"O Evangelho de Jesus Cristo Ensinado pelos Santos dos Últimos Dias — Casamento Celestial."
George Q. Cannon
"Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que sois chamados, ¶
"Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, ¶
"Procurando guardar a unidade de Espírito pelo vínculo da paz. ¶
"Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; ¶
"Um só Senhor, uma só fé, um só batismo; ¶
"Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos. ¶
"Porém a graça é dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo. ¶
"Pelo que diz: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens. ¶
"(Ora, isto — que subiu — o que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra? ¶
"Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas.) ¶
"E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, ¶
"Para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo: ¶
"Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo: ¶
"Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo vento de doutrina, pelo engodo dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente." ¶
Estas palavras se encontram no 4º capítulo da Epístola de Paulo aos Efésios. ¶
Provavelmente em nenhuma época da história da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias se sentiu maior interesse em relação às doutrinas em que cremos, à natureza da organização a que estamos ligados e aos vínculos que nos unem, do que no presente momento. A conclusão da ferrovia trouxe-nos de imediato ao contato com o mundo exterior, e também nos trouxe proeminentemente diante das nações — não apenas de nossa própria nação, mas de outras nações; e muitas pessoas que até agora sentiam pouco ou nenhum interesse a respeito do povo chamado Santos dos Últimos Dias estão agora, por meio de viagens, sendo postas em contato com eles, e dispostas a investigar e a inquirir acerca de sua fé e da natureza de sua organização. ¶
É muito agradável para nós termos nossos princípios investigados, pois os primeiros Élderes da Igreja se esforçaram por quase quarenta anos para disseminar o conhecimento deles entre todo o povo a que pudessem ter acesso. Viajaram por todo o comprimento e largura da nação, tendo visitado todos os Estados e quase todos os municípios da União. Também viajaram no Canadá, e proclamaram o Evangelho na Europa e na Ásia, e alguns até foram à África e às ilhas do mar. O que fizemos, procuramos fazê-lo abertamente, e nos esforçamos por tornar claros os princípios que defendemos. A maior dificuldade com que tivemos de lidar foi a indisposição do povo em ouvir. A ideia que parecia possuir a mente de muitos era que compreendiam perfeitamente bem nossos princípios, e que era desnecessário dizer mais uma palavra a respeito deles. ¶
Provavelmente não há povo no mundo acerca do qual se tenha dito tanto, e provavelmente não há povo sobre a face da terra que seja tão pouco compreendido e a respeito do qual circulem tantas deturpações. A ideia predominante a nosso respeito, em muitos círculos, é que descartamos a Bíblia e a substituímos por um livro nosso, o Livro de Mórmon, e outras obras, de origem moderna, ou obras que consideram de origem moderna. Faz apenas algumas semanas que um cavalheiro dos Estados do Leste foi convidado a pregar no Novo Tabernáculo. Assim o fez, e proferiu um discurso muito eloquente. Foi seguido pelo Presidente Young, e depois que este terminou e a reunião foi encerrada, este clérigo disse que não tinha a menor ideia de que tivéssemos tão grande elemento cristão em nossa fé, até ouvir aquele discurso do Presidente Young. Havia suposto que tínhamos posto de lado a Bíblia e tomado o Livro de Mórmon e as doutrinas e revelações contidas nele e no livro de Doutrina e Convênios como nossa regra de fé. ¶
Não era o único a ter essa ideia; é a crença geral em muitos círculos, e entre pessoas que, sobre outros assuntos, são bem informadas. Têm a ideia de que somos um povo muito peculiar, e que nossas peculiaridades têm origem naqueles livros. É claro que, entre pessoas que leram o Livro de Mórmon e o Livro de Doutrina e Convênios, essas ideias não prevalecem, porque tais pessoas sabem que esses livros corroboram a Bíblia, e são testemunhas da verdade dos grandes princípios contidos no Antigo e no Novo Testamento, e ensinam precisamente o mesmo. ¶
As peculiaridades, se assim podem ser chamadas, que nos distinguem dos demais povos, têm sua origem em nossa fé implícita nas Escrituras. Não há princípio nem doutrina de nossa fé que não estejamos dispostos a submeter ao teste das revelações e ensinamentos contidos na tradução do Rei Tiago da Bíblia; e nossos Élderes têm saído tomando-a como seu compêndio, pregando dela os princípios que os que hoje se chamam Santos dos Últimos Dias abraçaram, e que os fizeram reunir-se das nações da terra ao Estado de Ohio, depois ao Missouri, depois a Illinois, e depois a estes vales. ¶
Esta afirmação pode soar estranha aos ouvidos de muitos. Já ouvi pessoas expressarem considerável surpresa ao ouvi-la. Recordo-me, em minha experiência inicial como Élder, de encontrar-me com um clérigo e ter uma conversa considerável sobre nossos princípios. Deixei com ele a obra intitulada "A Voz de Advertência"; e quando o procurei novamente, passados alguns dias, ele expressou sua surpresa por haver qualquer diversidade entre os Santos dos Últimos Dias e as seitas ortodoxas, "pois," disse ele, "vejo que fundamentais vossa fé e extraís vossos argumentos do Novo Testamento." Admiti que era estranho, mas observei-lhe que isso se devia a recebermos o Novo Testamento literalmente, e crermos que os ensinamentos contidos naquele livro se destinavam a ser entendidos como foram escritos, e que, quando Deus fazia uma declaração, ou seus servos autorizados pregavam o Evangelho, ou faziam certas promessas claras e positivas, o desígnio era que os filhos dos homens confiassem naquelas promessas e cressem nos princípios daquele Evangelho com a mais inabalável fé, esperando seu cumprimento à própria letra, se tão somente cumprissem as condições a elas ligadas. ¶
Esta é a grande dificuldade de hoje; esta é a causa da diversidade de crenças no mundo cristão. Em vez de tomarem a palavra do Senhor como é, desejam nela colocar sua própria interpretação, de modo a ajustá-la a suas ideias e pontos de vista peculiares; e, tendo-a assim interpretado, moldam sua crença de acordo com essa interpretação. Mas é bem claro, pelas palavras contidas no Novo Testamento, que o Senhor esperava que seus filhos cressem no Evangelho e o levassem à prática, tal como foi entregue nos tempos antigos. Por exemplo: Paulo, em certa ocasião, ao escrever aos Gálatas, disse — ¶
"Mas, ainda que nós mesmos, ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho, além do que já vos anunciamos, seja anátema." ¶
E, como que para tornar isto tão positivo que não pudesse ser mal entendido, ele repetiu a linguagem. Aqui se pronuncia um anátema sobre a cabeça de qualquer indivíduo que tentasse pregar outro Evangelho que não aquele que o Apóstolo Paulo e os demais Apóstolos haviam declarado; mesmo que um anjo do céu declarasse algo oposto a ele ou dele diferente, seria amaldiçoado. ¶
É de suma importância que a humanidade compreenda qual era a natureza daquele Evangelho, e se os credos aos quais têm rendido obediência em nossos dias concordam com os princípios pregados pelos Apóstolos; se não concordam, aqueles que os pregam se expõem ao anátema pronunciado por Paulo, ou as suas palavras não são de confiar. É coisa muito fácil descobrir o que os Apóstolos de fato pregaram; não haveria dificuldade alguma nisso se o povo recebesse os ensinamentos contidos no Novo Testamento, pois ali temos um registro de seus trabalhos e um epítome das doutrinas que ensinaram e administraram ao povo. ¶
Se nos referirmos ao primeiro discurso pregado após a ascensão de Jesus ao céu, encontraremos o que os Apóstolos ensinaram naquela ocasião, quando inspirados pelo Espírito Santo, aos habitantes de Jerusalém. O povo estava agitado pelo estranho acontecimento sucedido em seu meio; pois homens de várias nações se haviam reunido na Cidade Santa, e os Apóstolos se levantaram no poder e na demonstração do Espírito Santo e declararam ao povo ali reunido a surpreendente notícia de que Jesus, a quem tão recentemente haviam crucificado como impostor, era de fato o Senhor da vida e da glória, e era o verdadeiro Filho de Deus, o Messias de quem os profetas haviam falado, e cuja vinda tão longa e ansiosamente haviam esperado. Isto era notícia inesperada para eles; mas os argumentos dos Apóstolos sobre este assunto foram tão convincentes, e o poder de Deus tão manifesto — cada homem ouvindo o Evangelho em sua própria língua —, que se sentiram compungidos no coração e se convenceram de que Jesus era o Filho de Deus e o Salvador do mundo, e clamaram: "Homens e irmãos, que faremos?" É muito razoável supor que, quando os Apóstolos responderam a esta pergunta, feita em circunstâncias tão extraordinárias, declarariam as doutrinas e exigências que seriam vinculantes a todos os habitantes da terra em circunstâncias semelhantes. Imaginar outra coisa seria supor algo contrário à razão e ao senso comum. Pensar que diriam algo desnecessário e não essencial à salvação em ocasião tão importante, quando tantos estavam compungidos em seus corações, é supor algo inconsistente com o caráter dos Apóstolos e a natureza de sua missão aos filhos dos homens. Pedro lhes disse: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo. Porque a promessa vos pertence, a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar." Assim, expôs-lhes com simplicidade e na mais completa clareza as exigências com que deviam cumprir para receber aquilo que desejavam. ¶
Não lhe era necessário dizer-lhes: Crede no Senhor Jesus Cristo, pois já criam, tendo sido convencidos pelo testemunho dos Apóstolos. Pedro, portanto, disse-lhes: "Arrependei-vos" — sendo esse o próximo princípio que deviam obedecer — "arrependei-vos, e sede batizados em nome de Jesus Cristo, para perdão dos vossos pecados, e recebereis o Espírito Santo." Não lhes disse: "Aqui está um 'banco dos ansiosos'," nem: "Vinde e lançai-vos aos pés da cruz, e buscai com oração diante do Senhor até que Ele remita vossos pecados." Não lhes disse para fazerem coisa alguma semelhante, mas disse-lhes que se arrependessem de seus pecados, isto é, que os abandonassem, e que fossem batizados para a remissão deles, prometendo-lhes que receberiam o Espírito Santo, "pois," disse ele, "a promessa vos pertence, a vós, e a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar." ¶
Quantos o Senhor chamou? Ora, chamou a todos. Ordenou aos Apóstolos que fossem e pregassem o Evangelho a toda criatura; portanto, todo ser humano sobre a face da terra foi chamado pelo Senhor; e a promessa era para a multidão ali reunida e para todos os que estavam longe; logo, é bem claro que todos os habitantes da terra tinham direito a esta promessa ao cumprirem as condições prescritas — a saber, fé em Jesus Cristo, arrependimento de seus pecados, batismo para a sua remissão, e a imposição de mãos para o recebimento do Espírito Santo. ¶
Este foi o Evangelho que Pedro pregou ao povo no Dia de Pentecostes, e vários milhares deles saíram e foram batizados naquela ocasião. Verificamos, ao examinar os "Atos dos Apóstolos," que esta era a natureza de seus ensinamentos em toda ocasião em que pregavam ao povo, e verificamos também que, quando o povo cumpria estas exigências, o Espírito Santo repousava sobre ele. ¶
Muitos têm tido a ideia de que o Espírito Santo era concedido apenas àqueles chamados a exercer funções de oficiais nas igrejas; mas uma investigação dos trabalhos dos Apóstolos provará que não era este o caso, e estabelecerá o fato de que todo indivíduo, homem ou mulher, que era batizado pelos servos de Deus para a remissão dos pecados, recebia a imposição de mãos, e também o Espírito Santo. Recordai-vos, sem dúvida, do registro contido no 8º capítulo de Atos, que contém um relato de Filipe pregando o Evangelho em Samaria e batizando alguns crentes. Filipe, ao que parece, tinha apenas a autoridade que João Batista tinha, possuindo o mesmo Sacerdócio que ele. Está escrito de João que disse: "E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo." João jamais presumiu impor as mãos para o recebimento do Espírito Santo: não tinha a autoridade. Era sacerdote segundo a ordem de Arão; possuía o Sacerdócio Aarônico, ao qual não pertence a autoridade de impor as mãos para o recebimento do Espírito Santo. Para isso é necessário um sacerdote segundo a Ordem de Melquisedeque, a qual Jesus e seus Apóstolos possuíam. Filipe, após deixar Samaria, batizou o Eunuco, mas não lemos que lhe impôs as mãos, evidentemente provando que possuía apenas o Sacerdócio de Arão. Quando os Apóstolos que estavam em Jerusalém ouviram que Samaria recebera a palavra de Deus por meio de Filipe, enviaram-lhes Pedro e João, dois dos Apóstolos, que, ao chegarem a eles, oraram para que recebessem o Espírito Santo, e lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo. Este não repousara sobre eles antes de se realizar esta ordenança; pois o Testamento diz que o Espírito Santo ainda não tinha caído sobre nenhum deles, embora já houvessem sido batizados. Isto mostra que não basta aos homens crer em Jesus Cristo, arrepender-se de seus pecados e ser batizados para a remissão deles, mas que também devem receber a imposição das mãos daqueles que têm autoridade, ou não poderiam reclamar nem desfrutar o Espírito Santo; mas quando lhes eram impostas as mãos, maravilhoso de se relatar nesta era de incredulidade, o Espírito Santo repousava sobre eles e eram cheios dele, e eram ligados e unidos entre si, e conheciam as coisas de Deus e desfrutavam dos dons do Evangelho de Jesus Cristo. ¶
Em certa ocasião, Paulo encontrou-se com vários discípulos em Éfeso e lhes perguntou se haviam recebido o Espírito Santo desde que creram. Disseram-lhe que nem sequer tinham ouvido se havia algum Espírito Santo. Ele então perguntou em que, então, tinham sido batizados. Responderam que haviam sido batizados no batismo de João. Paulo os batizou de novo, e lhes impôs as mãos, e, diz-se, receberam o Espírito Santo e falaram em línguas e profetizaram. Paulo tinha autoridade; possuía o Sacerdócio de Melquisedeque, no qual estava incluída a autoridade de impor as mãos para o recebimento do Espírito Santo. ¶
Foi desta maneira que os Apóstolos pregaram o Evangelho; não há registro de que o tenham feito de outra forma. Não lemos que ensinaram ao povo o plano de salvação de nenhuma outra maneira. ¶
Muitos, para provar que o batismo e a imposição de mãos não são necessários, têm citado o caso de Cornélio, que, embora não fosse batizado, recebeu o Espírito Santo. O caso de Cornélio é o único caso desse tipo em registro, e havia fortes razões para que fosse assim com ele. O Evangelho e suas ordenanças eram administrados apenas aos judeus; Cornélio era gentio, e entre as duas raças existiam fortes preconceitos, considerando os judeus os gentios muito inferiores a eles. Cornélio e sua casa foram os primeiros gentios a quem o Evangelho foi pregado; eles o receberam, e o Senhor, para mostrar aos Apóstolos que os gentios tinham direito às ordenanças da salvação tanto quanto os judeus, se estivessem dispostos a cumprir as exigências do Evangelho, conferiu o Espírito Santo a Cornélio e sua família. Ao ver esta família, Pedro disse: "Reconheço, em verdade, que Deus não faz acepção de pessoas; mas que é aceito por ele aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo." E quando depois os ouviu falar em línguas e engrandecer a Deus, disse: "Pode alguém porventura recusar a água, para que não sejam batizados estes, que também receberam como nós o Espírito Santo? E mandou que fossem batizados em nome do Senhor." Pedro não disse: Cornélio, recebeste o Espírito Santo tanto quanto nós, e não há necessidade de obedeceres a mais ordenança alguma — o que, nas circunstâncias, se ele considerasse o batismo ou a imposição de mãos não essenciais, teria sido bem provável de fazer; mas, ao invés disso, ordenou que fossem batizados. Pedro tomou isto, como o Senhor o pretendia, como evidência de que os gentios, tanto quanto a Casa de Israel, tinham direito ao Evangelho. E os fez batizar, e sem dúvida lhes impôs as mãos para confirmar sobre eles o dom que haviam recebido. Se Cornélio, naquela hora, se tivesse mantido em sua dignidade e dito: "Não há necessidade de eu ser batizado para a remissão dos meus pecados, tendo Deus me dado o Espírito Santo sem obedecer a essa ordenança, e, já tendo recebido o Espírito Santo, não tenho necessidade de que me imponham as mãos," não há dúvida em minha mente de que aquele precioso e inestimável dom lhe teria sido retirado, e ele não teria continuado a desfrutá-lo. Só poderia ser-lhe continuado com a condição de obedecer às ordenanças que Deus colocara em sua Igreja e que exigia que todos os habitantes da terra se submetessem sem hesitação; e, sem dúvida, Cornélio sabiamente foi em frente e obedeceu a essas ordenanças. ¶
Foi desta maneira que os Apóstolos pregaram o Evangelho aos habitantes da terra naqueles dias. Não diziam ao povo: "Deveis buscar o Espírito Santo, e provavelmente o Senhor vo-lo dará se apenas exercerdes fé suficiente"; mas diziam ao povo, com clareza e positividade, sem a menor hesitação, que, se cumprissem certas exigências, receberiam o Espírito Santo. A única condição era sua sinceridade e fidelidade em obedecer às exigências. ¶
Quais foram os frutos desta pregação? Onde quer que os Apóstolos fossem e o povo recebesse seu testemunho, o Espírito de Deus repousava sobre eles e seus corações se uniam, e desfrutavam dos dons de profecia, cura, línguas, interpretação de línguas, discernimento de espíritos, sabedoria, conhecimento e todos os variados dons do Evangelho necessários para seu crescimento e desenvolvimento nas coisas de Deus. Isto não sucedia apenas em Jerusalém, mas na distante Éfeso e nas várias cidades da Ásia Menor onde Paulo pregou; e por todo o comprimento e largura da terra, onde quer que os Apóstolos viajassem, esses dons e manifestações peculiares eram desfrutados. ¶
Paulo, que se separara do resto dos Apóstolos por vários anos, descobriu, ao chegar a Jerusalém e reunir-se com eles, que possuía precisamente o mesmo conhecimento acerca do Evangelho de Cristo que eles tinham; o Espírito Santo lhe ensinara isso da mesma forma que a Pedro, Tiago, João, André e ao resto dos Apóstolos. E se lhes tivesse sido permitido continuar seus trabalhos, os habitantes da terra, se tivessem recebido o Evangelho, teriam sido unidos como um só nas coisas de Deus. ¶
Alguém se admira de que haja agora divisão na cristandade? Alguém se admira de que, em vez de haver "um só Senhor, uma só fé e um só batismo," como registrado nas palavras que li em vossos ouvidos, haja, pode-se dizer, muitos senhores, muitas fés e muitos batismos? Alguém se admira disto? Eu não posso, quando vejo como os homens se desviaram do caminho que Jesus traçou; quando ouço os homens dizerem que o batismo não é essencial. Que grande diferença entre tais pessoas e o Senhor Jesus Cristo! Lembrai-vos de que, quando João veio batizando no deserto, Jesus se apresentou a ele para o batismo, e, em resposta à objeção de João, que parecia pensar que tinha mais necessidade de ser batizado pelo Salvador do que o Salvador de ser batizado por ele, Jesus disse: "Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça." O admirável é que ainda reste um resquício de fé em Jesus no mundo, quando vemos como os homens se afastaram tão amplamente dos caminhos em que os Apóstolos andaram, e das doutrinas que ensinaram. ¶
Devemos sempre ter em mente o que Paulo disse — "Mas, ainda que nós mesmos, ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho, além do que já vos anunciamos, seja anátema." Devemos ter isto em mente quando investigamos a natureza dos ensinamentos dos Apóstolos e as ordenanças e doutrinas que administraram e ensinaram. Se aqueles que professam ser pregadores do Evangelho se desviam em algo das doutrinas e princípios ensinados pelos Apóstolos, colocam-se em posição de receber a condenação que Paulo invocou. ¶
Esforcei-me, nestas observações, por trazer vossas mentes à fé que outrora os Santos desfrutavam, e aos ensinamentos que os Apóstolos, em seus dias, apresentavam ao povo, e a que os exortavam, com toda seriedade, a obedecer. Fi-lo para que estivésseis preparados para aquilo que ensinamos, pois ensinamos precisamente os mesmos princípios que eles ensinaram. Os homens se admiram e dizem: "Como podeis vós, Santos dos Últimos Dias, viver juntos como viveis? Como sois tão unidos?" O segredo está no fato de termos os mesmos princípios a ensinar ao povo que foram ensinados pelos antigos Apóstolos, e os mesmos resultados se seguem em nosso caso como no deles. ¶
Frequentemente se tem observado aos Élderes, quando no estrangeiro: "Que necessidade havia de um anjo vir do céu à terra para trazer, como dizeis que ele trouxe, o Evangelho eterno, quando temos a Bíblia e organizações cristãs e igrejas cristãs por toda a terra?" Esta é uma pergunta muito importante, e à qual procurarei dar uma resposta satisfatória. Não haveria necessidade de tal coisa se as igrejas, no tempo em que Joseph Smith buscava conhecimento, ensinassem os mesmos princípios que os Apóstolos declararam, e se os crentes em nossos dias desfrutassem dos mesmos dons e bênçãos que eles desfrutavam nos seus. Mas, se havia tal igreja naquele tempo, a história não registrou esse fato. Não havia homem sobre a face da terra, de quem tenhamos ouvido falar, que declarasse ao povo que, se cressem em Jesus e se arrependessem de seus pecados e fossem batizados para a remissão deles, receberiam o Espírito Santo. Pelo contrário, a concessão do Espírito Santo, como nos tempos antigos, com seus dons e poderes, era negada por todo o mundo cristão. Declaravam que esses dons não eram para esta geração, mas foram concedidos à igreja primitiva com o único e exclusivo propósito de estabelecer o Evangelho de Jesus Cristo, e que, uma vez cumprido isso, já não havia mais necessidade deles. Essa era a crença na cristandade então, e essa é a crença ali agora; podeis ouvi-la expressa por toda parte ao conversar sobre estes assuntos. Declararão que não há necessidade destes dons nesta era, como se o Espírito Santo pudesse ser desfrutado pelo homem sem que esses dons se manifestassem! Tal coisa é impossível! Não haveria necessidade da restauração do Evangelho à terra por um anjo se as chaves e o sacerdócio pelos quais os antigos Apóstolos oficiavam não tivessem sido tirados da terra. É verdade que a Igreja Católica reivindica sucessão direta dos Apóstolos; outras igrejas reivindicam o mesmo; e todas, reivindicando qualquer autoridade que seja, procuram remontá-la a eles. Todas fundamentam suas reivindicações de autoridade no fato de os Apóstolos a terem recebido. A Igreja Católica, especialmente, reivindica descendência ininterrupta de Pedro e do último dos Apóstolos. Mas, ao fazê-lo, ignoram o fato de que, enquanto havia sobre a terra um homem que reivindicava autoridade direta de Deus, os habitantes guerreavam contra ele, até que conseguiam matá-lo, como fizeram a todos os outros. Este fato, embora tão familiar quanto qualquer outro ao estudante de história, é perdido de vista pela Igreja Católica. Enquanto os Apóstolos viveram, e enquanto viveu qualquer homem que houvesse sido associado a eles em seus trabalhos, uma perseguição incessante era movida contra eles. E está registrado que todos eles, exceto João, morreram de morte violenta. Tentaram matar João; mergulharam-no num caldeirão de óleo fervente e o enviaram à Ilha de Patmos para trabalhar nas minas de chumbo, e o perseguiram de várias maneiras; mas, devido à promessa de Deus, não puderam matá-lo. Pedro foi crucificado em Roma de cabeça para baixo, por não se considerar digno de ser crucificado como o fora seu Senhor. Paulo foi decapitado em Roma; os demais Apóstolos foram mortos de várias maneiras, cada um deles sofrendo uma morte ignominiosa por causa de sua crença em Jesus; porque criam que Deus era um Deus de revelação, e porque reivindicavam autoridade de Jesus para administrar as ordenanças de sua igreja. Este foi o rumo seguido pelos habitantes da terra até que os Apóstolos e todo homem que possuía autoridade tivessem sido mortos, e os dons e as bênçãos tivessem desaparecido inteiramente da terra. Depois disso, os homens tomaram para si doutrinas para se acomodarem, e os ritos e muitas das doutrinas do paganismo, e porções de instituições existentes, foram incorporados à Igreja Cristã, até que quase todo vestígio das doutrinas puras havia desaparecido, e nada restava senão meras formas. ¶
Haverá alguma admiração em que os Santos dos Últimos Dias afirmem que era necessário que um anjo voasse pelo meio do céu, tendo o Evangelho eterno para pregar às nações da terra? Se a autoridade para administrar nas ordenanças do Evangelho existisse entre os homens, não haveria tal necessidade; mas essa autoridade havia sido levada de volta a Deus, que a deu, e tinha de ser por Ele restaurada, ou não poderia ser exercida novamente sobre a terra. ¶
Onde se haviam de encontrar Apóstolos? Ora, eram impopulares; todo homem que tinha possuído o Apostolado havia sido morto, e, no entanto, nas palavras que li em vossos ouvidos, está dito — ¶
"E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres." ¶
E ainda assim os homens nos dizem hoje que os Apóstolos não são necessários! Será de admirar que os resultados que vemos tenham seguido tal incredulidade quanto aos Apóstolos? Era muito perigoso ser chamado Apóstolo! Soava melhor ser chamado Bispo, ou algum outro título; agradava mais ao ouvido popular e não excitava a perseguição que o nome de Apóstolo excitava. No entanto, nas palavras de Paulo se nos diz que Apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres foram colocados na Igreja para o aperfeiçoamento dos Santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo. Se há algum homem sobre a terra que possa provar pelas Escrituras que Apóstolos não são necessários na Igreja de Cristo, então pode provar que as palavras de Paulo e dos demais Apóstolos não são dignas de confiança, pois Paulo nos diz que foram colocados na Igreja para a obra do ministério, para o aperfeiçoamento dos Santos, e deveriam ali permanecer. ¶
"Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo: para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo vento de doutrina, pelo engodo dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente." ¶
Haverá lugar para admiração de que os homens sejam levados em roda por todo vento de doutrina, e sejam enganados pela astúcia dos homens, quando já não creem em Apóstolos e profetas, e tomaram em seu lugar ministros autoconstituídos, homens que nunca receberam autoridade para administrar nas coisas de Deus? Pode alguém surpreender-se de que a cristandade esteja tão dividida como está hoje, e que os homens estejam tão confusos em relação às doutrinas de Cristo? Ou de que a incredulidade erga a cabeça tão desafiadoramente no meio da cristandade? Não, não há do que se admirar, quando os homens se afastaram tão amplamente e desobedeceram tão flagrantemente os claros ensinamentos das Escrituras, como os encontramos registrados no Novo Testamento. A condição da cristandade, por si só, é suficiente para provar a toda mente racional que, se há um Deus no céu, como sabemos que há; se há tal princípio como a revelação divina, que declaramos ser verdadeira; se há tais seres em torno do trono de Deus como os anjos, dos quais testificamos, nunca houve maior necessidade de que anjos fossem enviados à terra, ou de que revelação fosse dada ao homem, do que no dia em que vivemos. Alguns podem dizer que temos a Bíblia e seus ensinamentos divinos para consultar à vontade; mas com frequência se tem observado, por parte daqueles que dela zombam, que é como um violino, em que se pode tocar toda espécie de melodia. É preciso algo mais do que a Bíblia para guiar o homem à vida eterna. É preciso inspiração divina, é preciso o Espírito Santo, é preciso que o Sacerdócio, tal como existia nos tempos antigos, seja restaurado; e agradeço a Deus de todo o meu coração, nesta manhã, por saber que ele foi restaurado. Agradeço a Deus do fundo do meu coração por ter este conhecimento. ¶
Diante de mim, neste Território, vejo os frutos desta restauração — precisamente os mesmos frutos que se seguiram ao Sacerdócio nos tempos antigos. Vejo, aqui, um povo reunido de várias nações, de vários credos, falando várias línguas, e tendo sido criado e educado de maneira muito diversa, procedentes de monarquias limitadas, de monarquias despóticas e de repúblicas; e, no entanto, habitam juntos em unidade, adoram a Deus da mesma maneira, vivem vidas de boa ordem, verdade e santidade, e se amam uns aos outros, o que é evidência, como diz o Apóstolo, de que passaram da morte para a vida. Esta unidade é uma das maiores evidências que se pode dar de que somos discípulos de Cristo, pois ele disse: ¶
"Sede um; e se não sois um, não sois meus." ¶
E é também uma das mais fortes evidências que se pode dar de que Jesus é o Cristo, pois, em certa ocasião, ao orar ao Pai para que seus discípulos fossem um, ele disse — ¶
"E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim. Para que todos sejam um como tu, ó Pai, és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste." ¶
Como povo, a unidade dos Santos dos Últimos Dias é proverbial, e fornece um poderoso testemunho de que temos andado com Cristo, e recebido as bênçãos que se seguem à concessão do Espírito Santo. ¶
Estas são algumas das doutrinas em que creem os Santos dos Últimos Dias; o tempo faltaria para contar todas. Cremos que Deus é o mesmo ontem, hoje e para sempre; que é um Deus de revelação, e que a razão de não se ter revelado por séculos é que o povo perseguiu tão cruelmente seus ungidos quando os enviou ao seu meio. O sangue deles clamou por vingança contra os habitantes da terra, e Ele fechou os céus, por assim dizer, por séculos, tendo nossos antepassados ficado apenas com a luz que pudessem obter sem o Sacerdócio. Mas não terá Ele concedido seu Espírito Santo aos homens? Sim, milhões de pessoas receberam o Espírito Santo em certa medida, embora não em sua plenitude. Lutero o teve, quando foi inspirado a guerrear contra as iniquidades existentes na Igreja Romana. Foi levantado especialmente para preparar o caminho para a manifestação da obra de Deus nos últimos dias. Calvino e Melâncton tiveram uma porção do Espírito Santo, assim como todos os Reformadores que os seguiram; e, embora não tivessem a autoridade para edificar a Igreja de Deus em sua pureza antiga, tinham ainda uma obra a realizar, e vieram, em seus dias e gerações, e trabalharam zelosa, incansável e destemidamente, sem se importarem com a morte, inspirados por Deus para realizar a obra que desempenharam nas várias terras em que trabalharam — Alemanha, França, Inglaterra, Escócia, e várias partes da Europa, e também em nossa própria terra — a América. João Wesley, também, foi levantado e inspirado por Deus para realizar uma obra, e a realizou. ¶
Não apenas esses reformadores religiosos foram inspirados a realizar uma obra em preparação para o advento do reino de Deus sobre a terra; mas outros foram levantados para o mesmo propósito. Colombo foi inspirado a penetrar o oceano e descobrir este continente ocidental, pois o tempo determinado para sua descoberta havia chegado; e as consequências que Deus desejava que se seguissem à sua descoberta se realizaram — um governo livre foi estabelecido nele. Os homens que estabeleceram esse Governo foram inspirados por Deus — George Washington, Thomas Jefferson, John Adams, Benjamin Franklin, e todos os pais da República foram inspirados a realizar a obra que realizaram. Cremos que foi uma obra preparatória para o estabelecimento do reino de Deus. Esta Igreja e reino não poderiam ter sido estabelecidos sobre a terra se aquela obra não tivesse sido realizada, ou uma obra de caráter semelhante. O reino de Deus não poderia ter sido estabelecido na Ásia, em meio aos despotismos ali existentes; nem na África, em meio às trevas ali existentes; não poderia ter sido edificado na Europa, em meio às monarquias que ocupam cada palmo de sua superfície. Tinha de ser edificado nesta terra; portanto, esta terra tinha de ser descoberta. Não foi descoberta cedo demais; se o tivesse sido, teria sido invadida pelas nações da terra, e não se teria encontrado lugar, nem mesmo aqui, para o reino de Deus. Foi descoberta no tempo certo e pelo homem certo, inspirado por Deus a não vacilar nem retroceder; mas, impávido diante das dificuldades que o cercavam, e lutando com uma tripulação amotinada, perseverou, e continuou sua jornada rumo ao oeste até descobrir esta terra, cuja existência Deus o inspirara a demonstrar. ¶
Era necessário que George Washington fosse levantado, que as batalhas da República fossem travadas, que as Colônias fossem emancipadas dos grilhões da mãe-pátria, e declaradas Estados livres e independentes. Por quê? Porque Deus tinha em vista a restauração do Evangelho eterno de volta à terra, e, além disso, havia chegado o tempo determinado para Ele edificar seu reino e realizar o cumprimento de seus propósitos há muito diferidos. ¶
Jesus disse a Jerusalém: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e vós não quisestes!" Mas os profetas nos dizem que, nos últimos dias, o povo de Deus será reunido das diferentes partes da terra e unido em um só povo. Era necessário, portanto, que uma terra fosse preparada e que uma forma de governo fosse estabelecida dentro de suas fronteiras sem conflitar com isso. Por isso, a liberdade religiosa e a tolerância foram proclamadas por todo o comprimento e largura desta terra. Homens lutaram, sangraram e morreram em defesa desses princípios, e eles foram incorporados à Constituição, e nós, hoje, colhemos os benditos resultados de seus trabalhos. Não terão eles glória à vista de Deus por esses trabalhos? Sim, glória, honra, bênçãos e imortalidade repousarão sobre os homens que foram instrumentos nas mãos de Deus para levar a cabo seus grandes e maravilhosos propósitos. Temos a maior caridade por eles; sabemos que Deus os salvará e abençoará. Sabemos, além disso, que seus pecados eram pecados de ignorância. Onde não há lei, diz-se, não há transgressão. Não lhes fora declarada a plenitude do Evangelho; mas a geração em que vivemos ouve a lei e o testemunho, e será responsabilizada por este conhecimento. Deus vos responsabilizará estritamente, meus irmãos, irmãs e amigos, por aquilo que ouvis. Viveis num tempo e numa época em que os propósitos de Deus estão se cumprindo diante de vossos olhos, e em que vedes o poderoso avanço de sua grande obra. Os homens, de modo geral, contudo, não a querem olhar, e, no entanto, estão prontos a declarar que, se soubessem que a obra de Deus estava progredindo, estariam dispostos a ajudá-la a avançar. São iguais aos judeus com o Senhor Jesus Cristo. Quando ele estava com eles, foi desprezado e morto; agora os homens pensam que o honram, mas, se ele vivesse na terra hoje, pensais que seria honrado? Seria tratado hoje como foi então. Deus enviou seu único Filho, o Príncipe da vida e da glória; ele veio à terra em humilde aspecto, na veste da pobreza, falando incorretamente, e no entanto era o Príncipe do céu, o Senhor de todas as coisas. Nasceu num estábulo e foi posto num berço numa manjedoura. Mas os nobres filhos de Deus nem sempre nascem em tronos; alguns dos mais nobres homens que já viveram na terra não se encontraram nas cortes dos reis. Onde os buscaremos? Frequentemente entre os humildes e simples. Agradeço a Deus que assim seja. Encontrei, entre os humildes e simples, homens com mentes que eram como ricas joias; homens que amavam a verdade, e que estiveram dispostos a morrer por princípio. Também encontrei muitos, entre os ricos e nobres, que se ¶
"curvam as dóceis dobradiças do joelho, para que o proveito acompanhe a bajulação." ¶
E que estiveram dispostos a fazer qualquer coisa para conquistar favor, que adoraram a popularidade, e estiveram prontos a curvar-se diante de seu altar em humilde e abjeta reverência. Enquanto isso, entre os pobres, os mansos e os humildes, conheci homens, e todos nós sem dúvida os conhecemos, que morreriam antes de se afastarem do princípio. Entre tais homens Deus colocou seus nobres nesta geração, para serem pioneiros nesta obra e lançar seus alicerces. Puderam sacrificar-se, e suportar a pobreza pela verdade, e assim o fizeram, e arriscaram tudo, enfrentando o mundo destemidamente, estabelecendo princípio após princípio, e declarando a verdade, em toda a sua simplicidade e pureza, às nações da terra. Até aqui Deus tem justificado seu proceder e os tem sustentado, e os tem conduzido triunfantemente, e continuará a fazê-lo até que a vitória seja alcançada e a desejada consumação de seus propósitos seja atingida. ¶
Esta obra permanecerá e se espalhará por toda parte, porque é a obra de Deus. Com o tempo, reunirá em seu seio homens que, no presente momento, a consideram indigna de sua atenção. Realizará o destino que lhe foi designado. Reunirá todo homem e mulher honestos sobre a face da terra; todos os que reconhecerem a verdade a receberão e nela se regozijarão. Agradeço a Deus por ela estar restaurada à terra. É mais preciosa do que a boa vontade dos homens conhecer a Deus. Ter o espírito da verdade, e a união e a comunhão que existem entre os Santos dos Últimos Dias, vale mais do que as riquezas da Califórnia, mais do que todas as minas da terra, ou todas as joias na coroa de cada monarca da terra, ou todos os seus tesouros, porque estes se desvanecerão, mas aqueles perdurarão para sempre. E o homem que obedece ao Evangelho de Jesus não precisa sentir-se preso ou escravizado, ou privado do exercício de qualquer de suas faculdades, como muitos supõem. Está emancipado da servidão; pode regozijar-se na luz da verdade, e avançar e abraçar todo princípio de verdade. Não apenas a verdade religiosa; é uma ideia equivocada que as pessoas religiosas devam limitar-se apenas àquilo que se chama verdades religiosas. O Evangelho de Jesus Cristo abrange, dentro de seu alcance, toda verdade conhecida pelo homem; toda verdade pertencente à astronomia, à geologia e a qualquer outra ciência pertence a esse Evangelho e nele está incorporada. ¶
Falei até aqui e não disse uma única palavra sobre aquela doutrina tão debatida — a pluralidade de esposas. Espero que haja aqui cavalheiros e senhoras que preferiam ouvir sobre isso do que sobre tudo o mais que poderia ser dito; que preferiam ouvir um Élder contar quantas esposas e filhos tem do que tudo o que se pudesse dizer sobre Jesus, seus Apóstolos, o Espírito Santo ou seus dons. Há, por parte de muitos, uma curiosidade prurida em relação a este assunto, e, se não ultrapassasse os limites da cortesia, a primeira pergunta que fariam ao serem apresentados a um Élder seria: "Quantas esposas e filhos tendes?" É mais ou menos essa a extensão de seus desejos. Eis aqui um grande fenômeno diante de seus olhos, neste Território, de intenso interesse e de imensa importância, e ainda assim suas almas não conseguem elevar-se o bastante para compreender sua primeira característica, e não mais alto do que perguntar sobre o número de esposas de um homem! Quando ouço tais indagações, tenho pena da pessoa que as faz. Penso que, se uma pessoa não consegue elevar sua mente além disso, encontra-se em condição muito lamentável. ¶
Estou convencido de que há uma imensa quantidade de mal-entendidos entre o povo do mundo com respeito aos Santos dos Últimos Dias e sua crença nesta doutrina peculiar. Geralmente se crê que a abraçamos por propósitos sensuais, e que somos um povo sensual. Vemos essas ideias frequentemente avançadas nos jornais, e por eles se afirma que reunimos o povo das nações por causa desta doutrina. Que ideia tola! Ora, qualquer homem com um grão de bom senso saberia melhor se refletisse um pouco sobre o assunto! Quão mais fácil seria, se fôssemos licenciosos, praticar a licenciosidade segundo o método popular! Por que passar pelo transtorno e pela despesa, e incorrer no opróbrio de sustentar esposas e filhos, apenas para satisfazer a licenciosidade, quando poderíamos fazê-lo em toda a extensão, no plano popular, sem incorrer em opróbrio ou assumir responsabilidade e cuidado? Lede os registros de Nova York, Washington, Chicago, e os registros de todas as cidades a leste e a oeste em nosso continente, e depois ide ao velho mundo, e podereis descobrir que os homens conseguem satisfazer seu desejo lascivo sem incorrer em opróbrio. Podem até destruir mulheres aos milhares na satisfação de seus apetites sensuais, mas porque os Santos dos Últimos Dias escolhem casar-se com elas, para tornar as mulheres e seus filhos respeitados e honrados, todo o inferno se move contra eles. O diabo não gosta disso. Vou dizer-vos uma regra, irmãos, irmãs e amigos, que observei em meu convívio com os homens, em minhas viagens, e é que aqueles que mais amargamente se opuseram a este princípio, quando o compreenderam, foram os homens mais corruptos, os mesmos homens que praticaram adultério e fornicação em segredo; enquanto abertamente, ao ouvi-los falar de nosso sistema de casamento patriarcal, poder-se-ia pensá-los imaculados; mas nunca encontrei homens ou mulheres de mente pura, honestos e fiéis a seu Deus, e a seus companheiros, se os tinham, que, ao ouvi-lo explicado tal como os Santos neste Território o entendem, pregam e o praticam — deixando-os crer o que quisessem sobre outros pontos —, não reconhecessem que havia algo de divino naquela doutrina, se a levássemos a cabo tal como a cremos. Essa tem sido a minha experiência. ¶
Estamos resolvendo o problema que hoje se apresenta ao mundo, e sobre o qual pretendem quebrar a cabeça. Refiro-me ao "Problema Social." Fechamos a porta de um lado, e dizemos que fornicações, seduções e adultérios não devem ser cometidos entre nós, e dizemos aos que estão determinados a levar avante tais coisas que os mataremos; ao mesmo tempo, abrimos a porta na outra direção e fazemos do casamento plural algo honrado. Qual é o resultado? Ora, uma comunidade sadia, pura e virtuosa, uma comunidade que, nestes aspectos, não tem igual na terra. ¶
Digo estas poucas palavras a título de explicação; são muito inadequadas para transmitir as ideias que temos, e que gostaria de transmitir a meus ouvintes, em relação ao casamento celestial. Que Deus vos abençoe e sustente na prática da verdade é minha oração, em nome de Jesus. Amém. ¶