Pulpit

Interpretação das Escrituras—Milagres Aparentes Facilmente Realizados Quando Necessário—A Desobediência Traz Calamidade—Cumprimento da Profecia

Orson Pratt

1878-06-23

Chamarei a atenção da congregação para uma porção de uma profecia de Malaquias, que se encontra no último capítulo do Antigo Testamento.

"Porque eis que aquele dia vem ardendo como fornalha; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade serão como a palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o Senhor dos Exércitos, de modo que não lhes deixará nem raiz nem ramo.

"Mas a vós, que temeis o meu nome, o sol da justiça nascerá, e trará cura debaixo das suas asas; e saireis, e crescereis como os bezerros do cevadouro.

"E pisareis os ímpios, porque se farão cinza debaixo das plantas de vossos pés, no dia em que eu fizer isso, diz o Senhor dos Exércitos."

Ao levantar-me, e ao abrir a Bíblia, aconteceu de abri-la nas palavras que acabo de ler, proferidas por Malaquias, um dos últimos entre os antigos Profetas. São palavras muito familiares aos Santos dos Últimos Dias, pois sua atenção tem sido frequentemente chamada para elas. Ao lermos as profecias dos santos Profetas, esperamos que aquela porção delas que ainda não se cumpriu venha a acontecer em seu tempo e em sua estação. Não lemos as Escrituras como faz a maioria dos habitantes da terra, pensando que devem ser espiritualizadas. Quase não há profecia que esta geração, assim como algumas gerações passadas, não interprete como significando algo inteiramente diferente de sua leitura. Consideram os homens inspirados como dizendo uma coisa e querendo dizer outra, e a única maneira de averiguar o que realmente desejam transmitir é buscar um homem não inspirado que dê algum outro sentido inteiramente diferente da construção literal das palavras do escritor inspirado. Há poucos indivíduos, comparativamente falando, entre as nações da Cristandade, que discordem da crença predominante, a saber, que a Bíblia é um livro que só pode ser compreendido pela erudição e sabedoria do homem, que o pregador não inspirado, ainda que altamente educado à maneira dos homens, é muito mais qualificado para interpretar as coisas de Deus do que aquele ou aqueles por meio de quem elas foram faladas. Os Santos dos Últimos Dias, que talvez tivessem sido treinados de modo semelhante, estavam mais ou menos dispostos a acalentar tais opiniões; mas, quando abraçaram o evangelho eterno, e receberam do Espírito Santo, o próprio Espírito pelo qual as Escrituras foram escritas, foram corrigidos em seus juízos, e aprenderam que a palavra de Deus se cumpriria por inteiro, naquilo que ainda não se tivesse realizado, e que devem ser entendidas sob a mesma luz, e no mesmo sentido em que entenderíamos os escritos de indivíduos não inspirados, quando escritos de modo simples e claro sobre qualquer assunto específico. Isso é algo que todo homem de inteligência ordinária, sem instrução alguma de livros, é plenamente capaz de fazer, especialmente quando se usa linguagem simples, fácil de compreender. Por exemplo, quando recebemos cartas e comunicações de nossos amigos no exterior, jamais pensamos em dar uma construção diferente às suas frases, alegando que não quiseram dizer o que escreveram. Quando, portanto, os antigos Profetas predisseram que "aquele dia vem ardendo como fornalha", e que "os soberbos, e todos os que cometem impiedade serão como a palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o Senhor dos Exércitos, de modo que não lhes deixará nem raiz nem ramo" — devemos crer que o Profeta quis dizer exatamente o que disse. Quando lemos no Livro de Gênesis a respeito das chuvas que caíram dos céus, causando um dilúvio de águas que assolou a terra, em cumprimento de certa mensagem de advertência que anteriormente fora pregada ao povo então vivente, pela qual foram arrastados e afogados, devemos crer que o escritor inspirado que registrou essas palavras descreveu o acontecimento tal como ocorreu, pelo menos no que diz respeito aos fatos gerais, e que o dilúvio mencionado foi um corpo de água literal, e que de fato prevaleceu sobre todas as partes da terra. Não digo que o dilúvio tenha prevalecido, no mesmo momento, sobre toda a face da terra; mas, antes que as águas baixassem, toda parte sólida e habitável da terra foi coberta pelas águas. Como isso foi realizado, o escritor inspirado não nos diz, deixando-nos a conjecturar. O Senhor tem muitas maneiras e meios pelos quais poderia trazer à realidade um acontecimento dessa natureza. Por exemplo, quão fácil seria afogar todos os habitantes das regiões temperadas e árticas, bastando para isso deter a rotação da terra em seu eixo. A menos que outro milagre fosse realizado para impedir que as águas amontoadas em torno das regiões equatoriais fluíssem para as regiões polares, elas necessariamente, à medida que a terra começasse a cessar ou a girar mais lentamente em suas revoluções axiais, fariam com que as águas da região equatorial fluíssem para as duas regiões polares. É coisa fácil para um matemático demonstrar a profundidade das águas em qualquer parte ou latitude de nosso globo, caso tal acontecimento viesse a suceder. As águas, ao recuarem da grande região equatorial, cobririam as grandes montanhas a nosso leste, e nós, nesta altitude, ficaríamos submersos sob pelo menos uma milha de profundidade de água. Não digo que esta tenha sido a maneira que o Senhor usou para "romper as fontes do grande abismo." Pode ter havido outras causas desconhecidas a nós; mas dizer que jamais houve tal acontecimento é algo inteiramente injustificado. Ainda assim, poder-se-ia dizer que isso não cobriria toda a porção sólida da terra, deixando a terra equatorial ainda mais elevada acima do oceano, e, se todas as terras da terra devessem ficar debaixo d'água, como se poderia explicar isso? Muito facilmente. Fazei a terra girar em seu eixo mais rapidamente do que gira agora, digamos, por exemplo, na metade do tempo — em 12 horas em vez de 24 — e submergiríeis todas as terras equatoriais de nosso globo. Quão fácil seria para o Senhor fazer a terra girar mais rapidamente, e depois novamente mais devagar, e produzir os efeitos atribuídos ao dilúvio.

Quando, portanto, lemos que a terra foi certa vez despovoada, à exceção de uns poucos indivíduos, que foram salvos na arca, por que se haveria de considerar coisa incrível que o Senhor viesse a despovoar novamente nosso globo, não por um dilúvio, mas por fogo devorador? Poder-se-ia dizer que não conseguimos ver como um fogo universal poderia prevalecer sobre toda a face da terra. Há várias maneiras pelas quais isso poderia ser realizado. Como fez o Senhor, em tempos antigos, que o fogo irrompesse entre os filhos de Israel, quando transgrediam suas santas leis, e quando murmuravam e se queixavam contra Deus? Fogo saiu de sua presença, somos informados, e repousou sobre o tabernáculo; ele estava no tabernáculo, e sua nuvem estava sobre o tabernáculo; e fogo saiu daquele centro, ou do lugar em que o Senhor escolheu manifestar e mostrar sua glória, e destruiu muitos do povo. Podeis dizer: "Mas este era um fogo sobrenatural, que procedia da presença de Deus, do tabernáculo, consumindo milhares de transgressores." Eu perguntaria: não pode o mesmo Ser que foi capaz de produzir essa destruição pelo fogo sobre alguns milhares de indivíduos fazê-la mais extensa e mais universal em sua operação? Não tem ele o mesmo poder para produzir um fogo sobrenatural sobre toda a terra; até mesmo para consumir "todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade"; queimando-os literalmente, tornando-se seus corpos como "cinza", como um lavrador atearia fogo e queimaria a palha de seus campos? Bem, direis: "Se admitimos que o primeiro foi sobrenatural, que Deus de fato queimou pelo fogo os transgressores entre Israel, estamos dispostos a admitir que o mesmo Ser que pôde fazer isso em pequena escala poderia realizar obra semelhante em escala universal." Isso é bem razoável de se admitir. Mas então, talvez o Senhor não considere apropriado realizar esta obra de queimar, nos últimos dias, inteiramente segundo um princípio sobrenatural; talvez a realize por meio de certas forças ou leis físicas, por certas mudanças que possam ser operadas sobre nossos elementos; pois o Senhor tem em suas próprias mãos todos os elementos, e não apenas os deste pequeno globo nosso, mas todos os elementos que compõem o universo; estão em suas mãos, ele pode dar instruções e eles se tornam subservientes na realização de seus grandes e sábios propósitos. Ora, há no próprio ar que respiramos, e que todos os seres animados, mais ou menos, respiram, e pelo qual vivem — um princípio de calor; e quando esse calor, em sua forma latente, é liberado, ou sai dos constituintes da atmosfera, não haveria uma quantidade suficiente para produzir essa revolução sobre a terra? Não há calor suficiente não somente para queimar os ímpios e os soberbos, mas para fazer os próprios elementos de nosso globo derreterem por sua intensidade? cumprindo assim outra profecia que diz: "os montes se derretem como cera na presença do Senhor"; e ainda outra profecia, que diz que os montes se escoarão de diante de sua face como substância derretida; correrão como rios, por causa da intensidade do calor, ligado aos elementos de que se compõem nossa atmosfera e nossas montanhas.

Ademais, independentemente do calor latente ligado à atmosfera de nosso globo, não é ele capaz de fazer com que o grande centro de nosso sistema, o sol, emita mais calor, suficiente para consumir os ímpios e derreter a terra por sua intensidade? Sim. Lembro-me de ter lido, em uma das profecias de Isaías, a respeito deste assunto. Lembro-me também de ter lido, nas revelações de São João, que os homens seriam abrasados por grande calor. Apocalipse, capítulo 16, versículo 8. Havia de ser um dos grandes julgamentos dos últimos dias, tal como visto por aquele homem inspirado. E Isaías, falando sobre este assunto, diz: "Além disso, a luz da lua será como a luz do sol, e a luz do sol sete vezes maior," etc. Suponde que o calor devesse aumentar na mesma proporção em que a luz aumenta; ou, em outras palavras, supondo que nossos termômetros, ao marcarem cem graus Fahrenheit, devessem subir a 700 graus Fahrenheit, qual seria o efeito? Uma conflagração geral sobre toda a face do globo seria produzida, cumprindo assim tanto a profecia antiga quanto a moderna.

Mas prossigamos. Não nos cabe, a menos que tenhamos alguma instrução definida pela palavra de Deus, dizer como ele há de realizar seus grandes propósitos. Basta-nos saber que ele o fará. Somos informados que essa queima há de ser universal, no que diz respeito a todos os soberbos, e a todos os que cometem impiedade. Parece, então, que há de ser uma das últimas destruições dos ímpios. Antes disso, haverá numerosas destruições, por meio de terremotos, pragas, tempestades de granizo, guerras, etc., que hão de prevalecer e que hão de varrer milhões da face de nosso globo. Mas o grande julgamento que há de limpar a terra de todo pecado será pelo elemento fogo. "Mas," pergunta alguém, "pensais que haverá muitos, naquele dia, que serão soberbos e ímpios? Não estarão a maioria convertidos, e, por conseguinte, escaparão desta grande conflagração, como Noé escapou de se afogar?" Responderei a isso repetindo outra profecia, que agora me ocorre, registrada no capítulo 24 de Isaías. Este homem de Deus viu o período em que a terra cambalearia como um bêbado; e viu aquele dia glorioso em que o Senhor dos Exércitos estará prestes a reinar em Sião e em Jerusalém. E, entre outras coisas que viu em visão, estava que a terra ficaria contaminada por seus habitantes; "porque," diz o Profeta, "trespassam as leis, mudam os estatutos, e quebram o convênio eterno." Mostrando claramente que haveriam de ser um povo corrupto; um povo que, por exemplo, mudaria a ordenança do batismo, da imersão para a aspersão ou derramamento, ou a aboliria de todo, e do mesmo modo mudaria as várias ordenanças do evangelho de sua forma original, tal como o Senhor as revelou. Diz, pela boca de seu Profeta, que o povo culpado dessa grande maldade seria visitado com fogo; "serão queimados os moradores da terra, e poucos homens restarão." Isto é um pouco mais específico. Aprendemos, por Malaquias, que seriam destruídos tanto pela raiz quanto pelo ramo — nenhum ramo de maldade, nenhuma raiz de maldade restante; mas isso não nos dá a proporção entre os justos e os ímpios. Mas Isaías nos dá uma pista um pouco mais clara sobre este assunto. À pergunta de quantos serão alcançados por este último e grandioso julgamento avassalador, Isaías responderia: "serão queimados os moradores da terra, e poucos homens restarão." O quê, somente algumas poucas pessoas hão de se converter, somente algumas poucas hão de receber o verdadeiro evangelho, e estar preparadas para a vinda do Noivo; somente algumas poucas hão de escapar desta terrível desolação? Assim diz o Profeta Isaías; isto é, poucos em comparação com a grande e numerosa população de nosso globo. Mesmo alguns poucos milhões seriam poucos, comparados aos mil e duzentos milhões que habitam a terra. Isaías, no mesmo capítulo, ao descrever a glória de seu reinado pessoal sobre a terra, diz que "então a lua será humilhada, e o sol se envergonhará," por causa da luz superior que acompanhará a presença daquele que há de reinar em Sião e em Jerusalém. O Senhor produz a luz natural do sol e o calor dela; ele produz a luz natural dos demais luminares que cintilam naqueles céus, e também o calor que procede de seus corpos. Ora, se ele pode produzir tamanho calor intenso por meio de corpos como nosso sol; se pode fazer com que os mundos ao redor sejam aquecidos e recebam certa temperatura pela irradiação de luz e calor; se o sol pode produzir tão alta temperatura sobre nossa terra, existindo a uns 90 milhões de milhas de distância, por que não haveria o Senhor de ser capaz de produzir uma luz e um calor maiores, se necessário, para varrer os ímpios, e fazer com que a terra, num momento, por assim dizer, sinta o poder desse calor, a ponto de derreter-se como cera diante de sua presença? Mas, podeis perguntar, por que esse calor não destruiria também os justos, tanto quanto os ímpios? Não têm os justos, muitas vezes, sido queimados na fogueira? Não têm sido reduzidos a cinzas, pelo poder dos ímpios? E por que esse calor intenso, de que estais falando, que há de destruir os ímpios pela raiz e pelo ramo, não afetaria igualmente os justos?" Expliquemos. Antes deste dia de queima, não haverá justos sobre a terra. Nem um sequer? Não, nem um sequer. "Que será deles, então?" O Apóstolo Paulo nos informa que "o mesmo Senhor descerá do céu com um brado, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para encontrar o Senhor nos ares." Parece, então, que os justos que dormem em seus túmulos hão de ressuscitar nesse momento, para serem arrebatados juntamente com os que estiverem vivos sobre a terra, os quais serão suficientemente justos. Ora, suponde que não ascendessem ao encontro do Senhor, mas permanecessem na terra, e ele considerasse apropriado preservá-los deste fogo devorador, poderia ele fazê-lo? Certamente, e pelo mesmo princípio pelo qual preservou os três jovens hebreus em meio ao fogo. Somos informados, em conexão com esta notável preservação de vida, que não havia sequer cheiro de fogo em suas vestes, nem um cabelo de suas cabeças foi tocado, enquanto alguns dos ímpios, no ato de lançar esses jovens à fornalha, que havia sido aquecida sete vezes mais do que de costume, foram eles mesmos devorados. Contudo, os justos foram poupados, não recebendo dano algum. Ora, esse mesmo Deus que preservou os três jovens hebreus em meio à mais terrível provação que passaram poderia preservar os justos sobre a terra, se considerasse apropriado fazê-lo. Mas ele os levará às nuvens, e estarão com ele quando vier. Mas, podeis dizer: "Não dissestes que, quando ele vier, o sol esconderá seu rosto de vergonha, etc.; portanto, não consumirá aquela glória que rodeia a pessoa do Salvador aos justos, depois de serem arrebatados?" De modo algum; não estarão sujeitos ao elemento devorador do fogo, ainda que ainda não tenham sido mudados para a imortalidade; pois o tempo para os justos que permanecem vivos serem mudados será tanto quanto mil anos depois de descerem sobre a terra; depois de haver, aqui na terra, geração após geração; então, ao som da última trombeta, informa-nos o Apóstolo Paulo, os que forem justos serão mudados num abrir e fechar de olhos. Não hão de passar por esta mudança quando Jesus vier ao princípio do reinado milenar, mas depois de findos os mil anos, ao som da última trombeta, a qual há de despertar e chamar as nações adormecidas dos ímpios de suas sepulturas; então os justos, que permanecerem na carne, serão mudados num momento; e depois desse tempo não haverá mais mortalidade sobre a terra. "Mas," podeis dizer novamente, "dificilmente podemos crer que esses grandes milagres hão de acontecer como dizeis, segundo a profecia." Supondo que não possais, será que vossa incredulidade torna sem efeito as predições dos servos de Deus? Supondo, por exemplo, que descrêssemos, exceto oito almas, como foi o caso do mundo antediluviano, subverteria nossa incredulidade a palavra de Deus? Não. O Senhor é um Deus de milagres, ou, em outras palavras, é um Deus de poder, e opera sobre os materiais de nosso globo, segundo sua própria boa vontade e prazer. Quando ele queima os ímpios, quando faz os elementos derreterem-se com calor ardente, quando faz os montes escoarem-se e derreterem-se como cera diante de sua presença, tudo isso não destrói uma única partícula de matéria, mas apenas muda a matéria de uma condição para outra. Não há uma partícula sequer dos materiais de nosso globo que seja aniquilada; todos continuarão a existir; e ainda que chegue o tempo em que o calor intenso seja tal que disperse os materiais de nosso globo sólido e converta o grande e poderoso abismo em substâncias gasosas, e separe os elementos, e a água deixe de existir tanto como vapor quanto como água; ainda que chegue o tempo em que o hidrogênio e o oxigênio, que compõem a maior parte da água de nosso globo, se tornem gases, ainda assim o Senhor poderia reorganizar esses elementos, assim dispersos no espaço, por seu poder, reunindo-os novamente por sua lei e por sua palavra, fazendo um novo mundo, e criando um novo céu, e uma nova terra, na qual, diz o Apóstolo Pedro, habitará a justiça. Esta nova terra, que há de ser criada, não será habitada pelos desobedientes e ímpios, como agora ocorre com o mundo presente; haverá uma mudança completa na condição da terra, e também na condição da família humana; as maldições da Queda não se hão de encontrar em nenhuma delas, e, por consequência, não haverá mais mortalidade sobre a nova criação, nem tristeza, nem pranto; nem tampouco haverá mais morte; pois as coisas antigas terão passado, e todas as coisas se tornarão novas. Haverá apenas um governo, não várias centenas de formas diferentes de governo, mas uma só forma prevalecerá sobre a nova criação, habitada por seres imortais. Todas estas mudanças são aquilo que os Santos dos Últimos Dias aguardam. Não lemos essas profecias e depois empreendemos mudá-las, dizendo a nossos ouvintes que devem ser entendidas como significando outra coisa, em algum sentido espiritual. Não lhes dizemos que este dia da queima é um dia em que a maldade há de ser limpa da terra pela influência purificadora do Espírito de Deus, e que todo o povo será convertido, e que, portanto, a terra será habitada por ninguém, exceto os justos; e que aquela porção das Escrituras referente aos ímpios que se tornam cinza debaixo dos pés dos justos significa algo inteiramente diferente da leitura literal, e que seus pecados hão de ser todos consumidos, e que hão de se tornar justos e hão de andar todos sobre a nova terra livres de pecado. Não; mas, quando falamos de fogo devorador ardendo como fornalha, esperamos que seja fogo; esperamos que seja calor intenso; e quando ele diz que há de consumir todos os soberbos e todos os que cometem impiedade, não esperamos que reste um só homem ou mulher ímpios em toda a terra; e quando diz que não lhes há de restar nem raiz nem ramo, não esperamos encontrar vestígio algum de maldade em nenhum canto da terra, por mais remoto que seja; mas que tudo será consumido, e que restarão apenas os justos.

Nosso Profeta moderno, Joseph Smith, quando proferia suas profecias, o Senhor falava por meio dele, e não precisamos de homem algum não inspirado que se levante e diga o que o Senhor quis dizer, quando falou por meio dele. Por exemplo, nosso Profeta falou deste mesmo dia da queima; é mencionado por ele em muitos lugares em Doutrina e Convênios, livro que tenho em minhas mãos. Terá o Senhor tentado espiritualizar, ao dar essas novas revelações? Não; mas ele nos disse os fatos do caso. Por exemplo, em certo lugar, falando da vinda do Senhor, diz que os ímpios serão destruídos da terra, e que os justos serão arrebatados, da mesma maneira que descreve o Novo Testamento. E então fala também dos justos que descerão depois de os ímpios serem destruídos. Há uma promessa feita aos Santos dos Últimos Dias, assim como aos Santos de outrora. O Senhor disse, em 1831, ao Profeta Joseph, numa revelação dada perante uma conferência geral, e escrita por um escrivão na presença da conferência, que, entre outras grandes coisas que haveriam de acontecer, os Santos possuiriam a terra como sua herança em nossos dias, e que toda maldade cessaria. Faço uma promessa, diz o Senhor, e este é meu convênio convosco, e com vossos filhos depois de vós, de que tereis certa terra que vos darei, por herança, e a possuireis a seu tempo, enquanto a terra subsistir, e a possuireis novamente na eternidade, jamais tornando a passar. Se os Santos dos Últimos Dias quiserem saber onde se encontra esta promessa, leiam a revelação dada em 2 de janeiro de 1831. Foi uma revelação dada quando éramos ainda um povo pequeno, antes que houvesse qualquer reunião dos Santos; e, de fato, quando apenas alguns poucos indivíduos estavam reunidos na casa do Pai Whitmer, o lugar onde o Senhor primeiro organizou sua Igreja. Ali fomos informados de que o Senhor pretendia dar certa porção deste continente aos Santos dos Últimos Dias, e a seus filhos depois deles, por herança eterna. Isto era contrário à nossa fé anterior, quando éramos metodistas e batistas, e quando éramos presbiterianos e professávamos as diferentes denominações, antes de entrarmos na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias; ensinavam-nos então que nosso lar estava longe, naqueles céus, longe em alguma parte distante do universo, além dos limites do espaço, se é que alguém pode compreender onde isso fica; eu jamais consegui. E, no entanto, cristãos esclarecidos cantam a respeito disso. Antes de me associar à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, frequentemente assistia às reuniões dos metodistas, dos batistas e dos presbiterianos; e bem me lembro de que esse sentimento estava incorporado em um dos hinos favoritos cantados pelos metodistas. Tinham uma melodia bem bonita para as palavras, e, sendo eu ainda um menino naquela época, não pude deixar de pensar que fosse a melhor espécie de religião. Jamais desconfiei da veracidade do sentimento, pois eu também acalentava a crença de que iríamos dar uma despedida eterna à terra, e que seríamos levados e levados até chegarmos além dos limites do espaço, para lá encontrar um lugar celestial, adequado à nossa condição celestial. Mas, quando comecei a refletir e a pesquisar as Escrituras por mim mesmo, descobri que, embora a melodia fosse doce e o canto fosse belo, não havia verdade alguma nele; descobri que a "morada segura dos Santos" não estava além do espaço, mas sim sobre esta nossa terra. E por quanto tempo? Por toda a eternidade. Mas a terra há de passar por numerosas mudanças. Uma mudança parcial ocorrerá quando Jesus vier, ao princípio do descanso milenar; depois, uma mudança ainda maior, depois que o Milênio houver passado, quando a grande última trombeta soar, despertando as nações dos ímpios de suas sepulturas adormecidas. Então li, nas Escrituras da verdade, que Deus criaria um novo céu e uma nova terra, e que nesta nova criação habitaria a justiça. Li também de uma cidade santa, chamada a Nova Jerusalém, que desceria sobre esta nova terra, e que o próprio Deus estaria entre aquele povo justo que habitaria essa cidade santa. E li também que as coisas antigas passariam, e que todas as coisas se tornariam novas. Li, também, que não somente a Nova Jerusalém desceria sobre esta terra, mas também outra cidade chamada Jerusalém Santa, cujas dimensões e arquitetura são descritas, e que, por causa da glória que ali há de existir, seus habitantes não terão necessidade da luz do sol, nem da lua, nem das estrelas; pois o próprio Deus habitará ali com eles, e ele será sua luz e sua glória. E que essas duas grandes cidades, que hão de descer sobre esta nova terra, serão as grandes capitais desta nova criação, habitada por seres imortais — os Santos de Deus que viveram nas várias dispensações deste mundo. Isso era algo novo para nós; e era contrário às nossas noções e visões sectárias, e aos ensinamentos sectários sobre a condição futura do homem, e da terra em que vivemos. No entanto, quando vimos a comparar a nova doutrina da nova revelação com a que se encontra estabelecida no Antigo e no Novo Testamento, achamos perfeita concordância. Por exemplo, voltemos nossas mentes aos dias dos Patriarcas, e encontramos Abraão, depois de deixar sua terra natal, em obediência a um mandamento direto de Deus, habitando numa nova terra chamada Canaã, hoje conhecida como Palestina; e, enquanto ali, sabemos que o Senhor conversou com ele, prometendo a ele e à sua semente "a terra de Canaã em perpétua possessão." O que significa tudo isso? Chegou Abraão a herdar alguma porção dessa terra? Nem um palmo dela. Chegou a comprar um lugar — um lugar de sepultura para si e para seus parentes; mas não viu realizada esta promessa, a posse da terra de Canaã; ao contrário, considerava-se estrangeiro e peregrino naquela mesma terra. E não somente Abraão, mas também seus descendentes deixaram de ver realizada esta promessa. O mártir Estêvão, que viveu muitos séculos depois, pouco antes de sua morte, ao dar testemunho ao povo que diante dele se encontrava, a respeito de Abraão, disse, referindo-se a esta promessa do Senhor, que ele não recebeu sequer onde pousar o pé, durante sua vida. Não obstante, o Senhor lhe prometeu toda a terra, para ser herança eterna, para si e para sua semente depois dele. O Apóstolo Paulo, falando da mesma coisa, diz que "todos esses morreram na fé, sem terem recebido as promessas; porém, vendo-as de longe." Quão longe? Milhares de anos depois de dormirem na sepultura. Olhavam para diante, com fé, ao vasto futuro, persuadidos da veracidade da promessa; mas viam que, antes de poderem herdar a terra prometida, teriam de buscar uma cidade que estava nos céus, e ali habitar, até que o tempo devido do Senhor os trouxesse à posse de sua herança. O Profeta Ezequiel viu a maneira pela qual haveriam de vir a possuí-la, tal como está registrado no capítulo 37 de sua profecia. O Espírito do Senhor o levou ao meio de um vale — um grande cemitério, por assim dizer — onde viu grande quantidade de ossos muito secos, tendo a carne se reduzido a pó. E lhe foi feita a pergunta, sem dúvida para pôr à prova sua fé: "Filho do homem, porventura viverão estes ossos?" Ezequiel não era um incrédulo; não disse que era impossível, nem que não poderia haver tal milagre, mas disse: "Senhor Deus, tu o sabes." Estava disposto a que o Senhor soubesse tudo a respeito, e que exibisse seu poder, contanto que considerasse apropriado fazê-lo. Então o Senhor lhe ordenou que profetizasse, usando estas palavras: "Profetiza sobre estes ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor Deus a estes ossos: Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis: E porei tendões sobre vós, e farei crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei pele, e porei em vós o espírito, e vivereis, e sabereis que eu sou o Senhor." E depois de assim ter falado, o Profeta nos diz que "houve um ruído... e eis que se fez um rebuliço, e os ossos se achegaram, cada osso ao seu osso." Não cometeram engano algum, como um osso pertencente a certo tabernáculo se unir ao de outro; mas cada osso se ajuntou ao seu osso companheiro, e tendões, carne e pele os cobriram, e assim se formaram os tabernáculos. Mas ainda não havia vida neles. Por isso, foi-lhe ordenado profetizar novamente, e dizer ao vento: "Assim diz o Senhor Deus: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, e viverão." Assim fez, "e o espírito entrou neles, e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo." Esta foi uma visão da ressurreição — a ressurreição dos antigos patriarcas e profetas de Deus, e de todos os justos de Israel.

Parece, pelo registro, que os judeus, nos dias de Ezequiel, haviam formado uma ideia muito semelhante à de muitos de nossos amigos cristãos hoje viventes — haviam se tornado bastante incrédulos em suas opiniões; começaram a dizer em seus corações, referindo-se a seus pais: "Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança: nós estamos cortados"; ou, em outras palavras, nossos antepassados, cujos filhos somos, e cujos nomes são mantidos em sagrada memória por nós, estão todos mortos. As promessas não se cumpriram, e estamos separados de nossa parte na herança, e como é possível agora que se cumpram? Eram de mentalidade semelhante à dos saduceus — não criam na ressurreição. Mas o Senhor, a fim de encorajá-los a crer que se cumpriria, dá a interpretação desta visão. Já ouvi os metodistas darem sua versão desta visão. Sempre que havia um avivamento entre eles, já os vi ajoelhar-se e exclamar: Ó Senhor, faze um rebuliço entre estes ossos secos! crendo que os pecadores eram os ossos, e a ressurreição, a conversão dos pecadores. A mesma interpretação é dada por muitas das seitas cristãs de hoje. Mas ouvi, ó Santos dos Últimos Dias, a interpretação do Senhor, e julgai entre elas: "Eis que eu abrirei as vossas sepulturas, e vos farei subir das vossas sepulturas, ó povo meu, e vos trarei à terra de Israel." O que poderia ser mais claro do que isso? E qual das duas é a melhor, a interpretação do Senhor ou a das seitas de hoje?

Esta promessa certamente se cumprirá; os patriarcas, e sua semente que for digna, hão de entrar na posse da herança. Mas, quando? Será por volta do tempo, ou um pouco depois, deste grande dia da queima. As sepulturas dos Santos se abrirão pouco antes de o fogo varrer as nações para consumir os soberbos, e todos os que cometem impiedade; e serão abertas ao som da trombeta do Arcanjo. E os Santos hão de sair; pois então o rosto do Senhor será desvelado, então os céus se abrirão como um pergaminho, então se verão os profetas de Deus, e todos os justos que ainda não ressuscitaram de suas sepulturas, e aparecerão nas nuvens do céu com o Salvador. Abraão estará ali, Isaque e Jacó estarão ali, e todos os antigos, dos quais os filhos de Israel, nos dias de Ezequiel, disseram: "Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança," estarão todos ali, prontos para entrar na posse da terra como sua herança. "Bem-aventurados os mansos," diz nosso Senhor em seu sermão do monte. E qual é a bênção peculiar dos mansos? "Porque eles herdarão a terra." Herdaram eles antigamente a terra? Não; andavam errantes, nos dias dos Apóstolos, vestidos de peles de ovelha e de peles de cabra, buscando abrigo da inclemência do tempo, e ocultando-se de seus perseguidores nos covis e cavernas solitárias das montanhas. Muitos incrédulos e sectários não conseguem crer que esta promessa possa algum dia cumprir-se literalmente, porque não a viram realizada em seus dias de mortalidade. Mas Jesus diz que "herdarão a terra"; isto inclui também todos os Santos gentios que abraçaram, e que ainda hão de abraçar, o evangelho, entre todos os povos, nações, parentelas e línguas, pois todos esses se tornam semente de Abraão e herdeiros segundo a promessa. Que promessa? A promessa feita a Abraão. Herdar a terra. Por isso, todos os que são batizados em Cristo, sejam judeus ou gentios, servos ou livres, homens ou mulheres, e que lhe sejam verdadeiros e fiéis, têm a Abraão por pai; e eles, com ele e os patriarcas, hão de herdar a terra, quando a maldade deixar de existir.

É então que a inimizade dos animais do campo, assim como a de toda carne, há de cessar; não mais um animal de rapina devorando e alimentando-se de outro mais inofensivo por natureza; nunca mais se há de encontrar essa inimizade nos peixes do mar, ou nas aves dos ares. Esta mudança será operada sobre toda a carne quando Jesus vier; não uma mudança para a imortalidade, mas uma mudança suficiente para alterar a natureza feroz dos animais, das aves e dos peixes. Naqueles dias, o leão comerá palha como o boi; não mais será o terror da floresta, mas será perfeitamente inofensivo, e a mansidão caracterizará todos os animais selvagens e ferozes, bem como as serpentes venenosas, a tal ponto que uma criancinha poderia conduzi-los e brincar com eles, e nada há de ferir ou destruir em todo o santo monte do Senhor; todas as coisas se tornando, em certa medida, como quando foram primeiramente criadas. Pois convém lembrar que os animais não se devoravam uns aos outros senão depois da Queda, nem havia morte alguma senão depois da Queda. O que comiam, então? O Senhor disse: "A todo animal da terra, e a todo réptil sobre a terra, em que há alma vivente, eu dei toda erva verde para mantimento." A relva, e as ervas, e toda planta verde eram seu alimento. E Adão e Eva comiam frutas e vegetais, não carne de animais. Toda a terra será restaurada; e o homem será restaurado; e não somente sobre o homem, mas sobre toda a carne, o Espírito de Deus será derramado, e hão de ser, por fim, restaurados a tudo o que se perdeu pela Queda de nossos primeiros pais. Então o conhecimento de Deus cobrirá toda a terra, como as águas cobrem o grande abismo. E então a criação animal manifestará mais inteligência e mais conhecimento do que hoje manifesta, em sua condição decaída. De fato, temos uma declaração de João, o Revelador, de que, quando chegar este tempo, saberão até mesmo louvar a Deus. Ele diz: "E ouvi toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e que está no mar, e todas as coisas que neles há, dizendo: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre." O quê? A criação animal dotada de linguagem? Sim, uma linguagem de louvor, dizendo algo a respeito do Cordeiro que foi morto, e a respeito de sua glória e excelência. Que bela criação será esta, quando todas essas coisas se cumprirem. Amém.

Como citar este discursoOrson Pratt, “Interpretação das Escrituras—Milagres Aparentes Facilmente Realizados Quando Necessário—A Desobediência Traz Calamidade—Cumprimento da Profecia”, (1878-06-23). Pulpit Vault, 1878-06-pratt-interpretation-of-scripture. Tradução desta edição, por método de glossário, contentdm.lib.byu.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).