorro quando circunstâncias adversas surgem em nosso caminho. Não devemos permitir que nos desanimemos sempre que descobrirmos nossa fraqueza. Dificilmente encontraremos um exemplo, em todos os gloriosos exemplos que nos foram dados pelos profetas, antigos ou modernos, em que tenham permitido que o Maligno os desanimasse; mas, ao contrário, buscaram constantemente vencer, ganhar o prêmio, e assim preparar-se para uma plenitude de glória. O Profeta Elias teve êxito. Andou tão bem diante de Deus que foi digno de ser trasladado. E Enoque foi achado digno de andar com Deus por cerca de 300 anos, e foi, por fim, com seu povo, arrebatado ao céu. ¶
Somos informados de que, nos últimos dias, "não haverá mais ali criança de poucos dias, nem velho que não cumpra seus dias; porque o menino morrerá de cem anos." E em outra escritura nos é dito que a idade da criança será como a idade de uma árvore, e que não morrerá até que envelheça, e então não dormirá no pó, mas será transformada num abrir e fechar de olhos. Mas, naqueles dias, o povo deve viver perfeitamente diante do Senhor, pois nos é dito na mesma passagem que "o pecador," em vez de ser favorecido, "de cem anos será amaldiçoado." Quando uma vez nos convencermos de que realmente temos em nós mesmos, por meio do evangelho que recebemos, o poder de vencer nossas paixões, nossos apetites, e em todas as coisas submeter nossa vontade à vontade de nosso Pai Celestial, e, em vez de sermos causa de sentimentos desagradáveis em nosso círculo familiar, e entre aqueles com quem convivemos, ajudarmos grandemente a criar um pequeno céu na terra, então se pode dizer que a batalha está meio ganha. Uma das principais dificuldades que muitos sofrem é que somos demasiado propensos a esquecer o grande objetivo da vida, o motivo de nosso Pai Celestial ao enviar-nos aqui a revestirmo-nos de mortalidade, bem como o santo chamado com que fomos chamados; e, por isso, em vez de nos elevarmos acima das pequenas coisas transitórias do tempo, permitimo-nos com demasiada frequência descer ao nível do mundo, sem nos valermos do auxílio divino que Deus instituiu, e que somente pode capacitar-nos a vencê-las. Não somos melhores do que o restante do mundo se não cultivarmos o sentimento de sermos perfeitos, assim como nosso Pai no céu é perfeito. ¶
Esta foi a exortação do Salvador aos Santos de outrora, que eram um povo de paixões semelhantes, e que estavam sujeitos às mesmas tentações que nós; e ele sabia se o povo poderia conformar-se a isto ou não; o Senhor jamais exigiu, nem exigirá, de seus filhos coisas que lhes seja impossível realizar. Os élderes de Israel que esperam sair a pregar o evangelho da salvação no meio de uma geração perversa e corrupta, entre um povo cheio de mal e corrupção, deveriam cultivar este espírito especialmente. E não apenas eles, mas todos, todo jovem e toda jovem pertencentes a esta Igreja que seja digno de ser chamado Santo deveria cultivar este desejo de corresponder a esta exigência, para que sua consciência esteja limpa diante de Deus. É coisa bela, seja no jovem, seja no idoso, ter este objetivo em vista; é especialmente agradável ver nossa juventude tomar um rumo tal que a luz e a inteligência de Deus possam resplandecer em seu semblante, para que tenham um correto entendimento da vida, e possam viver acima das loucuras e vaidades do mundo, e dos erros e iniquidades do homem. ¶
Que Deus vos abençoe, irmãos e irmãs, e derrame sobre vós seu Espírito Santo, para que sejais abençoados em todos os vossos atos, em vossas entradas e vossas saídas, e no desempenho de todo dever, e sejais abençoados ao clamar ao Todo-Poderoso, para que seu Espírito esteja em vós como um poço de água que salta para a vida eterna, para vos guiar em seu temor por todas as cenas da vida, é minha oração, em nome de Jesus. Amém. ¶