Revelação Imediata — Dons Espirituais Necessários na Igreja Cristã — Apostasia — A Restauração do Evangelho — Todas as Coisas Serão Reunidas em Um — Autoridade Divina — Casamento — Casamento Celestial — Batismo pelos Mortos
Orson Pratt
Chamarei a atenção da congregação para uma porção da palavra de Deus contida no capítulo 19 do evangelho segundo São Mateus. [O orador leu os versículos 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9.] ¶
Li estas passagens da Escritura a fim de discorrer, esta tarde, se o Senhor quiser e seu Espírito assim dirigir minha mente, sobre o assunto do casamento, e mostrar em que o povo chamado Santos dos Últimos Dias difere, em suas opiniões, das outras denominações cristãs, quanto a esta grande e divina ordenança, e fazer outras observações, não particularmente ligadas ao assunto, conforme o Espírito do Senhor as dirigir. ¶
Primeiramente, porém, antes de tratar desta ordenança divina, talvez seja bom declarar, em termos breves, algumas das opiniões dos Santos dos Últimos Dias a respeito da doutrina que abraçaram. Procurarei ser muito breve em cada ponto, a fim de enumerar, tanto quanto possível, a variedade de doutrinas e princípios que abraçamos, que nos são peculiares como povo. Começarei dizendo que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não surgiu das várias sociedades religiosas que hoje existem, ou que existiram, na cristandade; tampouco surgiu de nenhuma de suas instituições. Nosso Sacerdócio, nossa doutrina, nossa autoridade, a organização de nossa Igreja, e tudo quanto a isso se relaciona, foram algo revelado diretamente dos céus. Talvez pergunteis — "Não fostes guiados, mais ou menos, quanto a estes princípios, pelo livro chamado a Bíblia?" Respondo que, na organização do reino de Deus na terra, no século dezenove, fomos guiados por revelação direta do céu para nós. Não professamos que nossas doutrinas e princípios sejam inteiramente distintos e algo inteiramente diferente daquilo que está registrado na Bíblia; estamos longe de fazer tal profissão; mas cremos que o mesmo Deus que organizou seu reino em tempos antigos, e revelou sua vontade aos habitantes da terra, revelou, nestes últimos dias, princípios de acordo com aqueles revelados em tempos anteriores, e que ele é um Ser consistente, e que não comunicaria um evangelho para os habitantes da terra observarem no século dezenove que não fosse revelado e compreendido em eras anteriores. O mesmo evangelho, portanto, que Deus revelou novamente em nossos dias, quando comparado com o evangelho contido no Novo Testamento, verifica-se estar de acordo, em todo princípio, e em todas as suas ordenanças e instituições, com o cristianismo antigo. ¶
Esta Igreja foi organizada no dia 6 de abril de 1830. O próprio dia do mês em que deveria ser organizada foi apontado por nova revelação; os oficiais que foram colocados na Igreja foram nomeados, e os nomes de muitos deles foram dados por nova revelação. Os deveres desses oficiais também foram estabelecidos por revelação direta do céu. Deus organizou a Igreja com Apóstolos nela, tal como organizou sua Igreja antiga; organizou-a com Reveladores e com Profetas, inspirados do alto, tal como organizou a antiga Igreja cristã. Ordenou ao povo que cresse em seu Filho Jesus Cristo, como o grande Redentor que morreu no meridiano do tempo pelos pecados da humanidade. Ordenou, por nova revelação, que crêssemos no mesmo Redentor e na mesma expiação; ordenou-nos que nos arrependêssemos de todos os nossos pecados, abandonássemos toda injustiça, deixássemos de fazer o mal e aprendêssemos a fazer o bem, e reformássemos nossas vidas em todos os aspectos, tal como ordenou ao povo na dispensação antiga do evangelho. Por nova revelação, fomos ordenados a sermos batizados por imersão em água, para a remissão dos nossos pecados, tal como ordenou ao povo, em tempos antigos, que atendesse à mesma ordenança divina. Por nova revelação, ordenou a seus servos, os Apóstolos, e àqueles a quem deu poder e autoridade, que impusessem as mãos sobre todos os crentes batizados, e confirmassem sobre eles o batismo de fogo e do Espírito Santo, tal como se praticava entre os Santos em tempos antigos. Por nova revelação, o Senhor prometeu que certos sinais acompanhariam os crentes entre todas as nações, tribos, línguas e povos a quem este evangelho fosse enviado. A todos os que cressem, homens e mulheres, foram prometidos certos sinais, entre os quais mencionarei que expulsariam demônios, falariam novas línguas, e, se tomassem serpentes, ou bebessem alguma coisa mortífera, isso não lhes faria mal; imporiam as mãos sobre os enfermos, e eles sarariam. A mesma promessa foi feita por nosso Salvador na antiga dispensação do evangelho. Ordenou a seus servos, nestes dias, que fossem primeiro pregar às nações gentias; e, depois de termos dado fielmente nosso testemunho a elas, e de estarem suficientemente advertidas, então devíamos voltar-nos aos remanescentes dispersos e espalhados de Israel, nos quatro cantos da terra, e pregar-lhes o evangelho. Ordenou, por nova revelação, que seus servos dissessem aos habitantes de toda a terra que cressem, se arrependessem, fossem batizados e recebessem o evangelho do Filho de Deus, que deixassem suas respectivas nações, e se reunissem num só lugar, que o Senhor, por nova revelação, designaria. ¶
Tudo isso foi dado por nova revelação. Concorda ou discorda das Escrituras contidas na Bíblia? Julgai vós mesmos. Tinha a antiga Igreja cristã Apóstolos inspirados, que tinham poder para invocar a Deus e receber dele nova revelação? Assim também a moderna Igreja cristã, que Deus reorganizou na terra, reivindica ter os mesmos oficiais, Apóstolos, não apenas de nome, mas inspirados do céu, para receber novas revelações, tal como o eram os antigos Apóstolos. Há, então, alguma discordância entre o antigo padrão e o padrão dos últimos dias? Tinha a antiga Igreja cristã uma multidão de Profetas inspirados, homens e mulheres, que podiam profetizar acerca de acontecimentos futuros? Assim também a Igreja cristã dos últimos dias, organizada por nova revelação, tem abundância de Profetas e Profetisas a quem o futuro foi aberto, e eles predizem acontecimentos futuros; portanto, não há discordância entre o padrão antigo e o padrão dos últimos dias. Impunham os Apóstolos as mãos para o recebimento do Espírito Santo, e descia o Espírito de Deus dos céus, e caía sobre os crentes batizados por meio da imposição das mãos? Assim também, nos últimos dias, têm sido dadas as mesmas bênçãos entre todas as nações, povos, tribos e línguas, onde quer que este evangelho tenha sido pregado. Não há diferença, então, quanto a isto. ¶
Tinha a antiga Igreja cristã uma grande variedade de membros que possuíam uma variedade de dons espirituais? Assim também crê a Igreja cristã dos últimos dias na mesma coisa. Presumiu alguém, na Igreja cristã, em tempos antigos, tomar para si a autoridade do ministério, sem ser chamado por Deus por nova revelação? Nunca, jamais! Todos foram chamados por nova revelação para oficiar nos vários ofícios da Igreja, segundo o mesmo padrão pelo qual Arão foi chamado. "Ninguém," diz Paulo, "toma esta honra para si, mas aquele que é chamado por Deus, como o foi Arão." Todos sabem, pela história que se dá, como Arão foi chamado por nova revelação. Tem alguém, entre todos os povos e nações da terra, autoridade para administrar o batismo? Sim. Quem são eles? Aqueles que são chamados por nova revelação, e nenhum outro. Tem alguém autoridade para administrar a Ceia do Senhor entre todas as nações cristãs da terra? Sim. Quem são eles? Aqueles a quem o Senhor falou, a quem o Senhor chamou, como chamou Arão. Têm alguma das denominações cristãs que negam a nova revelação autoridade para administrar esta sagrada ordenança? Nenhuma sobre a face de toda a terra. São as ordenanças, administradas por aqueles que negam a nova revelação, aceitas pelo Altíssimo? Nenhuma delas. Por quê? Porque Deus não sanciona aquilo que não é por ele designado. ¶
Talvez alguns perguntem se isto não elimina a Igreja cristã da face da terra? Respondo que sim, a menos que Deus tenha uma Igreja cristã com reveladores e Profetas nela, e cujos oficiais sejam chamados por nova revelação. Pergunta alguém — "Quereis dizer que não tivemos verdadeira Igreja cristã na terra por muitos séculos?" Quero dizer isso, a menos que tenha havido pessoas autorizadas, segundo as exigências das santas Escrituras. Se pudermos encontrar uma igreja em qualquer lugar da face da terra que tenha Apóstolos nela, e reveladores, e homens inspirados, então temos uma verdadeira Igreja cristã; mas, se não pudermos encontrar isso, então não temos tal Igreja. Se pudermos encontrar uma igreja que tenha os dons e os sinais de que fala o Novo Testamento, podemos encontrar uma verdadeira Igreja cristã; mas, se não pudermos encontrar tal coisa, não temos razão para crer que exista tal Igreja na terra. "Mas," diz alguém, "nós nos chamamos cristãos." Isso é coisa muito fácil; mas chamar-vos cristãos ou igrejas cristãs não vos torna tais. Pergunta alguém — "Não é contrário às Escrituras supor que o mundo tenha ficado por tantos séculos sem uma Igreja cristã?" Não; está de acordo com as Escrituras, pois elas predizem a Apostasia, a queda e as trevas que haveriam de reinar sobre as nações, e mostram que, em vez de terem verdadeiros mestres, os homens ajuntariam para si mestres sem autoridade de Deus, homens não inspirados, cujos ouvidos se desviariam da verdade para as fábulas. Esta grande apostasia começou por volta do fim do primeiro século da era cristã, e tem piorado cada vez mais desde então até agora. Pouco tempo depois da morte do último dos Apóstolos, a Igreja cristã, os poucos que restavam dela, foram perseguidos de monte em monte, de covil em covil, de uma caverna da terra a outra, e de nação em nação, até serem inteiramente exterminados e arrancados da terra. Ora, o que restou? Um cristianismo apóstata, um cristianismo sem reveladores, sem voz alguma de Deus, sem Profetas para desvendar o futuro, sem visões, sem comunicações dos céus. A apostasia sucedeu à Igreja cristã, e dominou sobre todas as nações da terra; e estas Escrituras se cumpriram, pois dizem que certo poder haveria de levantar-se, e fazer guerra contra os Santos, e vencê-los, e eles seriam entregues nas mãos daquele poder. ¶
Mas há de nossa terra ficar sempre sem a Igreja e o reino de Deus, e sem Apóstolos, Profetas, ou uma voz dos céus? Não. João viu, em sua visão em Patmos, como o evangelho seria pregado novamente entre as nações, depois que a grande Babilônia se levantasse, depois que perseguisse os Santos e os destruísse da terra, e apresentasse seu cálice de ouro cheio de imundícia e abominações, para que todas as nações dele bebessem. ¶
Depois de ver isto, viu como a Igreja cristã haveria de retornar novamente à terra. No capítulo catorze do Apocalipse, versículo seis, diz — "E vi outro anjo voar pelo meio do céu, e tinha o evangelho eterno, para proclamá-lo aos que habitam sobre a terra, e a toda nação, e tribo, e língua, e povo, dizendo com grande voz, Temei a Deus, e dai-lhe glória, porque vinda é a hora do seu juízo." E outro anjo seguiu a este que tinha o evangelho, dizendo — "Caiu, caiu a grande Babilônia." Por quê? Porque fez todas as nações beberem do vinho da ira da sua fornicação. ¶
Imediatamente depois disso, João viu o Filho do Homem, sentado sobre uma nuvem branca, vindo em sua glória e poder para destruir as nações da terra. Eis, então, três grandes acontecimentos retratados pelo antigo apóstolo João, que haveriam de ocorrer pouco antes e no momento da vinda do Filho do Homem. O evangelho há de ser trazido por um anjo. Para quem? Para todos os povos. Ora, se houvesse algum povo, nação, tribo ou língua, em qualquer parte da terra, que tivesse o evangelho, e tivesse a autoridade para administrar suas ordenanças, não haveria necessidade da vinda deste anjo; tudo o que teríamos de fazer seria procurar aquele povo, e ali, entre eles, teríamos encontrado Apóstolos, Profetas, reveladores, e homens com poder de invocar a Deus e obter revelação; e então pessoas seriam chamadas por nova revelação ao ministério. Mas tal povo não existia, e, portanto, quando o anjo traz o evangelho, este há de ser pregado a todos os povos, nações e línguas, sob todo o céu. ¶
Ora, os Santos dos Últimos Dias tiveram a ventura de viver no dia em que o Senhor enviou este anjo, e em que estabeleceu novamente sua Igreja, e ordenou a seus servos que saíssem, chamando-os pelo nome, para pregar o evangelho ao povo, sem bolsa nem alforje, para organizar seu povo entre todas as nações, e dizer-lhes — "Ajuntai-vos, saindo de todas estas nações, para um só lugar." "Mas," diz alguém, "que significa isto? Ajuntavam-se os antigos Apóstolos e as antigas Igrejas cristãs?" Respondo que as mesmas doutrinas que ensinaram são ensinadas nestes dias; contudo, quando se trata de alguns dos grandes princípios temporais da salvação, Deus tem variado seus planos em cada dispensação. A Noé foi dado um mandamento de construir uma arca; essa era a maneira pela qual haveria de se efetuar a salvação temporal de todos os crentes em seu dia. A Abraão foi ordenado deixar sua terra, parentela e amigos; esse foi um mandamento de caráter muito diferente do dado na dispensação de Noé. Nos dias de Moisés, foi dado outro mandamento, bastante diferente do dado a Noé ou a Abraão, e assim por diante. Nos dias de Jesus, no que dizia respeito à salvação temporal, os crentes tinham permissão para permanecer em Corinto, Éfeso, Galácia, e em todos os países onde a Igreja cristã se organizasse; não havia ajuntamento naquele dia. Mas a última dispensação há de ser uma dispensação de ajuntamento de todo o povo de Deus. Fala-se disso por meio de Paulo, no primeiro capítulo de sua epístola aos Efésios, onde se diz "que, na dispensação da plenitude dos tempos, o Senhor tornará a congregar em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra, para que todas sejam reunidas em um." ¶
Ora, se este anjo que trouxe este evangelho dos céus, e ordenou que esta Igreja fosse organizada, tivesse omitido este ajuntamento em um, teríamos razão para supô-lo um impostor. Por quê? Porque o grande traço essencial da dispensação dos últimos dias era um ajuntamento em um de todas as coisas em Cristo. Essa é a razão pela qual estes vales estão cheios de habitantes de diferentes nações e línguas; ouviram, em diferentes partes da terra, o som do evangelho que Deus trouxe à luz nestes últimos dias por um anjo; ouviram a voz do Senhor chamando-os a fugir de Babilônia, e a ajuntar-se em um, e é por isso que estão aqui. Isto concorda com o testemunho de João, de que, depois que o anjo viesse, o evangelho seria pregado a todas as nações. Ouviu uma grande voz do céu, dizendo — "Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não recebas das suas pragas; porque seus pecados chegaram até o céu, e Deus se lembrou das suas iniquidades." Aquela voz, lembrai-vos, não haveria de ser uma fábula engenhosamente forjada, inventada por certo número de teólogos ou clérigos, segundo sua própria sabedoria; haveria de ser uma voz do céu, uma nova revelação, ordenando ao povo que fizesse isto. Cerca de cem mil dos Santos dos Últimos Dias, habitando nesta região montanhosa, edificando vilas e cidades por umas quatrocentas ou quinhentas milhas de extensão, ouviram a voz do Senhor dos céus e se ajuntaram. Ouvistes a proclamação, quando o reino dos últimos dias foi estabelecido, para tomardes vossas lâmpadas e saírdes ao encontro do Noivo. Em vez de permanecerdes na Europa, na Ásia, na África, na Austrália, ou entre as ilhas do mar, fostes ordenados a tomar vossas lâmpadas e a ajuntar-vos; isto é como a rede de pesca lançada ao mar, que "ajuntou toda espécie, tanto boa como má." "Quereis dizer," diz alguém, "que há alguns ajuntados entre vós que são maus?" Sim; se não houvesse, a parábola de nosso Salvador não se cumpriria. Mas, com o tempo, haverá uma triagem, e os maus serão lançados fora para o seu próprio lugar, enquanto os bons serão ajuntados em vasos e serão salvos. ¶
Isto há de cumprir as palavras do Profeta Isaías, no capítulo 43 — "Trarei a tua semente desde o oriente, e te ajuntarei desde o ocidente. Direi ao norte: Dá; e ao sul: Não retenhas; trazei os meus filhos de longe, e as minhas filhas, das extremidades da terra." Diz alguém — "Realmente pensais que não restará nenhum cristão no norte, nem no sul, nem no leste, nem no oeste, mas que todo aquele que é chamado pelo meu nome será reunido em um?" Sim, é isso que cremos, e é uma das peculiaridades daquilo que o mundo chama "mormonismo"; não cremos que restará um só cristão sobre toda a face da terra que não seja ajuntado. "Bem," diz alguém, "se isso for verdade, se Isaías disse a verdade quanto a isso, e o dia está próximo para o cumprimento de sua profecia, as nações estarão verdadeiramente num terrível dilema, quando todo cristão for retirado." Creio que estarão, creio que tirais uma conclusão muito correta. ¶
Por que o Senhor os ajunta? Como o Profeta Isaías disse noutro lugar, ele os ajunta aos montes, e dizem uns aos outros — "Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó." Para quê? "Para que nos ensine acerca dos seus caminhos, e andemos nas suas veredas." Parece, então, que o Senhor há de ter um povo em algum lugar sobre a face da terra, em alguma região montanhosa, que há de ensinar às nações os seus caminhos, e como andar em suas veredas. ¶
Ora, se pudermos descobrir onde é este monte em que o Senhor há de ter uma casa edificada, e ao qual as nações hão de ajuntar-se, será bom que abramos os olhos e vejamos se estamos nos ajuntando para aprender os caminhos do Senhor. ¶
Talvez pergunteis, "Que peculiaridades hão de ser ensinadas nos montes, diferentes das que se ensinam alhures?" Respondo, sem dúvida haverá muitas; e, entre as demais, está a do casamento, e agora chegamos às palavras de nosso texto. Podeis perguntar, "Não vos casais aqui nos montes, como o fazemos no leste?" Em resposta, direi, em primeiro lugar, que o casamento é uma ordenança divina, como vedes pelas palavras de meu texto — "O que Deus ajuntou não o separe o homem." Ora, como reúne o Senhor as pessoas em casamento? Ordena ele um juiz de paz, que se declara infiel, e não crê em Deus, ou em seu Filho Jesus Cristo, ou no evangelho de vida e salvação? Tem tal homem a autoridade de Deus para unir os sexos em casamento? Suponde que tal pessoa pronuncie a cerimônia de casamento, que tem o Senhor a ver com isso? Inspira o Senhor o infiel — alguém que não tem fé nem confiança nele — a unir os sexos em casamento? Creio que não. ¶
Mas suponhamos que passemos pelo infiel que detém a autoridade da lei civil para administrar a ordenança do casamento; não há muitas pessoas entre as nações cristãs que creem em Deus e em seu Filho Jesus Cristo, que são juízes de paz, e que têm autoridade, sob as leis civis do país, para administrar a ordenança do casamento? Respondo — há muitos que detêm esta autoridade sob seus respectivos governos; não disputamos isso. O infiel de que falava, que é juiz de paz, tem autoridade pelas leis de seu Estado ou condado, para administrar e oficiar na cerimônia do casamento. Mas Deus nada tem a ver com isso; atende aos fins da lei civil, e até aí vai. ¶
Ora, suponde que tomeis aquelas pessoas que não são infiéis, mas que professam crer em Deus, e que detêm autoridade, sob seus vários governos, para pronunciar um homem e uma mulher marido e mulher; tem o Senhor algo a ver com isso? Tem, se ele designou aquele ministro ou juiz de paz; se lhe deu uma revelação autorizando-o a oficiar na ordenança do casamento, então tem autoridade para fazê-lo, segundo a mente e a vontade de Deus. Mas, por outro lado, se Deus nada lhe disse, ele não tem autoridade divina — e, se é sectário, certamente rejeitará toda revelação, a menos que se encontre na Bíblia, e a Bíblia não chama homem algum pelo nome, no século dezenove, para oficiar no casamento, nem no batismo, nem em nenhuma das ordenanças do evangelho — sua fé no Senhor Jesus Cristo não lhe confere autoridade divina para administrar a ordenança do casamento. No entanto, os indivíduos a quem casa estão casados segundo as leis do país, e o casamento é legal no que diz respeito às leis do país; mas, se Deus não falou a esses homens, se não lhes deu revelação autorizando-os a fazer isto, sua cerimônia, no que diz respeito a Deus, seria exatamente a mesma que se fosse administrada por um sacerdote pagão, exatamente a mesma que se fosse ministrada por um infiel, pois Deus nada tem a ver com isso. ¶
Quem é, então, que o Senhor ajunta? São aqueles que são casados por alguém autorizado por Deus a oficiar naquela sagrada e santa ordenança, e o Senhor não poderia fazer isto, a menos que desse nova revelação; portanto, começais a compreender quais são nossas opiniões, como Santos dos Últimos Dias, a respeito da natureza do casamento. Pergunta alguém — "Quereis dizer que não houve casamentos legais aos olhos de Deus, por quase mil e setecentos anos, entre todas as nações?" Sim, é isso que dizemos. Aqueles homens velhos e de meia-idade, que se casaram nas nações antes de ouvirem o som do evangelho, casaram-se legalmente segundo as leis dos homens, e seus casamentos resistirão a todas as controvérsias da lei, e seus filhos são herdeiros legais de suas propriedades; mas não foram ajuntados pelo Senhor. ¶
Ora, cheguemos a um casamento em que o Senhor oficia. É indiretamente referido aqui, neste capítulo 19 de Mateus — "No princípio, Deus os fez macho e fêmea." E quem oficiou na primeira grande cerimônia de casamento? Foi o Senhor. Provavelmente, se houvesse algum homem na terra, naquele tempo, que detivesse as chaves, a autoridade e o poder, o Senhor não teria vindo oficiar diretamente; mas, visto que o casamento era entre o primeiro casal que habitou a terra, e não havia mais ninguém para oficiar, o Senhor tomou sobre si oficiá-lo pessoalmente; e, depois de formar a mulher, trouxe-a ao homem, e o homem disse — "Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada." ¶
Ora, indaguemos a respeito da perpetuidade deste primeiro casamento, pois toda a cristandade, e não sei se não todo o paganismo também, tem essa curiosa ideia na cabeça de que o casamento pertence apenas a este pequeno instante de tempo chamado nossa vida presente, e que, com o tempo, o sombrio monstro Morte há de vir e separar marido e mulher, e isso é o fim da união conjugal. Tal é a ideia de toda a cristandade, e é assim que se casam; é segundo esta forma que juízes de paz, os professos ministros do evangelho, e todas as autoridades judiciais dos vários estados, territórios, nações, países e impérios do mundo têm oficiado na cerimônia do casamento — "Eu vos ajunto," ou, "Eu vos pronuncio marido e mulher," conforme o caso, "até que a morte vos separe." Ora, de fato! É muito pouco tempo para ficar casado, não é? Poderíamos morrer no espaço de um ou dois dias depois de casados, e então o contrato se esgota, sem mais nenhuma reivindicação depois disso, segundo suas ideias. Mas, agora, quanto a este primeiro casamento entre Adão e Eva, quem eram eles? Dois seres imortais. O quê! Casa Deus seres imortais? Sim. Não temos relato de que ele viesse oficialmente casar um casal de seres mortais; não sei que tenhamos tal relato em lugar algum. Mas estas duas personagens, Adão e Eva, eram imortais. Diz alguém — "Nunca soube, antes, que seres imortais deveriam unir-se como marido e mulher; pensei que o casamento pertencesse à mortalidade, e até que a morte nos separasse, e isso fosse o fim disso." Sei que temos tido muitas ideias errôneas acerca do batismo, acerca da imposição das mãos, acerca do casamento, e acerca de muitas coisas, todas as quais vieram em consequência das trevas espalhadas sobre as nações, desde que o cristianismo antigo foi arrancado da terra. Dois seres imortais — Adão o noivo, Eva a noiva, puseram-se de pé juntos, e o Senhor deu a noiva ao noivo. Por quanto tempo, pergunto-me? Se tivesse aprendido a cerimônia destas denominações protestantes e católicas, poderia ter dito — "Eu vos pronuncio marido e mulher até que a morte vos separe." Não, creio que ele nunca aprendeu isso; a morte ainda não havia entrado em nosso mundo; o fruto proibido ainda não havia sido comido; não havia então seres decaídos na terra, nenhuma mortalidade ainda sobre a face de nossa bela criação, mas dois seres imortais, capazes de perdurar por todas as eras da eternidade, foram unidos em casamento. ¶
Isto, então, foi casamento para a eternidade, não para um pequeno instante de tempo, não para cem ou mil anos, não para um milhão de anos, mas para toda a eternidade, tão duradouro em sua natureza, ação e efeitos quanto os próprios seres imortais. "Mas," pergunta alguém, "estais certo de que Adão e Eva eram imortais?" Estou; as Escrituras me informam que, pela transgressão, o pecado entrou no mundo, e a morte pelo pecado. Se o pecado não tivesse entrado no mundo, não haveria morte. "Mas, pensais realmente que Adão e Eva estariam vivos hoje?" Sim. Podeis refletir, em vossas mentes, sobre algum período futuro em que deixassem de ser imortais, em que fossem vencidos? Podeis apontar o momento em que deixariam de ser marido e mulher? Nunca. Quando deu o Senhor o mandamento de serem frutíferos e se multiplicarem, etc.? Deu-o a eles como seres imortais. Supondo que tivesse sido possível a Adão e Eva, antes de caírem, terem filhos, que espécie de filhos teriam sido? Descenderiam filhos mortais da imortalidade, sem qualquer transgressão? Viriam ao mundo pessoas de carne, sangue e ossos, de pais imortais? Não. Devemos supor, então, que, quando Deus disse a Adão e Eva, "sede frutíferos e multiplicai-vos," falou-lhes como seres que não eram decaídos. ¶
Talvez pergunteis, por quanto tempo se multiplicariam e cumpririam este mandamento? Respondo, enquanto durar a eternidade. Podeis dizer quanto tempo será isso? "Quereis dizer que não haveria fim ao seu aumento?" Nenhum, absolutamente. Se tivessem cumprido aquele grande mandamento, e multiplicado sua posteridade, seus filhos teriam sido imortais, tal como os pais, e nunca teria havido período, por todas as intermináveis eras da eternidade, em que não continuassem a aumentar seus filhos — seus próprios filhos e filhas. ¶
Talvez digais — "Realmente pensei que a humanidade, agora, sobre a face da terra, estivesse cumprindo aquele grande primeiro mandamento." Estais grandemente enganados; nenhum de nós o cumpriu. "Quereis dizer que todas estas pessoas aqui, que se casaram e multiplicaram filhos e filhas por todo este Território, não têm cumprido o mandamento dado a Adão?" Nem um só casal de nós, não estávamos em condição de fazê-lo; havemos de estar, contudo, quando obtivermos nossos corpos imortais, como Adão teve o seu. Mas, enquanto estamos aqui, temos permissão de multiplicar — o quê? Pobres, fracos, pusilânimes, decaídos, adoecidos corpos, destinados a durar, no máximo, setenta, oitenta ou cem anos, e depois desfazer-se de volta à sua mãe terra. Ireis substituir tal descendência para cumprir o grande primeiro mandamento que foi dado ao homem imortal? Ah, não, o Senhor não aceitará tal substituição. ¶
Mas como podemos, então, cumprir o mandamento? Direi como — casai-vos para toda a eternidade, como o foram vossos primeiros pais, e então, quando vos levantardes na manhã da primeira ressurreição, e Deus vos restituir novamente vossos corpos, macho e fêmea, podereis cumprir aquele mandamento que foi dado, no princípio, ao primeiro casal imortal. ¶
Continuaremos a multiplicar-nos por toda a eternidade? Sim; nunca haverá tempo em que aqueles que são verdadeiramente casados para a eternidade deixem de multiplicar sua espécie, não filhos sujeitos à dor, à doença e à morte, mas filhos da imortalidade. Milhões sobre milhões serão multiplicados, mundos sem fim, por cada casal de pais imortais, e seus filhos serão tão imortais quanto eles mesmos. Então o mandamento se cumprirá. ¶
Talvez alguns de vós digais — "Vossas observações explicam certa passagem que temos lido frequentemente, o capítulo 11 da primeira epístola de Paulo aos Coríntios, versículo 11, que diz — 'Todavia, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher, sem o homem, no Senhor.' Nunca soubemos o que isso significava antes, mas parece que vós, Santos dos Últimos Dias, tendes a chave para isso." Parece, então, que, se desejamos cumprir o objetivo de nossa criação, e se estamos verdadeiramente no Senhor, devemos entrar nos mundos eternos como casados, não para o tempo; não por algum juiz de paz que seja infiel; não por um homem que não tenha o direito de nos ajuntar sob a revelação e a autoridade do Altíssimo; mas devemos ser casados para a eternidade por um homem que tenha o direito de falar, sendo ordenado pelo Senhor, detendo as chaves de autoridade e poder, que possa dizer ao homem e à mulher, eu vos pronuncio marido e mulher para o tempo e toda a eternidade. Então sereis casados segundo o padrão dado; então tereis um direito um sobre o outro depois da morte. Mas têm as pessoas casadas, entre as nações, algum direito uma sobre a outra depois da morte? Refiro-me àquelas que não foram casadas segundo o padrão e a autoridade do céu. De modo algum. Seus contratos são feitos apenas por um pequeno espaço, uns vinte, trinta, cinquenta ou setenta anos, conforme o caso, então a morte vem, e o contrato se esgota; e, quando vos levantardes na ressurreição, quem sois? Tendes ali alguma esposa? Ah, não. Por que não? Porque não fostes selados ou casados um ao outro por autoridade divina, essa é a razão. Que posição ocupareis? Se fordes pessoas bastante boas, e tiverdes guardado os mandamentos de Deus tanto quanto os compreendestes, e tiverdes feito bem em muitos aspectos, podereis ter a oportunidade de tornar-vos anjos; mas há bastante diferença entre anjos e aqueles que têm o privilégio do aumento interminável, e de serem coroados reis e sacerdotes nos mundos eternos. Sobre quem supondes que reinareis? Ireis buscar alguém mais para multiplicar e espalhar sua descendência, e depois dar-vos essa descendência? Ireis a vossos vizinhos e dizer — "Vinde, fostes casados para a eternidade quando estáveis naquele mundo, e viestes, tendo direito a vossa esposa ou esposas na manhã da ressurreição. Eu não cuidei desse assunto enquanto lá estava, e não fui casado ali segundo o primeiro padrão dado na Bíblia, e, visto que falhei nisso, dar-me-eis, vizinho, parte de vossos filhos? Gostaria de ser rei, e ter alguns súditos sobre quem reinar, separareis alguns de vossos filhos?" "Ah, não," diz o vizinho, "se negligenciaste, naquele mundo, as ordenanças divinas pertencentes à provação, deves arcar com a perda, não posso ceder nenhum de meus filhos. Eles me pertencem; estão sob meu governo patriarcal, serão meu reino, e reinarei sobre minha própria descendência para todo o sempre." ¶
Que fará então este pobre homem? Ora, terá de ser um velho solteirão, se assim se pode dizer, e continuar assim por todas as eras da eternidade. Servirá de servo, e haverá ali muitos servos. Um homem de Deus tem um grande reino, e seu reino se espalha, e seus súditos se multiplicam como as estrelas do céu, ou as areias da praia do mar, e naturalmente há de querer alguns que tenham corpos de carne e ossos para ir ministrar a certos propósitos; e aqueles que se privaram dos benefícios do casamento para a eternidade servirão bem para isso, se forem justos o bastante para chegar a uma posição onde estão os anjos. ¶
Havia alguns, nos dias de nosso Salvador, justos o bastante para isso, mas, por causa da apostasia que prevalecera uns três séculos antes de sua vinda, haviam perdido a autoridade de obter essa glória superior, e, quando Jesus lhes falou acerca da ressurreição dos mortos, disse — "Porque na ressurreição nem casam nem se dão em casamento." A quem falava ele? Não aos justos, mas a alguns dos membros das denominações piedosas que porventura existiam naquele dia, que, em certa medida, haviam perdido o espírito do Senhor. Estes, jamais tendo sido casados para a eternidade neste mundo, não podiam elevar-se acima de anjos no mundo vindouro; e, se se tornassem suficientemente justos para se tornarem anjos celestiais, seriam servos para sempre. Servos de quem? Daqueles que são dignos de receber um reino e uma glória, que atenderam às suas ordenanças e aos mandamentos de Deus, e foram por ele guiados em tudo o que pertence ao casamento, bem como a outras coisas. ¶
Cheguemos agora a outro assunto que decorre do casamento para a eternidade. Por exemplo, há muitos nesta congregação que foram casados pelas leis gentias, por juízes de paz e vários outros oficiais, na Inglaterra, na Escócia, no País de Gales, na Dinamarca, e nas várias nações da cristandade. Vêm aqui com suas esposas, muitos deles pessoas tão boas quanto se pode encontrar em qualquer parte da terra. Foram casados por ordenanças divinas? Ajuntou-os Deus? Não. Devem, portanto, ser condenados? Não. Por que não? Porque Deus não lhes enviou a palavra. Quando a palavra sai do Senhor Todo-Poderoso para um povo, e a luz entra numa nação e entre um povo, então vem a condenação, se essa luz for rejeitada, mas não antes. ¶
A palavra do Senhor vos disse para vos ajuntardes aqui. Para quê? Para que pudésseis, entre outras coisas, ser casados segundo a lei de Deus. Estou procurando dizer-vos algumas de nossas peculiaridades. Cremos que todo homem que se ajunta com os Santos, esteja ou não casado pela lei gentia, deve ser casado por alguém que detenha autoridade divina para oficiar, e assim tenha a ordenança, a ministração selada na terra, para que seja selada nos céus; então permanecerá; mas tudo o que não for feito pela autoridade de Deus não permanecerá, mas será abalado; e, quando chegar o dia da ressurreição, será apenas aquilo que Deus designou que suportará a prova. Naquele dia, quando saírem de suas sepulturas, não haverá oportunidade para as pessoas se casarem, tanto quanto não haverá para serem batizadas. Se as pessoas não se batizarem aqui, nesta vida, não terão oportunidade de se batizar ali. E Jesus diz que, se não nascerdes da água e do espírito, não podeis entrar no reino dos céus, isto é, no reino mais elevado, na glória mais elevada, no terceiro céu; não podeis entrar ali; consequentemente, não deveis adiar o batismo até o dia da ressurreição, e dizer que cuidareis disso então, pois será tarde demais para o batismo, e também para o casamento. ¶
Eis outra questão. Muitas dessas boas pessoas no exterior, que, com seus antepassados, por mil e setecentos anos, enquanto Deus não tinha autoridade ou Igreja na terra, desceram às suas sepulturas sem saber nada sobre o padrão do casamento tal como registrado aqui na Bíblia, que é eterno em sua natureza. Que fareis com elas? Respondo, pareceria bastante duro se não houvesse provisão feita para elas, não pareceria? Há cerca de dezessete séculos ou gerações, e, se computarmos mil milhões de pessoas para cada geração, vindo e passando da terra, teremos cerca de cinquenta mil milhões ao todo, que desceram às suas sepulturas sem batismo, sem a administração das ordenanças, sem autoridade divina para administrar em seus casamentos! Supondes que o Senhor não fez provisão para todas estas coisas? Todos devem ter uma oportunidade. Não há um só indivíduo que já tenha vivido sobre a terra, desde os dias de Adão até este tempo, seja entre os pagãos ou os selvagens, que nunca ouviu falar de Jesus ou do verdadeiro Deus, e que desceu à sepultura em total ignorância; nunca houve homem ou mulher sobre a face do globo que não tivesse a oportunidade, seja nesta vida ou na vida vindoura, de obedecer e desfrutar os benefícios do evangelho de salvação. ¶
"Mas não dissestes que não haveria oportunidade para elas atenderem a estas ordenanças na vida vindoura?" Disse. "Então por que dissestes que haveria uma oportunidade para elas?" Há bastante diferença entre ter uma oportunidade e atender às ordenanças. Não podeis atender a esta última na vida vindoura. As pessoas que morreram nesta geração, ou nas gerações passadas, sem terem tido oportunidade de serem batizadas por um homem que detém autoridade, terão oportunidade de ouvir o evangelho na vida vindoura; mas não poderão atender pessoalmente às suas ordenanças. Por quê? Porque Deus ordenou que os homens, aqui na carne, sejam batizados nesta vida; ou, se morrerem sem conhecimento do evangelho e suas ordenanças, que seus amigos na carne, no dia de seu poder, quando ele trouxer o evangelho eterno, oficiem por eles, e em seu favor. Esta é outra peculiaridade da doutrina dos Santos dos Últimos Dias — o batismo pelos mortos. ¶
Vedes aqui um Templo em construção, a leste deste tabernáculo, e muitas indagações se fazem a respeito da natureza deste edifício. Alguns supõem que vamos realizar reuniões nele, e pregar ao povo; mas não, isso pertence ao tabernáculo. Deus apontou os usos de um Templo por nova revelação, tal como apontou o objetivo de um tabernáculo nos dias de Moisés, e o objetivo do Templo do Senhor nos dias de Salomão; e, entre esses objetivos, disse-nos que, no porão do Templo, haveria uma pia batismal. Para quê? Para que aqueles que vivem aqui na terra possam ser batizados por, e em favor de, aqueles que morrem sem conhecimento do evangelho. ¶
Alcança isso todas as gerações que morreram na ignorância? Sim. A todos os nossos antepassados? Sim; alcança nossos pais, nossos avós, e seus progenitores, até tempos antigos, quando o Sacerdócio estava na terra. Batismo pelos mortos! A mesma coisa foi atendida em tempos antigos, de modo que não temos um novo padrão, é o padrão antigo renovado. Paulo diz, no capítulo 15 da primeira epístola aos Coríntios — "Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos?" De fato! Foi um forte argumento para provar a ressurreição dos mortos, que o povo pertencente às antigas Igrejas cristãs tivesse o privilégio de ir e ser batizado por aqueles que haviam morrido antes que o evangelho chegasse a eles. ¶
Ora, não vedes que não somos tão pouco caridosos quanto muitos supõem? Em vez de enviar todas as gerações que viveram em eras anteriores ao inferno, porque não chegaram a ouvir o evangelho, e porque não havia Igreja cristã na terra; digo que, em vez de enviá-las todas a um inferno sem fim, Deus fez provisões para que os vivos possam agir por, e em favor, dos mortos. As ordenanças assim atendidas aqui na terra em favor dos mortos serão registradas e seladas aqui pela autoridade própria; e o que assim for registrado e selado aqui será registrado e selado nos céus em favor daqueles indivíduos; e, se aqueles espíritos que estão na prisão e nos mundos eternos se arrependerem quando o evangelho lhes for levado, poderão desfrutar do benefício das ordenanças administradas por e em seu favor aqui, e terão parte na primeira ressurreição. ¶
Além disso, se o batismo pelos mortos é verdadeiro, toda outra ordenança divina é igualmente verdadeira e necessária para os mortos, pois uma é tão consistente quanto a outra. A imposição das mãos, na confirmação, sobre uma pessoa que vive aqui na carne, por e em favor daqueles que estão em suas sepulturas, é tão consistente quanto o batismo pelos mortos. ¶
Ademais, se nossos pais e mães, avôs e avós, morreram sem serem casados por autoridade divina, a mesma autoridade que faria um povo agir pelos mortos em relação ao batismo os faria agir por e em favor dos mortos em relação às suas cerimônias de casamento também. Tal plano dá a todos eles uma oportunidade. Pois não há casamentos, nem batismos, nem confirmações, na ressurreição e depois dela. Os mortos ressuscitados não podem fazer nenhuma dessas coisas; mas, se isso for feito aqui por eles, e eles o aceitarem, será reconhecido nos céus. Portanto, eis outra peculiaridade dos Santos dos Últimos Dias, pertencente ao Templo, a casa do Senhor a ser edificada nos cumes dos montes nos últimos dias, como diz Isaías no capítulo segundo — "Muitos povos dirão, Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine acerca dos seus caminhos, e andemos nas suas veredas." Um Templo, portanto, em vez de ser um lugar para ensinar e pregar, é um lugar para a administração de santas ordenanças. ¶
Outra questão. Muitos têm se perguntado por que tantas pessoas nos estados do leste, do sul e do centro têm se agitado, por vários anos, buscando seus antepassados. Ora, o Senhor faz muitas coisas desconhecidas ao povo, e esta é uma delas. As pessoas não sabem por que se interessam por sua ancestralidade, mas são movidas por alguma operação invisível, e sentem-se muito ansiosas por conhecer seus progenitores. Creio que umas quatrocentas famílias diferentes já obtiveram amplos registros familiares, traçando sua ancestralidade de geração em geração até os primeiros assentamentos dos estados da Nova Inglaterra, e depois, se possível, de volta à Inglaterra antiga, para completar a conexão. Sabem elas para que estão fazendo isto? Não; sentem-se movidas, é só o que sabem a respeito disso. Ora, vou dizer-vos por quê, pois muitos do povo nesta congregação, e muitos que se espalham pelas vilas, cidades e povoados deste Território, emigraram dos estados da Nova Inglaterra, e tinham pais e mães, avôs e avós, e antepassados, agora em suas sepulturas, que eram tão puros, retos, virtuosos e honestos em seus sentimentos quanto nós, seus filhos, o somos. Ora, vamos agir por eles. Não temos tempo de buscar todas essas genealogias, mas tudo o que temos de fazer é ir buscar os livros que o Senhor os moveu a elaborar, contendo os nomes de centenas e milhares dos mortos, e receberemos batismo, confirmação e casamento para a eternidade, e todas as ordenanças do evangelho, por eles, para que, se aceitarem o que é feito por eles, possam sair na ressurreição, e herdar tudo o que seus filhos herdarão. Por quê? Porque foram dignos disso. Nossos pais peregrinos eram um bom povo, tão dignos quanto nós, mas, infelizmente, não tiveram a ventura de viver no tempo que Deus estabeleceu para o estabelecimento de seu reino na terra, e o envio de seus anjos dos céus. ¶
Assim, vedes que este evangelho alcança tanto os mortos quanto os vivos. Nosso Salvador deu o exemplo a respeito deste assunto, pois nos é dito que, quando seu corpo jazia no túmulo, seu espírito não estava ocioso; e, em vez de ir aos céus e sentar-se ali por três dias e três noites em perfeita ociosidade, tinha algo a fazer, e, enquanto seu corpo jazia no túmulo, seu espírito foi e abriu as portas da prisão em que estavam encerrados aqueles que se afogaram no dilúvio. O quê! Estavam eles na prisão? Sim. Visitou-os Jesus verdadeiramente? Sim. Pregou-lhes ele? Sim. Onde temos isto registrado? Na declaração de Pedro. Diz ele que "Jesus foi morto na carne, mas vivificado pelo Espírito, no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão, os quais antigamente foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca." Ora, sim; foi então àqueles antigos antediluvianos, que não haviam recebido sua ressurreição, e pregou-lhes. Que lhes pregou? Os versículos seguintes nos dizem o que pregou. Que pensaríeis que pregou? Diz alguém — "Se seguisse os exemplos de nossos pregadores sectários, iria dizer-lhes que sua sorte estava irrevogavelmente selada, que estavam lançados na prisão, para nunca serem recuperados; que, assim como a árvore cai, assim jaz, e que não havia esperança no caso deles." Pois bem, não foi essa a espécie de pregação que Jesus fez aos espíritos antediluvianos. "Porque para isso," diz Pedro, "foi o evangelho pregado também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, porém vivessem segundo Deus em espírito." Embora estivessem no mundo espiritual, sem corpos, ainda assim tinham o privilégio de ouvir o mesmo evangelho que Jesus pregava àqueles aqui na carne. Podiam arrepender-se, pois isso é um ato da mente; podiam crer em Jesus, pois isso também é um ato da mente; mas os espíritos não podiam ser batizados, pois isso é um ato do corpo, é algo que pertence a esta vida. Jesus podia pregar-lhes arrependimento, podia pregar aos antediluvianos o mesmo evangelho que pregara aos homens na carne, e eles poderiam então ser julgados segundo os homens na carne, e viver segundo Deus em espírito. Os homens na carne podiam ser batizados por eles, e eles poderiam sair e receber todas as bênçãos daqueles que receberam o evangelho na carne. ¶
Há mais algumas observações que gostaria de fazer, se o tempo permitir, sobre um assunto que decorre deste casamento ou união eterna entre o homem e a mulher. Por exemplo, eis aqui um bom rapaz que corteja uma esposa no reino de Deus. Diz-lhe, "Vamos casar-nos para o tempo e toda a eternidade, segundo as exigências do céu." Muito bem; estão de acordo nisso; atendem à ordenança, e ela é selada sobre suas cabeças e registrada para seu benefício. Diremos que, no curso de dois ou três meses depois deste casamento, algum acidente acomete a esposa, e ela morre. Amavam-se um ao outro, e foram casados por toda a eternidade, e ele lamenta o fato de que, em sua juventude, no auge de sua virilidade, é deixado sozinho, viúvo. Ora, é justo que ele case outra esposa, tendo sido casado com uma pelo tempo e por toda a eternidade? É justo que receba novamente uma jovem por esposa? "Ah, sim," respondeis, "é perfeitamente justo, porque isso não seria viver com duas na terra ao mesmo tempo." Muito bem, ele vai e se casa de novo; e agora surge a questão, suponde que se casem apenas pelo tempo, ou até que a morte os separe — suporemos isto, porque o homem já tem uma esposa do outro lado do véu — que será da segunda esposa na manhã da ressurreição? Podeis responder a esta questão? Se ele a casa apenas pelo tempo, ela não tem marido quando chega a ressurreição. Talvez seja ela tão boa mulher quanto a esposa que o homem casou primeiro para toda a eternidade. Que fareis com ela? Será deixada numa condição em que não pode ter posteridade, nenhum aumento interminável, nenhum reino em conexão com um marido, e nenhum marido? Será deixada, por todas as futuras eras da eternidade, sem tal privilégio, enquanto a primeira esposa, não melhor do que ela, é casada por toda a eternidade, e herda todas as bênçãos que daí decorrem? Não haveria parcialidade nisso? Certamente haveria. Como remediareis isto? Respondemos, quando este viúvo tomar esta segunda esposa, seja ela também casada com ele para o tempo e toda a eternidade, tal como a primeira; então, com o tempo, quando vier a ressurreição, ali se levantam as duas mulheres. Que fareis então? Isto introduz pluralidade na vida vindoura, não introduz? Poligamistas no mundo vindouro? Certamente introduz; e estas duas mulheres, ambas tendo recebido este homem como seu marido por toda a eternidade, uma delas estará agora em condição tão boa quanto a outra. ¶
Estendei este princípio. Há alguns casos na vida em que duas mulheres podem morrer, e um homem ainda ficar, em seus dias jovens, sem esposa, e ele casa uma terceira e talvez uma quarta; na ressurreição, são contemporaneamente suas esposas. A pluralidade, portanto, seria perfeitamente consistente no mundo vindouro, mas, "Ah," diz um sectário, "como é terrível isso neste mundo!" ¶
Assim vedes que, no exato momento em que admitimos a eternidade do casamento, no exato momento em que admitimos que Adão e Eva eram seres imortais quando foram casados, e nos propomos a seguir aquele padrão, a pluralidade necessariamente sobrevém; ou o casamento não tem relação alguma com a eternidade, nem relação alguma com a imortalidade e os seres imortais, ou então a pluralidade de esposas necessariamente há de existir na eternidade. ¶
Diz alguém — "Inverte-se, então, teremos pluralidade de maridos." Permiti-me dizer à congregação que o objetivo do casamento é cumprir o mandamento que Deus deu aos seres imortais. Poderia uma mulher multiplicar-se mais depressa tendo dois maridos? Todos sabem que, a este respeito, há uma diferença entre o macho e a fêmea. Nesta vida, pelo menos, se uma mulher tivesse dois maridos, em vez de torná-la mais fecunda, a probabilidade é que isso a impedisse de gerar qualquer descendência; e, se o fizesse, como se saberia quem era o pai? E, portanto, Deus proibiu estritamente, nesta Bíblia, a pluralidade de maridos, e proclamou contra ela em sua lei. ¶
Ficaria contente em tratar de muitos outros pontos, em relação à pluralidade, mas o tempo não o permite. Ouvistes parcialmente explicadas algumas das peculiaridades da fé do povo chamado Santos dos Últimos Dias. Ora, que é necessário quanto aos poligamistas? Nossos inimigos dizem, "Deveria ser aprovada uma lei segundo a qual todos os poligamistas fossem encarcerados de cinco a dez anos, conforme o caso, e pagassem pesada multa." Muito bem; esta é a voz do povo. Mas governa a voz do povo de maneira inconsistente com a Constituição de nosso país, retirando os direitos da minoria? É a ordem de nosso governo que a minoria deva ter seus direitos arrancados porque a maioria decide contra ela? Permiti-me perguntar, suponde que a maioria do povo decidisse contra o batismo de aspersão de crianças, muitos veem isso com o maior horror, e é apenas uma pequena minoria em nossa nação que crê nessa terrível doutrina; suponde que a maioria decidisse que aqueles que praticam o batismo de aspersão de crianças deveriam ser encarcerados, teriam o mesmo direito de fazer isso que de fazer a outra coisa que mencionei. ¶
Ademais, há certa classe de pessoas, e estão bem em minoria nesta grande nação, que creem em dançar no dia de sábado. Refiro-me aos Quakers Trementes. Seria justo aprovar uma lei contra esta pequena minoria, e dizer que devem ser encarcerados, porque a voz do povo em geral porventura denuncia sua prática de dançar como crime? "Mas então," diz alguém, "a poligamia é um crime." Quem vos disse isso? Diz-vo-lo a Bíblia? Ah, não, nem o Antigo nem o Novo Testamento; nenhum Profeta, nenhum revelador, nenhum Apóstolo, nenhum homem de Deus, nem Jesus mesmo, nem anjo algum jamais a denunciou como crime, mas, ao contrário, a advogaram, e o próprio Senhor administrou nesta ordenança divina. Deu a Jacó suas quatro esposas e filhos, como o próprio Jacó nos diz em Gênesis. ¶
Poderíamos então continuar e mostrar que toda denominação cristã nos Estados Unidos possui peculiaridades em que a maioria não crê, e que estão convencidos de que deveriam ser denunciadas pela lei civil como criminosas, e que aqueles que praticam tais peculiaridades deveriam ser encarcerados por fazê-lo. Mas, porque a maioria do povo condena um princípio, isso não é prova de que seja crime. Supondo que a grande maioria do povo condenasse o princípio do batismo por imersão, seria justo aprovar leis punindo aqueles que o praticam? Não; a Constituição de nosso país foi elaborada para proteger o povo em todo item de doutrina que pudesse colher desta Bíblia, e, em vez de condenar essas doutrinas como criminosas, todos os estados e todos os territórios deveriam deixar os princípios bíblicos como assuntos de consciência; especialmente o grande princípio do casamento deveria ser deixado aberto e livre a todos, seja para casar com uma esposa, ou duas ou três, ou uma dúzia, conforme o caso, apenas fazendo leis em relação a abusos criminosos do estado marital, e quanto à propriedade, como deveria descender aos filhos, etc. Mas, no exato momento em que aprovam leis proscritivas e restritivas em sua natureza, condenando princípios que não são condenados na Bíblia, retirando os privilégios do povo de crer naquilo que está contido na palavra de Deus, a liberdade religiosa está em perigo, e não há como saber aonde essa violação levará. Com o tempo, poderão ter uma mescla de Igreja e Estado; e ninguém deverá crer em nada, a não ser doutrinas ou credos elaborados pelo Estado, ou pelo Congresso, ou por algum órgão legislativo; e todos deverão curvar-se a isso, ou ser multados, ou encarcerados, ou queimados, trucidados, ou enforcados. ¶
Que nosso grande e livre país jamais seja afligido por tal espécie de despotismo é minha mais sincera oração. Amém. ¶