Sentimentos no Templo—Valor dos Registros Sagrados—O Evangelho Encontra Testemunho na Oposição—O Evangelho Sempre o Mesmo—Mártires versus Heróis—Ordenanças pelos Mortos
George Q. Cannon
É com sentimentos peculiares que me levanto para falar-vos, meus irmãos e irmãs, pelo curto tempo que resta, neste santo Templo. Se eu fosse descrever meus sentimentos ao entrar e adorar nesta casa, ocuparia mais tempo do que resta para ser usado, e não sei se, ao tentar fazê-lo, conseguiria. Cada um dos presentes pode melhor avaliar os sentimentos de seu irmão a partir daqueles que ele mesmo nutre. ¶
Estive aqui no outono passado, e então minhas emoções ao entrar nesta sala foram da natureza mais peculiar. Senti-me dominado, e assim tenho me sentido cada vez que entro no edifício. É um lugar santo, e todos os que aqui vêm deveriam ser santos; deveriam examinar-se, e, encontrando-se culpados de algum erro, deveriam decidir-se, na força e no poder de Deus, a afastá-lo. Não acho que qualquer pessoa que tenha em seu coração algo do amor à verdade, do amor à retidão, ou do temor de Deus, possa entrar neste edifício sem ficar impressionada com a santidade do espírito que aqui reina, e que parece permear até mesmo o ar que respiramos. Minha fervorosa oração a Deus é que este edifício seja mantido limpo e puro, livre de todo ato e espírito antagônico às santas influências que Deus prometeu conceder aos puros de coração que aqui entrarem; e que este edifício permaneça de pé enquanto for necessário para cumprir os propósitos de Deus. ¶
As observações que ouvimos do Presidente Wells são muito verdadeiras, e estão tão de acordo com as Escrituras, que todo Santo dos Últimos Dias que as ouviu deve estar convencido de sua verdade. É sempre motivo de alegria para mim que, nas providências de Deus, nosso Pai Celestial, os registros sagrados que temos, que chegaram até nós através de tantas eras, e que são reconhecidos pela Cristandade como sendo as palavras de Deus (pelo menos reconhecidos por todos os cristãos como tal, quer creiam nisso quer não); digo que, na providência de Deus, esses registros chegaram até nós em tão pura condição quanto os encontramos. Porque é um consolo para um povo como o nosso, cujo nome é lançado fora como mau, e que é escarnecido e visitado com toda sorte de opróbrio, acusado de todo crime concebível, saber que a doutrina e as ordenanças em que cremos têm semelhança com, e estão em estrita conformidade com, aquelas da reconhecida palavra de Deus. Não precisamos recorrer somente ao Livro de Mórmon e ao livro de Doutrina e Convênios em busca das provas da verdade da obra em que estamos empenhados; pois, ao recorrer a esses livros, apelamos apenas a um testemunho corroborativo que mostra que as palavras de Deus e seus tratos com os filhos dos homens são os mesmos em todas as eras do mundo. Enquanto deu sua palavra revelada aos antigos no Continente Oriental, também deu aos habitantes do Continente Ocidental sua palavra, e ambas concordam. Ele também nos deu, a nós, seu povo nos últimos dias, sua palavra. Por essas três testemunhas, ou esses três registros divinos, sua palavra é corroborada e mantida. Tendo recebido a palavra de Deus dessas várias fontes, podemos regozijar-nos hoje na grande verdade de que as doutrinas que ensinamos, as ordenanças a que nos submetemos, e que têm sido e são administradas a nós, e nossas vidas, quando vivemos como deveríamos, estão em estrita conformidade com esses três registros, que sabemos ser a palavra de Deus, mas particularmente em conformidade com a Bíblia, que o mundo cristão reconhece como verdadeira. Isso sempre foi para mim uma grande causa de alegria, e tenho sido grandemente fortalecido em saber que nenhuma referência poderia ser feita a nenhuma parte, ou a nenhuma doutrina ou princípio da Bíblia, que não fosse crida e praticada pelos Santos dos Últimos Dias, na medida de sua capacidade, isto é, na medida em que a doutrina ou exigência lhes fosse aplicável. Claro que, onde revelações específicas foram dadas a um povo sob condições peculiares e de caráter peculiar, como, por exemplo, Noé ou Abraão, ou os discípulos quando foram ordenados a fugir de Jerusalém, o bom senso de todos os homens sugeriria que tais exigências não nos são aplicáveis. Não nos é necessário construir uma arca, nem fazer nenhuma dessas coisas especificamente ordenadas a outros; mas onde revelações gerais, doutrinas, ordenanças ou mandamentos são revelados ou comunicados ao povo de Deus, nós, como povo, recebemos todos esses, e formam parte de nossa fé e crença, e nós, ao menos em certa medida, estamos empenhados em cumpri-los. Em conjunto com esses gloriosos fatos, precisamente as mesmas consequências ou resultados fluem dos ensinamentos dos servos de Deus nestes dias, como nos dias antigos. Deus confirmou a palavra com sinais que a seguiram. O adversário, no mesmo espírito de ódio que caracterizou seus ataques contra a obra de Deus em todas as eras, é, nestes últimos dias, tão amargo e tão determinado a causar os mesmos resultados advindos da pregação dos servos de Deus, e da administração das ordenanças de vida e salvação, quanto em qualquer época anterior da história do mundo, mostrando assim que a antiga antagonia que existia entre Deus e Belial, a antiga animosidade que motivava a mente daqueles que ele inflamou a crucificar o Filho do Homem, e a destruir seus Apóstolos, não se extinguiu, mas era tão determinada em nossos dias a efetuar a ruína daqueles que creem no Evangelho do Senhor Jesus Cristo, que se submeteram às suas ordenanças, quanto em qualquer época anterior da história do mundo. ¶
Se tivéssemos crido em tudo o que é ensinado nas Escrituras, e não tivéssemos recebido as bênçãos prometidas; ou se tivéssemos crido em tudo o que está escrito nas Escrituras, e tivéssemos recebido as bênçãos prometidas, mas não tivéssemos recebido o ódio e a animosidade dos ímpios, poderia ter havido motivo de dúvida quanto a termos obedecido ao Evangelho. Poderíamos ter sido assaltados pelo temor de que algo faltava no sistema, e que, portanto, não poderíamos ser, afinal, o povo de Deus. Mas quando, além da doutrina que Deus revelou, e das ordenanças de vida e salvação que ele restaurou e nos ordenou obedecer, isto é, crer em Jesus Cristo, arrepender-nos verdadeira e sinceramente de todos os nossos pecados, ser batizados para a remissão deles, por alguém que detenha a autoridade, e então receber o Espírito Santo pela imposição das mãos, e seus dons, bênçãos e poderes; quando nosso nome é lançado fora como mau, quando nosso nome é apregoado pela terra como o do povo mais ímpio, malvado e abominável que vive sobre a terra, quando os homens pensam que, ao nos destruir, estariam prestando serviço a Deus; digo que, quando essas características acompanham a administração e as ordenanças da Casa de Deus, podemos nos regozijar tanto quanto os antigos o fizeram, no conhecimento de que não há peculiaridade alguma pertencente ao Evangelho antigo, desde os dias de Adão até João, o Revelador, ou desde os dias de Jarede e seu irmão até Morôni, ou desde os dias de José e Hyrum até nossos dias, que não acompanhe o Evangelho agora. Não apenas não falta nenhuma característica, peculiaridade ou traço, como também não falta nenhum sinal ou evidência de que seja a mesma obra de Deus. Precisamente os mesmos sinais seguem agora, e precisamente as mesmas evidências externas acompanham a pregação do Evangelho agora, como antigamente. Tendo esses sinais, evidências e bênçãos, não deveríamos, como povo, regozijar-nos sobremaneira? Não deveriam nossos corações estar cheios de ação de graças ao Deus Todo-Poderoso, de que, por mais humildes, obscuras e iletradas, por mais desprezíveis que possam parecer aos olhos dos filhos dos homens nossas doutrinas, vidas e caráter, nosso nome está contado entre os mais santos, os melhores e os maiores que já pisaram o escabelo de Deus, que nosso nome está contado com Jesus, o primogênito, o Filho de Deus, e com Enoque, Abraão, o amigo de Deus (distinguido acima de todos os filhos dos homens por aquela gloriosa evidência da proximidade de Deus com ele, sendo chamado seu amigo), e com todos os santos Profetas cujas vidas são testemunhos vivos da divindade de seu chamado? Se desejamos desfrutar da companhia e da glória de tais personagens, devemos estar dispostos a sofrer como eles sofreram; e, se não estivermos, não podemos razoavelmente esperar ser contados entre a multidão feliz que há de viver e reinar com Jesus. Quando tivermos feito tudo o que eles fizeram, passado e experimentado as mesmas bênçãos que eles tiveram, bebido do mesmo cálice, e sido batizados com o mesmo batismo, e, quando necessário, dado nossa vida como eles deram em testemunho da verdade, então poderemos reinar com eles. ¶
É fácil morrer no calor da batalha, ou quando os homens são escolhidos para algum dever heroico, e os olhos do mundo estão sobre eles; mas não é dessa maneira que os servos e o povo de Deus têm perdido suas vidas. Jesus foi crucificado entre dois ladrões, a morte mais ignominiosa a que qualquer pessoa poderia ser submetida, e aqueles que o crucificaram criam que ele era digno de tal destino. Disseminaram entre o povo tais calúnias e deturpações de suas obras e ações, que muitos se sentiram justificados em assumir a responsabilidade de derramar seu sangue sobre si mesmos e sua posteridade. ¶
Assim sempre foi com os servos e Santos de Deus. Eles não morrem quando sua vida lhes é tirada por violência de uma maneira que o mundo chama de heroica ou gloriosa; mas como malfeitores, a morte ignominiosa administrada àqueles que são mortos pelo testemunho de Jesus, e assim sempre foi com os filhos de Deus, os mais brilhantes, os melhores e os mais nobres que já viveram. Tiveram que dar sua vida, como José a deu, morto na prisão em que estava confinado. O mesmo autossacrifício, o mesmo autossacrifício semelhante ao de Deus é exigido das mãos dos servos e Santos de Deus em nossos dias, tal como era exigido daqueles nos dias antigos, quando eram lançados em covis de feras selvagens, na fornalha ardente, ou serrados ao meio, e submetidos a toda sorte de morte violenta por causa de sua suposta maldade. ¶
Agradeço a Deus hoje pela restauração desta verdade. Agradeço a Deus por ter sido considerado digno de viver no dia em que as revelações de Jesus são restauradas. Agradeço a Deus, de todo o coração, por ser membro desta Igreja; considero-a a mais gloriosa honra e dignidade que poderia ser conferida a mim, e mais ainda pela bondade de Deus em permitir-me oficiar no santo Sacerdócio. Agradeço-lhe também por ter inspirado seus servos a conduzir seu povo e nos trazer até aqui, e que, pelas bondosas providências de Deus e pelos sábios conselhos e administrações de seus servos, somos abençoados com esses gloriosos privilégios de sermos permitidos erguer uma habitação ao nome do Altíssimo, na qual adoramos neste dia; esta casta, esta grandiosa, esta magnífica casa de Deus. ¶
Quando reflito sobre o que Deus tem feito por nós, além do que já mencionei, isso me dá uma gratidão ainda mais profunda ao saber que, em todas as revelações que nos foram dadas a respeito de nós mesmos e de nossa glória futura, não houve nenhuma ocultação quanto ao destino de nossos mortos que faleceram sem conhecimento do Evangelho. Teria faltado algo à nossa alegria se esta revelação não tivesse sido feita, pois não poderíamos ter contemplado nossa própria felicidade nos mundos eternos com qualquer grau de satisfação, se estivéssemos perturbados pelo pensamento de que nossos antepassados não pudessem participar das mesmas bênçãos que recebemos. Mas Deus, em sua misericórdia, revelou-nos seus propósitos, de modo que não há ninguém que compreenda o Evangelho que não possa entrar nesta casa e glorificar a Deus em seu coração por causa da plenitude dessas bênçãos; e porque sabemos que o Senhor possui todos os gloriosos atributos que lhe temos atribuído. ¶
Perguntai aos homens esclarecidos da Cristandade a respeito de seus mortos, e eles prontamente reconhecerão que é um assunto sobre o qual nada sabem. Muitos pensam que as nações pagãs que morreram na ignorância estão condenadas às misérias de um inferno sem fim. Quem, com tais sentimentos e crenças, pode glorificar a Deus em seu coração e atribuir-lhe os gloriosos atributos de misericórdia e justiça, e reconhecê-lo como um ser justo e misericordioso? ¶
Mas quando recebemos o Evangelho, veio com ele uma mensagem clara de misericórdia, uma mensagem de boas novas de grande alegria, de que não apenas os vivos deveriam receber o testemunho de Jesus, não apenas os vivos deveriam regozijar-se nos gloriosos princípios de vida e salvação, mas os próprios mortos deveriam ouvir a voz dos servos de Deus, e as boas novas de salvação deveriam ser proclamadas aos seus ouvidos, e, mediante o exercício de seu arbítrio ao receberem essas verdades, as portas de sua prisão poderiam ser destrancadas, e eles sairiam e receberiam, como se estivessem na carne, as mesmas bênçãos, exaltação e glória, de acordo com seus bons desejos e boas obras. Assim, foi varrida de nossas mentes toda causa de dúvida a respeito de nossos mortos, e nossos corações se aqueceram para com eles com alegria indizível, e, consequentemente, unimos nossos esforços para erguer um edifício assim, uma casa santa como esta. Assim, nós, em nossos corações, testificamos a Deus, o Pai Eterno, que recebemos, de fato, em verdade, o testemunho que ele nos deu, que cremos que o mesmo é verdadeiro, e que dedicaremos, com o auxílio e o poder que ele nos concede, toda a nossa vida aos interesses de seu reino, legando esse mesmo espírito e energia a nossos filhos depois de nós, para que eles também trabalhem, com todo seu vigor, mente e força, e com a capacidade com que Deus os dotar, para levar adiante e estender a grande obra de redenção e salvação, até que todo filho e filha de Adão receba as boas novas de salvação, e seja administrado por eles nos santos templos que serão preparados para esse propósito expresso. ¶
Que Deus nos ajude a fazer isto com todo nosso vigor e força é minha oração em nome de Jesus. Amém. ¶