O Que o Evangelho Ensina—A Revelação de Deus É Necessária—A Fé e as Doutrinas dos Santos dos Últimos Dias
John Taylor
Recebi, desde que aqui cheguei, um bilhete que me foi encaminhado por uma pessoa que me é estranha, pedindo que eu falasse sobre as nossas doutrinas principais. Há tantos grandes princípios desenvolvidos nas verdades eternas de Deus em que cremos, que é tarefa um tanto difícil tentar, em tão pouco tempo, qualquer exposição adequada delas, e, se eu tocar em algum desses princípios, há de ser muito de leve. O pedido faz-me lembrar uma anedota que li há pouco tempo. Uma senhora encontrou-se com um cavalheiro que havia viajado muito extensamente pelo mundo. Era estadista, filósofo, e bastante célebre. Ele e a senhora iam jantar juntos, e, uns dez ou quinze minutos antes de o jantar ser servido, a senhora disse-lhe: "Senhor —, tenho muito prazer no privilégio de o ver e de falar consigo, e agora, enquanto preparam o jantar, teremos dez ou quinze minutos; poderia contar-me tudo o que sabe e tem visto nas suas viagens?" ¶
Quanto à nossa religião, direi que ela abarca todo princípio de verdade e inteligência que nos diz respeito como seres morais, intelectuais, mortais e imortais, pertencentes a este mundo e ao mundo vindouro. Estamos abertos à verdade de toda espécie, não importa donde venha, onde se origine, ou quem nela creia. A verdade, quando precedida pela pequena palavra "toda", abrange tudo o que jamais existiu ou existirá, e será conhecido por e entre os homens no tempo e através das intermináveis eras da eternidade; e é dever de todos os seres inteligentes que são responsáveis e prestam contas a Deus pelos seus atos buscar a verdade, e permitir que ela influencie a eles próprios, aos seus atos e ao seu curso geral de vida, independentemente de toda parcialidade ou noção preconcebida, por mais especiosa e plausível que seja. ¶
Nós, como Santos dos Últimos Dias, cremos, em primeiro lugar, no Evangelho, e isso é dizer muita coisa, pois o Evangelho abarca princípios que mergulham mais fundo, se espalham mais amplamente e se estendem mais longe do que qualquer outra coisa que possamos conceber. O Evangelho nos ensina a respeito do ser e dos atributos de Deus; ensina-nos também a nossa relação com esse Deus e as várias responsabilidades a que estamos sujeitos para com ele como sua descendência; ensina-nos os vários deveres e responsabilidades a que estamos sujeitos para com as nossas famílias e amigos, para com a comunidade, para com os vivos e os mortos; desdobra-nos princípios pertencentes ao futuro; de fato, segundo o dito de um dos antigos discípulos, ele "traz à luz a vida e a imortalidade", traz-nos à relação com Deus, e prepara-nos para uma exaltação no mundo eterno. Há algo de grandioso, profundo e intelectual associado aos princípios do Evangelho, tal como se ligam à salvação e à exaltação do homem. O homem que busca a verdade não tem sistema peculiar a sustentar, nenhum dogma peculiar a defender ou teoria a manter; abarca toda verdade, e essa verdade, como o sol no firmamento, resplandece e espalha os seus raios fulgurantes sobre toda a criação, e, se os homens se despojarem de parcialidade e preconceito, e buscarem a verdade em oração e consciência, hão de encontrá-la onde quer que voltem a atenção. Mas, quanto aos principais princípios do Evangelho, há certos traços distintivos a eles ligados, os quais, como todas as leis da natureza e do Deus da natureza, exigem obediência implícita e conformidade com eles, a fim de assegurar a realização dos resultados que deles fluem. A terra em que vivemos, a matéria de que é composta, os elementos que nos cercam, bem como o sistema planetário, têm certas leis insondáveis, eternas e imutáveis a eles ligadas, das quais não se pode fugir. ¶
Falamos às vezes das grandes descobertas que os homens fizeram relacionadas com a eletricidade, o vapor, a luz e as suas propriedades, e uma variedade de outros princípios que existem na natureza; todos esses princípios são governados por certas leis específicas, que são imutáveis; e todas as grandes descobertas que os homens fizeram apenas desenvolveram certas propriedades que sempre existiram. Nada criaram, e as suas descobertas nada têm de particularmente louvável. Uma criança, na sua infância, possui certas faculdades de raciocínio, mas estas só se desenvolvem por um longo curso de treino e experiência. Possui braços, pernas, pés, cabeça e corpo, olhos, ouvidos, nariz, etc., mas disso é inconsciente; pouco a pouco, quando as suas faculdades de raciocínio começam a se desenvolver, descobre que tem mãos. Já as tinha antes, mas não o sabia. É bastante assim conosco e com as gerações que nos precederam — vivemos, e vivemos num mundo em que, desde o princípio, existiram princípios, organismos e sistemas — tudo o que hoje se conhece ou algum dia se descobrirá —, mas os ignorávamos, e só nos tornamos cientes da sua existência pelo que se chama o progresso da ciência e as descobertas de homens científicos e engenhosos. E, assim como as coisas terrenas são governadas e controladas por leis imutáveis, também o são as coisas celestiais. Em óptica, certas lentes são necessárias para a recepção e a refração da luz; em química, é necessária certa combinação de elementos para produzir magnetismo ou eletricidade, e podeis ter esses elementos tão perfeitos quanto quiserdes, mas, sem o fio, não podeis usá-los para transmitir informação; e podeis ter o fio sem a necessária combinação de elementos químicos, e o resultado é o mesmo. Tenho um relógio; se lhe der corda, marcará a hora; se descuidar disso, parará. Tendes a vossa máquina a vapor; se fechardes a válvula, cortais o vapor, e ela deixa de funcionar. Tendes uma roda d'água que possui certo poder, mas cortai a água que a alimenta e o seu poder cessa. É exatamente assim quanto a todas as operações da natureza — são governadas por certas leis que são entendidas por aqueles que as estudam. ¶
Há leis pertencentes às coisas eternas — as coisas de Deus — tão imutáveis quanto aquelas de que tenho falado, e, para realizar os resultados que se destinam a produzir, é preciso submeter-se e obedecer-lhes. Deus nos disse claramente, nas suas revelações, que "ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Assim também ninguém sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está"; como podem, pois, os homens obter conhecimento das coisas de Deus, a menos que primeiro sigam o caminho que ele apontou? Não podem fazê-lo. Se as leis que governam as coisas terrestres são imutáveis, as leis que governam as coisas celestiais certamente não o são menos, e isso me traz à consideração de alguns dos primeiros princípios do Evangelho em que cremos, como povo. ¶
Cremos que é necessário que o homem seja colocado em comunicação com Deus; que deve ter revelação dele, e que, a menos que esteja sob a influência da inspiração do Espírito Santo, nada pode saber das coisas de Deus. Não me importa quão instruído possa ser um homem, ou quão extensivamente possa ter viajado; não me importa qual seja o seu talento, intelecto ou gênio, em que colégio possa ter estudado, quão amplas sejam as suas opiniões ou qual seja o seu juízo sobre outros assuntos; não pode entender certas coisas sem o Espírito de Deus, e isso necessariamente introduz o princípio a que antes me referi — a necessidade da revelação. Não a revelação de tempos passados, mas a revelação presente e imediata, que há de conduzir e guiar aqueles que a possuem por todos os caminhos da vida aqui, e à vida eterna no futuro. Muita gente, mesmo entre os que professam ser cristãos, zombará bastante da ideia de revelação presente. Quem já ouviu falar de verdadeira religião sem comunicação com Deus? Para mim, é a coisa mais absurda que a mente humana poderia conceber. Não me admiro, quando o povo em geral rejeita o princípio da revelação presente, que o ceticismo e a incredulidade prevaleçam a tal ponto alarmante. Não me admiro de que tantos homens tratem a religião com desprezo, e a considerem coisa indigna da atenção de seres inteligentes, pois, sem revelação, a religião é zombaria e farsa. Se não puder ter uma religião que me conduza a Deus, e me coloque em relação com ele, e desdobre à minha mente os princípios da imortalidade e da vida eterna, nada quero com ela. ¶
O princípio da revelação presente é, então, o próprio alicerce da nossa religião. O mundo cristão o rejeita, e diz que a Bíblia é suficiente por si só. Lembro-me de, em minha juventude, ter pesquisado diligentemente o seu conteúdo. É um livro glorioso para se estudar, e recomendo-o vivamente à atenção dos nossos jovens e das nossas jovens, e dos nossos idosos e das nossas idosas. "Examinai as escrituras", foi o mandamento de Jesus, "porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam." Eu não apenas examinaria as Escrituras que hoje temos, mas examinaria também toda revelação que Deus deu, dá, ou dará para a orientação e direção do seu povo, e então reverenciaria o Doador, e também aqueles a quem ele usa como seus honrados instrumentos para promulgar e dar a conhecer esses princípios; e buscaria ser governado pelos princípios contidos nessa palavra sagrada. ¶
Ora, deixai-me olhar um pouco para trás, e examinar as coisas tal como existiram. Que espécie de Evangelho foi o que Jesus introduziu? Dizem-nos que era o Evangelho; mas que espécie de organização tinha a sua Igreja? Apóstolos, Profetas, Pastores, Mestres e Evangelistas — homens inspirados — homens que tinham a ministração de anjos, o espírito de profecia, e o princípio da revelação; homens a quem os céus foram abertos, de modo que podiam contemplar os propósitos de Deus tal como haveriam de se desenrolar por todo período subsequente do tempo, até a cena final. Donde obtiveram esse conhecimento? Obtiveram-no pela obediência ao Evangelho de Jesus Cristo, e, por isso, é muito propriamente dito que "trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho." ¶
Pois bem, quem eram os antigos Apóstolos? Eram homens escolhidos e selecionados por Jesus Cristo, o Filho de Deus. Quem eram esses Profetas? Homens que possuíam o espírito de profecia; e mostrai-me um homem que é chamado e inspirado por Deus para pregar o Evangelho de Jesus Cristo, e eu vos mostrarei um Profeta, pois se nos diz que "o testemunho de Jesus é o espírito de profecia"; e, se um homem não tem o espírito de profecia e revelação, não é ele o homem para ensinar as coisas de Deus, pois esse é o princípio pelo qual todos os ministros escolhidos e autorizados de Deus, em toda época, foram inspirados, e pelo qual ensinaram as coisas da vida eterna aos filhos dos homens. ¶
Como foi com Jesus? Disse ele que "não veio para fazer a sua própria vontade, mas a vontade daquele que o enviou"; e disse ele: "As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras." Quando os discípulos saíram a pregar o Evangelho, Jesus disse-lhes que fossem sem bolsa nem alforje, confiando nele; e disse-lhes que, quando fossem levados perante reis, governantes e autoridades, não deveriam pensar de antemão no que haveriam de dizer, pois lhes seria dado na mesma hora em que dele precisassem. Disse Paulo que o Evangelho que pregava "não o recebeu, nem aprendeu de homem algum"; mas o recebeu de Deus, e as palavras que falava não eram suas, pois disse ao povo, definida e distintamente, que as suas palavras lhes vieram "não somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza." Estavam sob a inspiração do Todo-Poderoso. ¶
E de onde tirámos a nossa Bíblia? "Nenhuma profecia da escritura é de particular interpretação", diz-se-nos, "mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo", e, sob essa inspiração, proferiram a palavra de Deus, e essa palavra tornou-se a Escritura da verdade, tal como aqui a encontramos. Foi dada por sonhos, visões e revelações, e o que assim foi comunicado ao homem foi escrito, e veio a ser o que chamamos a Bíblia. ¶
Quando as revelações inspiradas a que chamamos o Evangelho foram dadas aos homens, havia Apóstolos e Profetas, pastores, mestres e evangelistas; e como disse Jesus aos seus discípulos que ensinassem o seu Evangelho? Disse-lhes que "fossem por todo o mundo e pregassem o evangelho a toda criatura", sendo a promessa que "quem crer e for batizado será salvo." E disse-se também que certos sinais haveriam de seguir os que cressem: expulsariam demônios em nome de Jesus, "porão as mãos sobre os enfermos, e os sararão", etc., mostrando que havia um poder vivo, vital e enérgico associado ao Evangelho que foi enunciado por Jesus Cristo e ensinado pelos seus Apóstolos. Não estava ligado apenas aos Apóstolos, como alguns supõem. Não diz "estes sinais seguirão os Apóstolos que crerem, ou os discípulos que crerem", mas os sinais seguiriam os que cressem, onde quer que o Evangelho fosse pregado em todo o mundo. O Evangelho e as suas bênçãos não se restringiam a tempo, pessoa ou lugar; mas seriam desfrutados em todo o mundo por todos os que cressem. ¶
Diz-nos Paulo que Apóstolos, Profetas, evangelistas, pastores e mestres foram colocados na Igreja, para quê? Para o estabelecimento do cristianismo? Não, não diz isso. Para o benefício dos Apóstolos e dos que os cercavam imediatamente? Não. Para convencer os gentios pagãos e os judeus incrédulos? Não; diz-nos que foram colocados na Igreja "para o aperfeiçoamento dos santos", para que os que criam e obedeciam ao Evangelho pudessem seguir de força em força, e ser capacitados a permanecer fiéis até o fim. Era para o aperfeiçoamento de tais pessoas, para que, como seres imortais, pudessem crescer em luz, inteligência e verdade, e estar preparadas para habitar com os Deuses e as hostes santificadas nos mundos eternos. ¶
Esses ofícios eram, pois, para o aperfeiçoamento dos santos; eram para mais alguma coisa? Sim, "para a obra do ministério, e para a edificação do corpo de Cristo." Por quê? "Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo vento de doutrina, pelo engodo dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente"; mas para que fossem "edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina"; para que tivessem, por si mesmos, conhecimento da verdade do Evangelho, ardendo em caracteres de fogo vivo escritos em seu coração, que nenhum homem, influência ou poder pudesse apagar; mas que ali habitasse como fogo sobre o altar, eternamente ardendo, e dali espalhasse a sua radiante fulgência, crescendo, aumentando e se espalhando. Esta é a espécie de Evangelho que os antigos pregaram e em que creram, e que nós, os Santos dos Últimos Dias, pregamos e em que cremos. ¶
Mas onde está a necessidade de uma nova revelação, alguém poderá indagar, para restaurar este Evangelho, visto ser o mesmo Evangelho que se acha registrado nas Escrituras? Os católicos diriam que não há necessidade dela, pois o obtiveram de Deus em tempos antigos, e o retiveram, e ele foi transmitido em sucessão regular até o presente dia. Não vou investigar hoje todas essas teorias, não haveria tempo; basta dizer que são meras falácias, nem católicos, nem gregos, nem protestantes retiveram o Evangelho e o poder de o administrar. Quanto ao mundo protestante, muito crédito lhe é devido pelo rumo que tomou. Mas terá o Evangelho continuado entre eles em sua pureza desde o tempo em que Jesus viveu na terra? Haverá algum homem que tenha a ousadia de o afirmar? Não creio que se encontre um só. Donde se originaram essas noções, opiniões, teorias, princípios e dogmas que existem entre os homens no mundo religioso de hoje? Originaram-se em Deus? Diz-se-nos que "Deus não é Deus de confusão, senão de paz." Inspirou ele os homens com todos esses vários dogmas e teorias? Certamente que não. Quem o fez? De onde vieram? Ora, homens, em várias épocas, muitos deles homens muito bons, tentaram deter a enchente do mal, da falsa doutrina, do erro e do crime, e, ao fazê-lo, sem o auxílio da inspiração, cometeram grandíssimos erros. Quando o papa, por instrumento de Loyola, vendia indulgências de modo vergonhoso e desonroso, Martinho Lutero e outros reformadores se ergueram e o denunciaram como um mal, e tinham razão nisso, pois era um mal, e um crime, e um ultraje contra a sociedade, pois se comerciava por dinheiro aquilo que Deus jamais pretendeu ou autorizou. Pergunta alguém: "Não deu Jesus aos seus discípulos 'as chaves do reino dos céus', e disse que 'a quem perdoassem os pecados, lhes seriam perdoados, e a quem os retivessem, lhes seriam retidos'?" "Sim." "Então por que não tiveram outros esse poder?" Tiveram, se o obtiveram legitimamente; mas não daquela maneira. Pedro jamais possuiu poder para vender o perdão dos pecados. Nos dias dos Apóstolos, houve certo homem que viu o poder de Deus manifesto pelas suas administrações, e lhes ofereceu dinheiro para lhe conferirem o mesmo poder, mas foi-lhe dito que, visto ter ele pensado que o dom de Deus se adquire por dinheiro, o seu dinheiro pereceria com ele. "Mas não possuíam Pedro e os demais discípulos o poder de perdoar pecados?" Sim. Como o exerciam? As Escrituras são bem claras nesse ponto. Lede o relato de Pedro, no dia de Pentecostes, dirigindo-se a milhares de pessoas reunidas em Jerusalém naquela ocasião. Clamaram a Pedro e aos demais Apóstolos: "Que faremos, homens irmãos? Cremos na vossa afirmação, cremos que somos pecadores, cremos que consentimos na morte do Filho de Deus, agora que faremos?" Disse ele: "Eu vos perdoarei os pecados"? Não, nada disso. Tinha ele o poder? Sim. Como o exerceu? Disse ele: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo", e tomaram-nos, e os levaram às águas, e os batizaram, e os seus pecados foram perdoados. Foi assim que os Apóstolos perdoaram pecados, não vendendo indulgências. ¶
Martinho Lutero introduziu alguns bons princípios, mas trouxe de volta o Evangelho que Jesus trouxe? Não, em verdade não. E Melâncton? Não. Zuínglio? Não. João Knox? Não. E Calvino? Não, nenhum deles trouxe de volta o Evangelho de Jesus. Foram ensinando bons princípios de moralidade, e o Evangelho tanto quanto o conheciam. Mas Deus não lhes concedeu a luz da revelação de que gozavam os antigos Santos, e, como cada um desses reformadores tinha as suas ideias e opiniões peculiares a respeito do Evangelho, foram os originadores da multidão de seitas e partidos hoje existentes no mundo cristão. Lutero promulgou as suas ideias muito extensamente na Alemanha; Calvino, que dele diferia quanto à doutrina do livre-arbítrio, e era crente na doutrina do destino, da eleição ou da reprovação, promulgou as suas ideias extensivamente, e assim com outros. Se tivessem tido a luz da revelação, essa variação não teria existido; o Espírito de Deus os teria guiado a toda verdade e os teria trazido à unidade da fé, e teriam visto olho a olho, como dizem as Escrituras que os homens farão "quando o Senhor tornar a trazer Sião", e "olho a olho verão", "juntamente exultam." ¶
Referir-nos-emos a algumas dessas igrejas dissidentes, mas primeiro, por um momento, notaremos a igreja grega. Esta igreja separou-se da igreja latina, ou a latina, da grega. Não me importa por qual lado tomeis. Houve um cisma entre esses dois corpos, e cada um seguiu o seu próprio rumo peculiar, e esse rumo tem sido muito errático, tolo e distante dos princípios da verdade. Depois há a Igreja Episcopal. Como se originou? Por meio de Henrique VIII. Como veio ele a fundar uma igreja? A história nos informa que foi simplesmente com este fundamento — desejava divorciar-se da sua esposa, e o Papa não o quis conceder. Antes disso, Henrique havia escrito um livro ou panfleto em defesa do papado e em oposição à Reforma, pelo que o Papa lhe deu o título de "Defensor da Fé"; mas, quando o Papa não quis consentir em conceder ao rei inglês esse divórcio, ele se irou, e determinou fundar uma igreja sua própria; e, felizmente ou infelizmente, tinha dois instrumentos dóceis, eclesiásticos na igreja católica, e, para agradar ao seu soberano, prestaram-se a ele para ajudá-lo a executar o seu plano, e juntos fundaram a Igreja da Inglaterra, ou a Igreja Episcopal, como hoje se chama. Quando Henrique obteve um sacerdócio próprio, obteve o divórcio que queria, e seguiu o seu caminho regozijando-se, suponho, ao menos à sua maneira. ¶
Passaremos agora a alguns outros entre os reformadores. Houve João Knox, na Escócia, homem muito zeloso e muito intolerante, nada agradável nele, alguns traços de cujo caráter jamais admirei, e li algumas coisas nas suas obras que não são muito agradáveis, gentis ou amáveis; mas era, sem dúvida, um cristão muito sincero e zeloso à sua maneira, e buscava fazer o bem. Depois houve Calvino, outro homem razoavelmente sincero, na minha opinião, e, a julgar pelo que a história conta a seu respeito, desejava deter a torrente do mal e promover bons princípios tanto quanto sabia. Mas quem, entre eles, trouxe de volta o Evangelho que Jesus ensinou? Nenhum. Deixando Calvino, Knox, Lutero e os primeiros reformadores, chegamos a tempos posteriores, e verificamos que, na Igreja da Inglaterra, havia certas coisas que a parcela consciente dos seus membros não podia sustentar, e uma reforma foi inaugurada por João e Carlos Wesley, e um senhor Fletcher. Ensinaram muitos bons princípios; mas não trouxeram de volta o Evangelho de Jesus Cristo, embora fossem muito zelosos e muito desejosos de fazer o bem, e penso que houve algo muito louvável nos seus esforços por deter a corrente do mal, e resistir e desmascarar a corrupção que se infiltrava sob o nome de religião, e desmascarar a hipocrisia então existente; mas não restauraram o Evangelho, e um deles, ao cantar, disse que aguardava e esperava que viesse o tempo em que — ¶
"Da semente escolhida de Abraão os novos Apóstolos se escolham, sobre ilhas e continentes a espalhar as novas que dos mortos ressuscitam." ¶
Não a tinham, contudo, e ele o sabia, e, embora desejasse ver tal estado de coisas restaurado, não foi capaz de o introduzir, pois Deus não o havia chamado para realizar essa obra. ¶
Houve vários outros "ismos" além dos que mencionei, em alguns casos surgidos mais de despeito pessoal, preconceito e contradições, e de interesses pessoais dos homens, do que da glória de Deus e do bem da humanidade, e receio que os seus originadores se importassem mais em pregar o Evangelho segundo certos homens do que o Evangelho segundo Jesus Cristo. Diante de tal estado de coisas, o que se há de fazer? Vivemos num mundo em que os espíritos que habitaram no seio de Deus entram e saem deste estado de existência à razão de cerca de mil milhões a cada trinta e três anos; e aqui há milhares dos chamados ministros da religião, com um Evangelho ineficaz, que Deus jamais ordenou, tentando melhorar a condição da humanidade, e enviando o que chamam de Evangelho aos gentios, e clamam continuamente pelo auxílio pecuniário dos seus semelhantes cristãos para os ajudar nesse empreendimento. Mas, se eles próprios não têm a verdade, como podem transmiti-la a outros? Como podem guias cegos conduzir o povo no caminho da vida e da salvação? Não era necessário, em vista da ignorância e da cegueira do povo em toda parte, quanto aos princípios da salvação, que se fizesse algo para melhorar a condição de um mundo caído? O mundo cristão, pela sua incredulidade, fez dos céus bronze, e, onde quer que vá declarar o que chama de Evangelho, torna a confusão ainda mais confusa; mas quem impedirá Deus de cuidar da sua própria criação, e salvar as suas criaturas? Contudo, é essa a posição que muitos homens têm tomado. Mas, apesar da incredulidade tão prevalecente por toda a Cristandade, Deus restaurou o seu antigo Evangelho a Joseph Smith, dando-lhe revelação, abrindo-lhe os céus, e dando-lhe a conhecer o plano de salvação e exaltação dos filhos dos homens. Conheci-o bem, e examinei cuidadosamente as revelações dadas por meio dele, e, apesar de todas as calúnias lançadas sobre ele, creio que, à exceção de Jesus Cristo, jamais houve maior Profeta sobre esta vasta terra do que ele; e às revelações que ele deu a conhecer devemos os gloriosos princípios que Deus comunicou ao mundo nestes últimos dias. Estávamos tão às escuras quanto os demais povos a respeito dos princípios da salvação, e da relação que temos com Deus e uns com os outros, até que essas coisas nos foram dadas a conhecer por Joseph Smith. Muito se diz hoje em dia sobre a relação entre marido e mulher; mas onde há um homem fora desta Igreja que entenda algo dessa relação, assim como da relação entre pais e filhos? Não há nenhum, e os Santos dos Últimos Dias nada sabiam a respeito até que foi revelado por Joseph Smith, por meio do Evangelho. É o Evangelho que ensina à mulher que ela tem um direito sobre o homem, e ao homem que tem um direito sobre a mulher na ressurreição; é o Evangelho que lhes ensina que, quando se erguerem dos túmulos na ressurreição, hão de novamente unir as mãos, ser reunidos, e novamente participar daquela glória para a qual Deus os destinou antes de o mundo existir. ¶
João, o Revelador, quando na Ilha de Patmos, envolto em visão profética, disse: "E vi outro anjo voar pelo meio do céu, e tinha o evangelho eterno, para proclamá-lo aos que habitam sobre a terra, a toda nação, e tribo, e língua, e povo, dizendo com grande voz: Temei a Deus, e dai-lhe glória, porque vinda é a hora do seu juízo." Viu também um tempo em que certo poder "faria guerra aos santos, e os venceria, e lhe seria dado poder sobre eles, por um tempo, e tempos, e a metade de um tempo." ¶
Pois bem, então, para voltar, a fim de atender ao meu estranho amigo, quem quer que seja, direi que nós, os Santos dos Últimos Dias, cremos neste Evangelho exatamente como Jesus o ensinou. Cremos na fé no Senhor Jesus Cristo, e que devemos reverenciá-lo como o Filho do seu Pai celestial e nosso Pai. Cremos nas ordenanças que ele introduziu, e que foram praticadas pelos seus discípulos; cremos no mesmo Espírito e na mesma revelação em que eles creram. Não desejo discutir estas questões, nem entrar em detalhes, pois o tempo faltaria nesta ocasião; mas as Escrituras estão diante de nós, e apenas tentarei tocar em alguns dos princípios que Jesus enunciou, e que foram ensinados por ele e pelos seus discípulos; e é por crermos em Deus e em Jesus Cristo, em profecia e revelação, que somos continuamente acusados, perante o mundo, de impostores e enganadores. Cremos em sermos honestos conosco mesmos e com todos, quer estejam conosco quer não; cremos que os homens devem agir sempre como se estivessem na presença de Deus e dos santos anjos, e que, por todos os seus atos, serão trazidos a juízo, pois cremos que Deus trará os homens a juízo "por toda obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom quer seja mau." Cremos bastante como diz Davi — Quem é aquele que pode habitar com o fogo devorador, e entre as eternas labaredas? Aquele homem que temeu a Deus em seu coração, e que não mentiu em seu coração, aquele homem que jurará em seu próprio prejuízo e não mudará, um homem puro, virtuoso e santo, que respeita os direitos alheios tanto quanto os seus próprios; um homem que concederá a outros tudo o que pediria para si mesmo, e que busca promover o bem-estar da família humana. ¶
Os Élderes desta Igreja têm sido chamados, como os discípulos de Jesus o foram em tempos antigos, a ir e pregar o Evangelho sem bolsa nem alforje. Eu próprio tenho viajado centenas e milhares de milhas nesse mister, e vejo, aqui ao meu redor, homens que fizeram o mesmo. Para quê? Para beneficiar a humanidade, para rasgar o véu da ignorância, para combater o erro, para revelar a verdade, para dar a conhecer a vontade Divina, para dizer à família humana que Deus falou, que anjos apareceram, que os céus se abriram, que luz e inteligência foram comunicadas ao homem, que o Evangelho eterno foi restaurado, e que nós, nesta era, podemos desfrutar as mesmas bênçãos de que desfrutaram os Santos em dias antigos, e apontar-lhes o caminho da vida e da salvação. Recebemos esta comissão do nosso Deus, e temos nos esforçado fielmente por a cumprir, para que o nosso sangue esteja limpo, e para que, quando chegarmos a estar perante o Grande Eloheim, quando todas as nações forem reunidas, possamos dizer: "Ó Deus, terminámos a obra que nos deste para fazer." ¶
Mais que quê? Estamos agora, de certo modo, em capacidade política. Como é isso? Não podemos evitá-lo; o Evangelho nos disse que nos reuníssemos. Dizem algo as Escrituras a esse respeito? Sim; mas, ainda que não dissessem, e Deus nos desse essa ordem, o silêncio das Escrituras nenhuma diferença faria. Mas dizem, pois os antigos Profetas tiveram uma visão do ajuntamento dos Santos nos últimos dias; viram-nos acorrer aos montes como pombas às suas janelas; e por meio deles o Senhor declarou que reuniria o seu povo "do oriente e do ocidente, do norte e do sul." Disse-se: "Vos tomarei, um de uma cidade, e dois de uma família, e vos levarei a Sião, e vos darei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência"; e, ao falar das calamidades dos últimos dias, diz que "no monte de Sião e em Jerusalém haverá livramento." Mas nós nos reunimos porque as revelações dadas por meio do nosso Profeta nos ordenaram fazê-lo, revelações essas que concordam com as dadas outrora sobre o mesmo assunto. ¶
Estando nesta capacidade, formamos um grande corpo de pessoas. Temos vivido em diferentes lugares, e, assim como os crentes no Evangelho em outras eras foram perseguidos, também o fomos nós; e, tendo sido perseguidos e expulsos, viemos para cá, como disse Geo. A. Smith numa certa ocasião, "porque não pudemos evitá-lo." Não podíamos viver em Nauvoo, e, no entanto, não prejudicamos nem roubámos ninguém, nem interferimos nos direitos de ninguém. Expulsaram-nos do Missouri e de Illinois, e aqui estamos, e agora, quê? Estávamos em território mexicano quando aqui chegámos, tendo sido forçados a fugir dos Estados Unidos porque não podíamos ter proteção. Por que foi assim? Quem pode dizer por que foi que um povo que espalhou as suas vestes e ramos de palmeira no caminho de Jesus, clamando: "Hosana ao Filho de Davi; bendito o que vem em nome do Senhor", haveria de clamar, pouco depois: "Crucifica-o, crucifica-o"? Disse Pilatos: "Estou inocente do sangue deste justo"; e disse o povo: "O seu sangue seja sobre nós e sobre nossos filhos." Terrivelmente realizaram essa invocação, pois a mão vingadora do Todo-Poderoso tem pesado sobre eles, e, em toda nação em que peregrinaram, foram roubados, despojados, os seus bens confiscados, e privados de todos os direitos dos homens. Virá o tempo em que a ira de Deus para com eles se satisfará, e em que voltarão a ser o seu povo eleito, e serão reunidos à sua própria terra, até mesmo a Jerusalém, onde, como diz o Profeta, "tornará a levantar o cordel de medir", e meninos e meninas voltarão a brincar nas ruas dessa cidade; e quando o Filho de Deus descer e "os seus pés estarão sobre o monte das Oliveiras", e "o monte das Oliveiras será fendido pelo meio", e haverá um grande vale, e fugirão diante dele "assim como fugiram nos dias de Uzias, rei de Judá"; e "o Senhor nosso Deus", diz-se-nos, "virá, e todos os seus Santos com ele", e haverá "livramento em Sião e em Jerusalém, entre os sobreviventes a quem o Senhor nosso Deus chamar." ¶
Pois bem, estamos aqui em capacidade política, habitando um Território, e formando parte integrante dos Estados Unidos. Com quem interferimos? Com ninguém. Roubamos ou pilhamos alguém, ou interferimos nos direitos de alguém? Não. Fazemos incursões sobre os cidadãos dos Territórios vizinhos? Não; não interferimos nos direitos civis ou religiosos de ninguém, nesta ou em qualquer outra cidade ou Território; nunca o fizemos, não o fazemos agora; mas não podemos evitar estar na capacidade que hoje ocupamos. Formamos um corpo político, e nos tornámos, por necessidade, um Território, e não poderíamos evitá-lo, ainda que quiséssemos. Mas não interferimos com ninguém, observamos toda lei boa e sã. As pessoas mentirão a nosso respeito; mas isso não faz diferença, mentiram a respeito de Jesus. Dizem os nossos inimigos: "Sois um povo mau, e é por isso que vos perseguimos." Foi o que os inimigos de Jesus disseram a respeito dele; não foi porque ele era bom; nunca vistes uma perseguição religiosa levantar-se por essa razão, todas essas perseguições foram "por causa da maldade do povo." Os escribas e fariseus, depois de verem Jesus curar o cego, disseram: "Dá glória a Deus, pois sabemos que esse homem é pecador. É verdade que expulsa demônios, mas o faz por Belzebu, o príncipe dos demônios." Pois bem, se perseguiram o Senhor da casa, perseguirão os membros da sua casa; se fazem estas coisas no madeiro verde, que farão no seco? O fato é que há, e sempre houve, e sempre haverá, um antagonismo entre a verdade e o erro, a luz e as trevas, entre os servos de Deus e os servos do adversário. O diabo é chamado o pai da mentira, e nela se compraz. Que diferença isso nos faz, o que nos importa? Muito pouco. Mas suponhamos que somos oprimidos. Já o suportámos antes, e podemos suportá-lo de novo. Suponhamos que aprovassem leis restritivas contra nós. Muito bem, se a nação puder suportá-lo, nós também podemos. Arriscar-me-ei a sustentar e defender princípios corretos que emanam de Deus. Nos apegaremos à verdade, à honra, à santidade, e a todos os princípios que Deus nos revelou, e continuaremos a crescer em tudo o que é bom. ¶
Esta nação e outras nações serão derrubadas, não por causa da sua virtude, mas por causa da sua corrupção e iniquidade. Virá o tempo, pois as profecias se cumprirão, em que reinos serão destruídos, tronos derrubados, e os poderes da terra abalados, e a ira de Deus se acenderá contra as nações da terra, e cabe-nos manter princípios corretos, políticos, religiosos e sociais, e sentir para com todos os homens como Deus sente. Ele faz o seu sol levantar-se sobre os justos e sobre os injustos; e, se ele iluminou as nossas mentes e nos pôs de posse de princípios mais corretos do que outros têm, sejamos gratos e adoremos o Deus de Israel. Agradeçamos ao nosso Pai Celestial pela sua bondade para conosco, ao dar-nos a conhecer os princípios do Evangelho eterno, e prossigamos de força em força, de pureza em pureza, de virtude em virtude, de inteligência em inteligência; e, quando as nações caírem e se desfizerem, Sião se erguerá e resplandecerá, e o poder de Deus se manifestará entre o seu povo. Nenhum homem pode derrubar ou permanentemente prejudicar os que agem retamente. Poderão matar alguns dos nossos corpos, mas isso é tudo o que podem fazer. Havemos de viver e clamar entre a multidão reunida, nos céus eternos: "Hosana, bendito seja o Deus de Israel", e o seu reino há de crescer e aumentar, até que os reinos deste mundo se tornem os reinos do nosso Deus e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre. ¶
Que Deus nos ajude a ser fiéis, em nome de Jesus. Amém. ¶