O Congresso e os Santos—A Eficácia da Oração—A Necessidade de Firmeza de Caráter—A Verdadeira Igreja—O Ajuntamento às Montanhas
George Q. Cannon
Se eu consultasse meus sentimentos naturais esta tarde, ficaria sentado a ouvir outra pessoa falar, em vez de dar voz a qualquer dos meus próprios sentimentos. Mas não suponho que isso seria satisfatório para ninguém mais, ao menos para a maioria dos Santos, e especialmente para o Bispo Taylor. Portanto, levanto-me para dizer o que me for sugerido pelo Espírito do Senhor nesta ocasião. ¶
Para quem esteve ausente de casa por muito tempo, o privilégio de conviver com os próprios irmãos e irmãs, aqueles da mesma fé, que têm as mesmas opiniões, e que labutam pelos mesmos objetivos, o privilégio de voltar e conviver com eles é muito agradável, ao menos assim é para mim, e isso me tira qualquer disposição que eu pudesse ter, em outras circunstâncias, de falar. Meus sentimentos, ao retornar depois de uma longa ausência de casa, pareceram-me demasiado grandes para as palavras; não pude comandar linguagem que lhes desse expressão adequada. Para quem está sempre em casa, isto, provavelmente, não será compreendido. ¶
Durante minha ausência gozei de excelente saúde e tive bastante paz; de fato, posso dizer, pois provavelmente será satisfatório a muitos sabê-lo, que me senti muito melhor do que poderia ter esperado. Houve um sentimento muito diferente em Washington, durante esta última sessão do Congresso, do que prevalecia durante a primeira sessão, ao menos no que a nós diz respeito. Houve um sentimento maior de liberalidade, uma disposição de ver o povo de Utah mais como concidadãos do que, penso, se manifestou durante a primeira sessão deste Congresso. Houve momentos, durante a primeira sessão, em que me pareceu que era necessária toda a fé e energia que eu pudesse reunir para resistir àquele sentimento opressivo que, provavelmente, muitos que aqui estão hão de ter experimentado quando se viram diante de um forte sentimento de oposição. É mais um sentimento espiritual, um sentimento que apela aos sentidos espirituais, do que qualquer coisa que eu possa descrever de caráter físico. Houve momentos, durante a primeira sessão, em que aquele sentimento era muito forte, especialmente durante a tramitação dos projetos McKee, Poland e outros, elaborados com o expresso propósito de dar a nossos inimigos poder sobre nós. Mas tive comparativamente pouco ou nenhum desse sentimento durante a última sessão; embora, como sem dúvida sabeis, no que a mim mesmo diz respeito, minha cadeira parecesse estar em maior perigo durante a última sessão do que na primeira. Uma parte do Comitê de Eleições chegou a uma conclusão sobre meu caso, tendo uma maioria técnica dos membros do comitê presentes adotado uma resolução para excluir-me de minha cadeira. Variaram a linguagem usualmente adotada em tais ocasiões para fazê-la, suponho, não doer tanto, chamando-a de exclusão em vez de expulsão. Mas, não obstante ser este o caso, e pudesse dizer-se que eu estava em maior perigo pessoal, senti-me muito melhor, e havia maior liberalidade e maior disposição manifestada em tratar-nos com justiça e equidade, a nós que vivemos neste Território. Se este sentimento foi resultado das eleições do outono passado ou não, não direi. Vós que sois políticos podeis julgar por vós mesmos. Suponho que todo aquele que tenha inclinações ou tendências democráticas estará muito propenso a atribuir esta mudança de sentimento ao fato de que os democratas obtiveram algumas vitórias no outono passado. Mas, qualquer que fosse a causa, o fato é como o declarei; e, sendo, sem dúvida, matéria de algum interesse a todos vós, e não sendo contrário a nossas opiniões falar, num domingo, sobre assuntos que dizem respeito à nossa salvação temporal, porque nossa salvação temporal e espiritual são tão intimamente ligadas que se pode dizer que são inseparáveis, claro que não julgo impróprio aludir a isso. ¶
Meus sentimentos a respeito de nós como povo, no presente momento, fora do que vejo em casa, são de caráter mais animado e esperançoso do que tive causa para alimentar por anos. Há algumas coisas em casa que, se eu as examinasse muito de perto, me desanimariam em alguns aspectos, porque penso que estamos longe de ser o que deveríamos ser; e sabeis que nossa opinião sobre estes assuntos é que não podemos esperar muita prosperidade, para nós mesmos ou para a causa com a qual estamos identificados, enquanto nós mesmos não estivermos em posição de merecer a concessão daquela prosperidade. Crendo, como cremos, que Deus nosso Pai Eterno está no fundamento desta obra, e que sua providência a rege e controla todas as coisas para o seu bem, nós, é claro, não podemos imaginar que ele vá conceder grande prosperidade a esta causa, ou a nós como comunidade, a menos que estejamos em posição de ser beneficiados por ela; ele não vai conceder bênçãos que nos prejudiquem, e que, em vez de se mostrarem vantajosas, se mostrariam destrutivas para nós. Por esta razão, tenho alimentado algumas dúvidas a respeito de nosso futuro, desde que voltei para casa, resultado, provavelmente, de uma observação muito parcial, contudo, pois tive oportunidades muito limitadas de ver ou de julgar corretamente sobre isto. Mas, para termos um grande grau de prosperidade, deveria haver mais fé manifestada por nós, mais união, mais amor, e mais daquelas graças que devem adornar o caráter dos Santos dos Últimos Dias. ¶
Mas penso que há um futuro brilhante e muito encorajador para nós como povo. No Congresso, como disse, houve uma disposição maior do que se tem manifestado por anos, de conceder a Utah seus direitos. Tem havido um sentimento, que alguns se esforçaram por fomentar, de que o melhor meio de que um funcionário federal poderia lançar mão para obter um cargo, e depois retê-lo depois de tê-lo obtido, era declarar guerra entre o povo em cujo meio ele fora enviado para agir. Esta tem sido, de fato, a política adotada por alguns neste Território por anos, e, a julgar por suas ações, a ideia tem sido que nenhum passaporte melhor para o favor da Administração se poderia invocar do que o fato de um funcionário ser inimigo do povo e trabalhar arduamente para destruí-lo e à sua religião; e todo homem que ocupasse cargo, e que não adotasse esta política, tem sido posto sob suspeita, e feito sentir que estava em perigo. O resultado tem sido antagonismo e hostilidade entre as classes, quando deveria haver união; de fato, onde já havia disposição demasiado grande para que isso existisse naturalmente, recebeu encorajamento daqueles que tinham este sentimento; e muitos em posições elevadas, legisladores e outros, pareceram pensar que, ao aprovar leis, bastava saber que se destinavam a operar em Utah para receberem sua sanção, sem se importarem com a natureza das leis em si mesmas. Daí o favor com que foram recebidos projetos como o de Cullom, o de McKee, o de Frelinghuysen e outros, introduzidos no Congresso, destinados a operar exclusivamente em Utah. ¶
Durante esta última sessão, ouvi fazer-se a pergunta, quando um projeto era introduzido — "É destinado apenas a Utah?" — e muitos membros estavam prontos a levantar-se e opor-se a ele por essa razão. Isto foi uma mudança marcante, e não pude deixar de notá-la. A paciência que os Santos dos Últimos Dias têm manifestado agora, por quatro ou cinco anos, em meio às dificuldades judiciais que os têm cercado, tem produzido bons efeitos no exterior, tem, em minha opinião, produzido uma reação na opinião pública. Muitas pessoas se familiarizaram com a condição real das coisas aqui, e suas simpatias foram despertadas pelo que ouviram, e sentiram-se dispostas a fazer o que pudessem, discretamente, para nos aliviar destas dificuldades; e, se continuarmos a exercer paciência e longanimidade no futuro, como o temos feito no passado, não há dúvida em minha mente quanto aos resultados. É nosso dever fazer isto. É um dever que nos incumbe nossa religião ser pacientes, tolerantes e longânimos, e, se encorajarmos estes sentimentos em nós mesmos e em nossos filhos, pondo nossa confiança em Deus, apoiando-nos continuamente nele, não há dúvida em minha mente quanto ao que será o resultado. Homens podem apontar-nos o dedo com escárnio e ridicularizar-nos por causa de nossa religião; mas, se formos fiéis a seus princípios, se permanecermos na fé que Deus nos revelou, podemos dar-nos ao luxo de suportar toda esta injúria, e tudo desse tipo. Isso passará e será esquecido, mas as virtudes que possuímos perdurarão e terão seu efeito. ¶
Deu-me o maior prazer falar sobre a condição e a administração dos negócios neste Território. Eu poderia apontar, com muito orgulho, para o fato de que éramos um povo pouco tributado, provavelmente tão pouco tributado quanto qualquer comunidade dentro dos limites da União; que estávamos livres de dívidas; que a cidade de Salt Lake tinha, no último relatório, uma boa soma em seu tesouro, além de quase igual quantia em ativos; que todo outro município no Território estava na mesma condição; que nossas organizações de condado estavam livres de dívidas; que o próprio Território não devia um dólar sequer, de forma alguma, mas tinha grande quantia a seu crédito. Isto diz muito a um grande número de pessoas, especialmente a homens familiarizados com o governo, e que, eles mesmos, vivem em meio a comunidades sobrecarregadas de impostos, gemendo sob dívidas públicas criadas por funcionários imprudentes e desonestos. Puderam apreciar fatos deste tipo, e deram amplo testemunho da boa ordem e da sabedoria que caracterizaram as operações dos que tiveram a cargo os assuntos públicos neste Território. ¶
Outra coisa a que minha atenção foi chamada muitas vezes foi a praga de gafanhotos com que Utah tinha sido visitada tão frequentemente. Muitos fizeram perguntas sobre o assunto. Kansas, Nebraska e parte de Iowa foram afligidos por gafanhotos nesta última estação, e o povo estava extremamente ansioso por obter legislação em seu favor — queriam que o Congresso os aliviasse enviando sementes e dando-lhes assistência pecuniária! Relatos de aflição chegavam a cada correio aos membros do Congresso, nos quais os escritores lhes suplicavam piedosamente que fizessem o Congresso estender ajuda aos que sofriam, como sem dúvida vistes nos jornais, particularmente no New York Tribune, que tinha uma coluna diária contendo os nomes de crianças da escola dominical, criadas domésticas, viúvas e outras pessoas que haviam contribuído com seu quinhão para ajudar os que sofriam nos distritos assolados pelos gafanhotos nos Estados que nomeei. Sabendo que Utah havia sido afligida pelos gafanhotos, muitos vieram indagar-me como havíamos nos saído, e foi grande fonte de satisfação para mim poder dizer que, não obstante alguns de nossos povoados terem sofrido as devastações dos gafanhotos cinco anos seguidos, não houvera clamor algum, e que nenhum apelo mendicante saíra de Utah para outras partes dos Estados Unidos, embora muitos de nossos povoados tivessem toda sua colheita destruída anos seguidos. Lembro-me distintamente de que Wellsville, no Vale de Cache, teve suas colheitas destruídas por cinco anos, enquanto quase nenhum povoado no Território escapou de uma visitação deste tipo por três anos seguidos. ¶
Todas estas coisas, quando mencionadas, provocavam admiração. Diziam os homens — "Deve haver algo muito peculiar sobre vossa organização, para vos permitir administrar estas coisas tão bem. Não estava vosso povo sobrecarregado de dívidas, suas fazendas todas hipotecadas?" "Não." "Como vos sustentastes?" "Bem, cremos em ajudar uns aos outros; e, se nosso povo vivesse num Estado como Kansas ou Nebraska, teria orgulho demais para pedir ajuda ao resto da nação porque sua colheita fora destruída num só ano. Cremos em ajudar-nos a nós mesmos; cremos em trabalhar e em pedir a bênção de Deus sobre nosso trabalho, e em pôr nossa confiança nele, crendo que ele nos sustentará, e até aqui assim o fez." ¶
Aludo a estas coisas porque são de interesse público. No que diz respeito à nossa admissão à União, é geralmente reconhecido, creio, entre os membros do Senado e da Câmara dos Representantes, que Utah tinha pleno direito à condição de Estado, e que deveria ter um governo estadual. E os cavalheiros diziam — "Se não fosse por vossa instituição peculiar, seríeis admitidos prontamente." "Não," observei eu, "enganais-vos, senhor; não é isso, há algo mais do que isso. Sei que a opinião geral é que é nosso sistema de casamento que impede Utah de ser admitida como Estado, mas é um engano; se não crêssemos naquilo, haveria algo mais." Estariam relutantes em admitir isto, mas muitos admitiam que, no que diz respeito aos elementos de um Estado, tendo posição sólida na terra e estando ligados ao solo, tendo desenvolvido os recursos do país, agrícolas e minerais, e estabelecido manufaturas, Utah, com suas ferrovias e outras melhorias, está à frente de qualquer outro Território. Mas, como disse, a ideia era que mal estávamos aptos a ser admitidos por causa de nossa "instituição peculiar." Eu ocasionalmente observava, ao falar sobre este assunto com membros do Congresso — "Estais determinados a fazer daquilo que chamais 'a instituição peculiar' de Utah uma questão de importância nacional; cometeis, segundo minhas opiniões, um grande erro ao fazê-lo. Suponde que há um em cada dez, entre o povo de Utah, ligado à poligamia — alguns pensam que é uma estimativa alta — e que há cento e cinquenta mil pessoas em Utah, e alguns pensam que também é uma estimativa alta, isso faria quinze mil pessoas no Território de Utah que são polígamas ou ligadas à poligamia. Ora, pensai nisto, aqui estais, os representantes de quarenta milhões de pessoas, e, por vossa ação em capacidade nacional, elevais as práticas de quinze mil pessoas da obscuridade e lhes dais uma importância nacional aos olhos, não somente de nosso próprio país, mas aos olhos da Europa. Parece coisa de estadista que as práticas de quinze mil pessoas devam ser tornadas tão proeminentes?" Falais aos homens nesse tom, e muitos diriam — "Certamente, é loucura, deveríamos deixá-lo à arbitragem do tempo;" mas havia outros que pensavam que era comparável à escravidão. Mas a escravidão era a prática de onze milhões de pessoas na época da rebelião, portanto não há comparação entre elas. Mas parece que, na providência de Deus, os homens estão determinados a dar a isto uma importância a que não tem direito, se se levar em conta o número dos que a praticam. Parece que os homens estão determinados a torná-la pública, a divulgá-la, e fazê-la conhecida. ¶
Mas, não obstante tudo isto, estamos ganhando influência. Não há hoje, neste continente, povo algum, de nosso número, que atraia tanta atenção, e sobre o qual haja tanto interesse, quanto o povo de Utah. Assim também com o delegado do Território de Utah; ele sempre tem sido um dos membros a quem os estranhos mais desejam ser apresentados. Isto tem sido o caso desde a época do primeiro delegado, e não penso que o interesse tenha diminuído ultimamente. De modo que, não somente o povo é objeto de interesse, mas tudo o que a ele se liga e à sua história, e, não obstante tudo o que se diz de nós, estamos crescendo em influência na nação, e tem-me surpreendido ver quão amplamente nossa influência se espalha, e quantos canais ocupa, e quão amplas suas ramificações se estendem por toda a nação. Como é difícil golpear-nos sem atingir outra pessoa! Como é difícil fazer algo hostil a nós sem que outros sintam que serão prejudicados por essa ação! Isto tem me surpreendido maravilhosamente neste último inverno, e, de fato, nestes últimos dois anos. Tenho visto o crescimento da influência deste povo e seu aumento em muitas direções. Muitos reconhecem, embora o deplorem. É claro que isto me tem feito regozijar mais do que posso dizer. Senti que a mão de Deus tem estado conosco como povo. Assim o senti durante a primeira sessão. A aprovação do projeto Poland, em sua forma atual, foi para mim uma das mais admiráveis manifestações da Providência que jamais contemplei; o que ocorreu nesta última sessão foi igualmente assim, porque cri poder ver a mão de Deus em tudo isso; cri que sua providência estava sobre nós; cri que as orações deste povo, oferecidas continuamente ao Senhor, eram ouvidas e respondidas por ele. Um cavalheiro muito proeminente me observou um dia — "Sr. Cannon, é admirável como conservais vossa cadeira, isso me surpreende, dir-se-ia que já tivésseis sido expulso há muito, considerando os esforços que se têm feito." Fiz alguma observação em resposta, e, prosseguindo a conversa, observei, chamando-o pelo nome — "Há mais de cem mil pessoas no Território de Utah orando por vós, membros, e por mim, e são um povo sincero, e suas orações são ouvidas." Disse ele — "Creio realmente que é o caso." Pode parecer coisa trivial, nestes dias de incredulidade, pensar que Deus ouve e responde à oração; mas tem sido para mim grande satisfação, o tempo todo, dizer a meus colegas membros que éramos um povo orante, e que Deus estava sendo suplicado por vós para desviar todo golpe. ¶
É algo reconfortante, neste tempo, em meio à incredulidade dos homens, encontrar um homem que crê que Deus vive, e que ouve e responde à oração. Surpreender-vos-ia descobrir quão poucos destes homens há neste mundo, especialmente na vida pública. A crença em Deus, que ele existe, que toma conhecimento dos assuntos humanos, e que ouve e responde à oração, está quase extinta; é coisa rara encontrar um homem que a professe. Contudo, os homens não ignoram Deus por completo, mas negam sua intervenção nos assuntos humanos. Neste ponto, destacamo-nos em contraste marcante com todo outro povo. Cremos que as providências de Deus estão sobre todas as coisas, que nenhum cabelo de nossa cabeça cai sem seu conhecimento, que nem mesmo um pardal pode cair ao chão sem que ele o saiba, e que ele ouve e responde à oração quando o suplicamos com fé em nome de Jesus por aquelas coisas de que necessitamos; e temos esta lição a ensinar. Creio que o dia não está longe em que haverá uma reação a este respeito. Há, no presente momento, uma determinação, aparentemente, de oscilar para o extremo da infidelidade; mas espero por uma reação. Creio que o exemplo, o ensino e a influência dos Santos dos Últimos Dias serão acompanhados de bons efeitos. Penso que é dever de todos, não ofensivamente, não de modo a causar repugnância, mas de maneira própria e sábia, procurar, tanto quanto possível, inculcar, pelo exemplo e pelo preceito, fé em Deus e na eficácia da oração a ele. ¶
Claro que houve momentos em que se fizeram perguntas a respeito de nossa crença, e muitas pessoas mal pensam que cremos em Jesus Cristo e na Bíblia. Alguns têm a ideia de que somos uma espécie de pagãos; ou, em outras palavras, que abandonamos tudo o que se liga ao cristianismo. Outros não têm ideias definidas a respeito de nossa crença, tendo suas mentes plenamente ocupadas com o sistema de casamento dos "mórmons," tendo ouvido falar disso e pouco mais, e supõem que não cremos em nada senão em casar e viver em poligamia. Quando conversais com homens de inteligência, que têm alguma compreensão da verdade, e lhes relatais nossas opiniões, reconhecem que somos um povo diferente do que imaginavam. Tenho observado, quando em conversa sobre nossos princípios, que, se a gratificação da libertinagem fosse nosso objetivo, poderíamos fazê-lo de maneira muito mais popular e muito mais barata do que a que adotamos. Disse-lhes que bastaria seguir o exemplo de alguns homens públicos, e nos daríamos bem sem dificuldade alguma, e não haveria falta alguma que se nos apontasse. Muitos reconheciam que isto era verdade, se o objetivo que tivéssemos em vista fosse a gratificação da sensualidade. Mas, sempre que tive a oportunidade, procurei impressionar aqueles com quem conversei com a ideia de que consideramos homens e mulheres culpados de práticas imorais como sendo culpados do pior crime possível, depois de derramar sangue. Disse que consideramos o assassinato o maior crime aos olhos de Deus, e que, depois deste, encaramos a impudicícia e as ações não virtuosas. Isto causou alguma surpresa, mas é uma lição que ainda temos de ensinar à humanidade sobre este ponto, e confio que seremos fiéis a nossos princípios. ¶
Ouvi, desde que voltei, e de fato já o ouvira antes, que há uma disposição, da parte de alguns, de ceder às tentações que nos cercam, jovens e moças se desviando e sendo culpados de impudicícia, jovens frequentando salões de bilhar, salões de jogo, salões de bebida, entregando-se aos hábitos de fumar e praguejar; e não apenas os jovens, mas homens de idade madura. Estou surpreso com isso. Estou surpreso de que os Santos dos Últimos Dias tenham tão pouca firmeza de caráter, e cedam tão facilmente a estas influências más. Pensais que alguém respeita um homem que segue este rumo? Certamente não, contudo há alguns que pensam ganhar respeito assim procedendo. Permiti-me dizer-vos que um homem ímpio, um homem impuro e não virtuoso, não tem respeito algum por um homem que é como ele mesmo. Um homem profano admirará um homem que não se entrega à profanidade. Nunca vistes um homem que fosse bêbado e que se entregasse ao uso de bebidas inebriantes que não admirasse o homem que se abstinha de seu uso. Pode zombar e ridicularizá-lo, mas em sua alma secreta o admira; e assim é com todos os hábitos maus, e eu não daria um figo por um Santo dos Últimos Dias que não pudesse, em meio a todas estas tentações, ser sincero e fiel a suas convicções, e viver a religião que Deus lhe revelou; tais homens não são dignos do nome, e mais cedo ou mais tarde perderão o nome e sua posição e lugar na Igreja. Sei, pela experiência que tive, que os homens respeitam a sinceridade. Os homens desprezam os Santos dos Últimos Dias que não agem de acordo com os princípios que professam, ao passo que, qualquer que seja a religião de um homem, ele comandará respeito na proporção em que se apegue e honre os princípios que professa, sob todas as circunstâncias em que possa ser colocado. ¶
O Senhor está trabalhando conosco, bem como com a nação, e sinto certeza de que ele purificará de nosso meio tudo o que é impuro e ímpio. Espero que tenhamos provações que purifiquem de nosso meio tudo deste caráter, e que tudo o que pode ser abalado o seja. Nos dias antigos, tivemos turbas com que lutar, e outras dificuldades que provavam a fé do povo, e os que não estavam fundados na rocha caíram pelo caminho. Se pudessem ser assustados, ou se ameaças ou circunstâncias difíceis pudessem afetá-los, ou a sua fé, então, é claro, dissolviam sua conexão com a Igreja. Mas antes penso que o dia das turbas já passou. Certamente temos sido levados a esperar que virá o tempo em que seremos libertos do poder da anarquia popular. Que será, então, o meio de provar o povo? Provavelmente a prosperidade, boas circunstâncias, o aumento da riqueza, cujos efeitos são muito mais provadores para um povo do que a pobreza. As influências que acompanham a riqueza e as circunstâncias confortáveis provavelmente terão o mesmo efeito sobre o povo, purificando de nosso meio aquilo que não é são, como a anarquia popular e as difíceis circunstâncias a ela ligadas o tiveram nos dias antigos. Mas nunca espero ver o dia em que os Santos dos Últimos Dias estarão livres de influências que provarão sua fidelidade a Deus, e serão meio de remover de seu meio aquilo que é indigno de estar associado à sua Igreja. Este é meu sentimento, e o tem sido por muito tempo, e creio que Deus nos faz passar por estas circunstâncias expressamente para nos testar, provar e experimentar, e ver se lhe seremos fiéis ou não. ¶
Ele nos revelou o evangelho eterno; o evangelho eterno! a verdade tal como está contida neste livro (a Bíblia); ele nos ensinou o que fazer para obter seu favor. Quantos de vós, que aqui estais hoje, viram o tempo, em sua vida primeira, em que, se pudésseis ter sabido que Deus vos concederia os dons de seu Espírito Santo, tal como foram desfrutados nos dias antigos por seus servos, não teríeis sentido que poderíeis percorrer toda a terra para obter tão preciosas bênçãos? Suponho que há dezenas nesta congregação, hoje, que tiveram tais sentimentos, sentiram que seria a maior dádiva que se lhes pudesse conceder ter o dom do Espírito Santo, e os vários dons dele que foram concedidos e desfrutados pelos antigos Santos. Deus nos concedeu estas bênçãos; ele nos revelou a verdade; ele nos mostrou como podemos obter a remissão de nossos pecados, e, de acordo com sua palavra, dada há mil e oitocentos anos por seu Filho Jesus e por seus Apóstolos, que, se cremos em Jesus, se nos arrependemos de nossos pecados e somos batizados para sua remissão, receberemos o Espírito Santo. ¶
Estas bênçãos foram prometidas e concedidas a nós; a Igreja foi organizada em sua pureza e simplicidade antigas, com Profetas, Apóstolos, Mestres, Pastores, Evangelistas e todos os ofícios que existiram nos dias antigos. Não é esta uma bênção que o povo deveria apreciar? Isto nos foi dado, e temos sido guiados pelo espírito de revelação e profecia. Não tem havido um só momento, desde que conheço esta Igreja, em que não tivéssemos revelação para nos guiar, e ela tem sido toda de um caráter que pudemos compreender. Não tem sido algum homem que operasse sobre o povo, falando em tons murmurados como um oráculo ao povo, de modo que mal pudessem compreender o que queria dizer; mas tem sido em singeleza e simplicidade, de modo que todo homem e toda mulher nesta Igreja tem sido convidado a ir e pedir a Deus por si mesmo, e tiveram oportunidade de saber por si mesmos a respeito da verdade das doutrinas ensinadas e do conselho que foi dado. Isto constitui a grande força desta obra, e como devemos apreciar as bênçãos que Deus nos concedeu a este respeito. ¶
Ora, se fôssemos deixados sem testemunho algum nosso, e tivéssemos de receber o ipse dixit de algum homem em autoridade, e agir cegamente sobre ele, seria muito diferente, exigiria muito maior grau de fé do que temos de exercer no presente. Mas como foi nos dias de Joseph? Houve alguma doutrina ensinada que não fosse acompanhada pelo testemunho do Espírito à mente do povo? Certamente não. Como tem sido nos dias do Profeta Brigham? Tem sido o mesmo. Quando os servos de Deus proclamaram que Deus havia estabelecido sua Igreja, que havia restaurado o Sacerdócio eterno e suas ordenanças, foi-lhes dito que fossem e pedissem a Deus por si mesmos, e tiveram oportunidade de provar a verdade daquilo que lhes foi ensinado, e não havia oportunidade alguma para impostura. ¶
Muitos pensam que o povo chamado Santos dos Últimos Dias é um grupo iludido e ignorante, liderado por líderes clericais astutos, que exercem poder sobre eles por causa de sua sagacidade e habilidade, e que o povo é um rebanho cego, liderado à vontade destes espertos enganadores. Sabemos que não é este o caso. Sabemos que os apelos mais frequentes feitos aos Santos dos Últimos Dias têm sido para investigar por si mesmos e saber por si mesmos. Quando partimos de Illinois e viajamos por estas planícies, estávamos seguindo o Presidente Young porque ele disse, "Vinde"? Estávamos avançando cegamente pelo deserto, esperando que ele encontrasse algum lugar, confiando em sua sagacidade e perspicácia? Certamente não, não era esse o sentimento; mas todo Santo dos Últimos Dias que cruzou o Rio Mississippi, que era de fato um Santo dos Últimos Dias, tinha um testemunho de que estava indo numa direção que Deus estava conduzindo, e, quando chegava a noite, cada um estava tão confiante de que estava na senda que Deus lhe requeria trilhar quanto jamais estiveram os filhos de Israel quando conduzidos para fora do Egito. Quando olho para trás, para aqueles dias, e considero as circunstâncias que cercavam o povo, admiro-me e me surpreendo com a fé, a calma e a confiança que manifestaram. Quando os grilos desceram das montanhas em 1848, e devoraram quase toda a colheita, não consigo recordar agora qualquer murmúrio, ou expressões de desconfiança, temor ou apreensão, mas havia uma calma e serenidade de sentimento entre o povo que, quando reflito sobre isso agora, me surpreende. Naquele tempo eu era apenas um jovem e não tinha responsabilidades, mas tenho tido responsabilidades desde então, e me tenho perguntado como homens que tinham esposas e filhos, e a preocupação de um grande povo sobre eles, como nossos irmãos que aqui estavam então, puderam manter sua serenidade em meio àquelas circunstâncias. Contudo, em todo este vale não houve um murmúrio ou expressão de desconfiança, e, se havia temores alimentados, não foram publicamente expressos. Assim tem sido o tempo todo. Deus tem dado testemunho aos Santos dos Últimos Dias por seu Espírito Santo, dando-lhes evidência da mais satisfatória natureza; e todo homem e mulher, menino e menina, deveria viver de modo a ter dentro de si este testemunho, para que possam saber a respeito da doutrina e do conselho que é dado; para que, quando o Presidente Young fala, possamos saber por nós mesmos se é de Deus ou não, e, quando qualquer outro mestre entre nós fala, possamos saber se a doutrina que ele apresenta é de Deus ou não; e de modo que, se necessário, pudéssemos ir à fogueira, e não ter dúvida alguma sobre o assunto. Ou, como Daniel de outrora, ser lançados na cova dos leões e não ter temor; ou, como as três crianças hebreias, ser lançados numa fornalha ardente. Oramos para que Deus nos restaure a fé uma vez entregue aos Santos, e esta é a espécie de fé que tinham, e que os sustentou em meio a todas as suas provações e aflições. E homens e mulheres têm tido esta fé, que não tiveram a plenitude do Evangelho como a temos nós; milhares deles, no que se chamam as idades sombrias, sofreram as mortes mais dolorosas por causa de sua religião; e foram sustentados pela consciência de que estavam fazendo o que Deus exigia de suas mãos, que estavam vivendo à luz da verdade tanto quanto a tinham. E agora, vivendo com as facilidades e oportunidades que temos, deveríamos ter fé e poder ainda maiores, e ser capazes de suportar muito mais pela causa desta grande verdade, pois vos digo, meus irmãos e irmãs, é uma das mais inestimáveis bênçãos, está além de todo preço, o conhecimento que Deus nos deu, de que ele ouve e responde à oração. Pensar que, em meio à aflição, quando estais atormentados e oprimidos, quando, talvez, vossa família esteja doente, e estejais cercados de circunstâncias que o auxílio humano não pode remediar, há um Ser, todo-poderoso no céu, que está próximo, a quem podeis oferecer vossas súplicas e fazer vossos apelos, com a certeza de que ele os ouvirá e responderá. Que há para comparar com isto em valor na face da terra? Quem não daria tudo o que tem para ter esse conhecimento? Quem não seria despojado de tudo o que julga valioso, no que diz respeito a bens terrenos, por causa de conhecimento como este? ¶
Este é o conhecimento que tendes. Se obedecestes ao Evangelho com sinceridade, cada um de vós deveria ter em seu coração, não importa quais sejam vossas circunstâncias, ou quaisquer dificuldades e provações por que sejais chamados a passar, o conhecimento de que tendes um Amigo permanente que ouvirá e responderá vossas orações, e jamais vos abandonará. Comprazo-me em testificar que Deus ouve e responde à oração, que abençoará e libertará aqueles que nele põem sua confiança. E desejo que todos nós cultivemos mais deste espírito, e o ensinemos a nossos filhos. Ouvimos falar do aumento da incredulidade. Por que aumenta? Porque homens e mulheres não vivem de modo a saber que Deus vive. Esta é a razão. Se vivessem em estreita comunhão com ele, não haveria oportunidade para a incredulidade aumentar; mas o fato de que não vivem assim causa esse aumento. Deveríamos ensinar nossos filhos a orar a Deus e a ter fé nele. Se o fizermos, veremos bons efeitos dali fluírem: a fé aumentará na terra e se espalhará, e seremos o meio, nas mãos de Deus, de levantar um povo que crê nele, e que, se necessário, iria à fogueira para mostrar sua fé na verdade de suas doutrinas. ¶
Que Deus vos abençoe, meus irmãos e irmãs, e vos ajude a superar tudo o que é mau, é minha oração, em nome de Jesus. Amém. ¶