Há Motivo Para Regozijo A Mão da Providência Divina Sobre os Santos Contentes de Ser um Território Manter o Direito Ser Fiel ao Princípio
George Q. Cannon
Houve vários pontos de interesse tocados pelos irmãos que falaram durante esta Conferência, e, como é um tempo em que nos reunimos com o propósito de receber instruções gerais, parece-me muito desejável que o tempo seja ocupado em deter-nos sobre princípios que dizem respeito imediatamente à nossa condição e circunstâncias presentes. Nas observações que farei esta tarde, confio que serei levado a falar daquelas coisas que nos concernem imediatamente, e que dizem respeito à nossa vida cotidiana. ¶
Regozijo-me sobremaneira com esta oportunidade, isto é, a oportunidade de estar presente na Conferência. Creio que posso apreciá-la melhor do que teria podido possivelmente fazer se estivesse aqui o tempo todo durante o inverno. Contudo, durante minha ausência, desfrutei mais do que poderia esperar. Senti que o Senhor esteve conosco como povo, que seu poder se manifestou em nosso favor, e que, no que diz respeito às perspectivas de Sião no futuro, temos abundante razão para sermos gratos e nos regozijarmos. Sei que a esperança é acalentada em muitos setores de que os Santos dos Últimos Dias estejam rapidamente perdendo aquela fé pela qual têm sido notáveis, e pela operação da qual têm podido realizar os trabalhos que sobre eles têm recaído no passado neste país, como pioneiros, e como pioneiros no mundo religioso. Estou bastante disposto, eu mesmo, se é alguma satisfação para qualquer indivíduo acalentar esta ideia, que a tenha; mas, por mim mesmo, e creio que exprimo os sentimentos do povo, nunca, em toda a minha vida, vi maior motivo para regozijo na causa de Deus do que vejo hoje. Não estou nem um pouco desanimado, mas, pelo contrário, sinto-me sobremaneira encorajado. Sei, parece-me, melhor do que jamais soube, que Deus está com este povo, que ele atende a suas orações, e que vela sobre eles. É verdade que há influências operando sobre nós no presente com as quais só recentemente tivemos de lidar, são influências comparativamente novas e, em certa medida, os Santos dos Últimos Dias não estão acostumados a elas, especialmente a nova geração. Mas nos foi ensinado desde o princípio que Sião há de se tornar um grande poder na terra, e que triunfará; mas não consigo conceber como Sião pode tornar-se aquilo que esperamos, ou que alcance o destino que se predisse a seu respeito, a não ser passando por provações como as que já temos de enfrentar, e outras, ainda maiores, que estão por vir, pelas quais Sião mostrará sua superioridade sobre toda instituição e poder que existe sobre a face da terra. ¶
Tenho esperado, por anos, que a reclusão que buscamos ao vir a estas montanhas terminasse. Tudo nas predições dos santos Profetas a respeito da obra de Deus nos últimos dias transmitia esta ideia a minha mente. Considerei nosso retiro aqui como temporário, pois bem sabia, pelo caráter do povo e por suas realizações, que, em pouco tempo, teríamos o mundo em massa se dirigindo a nós; seríamos como uma cidade posta sobre um monte, não poderíamos ser escondidos, e que os olhos dos homens seriam atraídos na direção de Sião, portanto não me surpreendeu testemunhar o que vemos hoje ao nosso redor. Veio, provavelmente, em alguma forma que eu não esperava, porque só podia ter uma visão geral, os detalhes não entendia, mas que passaríamos por provações que nos testariam, testariam nossa fé, testariam nossas instituições, testariam o caráter de nossas doutrinas, testariam o valor prático de tudo o que está ligado a nós, jamais tive dúvida; e, no que diz respeito ao futuro, espero um aumento, e não uma diminuição destas coisas, um aumento de provas, uma multiplicação de provações que serão calculadas, em sua própria natureza, para testar e experimentar-nos, a nós e ao sistema com que estamos identificados, à perfeita satisfação de todos os que a ele estão ligados. De que outro modo poderíamos esperar que Sião se tornasse um poder na terra? De que outro modo poderíamos esperar que se concedesse a Sião aquele respeito que somos levados a crer que se dará? De que outro modo se tornará clara aos olhos desta nação e das nações da terra a sabedoria e o poder que Deus concederá a seu povo, senão por estas provas práticas, por estas provações, por superar estas dificuldades, e por mostrar capacidade de enfrentar, lidar e vencer toda emergência e eventualidade que possa surgir? Podemos alcançar aquela distinção que inevitavelmente nos está reservada como povo, se as predições dos Profetas se hão de cumprir, aquém de uma experiência como esta? Penso que não. Os inimigos desta obra podem entregar-se a quaisquer expectativas de nossa derrota ou queda que quiserem, mas, quanto a nós, tomemos uma visão prática e sensata da obra com que estamos identificados, e preparemo-nos de acordo, para que, quando chegar a hora da provação, seja ela severa ou não, estejamos preparados para ela, tendo força e fé suficientes para suportá-la, e para testemunhar a todos os homens que não acalentamos esta fé em vão. ¶
Há esta peculiaridade a respeito desta obra, que nenhum poder que já se tenha levantado contra ela conseguiu, em suas tentativas, obter vantagem sobre ela. É verdade que houve êxitos aparentemente temporários; houve tempos em que turbas e homens violentos alcançaram um êxito temporário, e quando se lisonjearam com a ideia de que seus desígnios contra esta obra tinham sido bem-sucedidos. Mas uma peculiaridade sempre marcou a trajetória deste povo: os acontecimentos de nossa história que pareceram ser golpes mortais contra nós e contra a obra em que estamos empenhados provaram ser magníficos êxitos para nós como comunidade. Traçai nossa história desde o princípio, examinai-a cuidadosamente, tirai dela as lições que creio se destinam a ser transmitidas por ela, e que vedes? A Igreja e Sião de Deus emergindo das dificuldades, dos problemas e do aparente desastre que seus inimigos procuraram trazer sobre ela, mais brilhante, mais forte, mais firmemente plantada, mais unida do que estava quando começou a dificuldade, ou quando o problema veio pela primeira vez sobre nós. A perda de casas e terras, a expulsão dos lares que foram caramente comprados, não teve sobre este povo tal efeito, não produziu tal comoção e tal tristeza mortal nos corações dos Santos dos Últimos Dias como produziu o martírio de nosso amado Profeta e Patriarca; se tivéssemos perdido nossos amigos mais queridos; se tivéssemos perdido tudo o que valorizamos sobre a terra, parece-me que não se compararia com a angústia pungente, a profunda e sentida angústia que prostrou este povo nas profundezas da humildade quando lhes chegou a notícia do assassinato cruel de seus amados líderes; contudo, por mortal que fosse aquele golpe, prostrando, ao que tudo pareceu humanamente, o povo inteiro, que sentiu ter perdido aqueles que estavam mais próximos de Deus e mais próximos deles, Deus, em sua misericórdia, tirou daquela grande aflição um grande triunfo, e levantou um homem para tomar o lugar do Profeta, que tem sido, em certos aspectos, como Eliseu seguindo Elias, possuindo, como Eliseu desejou que fosse seu caso, porção dobrada do espírito que repousava sobre seu mestre, Elias. E Deus nos conduziu, Deus nos prosperou, e Deus nos deu êxito que pareceu ser proporcional à profundidade de nossa angústia e tristeza, e nos elevou das profundezas da humildade em que havíamos afundado, e nos colocou nas alturas da alegria e do júbilo, e nos fez regozijar como provavelmente não poderíamos ter feito em outras circunstâncias. E assim, quando fomos expulsos da assim chamada civilização; quando percorremos nosso cansado caminho pelo deserto, sem saber para onde íamos, parecia que o último golpe tinha sido desferido, e havíamos sido deixados presa de dissensões internas ou da violência dos selvagens. Mas Deus, em sua misericórdia, daquela que parecia grande aflição, trouxe grande bênção e glória para nós, e nos honrou, nos enriqueceu, nos ergueu e nos dotou de bênçãos que não poderíamos ter tido onde vivíamos; de modo que aquele grande golpe dirigido contra nós por nossos inimigos foi convertido em meio de grandes e maravilhosas bênçãos para nós, e, como povo inteiro, hoje nos regozijamos na posse de uma terra que Deus nos deu, à qual nos conduziu, e que designou pelo dedo da inspiração como a terra que deveríamos ocupar, e que hoje possuímos, apesar de todas as maquinações dos ímpios e seus esforços para nos despojar de todo poder aqui. Até este dia, ele nos deu a supremacia nesta terra, do norte ao sul, do leste ao oeste, e a tornou produtiva e fértil por nossa causa. Quando refletimos sobre nossa história desde que aqui chegamos; quando pensamos nos muitos complôs e esquemas, nos muitos homens que se prestaram a estes complôs, que fizeram tudo o que estava a seu alcance contra este povo e para armar-lhe ciladas; quando refletimos sobre tudo isto, no que me diz respeito, fico repleto de espanto, e de ação de graças a Deus, nosso Pai Eterno, por sua bondade e misericórdia para conosco como povo. Sei, tão certamente como sei que vivo, que nenhum poder humano poderia ter-nos salvado vez após vez como temos sido resgatados; que não há sabedoria de homem que estivesse à altura das emergências em que fomos colocados; mas Deus, em sua infinita misericórdia e sabedoria, em sua bondade e cuidado vigilante sobre nós como povo, tem, no exato momento em que a salvação era necessária, estendido seu braço Todo-Poderoso. Ele nos resgatou das garras do destruidor quando parecia que a destruição era inevitável e não poderíamos escapar. Os últimos cinco anos têm sido, provavelmente, tão fecundos quanto qualquer período de nossa história em acontecimentos desta natureza. Vez após vez pareceu que a destruição certamente viria sobre nós, como se não houvesse possibilidade nenhuma de escaparmos; mas Deus ouviu nossas súplicas e abriu o caminho da libertação de modo mais maravilhoso, e nos resgatou das garras daqueles que nos destruiriam. Outros talvez não vejam a mão de Deus nestas coisas; podem dizer que estas coisas vêm de causas naturais e são resultado delas, mas aqueles que oraram a Deus, cujos corações foram levados à súplica diante dele, e que esperaram tremendo pela salvação que ele prometeu, viram, e não podem deixar de reconhecer a mão de Deus nestas libertações, porque, como disse, vigiaram, esperaram e oraram ansiosa e sinceramente em nome de Jesus pela libertação, e, quando ela veio, sua fé se fortaleceu e sua alegria aumentou no Santo de Israel; porque ele ouviu e respondeu a suas orações: e hoje os Santos dos Últimos Dias são o povo, entre todos os povos sobre a face da terra, que sabe que Deus vive, porque ele ouve e responde a suas orações. E ele, ao que parece, está determinado a ter sobre a terra um povo que seja obrigado a depositar sua confiança nele, e não no homem, porque o poder do homem falharia totalmente em salvá-los, e nenhum poder senão o dele pode fazê-lo. Quando contemplo todas estas coisas, é para mim motivo de surpresa que os homens não possam ver a mão de Deus nesta obra. No entanto, há muitos cujos corações foram tocados pelas evidências do favor de Deus para conosco, e ficaram surpresos e expressaram sua admiração de que tenhamos sido tão notavelmente libertados como o fomos. ¶
Ora, há um grande futuro reservado para nós como povo. Deus o disse, e suas palavras não podem deixar de se cumprir. Há um destino reservado para este povo que poucos podem compreender. Temos de ensinar ao mundo lição após lição que eles esqueceram inteiramente, ou que nunca souberam. Temos de ensinar-lhes e mostrar-lhes, por nosso exemplo, que existe algo como a fé viva, que existe algo como confiar em Deus, ser salvo por ele, que existe tal poder como a fé na terra, e que a oração, quando oferecida com fé, é eficaz para alcançá-lo. Temos de mostrar às nações da terra que Deus, com um pequeno povo, pode realizar resultados maravilhosos. Quando penso em nosso número, quão poucos somos — somos um grande povo em certos aspectos, mas em número somos poucos e fracos — contudo, com este pouco povo, que está Deus fazendo na terra! Que nome ele está adquirindo para seu povo, seus servos! Podeis viajar por toda a terra, em todo país, entre todo povo, e fazer saber que sois um Santo dos Últimos Dias, e descobrireis que a fama do povo vos precedeu, e vos descobrireis distintos de todos os demais. É sobremaneira maravilhoso que um povo tão pequeno, numericamente tão insignificante, um povo não rico, mas que se pode dizer pobre, seja tão notável na terra. Contudo este é o fato, que Deus pretende tornar-nos ainda mais assim, pretende dar-nos um nome e um lugar entre as nações da terra que hão de se distinguir acima de todos os demais povos. Somos acusados, sabeis, de ser desleais. Esta tem sido uma história contada a nosso respeito, uma acusação repetida contra nós desde o princípio, porque os homens pensaram que seria mais eficaz para destruir nossa influência. A ideia prevalece em muitos setores de que dificilmente somos tão leais ao governo quanto deveríamos. Já ouvi dizer que, não fosse por estas tropas em Camp Douglas, o Território de Utah se rebelaria. Por tal absurdo procuram os homens que se opõem a nós enganar o mundo em geral a nosso respeito e a respeito de nossos motivos e sentimentos. Tive ocasião frequentemente de falar sobre este assunto. Disse aos homens que, desde minha primeira infância, fui ensinado a crer que a constituição dos Estados Unidos foi revelada por Deus, e que o destino reservado aos Santos dos Últimos Dias era sustentar o governo constitucional nesta terra; e, sendo esse o caso, como poderia isso ser conciliável com a ideia de que éramos desleais ao Governo? Mas há uma classe de homens que considera desleal todo aquele que não dança conforme sua música, e que não ecoa os sentimentos que expressam e parecem professar. Temos aqui entre nós uma classe de homens que falam sobre o poder de um só homem e a tirania que existem no Território de Utah, mas, ao mesmo tempo, se um oficial viesse aqui e se associasse com os cidadãos deste Território — cidadãos "mórmons", quero dizer —, o poriam sob proibição e o marcariam como desleal e impróprio para ocupar uma posição oficial sob o Governo. E por quê? Durante anos, aqui, certos oficiais consideraram uma das melhores recomendações ao favor daqueles no poder odiar e maltratar o povo "mórmon" do Território de Utah; e, se um homem ousasse associar-se com "mórmons", falar bem deles ou associar-se com eles, e tratá-los como trataria a outras pessoas, seria ostracizado e banido, na medida em que a associação com eles se refere — imediatamente se decretaria um ato de não intercâmbio. E estes mesmos indivíduos falam sobre a intolerância dos mórmons. ¶
Temos estas coisas a enfrentar, temos estas mentiras a viver contradizendo-as, e, no que nos diz respeito, que continuem sempre a ser mentiras; que nenhum homem tenha em seu poder dizer que os Santos dos Últimos Dias são um povo intolerante, proscritivo ou injusto. Que isto jamais se diga de nós com verdade; mas, se se disser, que nossos inimigos continuem a mentir a nosso respeito até se cansarem disso, ou até que o mundo se enfastie das falsidades que se contam a nosso respeito. E, quanto a nós, sigamos o caminho que Deus traçou, sendo liberais, verdadeiros, retos, tratando com justiça, honestidade e tolerância todo homem, para que toda classe de homens que venham para nosso meio aprendam que recebemos uma religião que admite a tolerância no sentido mais amplo da palavra. ¶
Tem sido motivo de considerável satisfação para mim declarar que, no Território de Utah, nossos púlpitos, tribunas, tabernáculos e casas de reunião sempre estiveram abertos a toda seita e denominação para virem pregar suas opiniões, credos e doutrinas peculiares, e que nosso povo tem comparecido em grandes congregações para ouvir oradores ou pregadores de outras denominações apresentarem suas doutrinas; e que não apenas se têm reunido congregações de adultos, mas as crianças das escolas dominicais têm sido frequentemente reunidas no Novo Tabernáculo, Salt Lake City, para que propositadamente ouvissem e se familiarizassem com as ideias e opiniões sustentadas por outras denominações religiosas. Isto se destaca em marcado contraste com a prática de quase toda outra seita, e desmente as histórias que tão frequentemente se têm contado a nosso respeito. ¶
Ora, a respeito de todas estas coisas pelas quais estamos passando, reconheço a mão de Deus em todas elas. Penso que ultimamente aprendemos lições que nos têm sido proveitosas. Por exemplo, agora sabemos, e, enquanto a lembrança dos últimos anos estiver viva em nossa mente, continuaremos a saber, como valorizar um homem justo que se assenta como juiz, e pode ser que isto se nos imprima de tal modo que, quando o poder vier para nosso meio, e há de vir, tão inevitavelmente quanto o sol se levanta pela manhã sobre as colinas orientais, tão certo há de vir o poder a nós; mas, quando vier, confio que a lembrança do passado estará viva em nossa mente, e que sempre procuraremos tratar com justiça e retidão a todos os que buscarem justiça de nossas mãos. Disse-se que, quando adquirirmos poder, seremos intolerantes, como o têm sido outras seitas. Os Puritanos, que fugiram da Inglaterra por causa da perseguição religiosa, tornaram-se, por sua vez, eles mesmos os perseguidores quando tiveram o poder. Roger Williams fugiu deles e refugiou-se no que hoje é Rhode Island. Perseguiram os Quakers e outros que vieram dentro de suas fronteiras com uma intolerância bastante igual, senão superior, à intolerância de que eles mesmos tinham sido vítimas. E se tem dito a nosso respeito que, se tivéssemos o poder, provavelmente trilharíamos o mesmo caminho, que a perseguição só nos endureceria e nos faria tratar os outros com uma severidade da qual nada saberíamos se nós mesmos não tivéssemos sido vítimas antes. Mas penso que Deus, em sua misericórdia, nos despojará se houver algum vestígio disto em nós; espero que sim, de qualquer modo. Se alcançarmos o destino que nos está reservado, certamente, para manter esse caráter e reter esse poder, será necessário que sejamos justos, retos, pacientes e tolerantes, e que estejamos dispostos a que todo homem nesta vasta terra adore a Deus segundo os ditames de sua própria consciência, seja seu deus obra de suas próprias mãos, seja o sol, a lua, algum animal, ou o Deus dos céus, com Jesus, seu Filho, que estejamos dispostos a que todo homem adore a Deus segundo seus próprios sentimentos sobre o assunto, contanto que não interfira conosco, ou com outros. Penso que aprendemos esta lição em parte. Penso que as lições que se nos têm imprimido tiveram efeito nesta direção, ao menos tiveram o efeito de nos ampliar; e toda lição desta natureza terá tal resultado conosco como povo, e por isso lhes sou grato. ¶
Sou grato hoje por não sermos um Estado. Houve tempos em que desejei sobremaneira que pudéssemos ser libertados da vassalagem territorial e incorporados à União como Estado soberano. Desejei-o, e trabalhei por isso; mas neste último inverno estive sobremaneira grato por Utah ser um território e não um Estado. Diz-se-nos que reconheçamos a mão de Deus em todas as coisas, e não vejo por que não deveríamos reconhecê-la em sermos mantidos nesta condição de tutela e vassalagem, tal como em qualquer outra. Mas talvez se pergunte — "Por que pensas que nossa condição é melhor como território do que como Estado?" Quando ouvi falar dos acontecimentos na Louisiana, as tropas federais mantendo ali um governo contra o qual, fui informado, e como cri, se revoltou a massa do povo, pensei comigo mesmo — Melhor ser um território insignificante do que um Estado, se não pudermos ter o direito de escolher nossos próprios governantes e fazê-los agir nos cargos para os quais foram eleitos. Graças à nossa insignificância, as tropas federais não interferiram conosco aqui; mas, se tivéssemos sido um Estado, com dois votos no Senado, um ou dois votos na Câmara, e votos eleitorais na Eleição Presidencial, poderia ter havido a tentação de fazer com Utah o que se fez com outros Estados. Mas não tínhamos voto; nosso delegado no Congresso não tinha voto; não tínhamos representação senatorial; não tínhamos voto na Eleição Presidencial, e esta negação de nossos direitos, ao manter-nos numa condição territorial, tem até agora ajudado a salvar-nos. Com o sentimento que tem havido nesta cidade e território, de contestar eleições, quando estas têm sido esmagadoramente de um lado — vinte mil e mais contra dois ou três mil; quando homens contestam eleições em tais circunstâncias, e procuram, por meios injustos, arrebatar o poder das mãos do povo e derrotar a vontade da maioria; quando fazem isto, como se tem feito neste Território, não seria necessário um pretexto muito forte para os fazer ir mais longe, para os fazer apelar à interferência federal, e tentar induzir o governo a dizer — "Aqueles a quem chamais minoria são a maioria, foram tratados injustamente; chegaram aqui declarações juramentadas mostrando que as urnas não foram geridas propriamente, os votos não foram depositados como deviam, e devemos decidir contra vós, 'mórmons', e contra os homens que elegestes, e colocar vossos opositores no poder." Não digo que seja este o caso na Louisiana, não pretendo decidir sobre esta questão, admite bastante discussão; mas fui informado por membros do Congresso que ali estiveram — a Comissão enviada pelo Congresso para investigar os fatos —, que, se as tropas federais tivessem sido retiradas da Louisiana neste inverno, não teriam passado vinte e quatro horas antes de o governo McEnery ser posto no poder, e toda a dificuldade estaria resolvida. Mas a presença de tropas federais manteve um governo que não podia manter-se por si mesmo. Que utilidade tem, então, ser governo estadual, se o governo Federal há de interferir deste modo nos assuntos do Estado? E, com as causas que existem no Território de Utah para tornar popular a interferência, e algo a ser aprovado por milhares, um governo estadual não seria tão desejável. Portanto, no que diz respeito a meus próprios sentimentos, fiquei muito satisfeito em ser um território. Vi a mão de Deus e sua sabedoria nisto, quando, se meu desejo ou minha vontade se pudessem ter satisfeito, já teríamos sido um Estado há muito tempo. ¶
O Senhor, em sua misericórdia, há de preservar-nos destes males; em sua sabedoria e providência que tudo domina, há de nos libertar até que chegue o tempo de sermos um Estado, se essa for sua vontade, e não duvido que ficaremos surpresos com isso, nós mesmos. Cheguei à conclusão, como indivíduo, de que não me hei de preocupar mais com este assunto no futuro, e o deixarei à providência de Deus, que tudo domina, para que o traga a efeito quando lhe parecer bem. ¶
Quanto a alguns dos Estados do Sul, estão em tal condição que nós, se estivéssemos na mesma, consideraríamos nossa sorte terrível. Ouvi histórias de usurpação e tirania por oficiais nesses Estados que me fizeram pensar que, apesar de tudo o que tivemos de suportar no Território de Utah, nossa sorte foi afortunada em comparação com a de outros. Beberam o cálice da humilhação até as últimas fezes. Sabeis que houve um tempo aqui em que parecia que todo esforço era feito para nos trazer sob o regime militar neste Território, e, quando as provocações suportadas pelo povo aqui vierem a ser lidas na história, surgirá surpresa na mente do leitor, e admiração pelo povo que tão pacientemente suportou os agravos que lhe foram impostos, especialmente ao lembrar-se do poder que aqui possuímos. Ora, pensai só, poucos anos atrás um Governador veio a este Território imediatamente após uma longa e sangrenta guerra indígena, na qual nossos cidadãos foram massacrados, seus bens roubados, seus povoados saqueados e seu gado levado; e imediatamente após aquela guerra veio um Governador que proibiu a milícia, todo homem apto no Território, de portar armas — um exercício de poder tirânico dos mais inauditos; e depois um Secretário, atuando como governador interino, repetiu depois a mesma proclamação. E este povo o suportou pacientemente, e nunca ergueu suas mãos contra estes tiranos desprezíveis. Sem dúvida se esperava que cometêssemos algum ato manifesto que provocasse problema, para que as tropas federais pudessem ser trazidas e postas sob o controle destes oficiais, que, por uma vez em suas vidas, tiveram a sorte de ocupar posição. Não somente isto, mas certa vez, quando certos cidadãos se reuniram em companhia para celebrar o fato de sua banda ter conseguido um novo conjunto de instrumentos, um juiz federal os enviou a uma prisão militar por violar esta proclamação, como se uma proclamação do Governador fosse lei! Com igual propriedade poderia um Executivo alegar que tem o poder de restaurar o toque de recolher, e dizer — "Deveis apagar vossos fogos até as oito da noite, ou vos poremos numa prisão militar; e deveis levantar-vos de manhã ao toque do sino, ou vos trataremos como criminosos." Se a proclamação de um Governador é lei, e há de ser respeitada como tal, onde terminará isto? Terminará com o encarceramento de homens que servem como milicianos? Não; se tais atos de usurpação continuarem, nenhum cidadão estará seguro, e hão de terminar na derrubada da liberdade e do direito constitucional onde quer que se permitam. ¶
Suportamos estas coisas, e suportamos outras, cuja lembrança, se eu vo-las recitasse, faria ferver nosso sangue. Não é necessário que o faça; mas, ao falar assim, falamos deslealmente? Os cidadãos americanos têm o direito de falar sobre oficiais que assim pisoteiam seus direitos; todos temos o direito de questionar os atos dos homens no poder; é um direito que nos foi dado, e não é digno do nome de homem livre aquele que não criticar deste modo os atos de opressão e, de maneira própria, ressenti-los e mostrar sua repugnância a eles. É porque violam os princípios fundamentais de nosso governo que assim falo deles: e em qualquer outro Território que não este, teriam provocado uma tempestade de indignação que teria arrasado seus autores. Uma das lições que temos de aprender é ter paciência, mas não deixar de protestar, não deixar de falar, não deixar de apelar, não calar nossa língua e deixar nossos filhos crescerem crendo que estas coisas são corretas. Não, proclamai contra elas, que se saiba que estão erradas, que são contrárias à lei da terra, à Constituição e aos princípios de nosso governo; que isto se saiba, e que nossos filhos entendam o que é correto, e todos os homens reconheçam o fato de que entendemos nossos direitos, sejam eles negados a nós ou não. ¶
Espero ver o dia em que os Santos dos Últimos Dias serão o povo que há de sustentar o governo constitucional nesta terra. Os homens em toda parte deveriam saber que cremos nos princípios constitucionais, e que esperamos que seja nosso destino sustentá-los. Que se cumprirá a predição feita há quarenta e quatro anos, no sete de março passado, na qual Deus disse a Joseph Smith — "Ouvis falar de guerras em terras estrangeiras; mas eis que vos digo que estão próximas, sim, às vossas portas; e daqui a não muitos anos ouvireis falar de guerras nas vossas próprias terras"; mas a revelação prossegue dizendo que virá o dia, entre os ímpios, em que todo homem que não erguer sua espada contra o vizinho terá de fugir para Sião em busca de segurança. Uma parte daquela revelação se cumpriu, o restante se cumprirá. As causas estão em operação para trazê-lo a efeito. Não estamos sozinhos no pensamento de que a república está derivando constantemente naquela direção; que estamos abandonando os antigos marcos constitucionais, e que não está longe o tempo em que haverá problemas em consequência disso, em que haverá contendas civis e conflitos; e, para escapar deles, cremos, os homens serão obrigados a fugir para os "mórmons", desprezados como agora são. Isto parece incrível? Ora, vede, hoje, por toda nossa União, os Santos dos Últimos Dias são o povo menos tributado de todos sobre a face deste continente. Não conheço comunidade tão livre de dívida quanto a nossa. Há um ou dois Estados que creio livres de dívida, mas tiveram de tributar pesadamente para se libertarem. Mas, como Território, jamais estivemos endividados, e, embora tenhamos tido muitas tentações de derivar naquela direção, nenhum título pertencente ao Território jamais foi emitido; não se deve um dólar sequer que não possa ser pago. Nossas cidades estão livres de dívida; nossos condados estão livres de dívida, e espero que assim continuem. Nossos legisladores, tribunais de condado e oficiais municipais sem dúvida tomarão cuidado especial em manter baixas as despesas e nos deixar o menos onerados possível com a tributação, para que possamos ser um povo feliz e livre. Deixai acumular tributos, e há uma constante tentação para oficiais roubarem vossos tributos; devem ser eleitos homens para cuidar de vossos tributos, e haverá centenas de vazamentos pelos quais vossos recursos irão sem benefício para a comunidade; portanto, sejamos um povo levemente tributado. Somos isto hoje, e isto é uma evidência do bom governo que existe neste Território. Temos paz aqui, e teríamos pouco ou nenhum litígio se não nos fosse imposto, e nossos tribunais, no que diz respeito ao litígio, teriam muito pouco a fazer com os Santos dos Últimos Dias; resolveríamos nossas diferenças por arbitragem, e evitaríamos o litígio e o gasto de dinheiro nele. Todas as tendências deste povo são para a paz, e seu objetivo é preservar relações pacíficas uns com os outros e com o mundo exterior, e temos mostrado isto o dia inteiro. ¶
Que sucede em outros lugares? Ora, a corrupção percorre a terra, e a tributação e a dívida aumentam. Considera-se coisa leve que um homem meta a mão no tesouro do governo; isso está tudo bem, e, se assim rouba os fundos de uma cidade, condado ou Estado, não chamam isso de roubo, contudo: Ó não, esse é um nome vulgar; serve para o homem que rouba o galinheiro do vizinho, mas têm linguagem mais refinada para os atos a que me refiro. ¶
Homens na vida pública, sob o presente reino de extravagância, não conseguem cobrir suas despesas, portanto ficam expostos à tentação e são levados a tirar vantagem de sua posição. Nem sempre é este o caso, há muitas exceções; mas isto ocorre com demasiada frequência, e homens bons lamentam e deploram isso, e gostariam de conter a maré e deter esta tendência descendente. ¶
Esta é uma lição da qual devemos tirar proveito; nossos oficiais devem ser cuidadosos, e devemos manter um padrão de honestidade que não existe em nenhum outro lugar. Não convém que prevaleça a ideia de que, porque um homem tem um cargo, tem o direito de enriquecer-se por meio dele. Não tem sido este o caso neste Território até agora; e podemos razoavelmente esperar que assim continue. ¶
Ora, meus irmãos e irmãs, vivamos para o destino que nos está reservado. Lembremo-nos de que Deus tem um grande futuro para este povo, e que a rapidez com que nos será concedido depende de nós mesmos. Se estivéssemos preparados para isso, sei que aquele tempo logo chegaria, e teríamos oportunidades de fazer o bem que hoje não temos. Mas dizem-me que um dos efeitos desta provação por que estamos passando é que há alguns jovens, e possivelmente algumas jovens, que cedem a certas tentações. Jovens que outrora se envergonhariam de ser vistos fumando nas ruas ou entrando num salão de bilhar, de jogatina ou de bebidas, agora são vistos em tais lugares, e não hesitam em usar o nome de Deus em vão, ou em jurar e blasfemar, e há alguns que parecem imaginar que é evidência de independência e esperteza entregar-se a estas coisas; e pode ser que vão um pouco mais longe e sejam culpados de outros atos de maior torpeza do que estes. ¶
Nenhum homem perde crédito por ser fiel a seus princípios. Se é um Santo dos Últimos Dias, que viva seus princípios onde quer que vá. Se não crê em beber bebidas embriagantes, que se abstenha de fazê-lo em toda parte; se não fuma, que se abstenha de fumar; se não jura — o que nenhum homem deveria fazer —, que se abstenha disso, não importa onde esteja, e que seja fiel aos princípios de sua religião sempre e sob todas as circunstâncias, e ganhará influência que de outro modo não teria. Sigamos, como povo, um rumo desta natureza. Mas há esta tendência — "Ó, devemos ser como fulano." Podeis ver esta tendência no presente em muitas coisas além da conduta dos homens. Há aqui homens que mudariam nossa cidade e a fariam como lugares que conhecem. Cortariam nossas ruas até não terem mais de cinquenta pés de largura, e cortariam nossos quarteirões até serem como outros quarteirões urbanos, e estreitariam nossas calçadas, cortariam nossas árvores de sombra, e mudariam completamente o caráter de tudo o que há ao nosso redor. Roubariam da cidade toda característica distintiva, e encheriam a cidade de covis de vício. Podeis ver aqui esta tendência de imitar e fazer como fazem outros, em vez de sermos nós mesmos o padrão; em vez de lembrar que Deus nos escolheu e colocou seu nome sobre nós, que nos chamou para sermos seus Santos, e que é nosso dever manter nossos princípios, e realizá-los em nossa vida, fazendo o que é correto, quer isso agrade a outras pessoas quer não. É nosso dever ter alguma opinião própria, e, se temos algo bom, não estar dispostos a abandoná-lo porque outras pessoas zombam dele. Gosto de nossa cidade, de nossas calçadas e da largura de nossas ruas; outros talvez não gostem, mas esse é o padrão e o plano segundo o qual a cidade foi delineada. Gostaria de ver tudo relacionado a nossa cidade — e falo disto porque é um caso pertinente, e apenas o menciono para ilustrar tudo o mais — gostaria de ver-nos realizar aquilo que é correto por nós mesmos. Se temos ideias próprias, apeguemo-nos a elas, e não as abandonemos porque não são populares. E assim com nossas práticas. Um homem que não fuma não é pior por isso; não é menos cavalheiro quando entra em sociedade por causa disso. Não é menos cavalheiro por não beber ou por não jurar, por não entrar numa casa de jogo ou numa casa de má fama; e como pode um homem que se chama Santo dos Últimos Dias pensar que é mais cavalheiro ou melhor homem porque pode fazer estas coisas, quando ele mesmo, em si mesmo, sabe que são erradas? Deus nos ensinou que não é bom para nós fazer estas coisas; deu-nos conselho, deu-nos uma palavra de sabedoria, e o homem que assim desrespeita a palavra de Deus e seu conselho não lhe demonstra muito respeito, e não imagino que Deus lhe demonstrará muito respeito. ¶
Sejamos fiéis a nossos princípios; os homens admiram a sinceridade, a verdade e a retidão, e admiram muito mais um Santo dos Últimos Dias que se apega a seus princípios do que admiram aquele que não é fiel àquilo que professa; e jamais perdereis nada por dizer, de maneira respeitosa, quem sois e o que sois, e por manter o que é correto. Claro que não precisamos ser fanáticos nem ofensivos, nem chegar a extremo algum. ¶
Que Deus vos abençoe, meus irmãos e irmãs, vos encha do Espírito Santo, e de desejos de ensinar a vossos filhos os caminhos da retidão, e vos capacite a criar uma geração saudável, pura, virtuosa e cheia de integridade nesta terra que Deus nos deu. Que assim nos abençoe e nos preserve é minha oração, em nome de Jesus. Amém. ¶