Pulpit

Chegada a Salt Lake City—Os Primeiros Princípios—A Questão da Autoridade—As Ordenanças—Educação de Nossa Juventude—Casamento Plural, Etc.—O "Mormonismo" Imortal

Joseph F. Smith

1877-09-30

Temo não conseguir ser ouvido por esta vasta congregação. Ultimamente não tenho estado acostumado a dirigir-me a tantas pessoas; mas, pelo contrário, a bem poucas de cada vez. É difícil para mim falar de modo que todos me ouçam distintamente, nesta imensa casa. Além disso, não tenho estado com muito boa saúde ultimamente, tendo sofrido um ataque de doença desde meu retorno ao lar, o que tem drenado muito minhas forças.

Sou grato por ter tido o privilégio de encontrar-me convosco hoje, em circunstâncias tão favoráveis quanto estas que nos cercam; embora, em comum com os Santos dos Últimos Dias, não possa deixar de lamentar a causa de minha presença entre vós. Deixei meu lar e amigos aqui, há apenas alguns meses, para a Europa, esperando cumprir ali uma missão de dois anos e talvez muito mais. Mas logo depois de ouvir a notícia da morte de nosso falecido Presidente, Brigham Young, o irmão Orson Pratt e eu recebemos um telegrama de nossos Irmãos, os Doze, convidando-nos a retornar ao lar. Assim que as circunstâncias o permitiram, portanto, partimos para cá, fazendo a viagem da Inglaterra a esta cidade em cerca de quinze dias. Tivemos uma travessia bastante difícil pelo Atlântico, tendo enfrentado ventanias equinociais e mares agitados nos primeiros dias, o que a tornou muito desagradável; o restante da viagem, porém, foi comparativamente agradável, e o trajeto de Nova York até aqui muito mais ainda.

Nos últimos meses, estive ocupado pregando o evangelho na Inglaterra, conforme surgiam oportunidades para eu fazê-lo. Não viajei muito extensivamente, pois meu tempo limitado e outras circunstâncias não o permitiram.

Tive o prazer, em julho passado, de encontrar em Liverpool o irmão Orson Pratt, que veio à Inglaterra para publicar o Livro de Mórmon e a Doutrina e Convênios em fonética, ou fonotipia. Ele estava diligentemente empenhado nesta obra no momento em que a triste notícia da morte do Presidente nos alcançou. Providências haviam sido tomadas de modo que o tipo já havia sido em grande parte obtido e entregue em nosso escritório, e os preparativos estavam quase concluídos para o início desta obra. Mas, como o irmão Pratt está aqui, deixarei sua missão e trabalhos para que ele mesmo os narre.

Posso dizer, com toda a consciência, que durante o tempo em que estive ausente do lar, senti em meu coração um desejo tão forte quanto sempre tive pelo avanço do reino de Deus, e pela propagação do evangelho entre os que se assentam nas trevas. E sinto ter feito o melhor que pude, dadas as circunstâncias, para levar a cabo meus desejos.

Como missionários, trabalhamos incessantemente pela Inglaterra, Escócia e País de Gales durante o verão passado, aproveitando toda oportunidade de realizar reuniões nas ruas, nas praças, e em qualquer lugar que pudéssemos conseguir para tal propósito; os Élderes indo de casa em casa para avisar o povo e convidá-lo a comparecer. Os irmãos trabalharam diligente e incessantemente o verão passado, procurando desta maneira propagar o evangelho. Em muitos lugares, um sucesso muito encorajador coroou seus trabalhos; em muitas ocasiões, congregações numerando de mil a três mil pessoas se reuniram nos parques públicos, e nos terrenos comuns, para ouvir os Élderes pregarem. É verdade que, até agora, temos visto poucos frutos imediatos deste trabalho; mas sentimos que a semente está sendo semeada, que cairá em terra mais ou menos boa, e no devido tempo produzirá fruto próprio para o arrependimento.

A missão europeia hoje, se eu quiser expor minhas impressões abertamente sobre o assunto, está em condição muito baixa—isto é, falando da Grã-Bretanha. Ao passo que, no Continente e por toda a Escandinávia, a obra floresce. Em alguns lugares na Alemanha, que até então tinham sido impenetráveis, o evangelho agora é pregado. Tem havido recentemente vários batismos em Berlim e adjacências; e nos sentimos encorajados em nossos trabalhos naquele país, sabendo que esforços foram feitos por tanto tempo e tão persistentemente para abrir o evangelho àquela nação, sem conseguir nada.

O objetivo de enviar Élderes às nações da terra é pregar o evangelho, para que o mundo conheça a verdade tal como está em Cristo Jesus, e por meio da obediência a ela seja reunido ao povo de Deus, e seja salvo em Seu reino. Somos gratos por estarmos empenhados na grande obra dos últimos dias, que Deus nosso Pai celestial está à frente, e decretou levá-la a uma consumação bem-sucedida. Portanto, enquanto pusermos nossa confiança nele, fazendo o melhor que pudermos para realizar Seus propósitos, podemos ficar tranquilos de que tudo estará bem.

Tenho sido membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias desde minha infância; e desde que comecei a investigar por mim mesmo, tenho estado satisfeito com minha religião; tenho estado perfeitamente confiante de que estava empenhado em uma causa justa, tendo tido toda garantia de que é a obra de Deus e não do homem; e que cabe ao Todo-Poderoso sustentá-la, escolhendo e usando os instrumentos mais adequados para realizar Seus propósitos que estivessem ao Seu comando. Creio que Ele sempre o fez, e continuará a fazê-lo até completar Sua empreitada. Como Santos dos Últimos Dias temos toda razão para nos regozijarmos no evangelho, e no testemunho que recebemos a respeito de sua verdade. Repito, temos razão para regozijarmo-nos e nos alegrarmos sobremaneira, pois possuímos o testemunho de Jesus, o espírito de profecia, o qual o mundo desconhece por completo, nem pode conhecê-lo sem a obediência ao evangelho.

Jesus compreendia perfeitamente este assunto, e o explicou plenamente quando disse: "Na verdade, na verdade te digo que, exceto que um homem nasça de novo, não pode ver o reino de Deus." À primeira vista, pareceria que algo tão claro, razoável e tangível poderia ser facilmente tornado compreensível a todos os homens. Daí o sentimento que tem levado muitos dos Santos dos Últimos Dias a acreditar, depois que suas mentes foram iluminadas pelo Espírito de Deus—tudo se tornando tão claro e evidente para eles—que bastaria dizer a seus amigos e parentes o que aprenderam, e estes o receberiam de bom grado. Mas quão desapontados ficam, depois de lhes apresentarem as verdades do céu em simplicidade e clareza, ao ouvi-los dizer: "Não conseguimos ver isso!" ou "Não acreditamos nisso!" Ou talvez oponham-se amargamente, o que é de longe a prática mais comum do mundo. Não conseguem compreendê-lo. Por quê? Porque, como Jesus disse, ninguém pode ver o reino a não ser que nasça de novo. Podeis pregar o evangelho ao povo, mas, a menos que se humilhem como crianças perante o Senhor, reconhecendo sua dependência dele quanto à luz e sabedoria, não podem vê-lo nem senti-lo, embora possais pregar-lhes com toda a clareza que for possível transmitir a verdade de uma pessoa a outra. E ainda que alguns cressem em vosso testemunho, isso seria apenas crença. Não veriam como vós vedes—nem o compreenderiam como vós—até que se sujeitassem aos requisitos do evangelho, e, pela remissão de seus pecados, recebessem o Espírito Santo. Então também eles poderão ver como vós vedes, pois têm o mesmo espírito; então amarão a verdade como vós a amais, e poderão se perguntar por que não a compreenderam antes, ou por que existe alguém dotado de inteligência comum que não consegue entender uma verdade tão simples e evidente.

Tenho pregado nos últimos meses ao mundo, e talvez não seja impróprio deter-me por alguns instantes sobre alguns dos princípios do evangelho, como se estivesse falando a estranhos, apesar de sentir estar na presença dos Santos dos Últimos Dias.

A primeira pergunta que um investigador honesto faria seria: qual é vossa crença religiosa? Ou, quais são os princípios do evangelho, tal como os compreendeis? Não me proponho a dizer-vos tudo sobre o evangelho em um só discurso, mas posso dizer-vos alguns de meus pensamentos sobre alguns de seus princípios, que são essenciais não somente para que os Santos dos Últimos Dias saibam, mas para todos os filhos dos homens, a fim de serem salvos no reino de Deus.

Primeiramente, então, é necessário ter fé em Deus, "sendo a fé o primeiro princípio na religião revelada, e o fundamento de toda retidão."

Fé em Deus é crer que ele existe, e "que ele é o único governador supremo e ser independente, no qual toda plenitude, perfeição e todo dom e princípio bom habitam independentemente," e no qual a fé de todos os demais seres racionais deve centrar-se para vida e salvação; e ainda que ele é o grande Criador de todas as coisas, que é onipotente, onisciente, e por Suas obras e o poder de Seu Espírito onipresente.

Não somente é necessário ter fé em Deus, mas também em Jesus Cristo, Seu Filho, o Salvador da humanidade e o Mediador do Novo Convênio; e no Espírito Santo, que testifica do Pai e do Filho, "o mesmo em todas as épocas e para sempre."

Tendo esta fé, torna-se necessário arrepender-se. Arrepender-se de quê? De todo pecado do qual possamos ter sido culpados. Como havemos de arrepender-nos desses pecados? Consiste o arrependimento em tristeza pelo erro cometido? Sim; mas é isso tudo? De modo algum. Somente o verdadeiro arrependimento é aceitável a Deus, nada menos que isso servirá ao propósito. Então, o que é o verdadeiro arrependimento? O verdadeiro arrependimento não é apenas tristeza pelos pecados, e humilde penitência e contrição diante de Deus, mas envolve a necessidade de afastar-se deles, a descontinuação de toda prática e feito malignos, uma reforma completa da vida, uma mudança vital do mal para o bem, do vício para a virtude, das trevas para a luz. E não apenas isso, mas fazer restituição, tanto quanto possível, por todos os erros que cometemos, pagar nossas dívidas, e restituir a Deus e ao homem seus direitos—o que lhes é devido por nós. Isto é o verdadeiro arrependimento, e exige-se o exercício da vontade e de todos os poderes do corpo e da mente, para completar esta gloriosa obra do arrependimento; então Deus a aceitará.

Tendo-nos assim arrependido, a próxima coisa necessária é o batismo, que é um princípio essencial do evangelho—nenhum homem pode entrar no convênio do evangelho sem ele. É a porta da Igreja de Cristo, não podemos entrar ali de nenhuma outra maneira, pois Cristo assim o disse. "Aspersão," ou "derramamento," não é batismo. Batismo significa imersão em água, e deve ser administrado por alguém que tenha autoridade, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Batismo sem autoridade divina não é válido. É um símbolo do sepultamento e da ressurreição de Jesus Cristo, e deve ser feito à semelhança disso, por alguém comissionado por Deus, da maneira prescrita, do contrário é ilegal e não será aceito por ele, nem efetuará remissão de pecados, o objetivo para o qual é designado, mas quem quer que tenha fé, verdadeiramente se arrependa e seja "sepultado com Cristo no batismo," por alguém que tenha autoridade divina, receberá remissão de pecados, e terá direito ao dom do Espírito Santo pela imposição das mãos. Somente aqueles comissionados por Jesus Cristo têm autoridade ou poder para conceder este dom. O ofício do Espírito Santo é testificar de Cristo, ou testemunhar dele, e confirmar o crente na verdade, trazendo à sua lembrança as coisas passadas, e mostrando ou revelando à mente coisas presentes e futuras. "Mas o Consolador, que é o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito." "Ele vos guiará a toda a verdade." Assim, sem o auxílio do Espírito Santo nenhum homem pode conhecer a vontade de Deus, nem que Jesus é o Cristo—o Redentor do mundo—nem que o rumo que ele segue, as obras que realiza, ou sua fé, são aceitáveis a Deus, e tais que lhe assegurarão o dom da vida eterna, o maior de todos os dons.

"Mas," diz um opositor, "não temos a Bíblia, e não são as Sagradas Escrituras capazes de nos fazer sábios para a salvação?" Sim, desde que lhes obedeçamos. "Toda a Escritura é dada por inspiração de Deus, e é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda boa obra." As "boas obras" são o grande objetivo desejado. A própria Bíblia é apenas a letra morta, é o espírito que dá vida. O caminho para obter o Espírito é o que aqui está tão claramente traçado nas Escrituras. Não há outro. A obediência, portanto, a estes princípios é absolutamente necessária, a fim de obter a salvação e exaltação trazidas à luz por meio do evangelho.

Quanto à questão da autoridade, quase tudo depende dela. Nenhuma ordenança pode ser realizada de modo aceitável a Deus sem autoridade divina. Não importa quão fervorosamente os homens acreditem, ou orem, a menos que sejam dotados de autoridade divina só podem agir em seu próprio nome, e não legal nem aceitavelmente em nome de Jesus Cristo, em cujo nome todas essas coisas devem ser feitas. Alguns supõem que esta autoridade possa ser derivada da Bíblia, mas nada poderia ser mais absurdo. A Bíblia é apenas um livro contendo os escritos de homens inspirados, "proveitosos para ensinar, para redarguir, para corrigir e instruir em justiça;" como tal a consideramos sagrada; mas o espírito, poder e autoridade pelos quais foi escrita não podem ser encontrados entre suas capas, nem dela derivados. "Porque a profecia nunca veio pela vontade do homem, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo." Se, pela leitura e crença na Bíblia, esta autoridade pudesse ser obtida, todos os que a lessem e cressem a teriam—igualmente uns e outros. Li a Bíblia, e tenho tão boa razão para crer nela quanto qualquer outro homem, e creio nela com todo o meu coração; mas isso não me dá autoridade para ensinar os homens em nome do Senhor, nem para oficiar nas sagradas ordenanças do evangelho. Se as Escrituras fossem a única fonte de conhecimento, estaríamos sem conhecimento por nós mesmos, e teríamos de basear nossas esperanças de salvação em uma simples crença nos testemunhos e ditos de outros. Isto não serve para mim; devo saber por mim mesmo, e se atuo como instrutor destas coisas, devo estar revestido da mesma luz, conhecimento e autoridade que possuíam aqueles que atuaram em chamado semelhante antigamente. Do contrário, como poderia eu declarar a verdade e testificar como eles fizeram? Que direito teria eu de dizer "assim diz o Senhor," e chamar o homem ao arrependimento e ao batismo em nome do Senhor? Ou, que "Deus ressuscitou este Jesus (dentre os mortos), do que todos nós (os Apóstolos) somos testemunhas." E, portanto, que todos os homens "saibam com certeza que Deus fez esse mesmo Jesus," que foi crucificado, "Senhor e Cristo." Nenhum homem, sem o Espírito Santo tal como desfrutado pelos antigos Apóstolos, pode saber estas coisas, portanto não pode declará-las com autoridade, nem ensinar e preparar a humanidade para a salvação de Deus. O Deus Todo-Poderoso é a única fonte de onde este conhecimento, poder e autoridade podem ser obtidos, e isso por meio das operações do Espírito Santo. As Escrituras podem servir como guia para nos conduzir a Deus, e, portanto, à posse de tudo o que é necessário à vida e à salvação, mas não podem fazer mais do que isso.

Tendo-me beneficiado deste exemplo, e realizado as obras ordenadas tanto por Cristo quanto por Seus Apóstolos, antigos e modernos, tenho a felicidade do privilégio de declarar aos habitantes da terra que recebi este testemunho e testemunho para mim mesmo. Sei que estas coisas são verdadeiras. Jesus meu Redentor vive, e Deus o fez tanto Senhor quanto Cristo. Conhecer e adorar o verdadeiro Deus, em nome de Jesus—em espírito e em verdade—é dever do homem. Auxiliá-lo e qualificá-lo para este serviço é o dever e ofício do Espírito Santo. O homem pode falhar por vacilação e infidelidade, mas o Espírito de Deus jamais falhará, nem abandonará o discípulo fiel. Posso dizer, como alguém que fez a experiência—pois pode ser chamada de experiência para o iniciante—que todos os que seguirem o rumo e aceitarem a doutrina assim traçada, por meio da fidelidade, se familiarizarão com a verdade, e conhecerão a doutrina, se é de Deus ou do homem, e nela se regozijarão como fazem todos os bons e fiéis Santos dos Últimos Dias.

Aqui está uma ordenança que agora estamos administrando, o Sacramento da Ceia do Senhor; é um princípio do evangelho, tão necessário de ser observado por todos os crentes quanto qualquer outra ordenança do evangelho. Qual é o seu objetivo? É que possamos manter continuamente em mente o Filho de Deus, que nos redimiu da morte eterna, e nos trouxe de volta à vida por meio do poder do evangelho. Antes da vinda de Cristo à terra, isto era mantido em mente pelos habitantes da terra a quem o evangelho era pregado, por meio de outra ordenança, que envolvia o sacrifício de vida animal, uma ordenança que era um tipo do grande sacrifício que haveria de ocorrer no meridiano do tempo. Assim, Adão, depois de ser expulso do Jardim, foi mandado oferecer sacrifícios a Deus; por este ato ele, e todos os que participaram da oferta de sacrifícios, eram lembrados do Salvador que viria para redimi-los da morte que, não fosse pela expiação realizada por ele, os excluiria para sempre de habitar novamente na presença de Deus. Mas em sua vinda e morte, este mandamento se cumpriu; e ele instituiu a Ceia e ordenou a seus seguidores que dela participassem em todo tempo vindouro, a fim de que se lembrassem dele, tendo em mente que ele os havia redimido, também que haviam feito convênio de guardar os mandamentos que lhes deu e de andar com ele na regeneração. Por isso é necessário participar do sacramento, como testemunho a ele de que dele nos lembramos, estamos dispostos a guardar os mandamentos que nos deu, para que possamos ter seu espírito conosco sempre—até o fim, e também para que possamos continuar na remissão de nossos pecados.

Em várias dispensações há várias diferenças quanto a certos requisitos do evangelho. Por exemplo, nos dias de Noé, quando ele pregava o evangelho ao mundo antediluviano, foi-lhe dado um mandamento especial, para construir uma arca, para que, caso o povo o rejeitasse a ele e à mensagem que lhes fora enviada, ele mesmo e todos os que nele cressem pudessem ser salvos da destruição que os aguardava. Nesta dispensação há um princípio ou mandamento peculiar a ela. Qual é? É o ajuntamento do povo em um só lugar. O ajuntamento deste povo é tão necessário de ser observado pelos crentes quanto a fé, o arrependimento, o batismo, ou qualquer outra ordenança. É uma parte essencial do evangelho desta dispensação, tanto quanto a necessidade de Noé construir uma arca, para sua libertação, foi parte do evangelho de sua dispensação. Então o mundo foi destruído por um dilúvio, agora será destruído por guerra, pestilência, fome, terremotos, tempestades e tormentas, o mar transbordando de seus limites, vapores malignos, vermes, doença, e por fogo e pelos relâmpagos da ira de Deus derramados para destruição sobre Babilônia. O clamor do anjo aos justos desta dispensação é: "Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não recebas das suas pragas." Cremos também no princípio da revelação direta de Deus ao homem. Isto é parte do evangelho, mas não é peculiar a esta dispensação. É comum em todas as épocas e dispensações do evangelho. O evangelho não pode ser administrado, nem a Igreja de Deus continuar a existir sem ele. Cristo é a cabeça de Sua Igreja e não o homem, e a conexão só pode ser mantida com base no princípio da revelação direta e contínua. Não é um princípio hereditário, não pode ser transmitido de pai a filho, ou de geração em geração, mas é um princípio vital e vivo, a ser desfrutado sob certas condições apenas—a saber, por meio de fé absoluta em Deus e obediência às suas leis e mandamentos. No momento em que este princípio é cortado, naquele momento a Igreja fica à deriva, sendo separada de sua cabeça sempre-viva. Nesta condição não pode continuar, mas deve deixar de ser a Igreja de Deus, e como o navio no mar, sem capitão, bússola ou leme, fica à mercê das tempestades e das ondas, das paixões humanas em constante contenda, e dos interesses mundanos, do orgulho e da loucura, para finalmente naufragar na praia da artimanha sacerdotal e da superstição. O mundo religioso está nesta condição hoje, amadurecendo para a grande destruição que os aguarda, mas há uma arca preparada para os que forem dignos da vida eterna, no ajuntamento dos Santos às câmaras do Todo-Poderoso, onde serão preservados até que passe a indignação de Deus.

O casamento é também um princípio ou ordenança do evangelho, de máxima importância para a felicidade da humanidade, por mais sem importância que possa parecer, ou levianamente considerado por muitos. Não há princípio supérfluo ou desnecessário no plano da vida, mas não há princípio de maior importância ou mais essencial à felicidade do homem—não somente aqui, mas especialmente no porvir—do que o do casamento. Contudo, todos são necessários. De que adiantaria a alguém ser batizado e não receber o Espírito Santo? E suponde que fosse um pouco mais adiante e recebesse o Espírito Santo, obtendo assim o testemunho de Jesus, e então parasse aí, de que lhe adiantaria isso? Nada, mas acrescentaria à sua condenação, pois seria como enterrar seu talento na terra. Para assegurar a plenitude das bênçãos, devemos receber a plenitude do evangelho. Contudo, os homens serão julgados e recompensados de acordo com suas obras. "Àquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado." Aqueles que recebem parte do evangelho com luz e conhecimento para compreender outros princípios, e ainda assim não lhes obedecem, ficarão sujeitos a esta lei, e por isso a condenação será acrescentada a tais, e aquilo que receberam poderá lhes ser tirado e acrescentado àqueles que forem mais dignos.

A obediência é uma exigência do céu, e é, portanto, um princípio do evangelho. Exige-se de todos que sejam obedientes? Sim, de todos. O quê, contra a sua vontade? Ó, não, de modo algum. Não há poder dado ao homem, nem meios lícitos a serem usados para compelir os homens a obedecer à vontade de Deus, contra seu desejo, exceto a persuasão e o bom conselho, mas há uma pena vinculada à desobediência, que todos os que não obedecerem às verdades ou leis evidentes do céu terão de sofrer. Creio no sentimento do poeta:

"Sabei isto, que toda alma é livre, Para escolher sua vida e o que há de ser; Pois esta eterna verdade é dada, Que Deus a nenhum homem forçará ao céu. Ele chamará, persuadirá, dirigirá com retidão, Abençoá-lo-á com sabedoria, amor e luz. De incontáveis modos para ser bom e afável, Mas jamais forçará a mente humana."

É tarefa difícil obedecer ao evangelho? Não. É coisa fácil para aqueles que possuem seu espírito. A maioria desta congregação pode testificar que o "jugo" do evangelho "é suave e o fardo é leve." Aqueles que o abraçaram serão julgados de acordo com suas obras nele, sejam boas ou más. Aos que forem infiéis a seus convênios, pode ser dito por fim: "Apartai-vos de mim!" Em vão alegarão suas antigas boas obras e fé. Por quê? Porque a carreira não é dos ligeiros, nem a peleja sempre dos fortes, mas daquele que permanece fiel até o fim. Devemos salvar-nos desta geração perversa. É um trabalho contínuo, mas a força dos justos será suficiente para seu dia. Jesus disse: "Na casa de meu Pai há muitas moradas." Há uma glória, ou morada, da qual o sol é típico, outra da qual a lua é típica, e ainda outra semelhante às estrelas, e nesta última a condição de seus ocupantes diferirá conforme as estrelas diferem em aparência. Cada homem receberá de acordo com suas obras e conhecimento. "Estes são os que são de Paulo e de Apolo, alguns de um e alguns de outro, alguns de Cristo, alguns de João, de Moisés, Elias, Isaías e Enoque, mas não receberam o evangelho nem o testemunho de Jesus." Assim, justiça imparcial será concedida a todos, e nenhum se perderá senão os filhos de perdição.

Tratemos com franqueza os sentimentos religiosos de todos os homens, não importa se diferem dos nossos, ou nos parecem absurdos e tolos. Aqueles que os sustentam podem ser tão sinceros quanto nós em suas convicções. É bom provar todas as coisas, na medida em que pudermos, e certificarmo-nos de reter aquilo que é bom, não importa onde o encontremos. O ridículo não tem probabilidade de convencer um homem de seu erro, ou, se o faz, pode destruir seu respeito e amor por seu autor, e se ele tem a verdade, sua vítima provavelmente a rejeitará.

Desejo dizer que minha fé nesta obra é tão firme, ou mais firme, do que nunca. Meu coração está nela, e sei verdadeiramente que é o reino de Deus. Estas coisas de que tenho falado tão imperfeitamente, sei serem verdade—verdade bíblica, verdade do evangelho, e são essenciais à salvação da humanidade. Não estou enganado nisto, mas sei do que falo. Minha religião me ensina a fazer o bem, a estar em paz com meus vizinhos, pelo menos a não infringir seus direitos nem invadir sua propriedade, e até mesmo a suportar males deles em vez de fazer-lhes mal, ou mesmo a exigir do transgressor o que eu poderia considerar plena justiça. Ensina-me a confiar na justiça do Todo-Poderoso, e a repousar minha causa em Suas mãos. Ordena honestidade, sobriedade e diligência. Proíbe profanidade, mentira, adultério, falsidade e vil astúcia.

Ela dá verdadeiro esclarecimento à mente e exalta os humildes e degradados que a ouvirem e lhe obedecerem. A observância do evangelho fará bons homens dos maus, e melhores homens dos bons. Fará bons cidadãos, bons pais, maridos, esposas e filhos, bons vizinhos, um bom povo, uma comunidade esclarecida, pura e de elevada mentalidade, um estado abençoado e uma nação próspera. A obediência ao evangelho salvará o mundo do pecado, abolirá a guerra, a contenda e a litigância, e introduzirá o reinado milenar. Restaurará a terra ao seu legítimo dono, e a preparará para a herança dos justos. Estes são todos princípios daquele mesmo evangelho de Cristo, e os efeitos que fluirão de sua aceitação e adoção pela humanidade. Jesus os ensinou, e em certa ocasião o povo pegou pedras e ia apedrejá-lo por isso. Quando ele disse: "Muitas boas obras vos tenho mostrado de meu Pai; por qual dessas obras me apedrejais?" Ele havia feito muitas boas obras, ensinado muitas coisas boas, e por isso iam apedrejá-lo. Os Santos dos Últimos Dias poderiam com propriedade dirigir-se de modo semelhante ao mundo, mas mais especialmente à nossa própria nação. Fizemos muitas coisas boas, procuramos não causar dano algum, sofremos a espoliação de nossos bens sem retaliação, fomos expulsos de lugar em lugar. Nossos Profetas e líderes foram mortos, e ainda nos persegui, e não estais satisfeitos. Por qual das boas obras que fizemos fazeis estas coisas? Sei que dirão: "não é por vossas boas obras que vos odiamos ou perseguimos, mas por vossa blasfêmia, e porque dizeis ser o povo de Deus." Isto era mais ou menos o que os judeus disseram a Jesus, mas isso não mudou o fato de que ele lhes havia dito a verdade, nem que ele havia feito as muitas boas obras entre eles que fez, nem que foi por estas que o odiaram e o crucificaram. Que fizeram o Salvador ou seus discípulos para prejudicar a humanidade? Nada. Mas muito para beneficiá-la; ainda assim foram odiados, perseguidos, caçados e destruídos. Que fizeram os Santos dos Últimos Dias para prejudicar alguém? Absolutamente nada, mas muito para beneficiar a humanidade. Desafio o mundo a provar o contrário. Reunimos nosso povo aos milhares, tirando-o da pobreza e da aflição, de muitas nações, para estes vales onde agora desfrutam de bons lares, das doçuras da liberdade e da fartura. À parte a religião, isso é uma bênção inestimável para eles. Mas também lhes ensinamos bons princípios e doutrinas, e eles são felizes, honestos, industriosos e prósperos.

Trabalhamos diligentemente para avançar na escala da inteligência. Nossas escolas se comparam favoravelmente com quaisquer outras em nossa vasta terra; nossos filhos são tão inteligentes quanto quaisquer outros, e somos os pioneiros da verdadeira e esclarecida civilização nos Estados e Territórios do Oeste. Por meio de nossa diligência e empreendimento, cidades, vilas e povoados surgiram no deserto, e os lugares desolados e devastados foram tornados férteis e a florescer como a rosa. Pode haver algum mal em tudo isso? "Mas," diz alguém, "não é por isso que sois perseguidos, é por vossa religião." O que, então, em nome da razão, há em nossa religião pela qual devêssemos ser perseguidos? É porque cremos no Senhor Jesus Cristo? O mundo cristão também professa crer nele, e cremos nele tanto quanto eles e um pouco mais. É porque cremos ser necessário arrepender-se do pecado? Certamente temos o direito de fazer isto. É porque batizamos para a remissão do pecado? Cristo o ordenou, e o estabeleceu como lei. Então, o que pode ser que assim nos distingue do povo do mundo, e que move seu ódio contra nós? É a revelação de Deus ao homem? Talvez seja.

Há cerca de quarenta anos, o grande clamor contra Joseph Smith era "Ele crê em revelação!" e isto era considerado um crime. Mas logo depois, outros que não eram "mórmons" começaram a ter "revelações," e ao que parece a corrente se ampliou tanto que hoje o mundo está cheio de "revelação." Assim, nossa crença em revelação já não é considerada tanto crime quanto antes, e, portanto, já não pode ser objeto de perseguição, pois teríamos tanto direito de persegui-los quanto eles de nos perseguir por esse motivo. Não cremos nestas "revelações" do mundo, tanto quanto eles não creem nas nossas. Cremos que são falsas, mas estamos bastante dispostos a que outros desfrutem de suas opiniões. Cremos que, embora tenham rejeitado a luz verdadeira, estão dispostos e prontos a serem assim enganados, por espíritos falsos e enganosos, exatamente como os Profetas predisseram que seria o caso. (Vede 1 Tim., cap. 4, vers. 1, e 2 Tim. iii, 1). As revelações dadas por meio de Joseph Smith estão cheias de luz, conhecimento e sabedoria, porque emanaram de Deus. Que fez o espiritismo pelo mundo? Pode ele gabar-se de trazer à luz a vida e a imortalidade? Ainda tenho de saber que um único princípio tenha sido desenvolvido a partir desta fonte que salve a humanidade, ou a exalte à presença e glória de Deus. Contudo, eles têm direito a suas convicções, e o concedemos cordialmente. Temos o mesmo direito.

Mas diz alguém: "Vós fugistes da questão principal; é a poligamia que causa todo o problema!"

Esta é a mentalidade de nossos inimigos em geral, contudo nada pode ser mais falacioso; aqueles que assim afirmam apenas expõem sua ignorância. O fato é que, desde o anúncio e a prática deste princípio por este povo, suas perseguições têm sido comparativamente triviais e inofensivas em relação ao que eram, antes mesmo de lhes ser conhecido.

Mas o casamento plural dos "mórmons" agora parece formar um dos mais fortes pretextos para a amargura de nossos inimigos, e os desatentos facilmente se juntam às fileiras dos difamadores deste princípio. Já pararam para refletir sobre que mal este princípio e prática causaram? Permiti-me perguntar às senhoras nesta vasta audiência: alguma de vós, ou conheceis alguma mulher, que tenha sido compelida a praticar a poligamia entre este povo? Ou que tenha sido compelida sequer a casar-se? Creio que não. Já privou o casamento plural alguma mulher de um lar, de marido ou filhos? Promoveu ele a imoralidade ou o vício? Não, não o fez. Semeou ele as sementes da corrupção e da morte entre o povo? Pelo contrário, promoveu um aumento saudável, robusto e vigoroso, e as leis da vida e da saúde. Podem os Élderes desta Igreja ser acusados de recorrer aos gentios em busca de esposas e filhas? Não, pois pensamos ter melhores em casa, não temos a menor ocasião de procurar fora. No que diz respeito a este assunto, somos independentes do mundo. Estamos dispostos a deixá-los, a eles e ao que é deles, em paz, e cuidar de nossos próprios assuntos, ao mesmo tempo em que lhes pedimos respeitosamente que também cuidem dos seus.

Os fatos reais são que os Santos dos Últimos Dias abraçaram a impopular doutrina de Jesus Cristo, receberam as chaves do Santo Sacerdócio—a autoridade delegada do céu ao homem, e não se envergonham do evangelho, sabendo que é o poder de Deus para a salvação. Daí o Diabo estar enfurecido, e embora não o queiram acreditar, este mundo professamente piedoso e hipócrita se move com ódio em direção à obra e ao povo de Deus, instigado pelo espírito daquele a quem servem. "Pelos seus frutos os conhecereis."

Predizem nossa queda, mas não viverão para ver suas predições cumpridas. Os ímpios podem enfurecer-se e imaginar que podem medir forças com sucesso com o Todo-Poderoso, mas ele os terá em zombaria e rirá quando lhes vier o medo, enquanto o reino de Deus continuará a progredir até que seus propósitos se consumem conforme foi decretado.

É vão que o mundo espere que o "mormonismo" morra com o Presidente Brigham Young. Quando o Profeta Joseph Smith foi assassinado, a imprensa e o púlpito universalmente se uniram em predizer o fim do "mormonismo." Mas em vez de haver alguma verdade em suas predições, "o sangue dos mártires foi a semente da igreja;" pois a igreja cresceu tão depressa quanto sempre havia crescido antes, e tomou raízes mais profundas e firmes. Os homens já não dependiam do Profeta, o homem de Deus, para guiá-los; começaram a firmar-se sobre seu próprio alicerce, a buscar mais fervorosamente a Deus por si mesmos, e a conhecer por si mesmos, e não a depender da voz do homem. Daí cresceram em fé e em poder, a verdade penetrando mais fundo nos corações do povo que permaneceu fiel ao Senhor, e eles, um punhado comparativo, conseguiram edificar a igreja tal como existe hoje nestes vales. Seremos agora dispersos aos quatro ventos porque um ou dois homens distintos hão de falecer? Não, a semente caiu em boa terra, e germinará e amadurecerá; o próprio sacerdócio ainda está conosco, a autoridade está aqui, e em obediência ao mandamento de Deus, continuaremos a sair e organizar e estabelecer o reino, nunca mais a ser derrubado nem entregue a outro povo, até que tudo seja consumado e concluído. Esta é a obra de Deus, e não do homem. O homem é incompetente para dirigi-la e administrá-la. Ele não permitirá que o homem se arrogue a honra de fazê-lo. A honra pertence a ele e ele a tomará para si.

Esta é minha fé no evangelho. Enche minha alma de alegria e gratidão a Deus meu Pai celestial, e desejo crescer na verdade, tornar-me melhor, mais fiel e diligente em superar toda fraqueza, para que possa ser digno de estar na posição que ocupo na Igreja do Deus vivo. É deste modo que todos devemos sentir; e devemos, acima de todas as outras considerações, estar decididos a apegar-nos ao evangelho, edificando nossa fé sobre a rocha, não sobre o braço da carne. Humilhemo-nos diante de Deus, busquemo-lo continuamente com corações em oração, sejamos diligentes na observância de nossos convênios, e ele nos levará triunfantes sobre todo inimigo opositor e todo poder que se dispuser a medir forças com ele e sua causa. Este é meu testemunho, e esta é minha exortação aos Santos dos Últimos Dias. Rogo a Deus que abençoe seu povo, e abençoe seu servo o irmão Taylor, que está à cabeça do Quórum dos Doze Apóstolos, que agora preside a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em toda a terra. Que o Senhor o abençoe, prolongue sua vida e lhe dê poder e sabedoria para permanecer em seu lugar e chamado e magnificar o sacerdócio que lhe foi conferido; que seus irmãos permaneçam com ele em uma sólida falange, unidos como um só homem, assim como Deus o Pai e Jesus e as hostes celestiais são um, e digo-vos que todo o povo será unido e se regozijará na verdade. Que Deus abençoe os fiéis em toda parte e os habilite a guardar sagrados os convênios que fizeram com ele, é minha ardente oração, em nome de Jesus. Amém.

Como citar este discursoJoseph F. Smith, “Chegada a Salt Lake City—Os Primeiros Princípios—A Questão da Autoridade—As Ordenanças—Educação de Nossa Juventude—Casamento Plural, Etc.—O "Mormonismo" Imortal”, (1877-09-30). Pulpit Vault, 1877-09-smith-arrival-in-salt-lake-city-the-first-principles. Tradução desta edição, por método de glossário, contentdm.lib.byu.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).